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O BRASIL PARA O BRASIL

DEMAIS/DE MAIS

DE MAIS

De mais significa “a mais”. É uma locução adverbial que exprime “quantidade”. Opõe-se a “de menos”.

Com o sentido de “nada de relevante”, “nada de diferente”, o certo é “nada de mais” (separado).

Do mesmo modo, para “algo relevante” ou “algo de relevante”, usa-se “algo de mais”.

Ex.

O feijão tem sal de mais para o meu paladar.

 

DEMAIS

Demais”, em uma só palavra, significa “muito”, “exageradamente”, “em demasia”.

Demais pode ser um advérbio de intensidade com o sentido de “excessivamente”, “demasiadamente”.

Ex. Pedro come demais.

Pode também significar:

  1. além disso, de resto

Ex. Chega de papo; demais, dói-me nos nervos.

  1. os outros, os restantes

Ex. A Maria e os demais alunos não tiveram aulas.

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Senão ou se não… Qual devo usar?

Veja:

Se não der para você vir, não tem problema = Caso não dê para você vir, não tem problema.

As duas orações acima têm o mesmo sentido.

Agora, observe:

O que é isso, senão uma briga?
O que é isso, caso não uma briga?
A substituição feita acima de “senão” por “caso não” foi insatisfatória, pois não ficou coerente, não tem sentido!

Logo, percebemos que “se não” e “senão” NÃO possuem o mesmo significado, uma vez que não podem ser substituídos pela mesma expressão.

Use “se não” (união da conjunção se + advérbio não) quando puder trocar por “caso não”, “quando não” ou quando a conjunção “se” for integrante e estiver introduzindo uma oração objetiva direta: Perguntei a ela se não queria dormir em minha casa.

Use “senão” quando puder substituir por “do contrário”, “de outro modo”, “caso contrário”, “porém”, “a não ser”, “mas sim”, “mas também”.

Veja alguns exemplos:

  1. a)Você tem de comer toda a comida do prato, senão é desperdício. (de outro modo)
  2. b)Se o clima estiver bom você vai, senão não vai. (do contrário)
    c)Não lhe resta outra coisa senão pedir perdão. (a não ser)
    d) Se não fosse o trânsito, não teria me atrasado. (caso não)
    e) Não fui eu se não der certo. (caso não)

 

Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

 

Traz ou trás: qual a diferença entre os dois termos?

 

Traz(com z) é uma das formas conjugadas do verbo trazer. Já a palavra trás (com “s” e acento) é um advérbio de lugar que se refere à parte posterior.

Por serem pronunciados da mesma forma, os termos trás e traz podem gerar muitas dúvidas na hora de escrever uma redação. A grande questão é: qual deles está certo? É trás ou traz? Existe alguma diferença entre os dois?

Na verdade, os dois termos estão certos e existem na língua portuguesa – cada um dentro do seu contexto específico. A diferença é que “trás” é um advérbio de lugar e “traz” é a conjugação do verbo trazer em 3ª pessoas do singular.

– Como assim?

Vamos falar de um jeito mais simples.
Trás (advérbio) 

Quando escrito com “s” e com acento se refere à parte posterior. Ele possui o significado de após e atrás. Vale lembrar que ele sempre será acompanhado por uma preposição.

Por exemplo: Agora é lei usar cinto no banco de trás.

Traz (verbo)

Quando escrito com “z” e sem acento se refere ao verbo trazer. Tem o sentido de transportar, ocasionar e conduzir.

Presente do Indicativo
Eu trago
Tu trazes
Ele traz
Nós trazemos
Vós trazeis

Por exemplo: Dinheiro não traz felicidade.

 

A MALDIÇÃO DE HAMLET

1ª edição

Copyright© 2016, by José Ivan Barbosa de Melo Ferraz

vanrazferraz@gmail.com

978-85-918622-1-4

O conteúdo desta obra é de responsabilidade do(s) Autor(es),

Proprietário(s) do(s) Direito Autoral.

Vanraz é formado em matemática, pós-graduado em direito público, técnico judiciário, artista plástico, compositor e romancista

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

_________________________

Vanraz

                        A maldição de Hamlet / Vanraz.

Recife: Vanraz, 2016.

ISBN: 978-85-918622-1-4

  1. Contadores de histórias 2. Contos 3. Sátira I. Título.

12-11703                                      CDD-869.9803

___________________________

Índices para catálogo sistemático:

  1. Contadores de histórias: sátira:

Literatura brasileira 869.9803

O segredo da felicidade está na arte de não cultivar “demônios”.

(Vanraz)

 

 Quem leu “Um Criador de Histórias” e não se sentiu horrorizado com a leitura posterior de “Um Olhar Sobre Nossas Cortinas”, mostra que possui ingredientes indispensáveis para trilhar uma vida o mais próximo possível da felicidade.

Humor, honestidade, horror ao puritanismo disfarçado e vergonha ao se deparar com outros de sua espécie que discriminam pessoas por motivos de cor, preferência sexual, crença ou descrença são os ingredientes a que me referi.

De posse de tais elementos, convido-os a ler “A Maldição de Hamlet”.

Tente imaginar, caro leitor, a quantidade de loucos que já surgiram entre nós acreditando que eram algum personagem da história mundial. Sei que foram muitos Napoleões, Joanas D’arc, Cristos, Budas e outros tantos, mas nem eu nem você sabemos determinar quantos. Se me perguntarem quantas pessoas tinham certeza de que não eram a reencarnação de ninguém, mas gostariam de viver a vida de outra pessoa, imagino que são milhões, porém, mais uma vez não consigo determinar quantos. Mas posso afirmar que pelo menos uma pessoa no mundo não apenas desejou ser, mas praticou, trilhou o caminho de Hamlet[1]. Estou falando de um sertanejo, do interior de Pernambuco[2], chamado Zeca Fulô[3].

A Maldição de Hamlet pretende mostrar até onde o sonho de uma pessoa, implementado através do poder financeiro e da persuasão, é capaz de mexer com o inconsciente coletivo fazendo uma comunidade inteira viver, como se fosse uma maldição, as experiências de personagens da ficção narrada na peça “Hamlet” de Shakespeare.

Tenham todos, uma ótima leitura.

(Vanraz)

Capítulo I

– Gertrudes, sobre esta pedra construirei meu castelo e nele reinarei! – Gritou, de cima de um lajedo, Zeca Fulô.

Um galo cantou em algum lugar. E empunhando uma velha espada da Guerra do Paraguai[4], Zeca continuou:

– Eu, Hamlet, conquistarei a minha Dinamarca!

O mesmo galo cantou mais uma vez e em seguida se ouviu o ronco de um trovão.

As palavras de Zeca se dissiparam na vasta planície do Sertão pernambucano que separa a Serra da Borborema e o Riacho dos Caçotes e só não se perderam no calor causticante de novembro de dois mil e dezesseis daquele deserto porque Gertrudes falou:

– Um galo cantou duas vezes, Zeca!

– Eu ouvi. Você também ouviu, Polônio?

– Ouvi. Isso é bastante curioso, vocês não acham? Se estamos quase no meio de um deserto; se não há sinal de chuva de onde vieram o canto desse galo e o ronco do trovão? – Perguntou Polônio, o ajudante.

– Não importa, Polônio! – Disse Gertrudes – Tenho medo só de pensar, mas isso é um agouro. Dizem que o cantar do galo sela o destino daquele que quer, de coração, mudar algo em sua vida.

Zeca Fulô levantou as mãos para o céu e falou:

– Vocês não acham que é muita coincidência eu ter me casado com uma mulher chamada Gertrudes? Ter um ajudante chamado Polônio e um irmão de nome Cláudio? Assim, eu só posso pensar que sou o próprio Hamlet, rei da Dinamarca e personagem da peça Hamlet de Willian Shakespeare!

O galo cantou mais uma vez sendo seguido por outro ronco de trovão. Parecia um efeito especial de cena de filme de maldição.

 – Zeca, você endoidou de vez, foi? Isso está me dando nos nervos!

– Endoidei, minha rainha! Estou igualzinho ao meu avô!

– O velho Ramilete?

– Não é Ramilete! É Hamlet!

– Ramilete e Hamlet, para mim, são a mesma coisa. – Disse Gertrudes – Agora, vamos embora porque estou com medo da maldição desse galo!

– Que besteira, galos cantam todo dia! – Pensou alto, Polônio.

– E todo dia o destino de alguém é selado, ou isso não é verdade? – Defendeu Gertrudes.

– A senhora tem razão. Todo dia alguém sela seu destino, após o cantar de algum galo. Mas eu não acredito nessas coisas. Galos são apenas galos e dão um bom cozido.

– Algo me diz que há um ateuzinho entre nós. – Disse Zeca Fulô – Polônio, você está cansado de saber que somos descendentes dos conquistadores portugueses: santos homens católicos apostólicos romanos. Sabe também que na tradição religiosa católica apostólica romana o galo tem papel importante. Lembra que Jesus disse que, antes que o galo cantasse duas vezes, Pedro o negaria por três vezes? Pois bem, o povo acredita que o cantar dos galos sela o destino das pessoas como selou o destino de Pedro diante dos romanos.

– Católicos apostólicos… Por causa disso, também sei que gato preto dá azar; que passar por debaixo de alguma escada dá azar; que quebrar espelho dá azar… Tudo dá azar! Isso é superstição boba! Ora, onde já se viu um galo selar o destino de uma pessoa?!

– Sela sim, seu herege! – Defendeu Gertrudes –Minha avó dizia que se você estivesse fazendo uma careta para alguém e o galo cantasse, você ficava com o rosto paralisado para sempre. Se você estirar língua para uma pessoa…

– Já sei, se o galo cantar, a língua não volta para a boca. – Concluiu Polônio – E se eu estiver com o dedo no cu na hora em que o galo cantar?

– Ai, meu deus! – Exclamou Zeca e continuou – Por onde anda a “Santíssima Inquisição”[5] que não queima no fogo santo esse filhote de belzebu?! Onde já se viu, eu, Hamlet, um cristão devoto respirando o mesmo ar que esse satanás?

– Zeca, não dê ouvidos a esse ser rude! Agora me diga: que história é essa de mudar seu nome? – Perguntou Gertrudes.

– Sim. Vá se acostumando. Meu nome agora é Hamlet.

Apontando para a barriga de Gertrudes ele disse:

– Se isso aí não for lombriga nem barriga d’água, então será mais um Hamlet na família.

– De onde você tirou essa ideia?

– Foi da história de Shakespeare, contada por meu avô! É história de reis, rainhas, príncipes e princesas! É coisa de gente graúda! Foram histórias de bons tempos que não voltam mais! Fiquei agora com saudades! É até difícil dizer o que sinto neste momento. Eu… Eu estou sentindo saudades de uma vida que nunca vivi!

– Isso foi muito poético, meu senhor! – Disse Polônio.

– Quem é esse tal de Sheiquis? – Perguntou Gertrudes.

– Não é Sheiquis, oh, santa ignorância! É Shakespeare! Ai, meu Deus, num Sertão tão grande como este eu só encontrei uma Gertrudes e esta não conhece Shakespeare!

– Ainda se banha[6]! Era bom que tivesse achado uma Gertrudes que botasse um par de chifres na sua cabeça!

O mesmo galo cantou mais uma vez. Polônio, dando altas gargalhadas, comentou maldosamente:

– Quer dizer que quando o galo canta…

– Nem mais uma palavra, ateu! – Disse Zeca. Virando-se para Gertrudes, desculpou-se:

– Perdoe-me, minha rainha, eu não queria ofendê-la. É que conhecer alguém que nunca ouviu falar de Shakespeare é para mim uma ofensa muito grande.

– Sabe Zeca, digo, Hamlet, fiquei curioso com esse tal de Shakespeare. Como é que eu faço para conhecer essa história? – Perguntou Polônio.

– Não me lembro bem de como ela se passou, mas tenho o livro. Aliás, tenho duas cópias. Vou presenteá-lo com uma delas.

Zeca Fulô, predestinado, segundo ele mesmo, a se casar com uma mulher chamada Gertrudes nem que ele tivesse que ir buscar essa mulher na Dinamarca, não aceitaria nunca mais ser chamado pelo seu nome de batismo, mas Hamlet. No entanto, nem ficou conhecido por Hamlet nem Zeca Fulô, mas Ramilete, pois as pessoas mais simples, naquele distante interior pernambucano, não sabiam escrever nem pronunciar Hamlet.

Tendo trabalhado arduamente, por vinte e sete anos, construiu um castelo de pedras batizado com o nome de Castelo Elsinor.

– Como é mesmo o nome dessa casa, Zeca? – Perguntava Gertrudes sempre que o marido se referia à construção do castelo.

– Meu nome é Hamlet e isso é um castelo. Castelo Elsinor.

Todos os recursos financeiros para a construção do castelo vinham da criação de jumentos cujo destino era a China. Zeca, ou melhor, Ramilete se tornou um magnata do ramo de exportação desse animal. Todos diziam que ele era o louco rei dos jumentos e, é claro, de todos os jumentos, ele era o maior deles.

O castelo, de tão bonito que era, virou uma atração turística e isso fazia as receitas aumentarem, pois, além de cobrar ingresso aos visitantes, cobrava também pelo aluguel das roupas e perucas. Ninguém podia permanecer ou sequer entrar, por um segundo, nas terras de Ramilete sem abrir mão de roupas, utensílios e costumes modernos.

“Dispa-se de sua existência insignificante. Vista-se com o esplendor de nossas nobres vidas. Aceite nosso costume dinamarquês tradicional e seja bem-vindo. Do contrário, sua presença aqui é indesejada”. Esses dizeres, criados por Polônio, que abraçou com unhas e dentadura postiça a ideia do patrão, ficavam na entrada que dava acesso à fazenda Nova Dinamarca onde se encontrava o já famoso castelo Elsinor.

Não havia a menor possibilidade de alguém entrar nos domínios dessa fazenda sem usar as perucas e roupas de nobres da corte, conforme suas posses ou posição social. Para as classes baixas havia as roupas de servos ou camponeses. Tudo isso era cuidadosamente e rotineiramente verificado por Polônio.

Se alguém queria falar com o velho Hamlet ou Ramilete, como o povo conhecia, tinha que marcar audiência e era recebido no salão principal onde ele, o rei dos jumentos, vestido a caráter, sentado num belíssimo trono, despachava.

Toda a ideia de viver conforme os costumes dinamarqueses do século XVI foi engendrada por Polônio, após leitura minuciosa da peça Hamlet e estudos comportamentais de pessoas que viveram naquele século. Tudo isso foi permitido por Ramilete com a aceitação tácita de Cláudio, seu irmão. Gertrudes apenas se acostumou com a ideia, pois gostava do luxo e da bajulação das pessoas que visitavam ou moravam na fazenda Nova Dinamarca e que eram tratadas como súditos.

Quanto aos moradores, aqueles que não aceitassem a vida que levavam, ou que deveriam levar, comunicariam o fato a Polônio. Em seguida, não lhes restaria outra saída senão entregar as chaves das casas. Os descontentes também abririam mão do recebimento mensal e gratuito de alimentos, materiais de limpeza e higiene pessoal; retirariam suas crianças da escola, onde elas tinham não só educação gratuita, com direito ao ensino do inglês e da língua nórdica dinamarquesa antiga, mas também alimentação, respeito e dignidade.

As regras criadas por Polônio, com a aquiescência de Ramilete, eram imutáveis, mas nunca houve quem discordasse das mesmas. Se havia alguma desavença entre os súditos, eles eram levados à presença de Ramilete que decidia tudo da maneira mais justa possível.

O Poder público municipal, estadual e federal nunca se manifestaram contra aquela ideia de reinado local, pois as regras de Polônio não extrapolavam as fronteiras da fazenda Nova Dinamarca. Além disso, todos os impostos eram pagos religiosamente.

Fora do castelo, de cima de um jegue, o rei comandava a jumentada toda. Visto assim, era figura esquisita, pois tinha uns dois metros de altura e seu jegue era um bichinho pequeno, franzino. Montado no animalzinho, seus pés arrastavam no chão.

– Lá vem um burro montado no outro – Gritou Polônio, seu ajudante, para a alegria dos peões que se divertiam com as piadas dele, principalmente se elas tinham como alvo o rei Ramilete.

– Venha aqui, Polônio! Ajude-me a desmontar – Disse Ramilete. – Segure meu elmo, meu escudo, meu gibão, minha espada e minha lança.

– Oh, meu rei, segurarei seus instrumentos de labuta!

Com ar de zombaria, Ramilete falou:

– Segure, também, o meu cipó!

– Esse cipó velho e murcho, o senhor entregue a Gertrudes. Ela sabe ressuscitar defunto.

Ramilete deu uma sonora gargalhada e, apontando para as nádegas de Polônio, disse:

– Já que você vai segurar meus instrumentos, eu vou labutar!

Com expressão de riso, Polônio respondeu:

– Tô fora, cabra safado! Aí, dentro!

E ambos sorriram à vontade.

– O dia hoje foi proveitoso, negociou bem? ­ – Perguntou Polônio.

– Hoje tudo correu bem, mas o comprador disse que nas próximas remessas os chineses só vão querer os jumentos abatidos e sem o “negocinho[7]”.

– Sem o cipó, você quer dizer?

– É.

– Por que isso, agora?

– Controle de natalidade. Dizem que quando as chinesas veem um rolo de fumo de jumento elas começam a ovular e entram logo no cio. Ficam doidas por vara. Você sabe que as chinesas não podem ver uma vara em pé que querem logo derrubar, não é?

– E o que vamos fazer com os paus dos jumentos?

– Você é que vai dizer onde eu enfio os “negócios” dos jumentos que abatermos.

– O senhor se lembra de Zé Lezin da Paraíba?

– Do compadre Zé? Claro!

– Ele disse que certa vez um fazendeiro estava vendendo um jumento por dois contos de réis[8]. Chegou um camarada e disse: dois contos está caro, mas eu dou um, “no pau”[9]! O fazendeiro respondeu: só vendo o jumento inteiro.

Ambos riram bastante com a piada.

– Então vá atrás desse camarada, pois temos milhares de paus de jumentos para vender. – Disse Ramilete.

Capítulo II

Sem que ninguém desconfiasse, Cláudio, o irmão de Zeca Fulô, nosso ilustre Ramilete, nutria um desejo incontrolável de…

– Comer Gertrudes? Você enlouqueceu? Onde já se viu querer comer a cunhada? – Perguntou Polônio ao irmão de Ramilete.

– Não consigo me controlar, Polônio! Também quero botar a mão no negócio dos jumentos!

– Botar a mão onde?! Você quer pegar as “coisas” dos jumentos?

– Estou querendo dizer que quero o comércio dos jumentos, seu maldoso! Quero deixar de ser um simples vassalo, um “Zé Ninguém”!

– Mas você não é sócio de Ramilete nesse comércio?

– Sou, Polônio, mas por mais que eu me dedique ele é que vive como um rei, deixando a parte mais humilhante para mim.

– Qual parte?

– A parte que cuida das “coisas” dos jumentos!

– Ah, tá.

– Você sabe que se me ajudar, só tem a ganhar, não é mesmo?

– Bom, você deseja a mulher e os negócios do seu irmão. Isso é confusão de família. Não quero me meter, mas fique sabendo que eu fico do lado de qualquer um de vocês.

– Você apoiaria minha revolta?

– Eu e deus sempre estamos do lado de quem vai vencer. Agora, se esses maus pensamentos estão vindo nessa sua cabeça por causa do suposto trabalho humilhante, deixe que eu cuide dos pintos dos jumentos.

– E os ovos?

– Quem cuida de pinto conhece o ofício, longe de mim esse vício, mas para evitar o fratricídio, aceito de bom grado tamanho sacrifício: cuido dos cipós dos jumentos e, de quebra, dou um jeito nos colhões do bicho.

– A solução para as rolas dos jumentos você já deu. Mas a paixão que sinto pela minha cunhada…

– Quer que eu cuide disso também?

– Você quer comer Gertrudes no meu lugar?

Polônio deu alta gargalhada e falou:

– Não, não é disso que eu estou falando!

– A resposta é “não”, Polônio. Agradeço sua ajuda, mas prefiro comê-la sozinho.

– Pois vá em frente! Coma! Agora eu quero saber como você vai cagar os ossos!

Cláudio olhou para Polônio, sem nada entender, e perguntou:

– O que é que você está dizendo?

Com ar serio de velho sábio, Polônio olhou para o céu como se estivesse refletindo sobre o sentido da vida humana na Terra e falou:

– O que falei foi pura filosofia. Macaco experto, antes de engolir uma semente testa no próprio cu.

Em seguida, antes de se retirar do recinto para se dedicar às suas atividades diária, Polônio, ainda com ar de pensador grego, aproximou-se de Cláudio, tocou seu ombro e disse com voz grave:

– A moral da história é: só coma o que puder cagar.

 

Capítulo III

Diante de uma panela de mungunzá[10] envenenado, Ramilete se confessou ao vento e, espumando e babando feito um porco, disse:

– Uma vida já não é o bastante para um homem viver! Escravo deste mundo, já velho e cansado, ele sabe que apenas sobreviveu para doar sua vida e, com isso, dar sustentáculo à coletividade a qual pertence! A vida doada é o preço a ser pago para se afirmar como membro dessa sociedade perversa, desigual e corrupta! Eu vivi duas vidas! A primeira já se foi há muito tempo. Esta, que agora se vai, é exatamente a vida que eu quis ter. Vou embora desta vida com a certeza de ter mudado muitas outras vidas. Eu dei aos que me cercam a oportunidade de também viverem uma segunda vida porque tenho certeza de que não somente eu, mas qualquer homem que chegou aqui na Terra passou sua vida inteira sendo seguido pelo fantasma da vida que realmente queria ter. Se houvesse algum tipo de justiça, divina ou humana, todos deveriam ter uma segunda chance. Com isso, qualquer homem ou qualquer mulher deste mundo pensariam, de posse de uma segunda vida, em como ser realmente felizes.

Católico fiel, devoto de Padre Cícero[11] e financiador de batina, ele ergueu os olhos para o céu e disse:

– Oh, deus misericordioso, sinto que já não há tempo!

Lamenta, lamenta e lamenta. Com dificuldades ele se ergue, põe o elmo na cabeça, testa seu equilíbrio e tenta seguir em frente, mas seus joelhos o arremessam ao chão.

Olhando pela porta da cozinha que estava aberta, mostrando um imenso quintal, ele vê uma cabeça esquelética de jumento e, mirando nas cavidades onde um dia houve olhos asininos, diz:

– O mundo fica mais pobre, triste, vazio e sem rumo com a súbita partida de um grande ser!

Suplicantes, seus olhos alcançam o céu mais uma vez e ele lança suas últimas palavras ao vento:

– Já não há mais tempo… Já não há mais tempo!

– Ramilete morreu! – Gritou Polônio ao mesmo tempo em que mandou a guarda tocar o aviso. Assim, todos puderam ouvir o som do zurrar de dezenas de jumentos: ihhhhhhh! Innn onnnnnn, inn onnnn, in onnnn, onm, onm, onm!

Capítulo IV

Alguns dias após a morte de Ramilete, em frente ao castelo…

Na hora da troca da guarda, diante do terraço do castelo Elsinor, o guarda Bernardo gritou:

– Ô de casa[12]!

Francisco respondeu:

– Ô de fora!

– Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado!

– Vim na paz do senhor, irmão!

– Atrás do senhor também, irmão!

– E aí, de dentro?

– E aí dentro também!

– Vim labutar!

– Eu boto aí também!

– Deixa de frescura, filho da puta! Viva o rei!

– Ok, Bernardo, pode entrar!

Dentro do castelo Bernardo, que tinha acabado de chegar, pergunta:

– Francisco, você não acha que a senha de entrada no castelo está muito grande, não?

– Você quer encurtá-la?

– Seria bom.

– Então a gente para quando eu disser: eu boto aí, também!

– Ainda está grande. Nossa, como é grande!

– Então a gente para quando eu disser: atrás do senhor também!

– É melhor pararmos quando eu disser: vim na paz do senhor, irmão!

– Por mim, tudo bem!

Em seguida, Francisco, ao ouvir o relinchar de um cavalo, olhou para o seu relógio e disse:

– Bernardo, você chegou bem na hora marcada!

– Orgulho-me de ser pontual. Vá dormir! – Disse Bernardo – Se você encontrar Marcelo e Horácio, aqueles dois filhos da puta que vão me render, diga que parem de tomar cana com as putas e se apressem!

– Vem vindo alguém, parece que são aqueles dois frescos! – Disse Francisco e perguntou em seguida:

Quem vem lá?

– Eu! – Disse um dos forasteiros.

Bernardo reclamou de pronto:

– Eu, uma porra! Diga logo a senha, seu cara de quenga! Diga a senha ou encho seu rabo de chumbo!

Os forasteiros responderam em coro:

– Ô de casa!

Bernardo respondeu:

– Ô de fora!

– Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado! – Respondeu Bernardo.

– Vim atrás do senhor, irmão!

– Diga a senha direito, sujeito do cão! – Reclamou Bernardo.

– Tá bom, diacho, vou dizer correto: vim na paz do senhor, irmão!

– Atrás do senhor também!

– E aí de dentro?

– E aí dentro também!

– Vim labutar!

– Eu boto em você também!

– Deixa de frescura, filho da puta! Viva o rei!

– Ok, seus dois vagabundos, podem entrar!

Francisco se despediu dos três colegas e caminhou em direção aos seus aposentos para dormir. Sua participação nesta história terminou aí. Eu poderia continuar sem dizer o que realmente aconteceu com ele e, assim como fez Shakespeare ao escrever a peça Hamlet, omitir um fato muito importante: Francisco sofreu uma descarga de cinco trilhões de volts, provocada por um relâmpago, e simplesmente se desintegrou no ar. Com isso, Shakespeare pôde economizar honorários de um ator em sua peça.

Após se acomodarem no posto da guarda, Marcelo perguntou a Bernardo:

– Então, o jumento apareceu?

– Jumento?! De qual jumento você está falando?

– Ramilete, o corno velho que morreu!

– Bom, hoje eu não vi nada!

– Horácio diz que é frescura da gente, que não existe fantasma coisíssima nenhuma. Por isso eu o trouxe aqui, hoje.

Horácio entroncha a boca para um lado e diz:

 – Isso tudo é viadagem de vocês! Num tá vendo que depois que o cabra se lasca debaixo da terra, num tem condições de voltar! Ave Maria, vocês são mesmo dois bocós[13]! A esta hora, aquele corno deve tá comendo grama pela raiz!

Dizendo isto, Horácio dá altas gargalhadas. Bernardo faz um gesto de reprovação, aponta o dedo indicador para o sorridente Horácio e diz:

– Vai brincando com essas coisas, vai! Vai vivendo com essas brincadeiras de gente safada que um dia tu tomas no caneco! Espera, espera um pouco que você vai ver a coisa!

Horácio retesou a testa, esbugalhou os olhos e disse:

– Ave Maria, isso é uma praga, é? Tá bom, eu paro de brincar! Agora conte o que você viu.

– Pois bem! – Disse Bernardo – Na noite passada, bem na hora em que o jumento Xaréu corria nas cinco patas atrás da jumenta Frodite, o sino da igreja badalava uma hora da manhã.

– Silêncio! – Gritou Marcelo – Aquela que vem correndo não é a jumenta Frodite?

Bernardo e Horácio responderam que era Frodite quem vinha correndo.

– E quem vem atrás dela – Continuou Marcelo –correndo nas cinco patas não é o jumento Xaréu?

Bernardo e Horácio responderam que era Xaréu quem vinha correndo nas quatro patas. A quinta pata era seu instrumento particular e divino do esguicho da vida no reino dos jumentos.

E olhando para igreja, Marcelo continuou sua fala com os cabelos todos arrepiados:

Ave Maria, Minha Nossa Senhora, aquele que vai tocar o sino não é mesmo o padre Nezinho Pé-de-mesa?!

Quando o padre tocou o sino informando uma hora da manhã, Bernardo apontou para um vulto negro que entrava no castelo e disse:

 – Valei-me meu padrinho padre Cícero, não é que o velho, o falecido rei dos jumentos, o velho Ramilete, apareceu de novo!

– Puta que pariu! – Gritou Horácio – Estou até agora com um dedo no cu para não cagar! O fantasma é a cara do corno velho!

Marcelo leva as mãos à cabeça e diz:

– Horácio, você, que fala melhor do que nós, pergunte o que essa alma quer!

Com ar de autoridade de pastor de igreja “peque e pague”, Horácio repreendeu o demônio que naquele momento, pensou ele, estava disfarçado de fantasma do rei Ramilete:

– Tá repreendido, em nome de Jesus, coisa ruim dos infernos! Bota as mãos pra trás, filho de uma quenga! Quem és tu que nesta hora primeira interrompe o coito de Xaréu com Frodite?! Quem és tu, oh criatura das sombras, que apareces com as vestes reais do nobre rei Ramilete?! Fala, desgraçado! Eu te ordeno! Fala, pois do contrário eu te faço engolir o cajado do rei pelo cu!

– Horácio! – Interrompeu Marcelo – Isso é jeito de falar com seu soberano? Você não está vendo que ele não gostou desse palavreado de fresco?

Bernardo, concordando com Marcelo, completou:

– O fantasma do rei desdenhou de você, Horácio. Ele olhou para os seus pés, virou o rosto feito princesa egípcia, deu as costas e foi embora.

– Uma carniça dessa – Disse Horácio – fica desdenhando de mim! Vai-te embora, corno velho!

Marcelo acrescentou:

– Horácio, antes de sair, ele mostrou as costas da mão para você, encolheu o dedo mindinho, o seu vizinho, encolheu também o dedo indicador, esticou o dedo “maior de todos” e fez assim, dizendo: vai tomar no cu, fresco safado!

– Espero que ele pegue esse dedo e enfie no cu! – Esbravejou Horácio.

Bernardo perguntou:

– Acredita agora, Horácio?!

– Ave Maria, meu pai do céu me livre dessas assombrações! Vocês tinham razão! – Respondeu Horácio – Eu dei uma de São Thomé, mas agora que eu vi com estes olhos que a terra nunca haverá de comê-los, acredito! Era mesmo o velho rei. O gibão de couro surrado era o mesmo que ele usava quando tocava a jumentada. Se ele se aproximasse mais era capaz de sentirmos seu cheiro de bode pai de chiqueiro que nunca viu água no sovaco[14]! Ainda bem que ele foi embora, pois a cada cinco palavras que dizia, quando era vivo, soltava pelo menos dois peidos.

– E eram tão fedorentos – Completou Marcelo – que ele certa vez me confessou dizendo: “Marcelo, eu tenho pena do meu jumento porque eu passo o dia inteiro peidando nas costas do bichinho”. E é cada peido fedorento que eu, o proprietário, não aguento!

– Mas ele era um grande patrão – Defendeu Bernardo.

– Isso foi um aviso! – Interrompeu Horácio. Com um semblante profético e um olhar perdido no horizonte, tal qual o de um charlatão religioso, ele continuou:

– Fim dos tempos! Coisas ruins estão para acontecer: pai contra filho, filho contra pai; assassinatos; infidelidades; pessoas enlouquecendo e se suicidando; gente arrependida pelas traições e falsidades; fomes, guerras, terremotos, maremoto, tsunamis e acidentes de trânsito; velhos quebrando o fêmur um mês antes de morrer; dengue, zica, chicungunha, microcefalias, disenterias brabas, febre tifoide, câncer, difteria…

– E o pulso ainda pulsa[15]. – Confirmou Marcelo.

– Podem parar com esse papo idiota de profeta de fim de mundo! Tudo isso que você falou sempre aconteceu, desde que o mundo é mundo!  – Gritou Bernardo – Ninguém cai mais nessas conversas bestas de palavreados evasivos! Podem desfazer esse tom de voz melodioso de quem quer impor falsas crendices e superstições tolas através do medo!

– Não fujamos do assunto principal. – Interrompeu Marcelo – O fato é que, por duas vezes seguidas, nesta mesma hora morta, o velho apareceu.

Horácio coçou a cabeça e disse:

– Continuo com a opinião de que isso é algum agouro. Coisas acontecerão, aguardem! O que você acha, Marcelo?

– Muitas coisas estranhas já estão acontecendo. – Respondeu Marcelo Parece que estão nos preparando para uma guerra. Vocês não percebem que ficamos em vigília neste castelo dia e noite? Por que o rei Cláudio, irmão do finado Ramilete, compra tanto chumbo para as espingardas soca-soca?  Alguém aqui sabe o que está acontecendo?

– Eu sei. – Respondeu Horácio – Vocês lembram que o falecido Ramilete foi desafiado pelo Forte Brás, dono da fazenda Noruega? Lembram que a regra na disputa era que quem perdesse, perdia suas terras? Lembram que tudo isso aconteceu por inveja do Forte Brás, porque Ramilete vendia mais jumentos para a China do que ele? Lembram que Ramilete, em legítima defesa, matou o Forte Brás com cento e vinte e oito facadas? Pois bem, Forte Brás Júnior anda querendo vingança. Ele quer suas terras de volta e prometeu que quem estivesse ocupando essas terras teria os ovos arrancados e enfiados na boca. Com a morte de Ramilete, Cláudio se amancebou com Gertrudes e agora domina todas as terras, inclusive as terras de Forte Brás. Pela lógica, os ovos a serem arrancados são os de Cláudio! É por isso que ele reforçou a segurança do castelo!

– Você tem razão, Horácio. – Disse Marcelo ­– Cláudio julga que está em guerra contra Forte Brás Júnior.

– Nestes tempos de guerra Ponderou Horácio – o fantasma do velho Ramilete está se comportando como os mortos de Roma antes da queda do grande Júlio Cesar. Coisas estranhas aconteceram antes do fim do Império: mortos abandonando suas sepulturas; estrelas com rabos de fogo; meninos nascendo com peias de jumentos; cobras se amamentando nos peitos das mocinhas; mulheres casadas engravidando de boto cor de rosa; pessoas fazendo acampamento dentro de baleias por três dias; anjos descabaçando[16] virgens; jumentas implorando o perdão dos seus fregueses; corno correndo atrás de urso com os colhões na mão, e… Ave Maria, chega me faltou ar! Tudo isso que acabei de dizer eram sinais mensageiros de fatos sinistros que estavam por vir! Esse fantasma também deve ser emissário de fatos sinistros futuros que acontecerão no Castelo Elsinor.

– Então, meus amigos – Completou Bernardo – se é assim, só tenho uma coisa a dizer: segura o cu que a coisa vai feder!

– Esperem, façam silêncio! – Gritou Horácio – O burro velho, profeta do fim do mundo, voltou! Vou barrar seu caminho nem que ele faça buchada[17] das minhas tripas!

Horácio pula na frente do fantasma e ordena:

– Pare, ilusão dos quintos dos infernos! Esbarre aí, espírito de porco fuçador de lama de fezes do capeta! Se além do som dos teus peidos, sabes proferir algum som humano, fala comigo, belzebu dos infernos! Fala, fedorento! Diz alguma coisa, suprassumo do intenso fedor da cadaverina! Berra, besta fera coberta de molambo e chumaço de algodão purulento!

– Horácio, você vai falar com o fantasma ou vai humilhar? – Interrompeu Marcelo – Pergunte logo o que tiver de perguntar antes que o galo cante! Todo mundo sabe que fantasmas não falam depois que o galo canta. Dê uma pressinha nisso aí!

– Foi mal, pessoal, vou fazer nova tentativa de contato.

E, virando-se para o fantasma, Horácio ordenou:

– Desembucha aí, velho safado! Se não falar eu pego o aspirador de pó para sugar até a última fumaça fantasmagórica dos teus molambos. Prenderei você num saco! Depois eu tiro você do saco e o arrasto pelos ovos!

O fantasma se vira para Marcelo e, sem dizer nada, abre os braços, estica o beiço, pende a cabeça para o lado direito e faz um gesto como se estivesse reclamando do palavreado de Horácio. Nesse momento o galo cantou e o fantasma sumiu.

– Ele ia falar quando o galo cantou! – Gritou Bernardo.

­- Eu disse a esse cabeçudo para perguntar logo, antes que o galo cantasse! – Reclamou Marcelo – Ouvi dizer que o galo acorda o deus do dia. O deus do dia, por sua vez, sai por aí com um tridente capturando os espíritos zombeteiros fujões. Para não levar uma tridentada no rabo, os espíritos errantes fogem para suas catacumbas e se enterram em cova funda senão vem o deus do dia pra empurrar na sua bunda!

Horácio olha para o céu, incorpora o espírito dos antigos atores de teatro romano e interpreta, com eloquência, sua fala em pose de gazela saltitante:

– Olhem, meninos! Vejam a alvorada vestida com seu manto de cor púrpura tecido com o mais puro e fino organdi! Olhem! Vejam os babados na cor lilás e franjas ao vento! Ela pisa mansinho no orvalho e vai subindo, subindo, subindo…

Bernardo olha estupefato para Marcelo e percebe que ele bate palminhas e se delicia com o jeito sutil e enigmático do colega. Ele se irrita e grita:

– Deixa de tua frescura, Horácio! Haja feito homem!

Horácio limpa a garganta disfarçadamente com um hamhm, hamhm e, com voz grossa de locutor de rádio AM, diz:

– Eu quis dizer que a alvorada sobe a colina do oriente. Assim, está terminada a guarda. Querem um conselho, devemos avisar a Juninho, digo, ao jovem Ramilete, filho do Ramilete morto, sobre o que aconteceu hoje, aqui.

– Então, vamos logo! – Disse Marcelo Sei onde encontrá-lo a esta hora da manhã.

Sob o olhar intrigado de Bernardo, os dois, Marcelo e Horácio, saltitantes feito duas gazelas felizes com a primavera nas estepes canadenses, foram procurar Ramilete Júnior.

Nem dois minutos se passaram e Bernardo ouviu o chamado de alguém:

– Ô de casa!

– Ô de fora! Respondeu Bernardo.

– Abra essa porra, filhote de puta!

– Albérius, deixa de putaria e diz a porra da senha, cabra safado!

Com a língua enrolada, Albérius falou:

– Eu sou dos Siqueiras de Paulo Afonso, seu filho de uma arrombada! Meu nome não é porra de Albérius, filhote de uma quenga! Eu sou Robério Siqueira, seu fresco! Abra essa desgraça ou eu quebro esse portão e chuto sua bunda aí dentro!

– Vou abrir porque se trata do conde Albérius. Se fosse outro baiano cachorro feito você, pudim de cana, malcriado, eu não abriria, não!

– Perdeu o medo de morrer foi, corno? Abre logo essa porra que eu quero mijar!

Quando Bernardo abriu o portão, deu de cara com o conde Albérius que, com a cara mais sínica do mundo, falou:

– Diz aí, tranquilidade!

– Antes de mijarem, – Disse Bernardo – você e esse fresco cu de cana, levantem a tampa do vaso sanitário, seus dois sebosos! Aqui não tem empregada doméstica, não!

Soprando bafo de cachaça na cara de Bernardo, o conde Albérius falou:

– Tá faltando alguma coisa? Deixe comigo, pois comigo é tudo organizado!

– Deixa de papo furado e entra logo! Da próxima vez que você não disser a senha completa, vai dormir lá fora! E esse pinguço[18] que você traz amarrado pelo pescoço?

O conde colocou o braço envolta do pescoço de Bernardo e falou:

– “Deixe de calma” [19], autoridade! Esse defunto é assunto meu! Meu rei morreu de forma estranha e esse caboclo vai morrer para fazer companhia a ele no céu! Tô só esperando o momento certo pra sangrar esse condenado!

Com a voz arrastada de tanto tomar cana com o conde Albérius, o pinguço falou:

– O Conde tem razão! Alguém tem que morrer! Só de pensar naquele homem, tenho vontade de chorar! Oh, meu deus, um homem tão bom foi morrer assim, na flor da idade! Era mesmo que um pai, para mim!

Bernardo olhou para aquela figura bêbada que chorava a morte do rei com um cabresto de jumento no pescoço e falou:

– Que coisa desumana, Conde Albérius! Quem já viu alguém sair por aí arrastando pelo pescoço, como se fosse uma cabra, um ser humano? E ainda por cima, com a promessa de matar o infeliz na primeira oportunidade!

– Homi[20], pelo amor de padre Cícero! – Defendeu o pinguço – Deixe quieto! Eu mereço! Como vai, vai bem! É melhor ser amarrado pelo pescoço do que pelos ovos, como ele costumava fazer com suas vítimas na Bahia!

– Vou meter uma bala bem no meio da testa desse diabo. – Disse Albérius.

– Homi, uma bala é muito cara! – Disse o pinguço – Para que desperdiçar o dinheiro de uma bala com quem não vale um tostão furado, meu companheiro? Deixe quieto! Guarde essa bala para um homem de vergonha!

– Vamos simbora[21], diabo! – Disse Albérius – Agora, vamos comer tira-gosto de “mão de vaca” [22] com cana de cabeça no boteco do conde Julius.

– Só se for agora! Gritou o pinguço.

Ao passar por Bernardo, o pinguço o olhou, abriu um sorriso largo, fez sinal de positivo e disse:

– Deixe de calma, autoridade! Como vai, vai bem! Ê boi! Segura, menino! Eita, vidinha de primeira sem segunda! Oh, diacho!

 Bernardo cumpriu sua jornada de trabalho sem maiores problemas. Assim, recolheu suas ferramentas e foi embora. No caminho que separa o castelo da casa de Bernardo, ele se deparou com um leão africano que devorou uma de suas pernas. Enquanto era devorado, prometeu a São Longuinho que se ele intercedesse junto a deus e salvasse sua vida ele daria três pulinhos de Saci-Pererê. O leão fugiu com a perna do nosso herói e, após Bernardo fazer um torniquete, o milagre aconteceu e sua hemorragia foi estancada milagrosamente. Andando em uma perna só, ele passou três dias perdido no deserto. No final do terceiro dia ele implorou a deus para não morrer e, após algumas orações, encontrou um caçador. Ele olhou para o céu e afirmou que aquilo só podia ser um milagre. O caçador o reconheceu e disse que sabia como deixá-lo em sua casa em apenas uma hora, mas tendo sido picado por uma cobra, pouco lhe restava de vida. Antes de morrer, o caçador apontou a direção da casa de Bernardo e disse que para chegar lá ele teria que passar por um rio cheio de crocodilos. Mesmo sabendo que sua segunda perna corria risco de virar almoço, Bernardo não desanimou e, diante do rio, passou três horas rezando e pedindo proteção a deus para atravessar ileso. Por fim, pulou no rio e, enquanto nadava, era seguido por crocodilos que disputavam a preferência de saboreá-lo. Nadando com apenas uma perna, só um milagre faria com que ele conseguisse realizar aquela proeza. Na confusão crocodiliana, ele chegou à margem e rezou agradecendo o milagre de ter perdido apenas um braço. Andou, digo, pulou por mais trinta minutos e avistou sua casa. Não se conteve ao ver seu lar e, na frente dele, sua esposa desesperada abrindo os braços para recebê-lo. Pulando com um braço aberto na direção da esposa, ele gritou:

– Meu deus é realmente grande! Meu amor, deus fez um milagre em mim! Faremos um culto para…

 Ele não conseguiu terminar a frase, pois se encontrou de frente com a chifrada de um touro bravo. Bernardo não sabia que naquele momento em que vira Marcelo e Horácio, ambos saltitando felizes em direção ao encontro com Ramilete, aquela seria sua última aparição na peça de Shakespeare.

 

Capítulo V

Havia alguns anos desde que Robério, o Conde Albérius, tinha aparecido no castelo Elsinor, montado nos quartos do jumento Xaréu, carregando uma espingarda soca-soca e uma velha garrucha[23]. Ninguém sabia de sua real intenção: matar Ramilete.

Uma vez que era matador profissional, honesto e respeitador do código de honra dos pistoleiros, até hoje ninguém soube quem havia encomendado tal serviço, mas ele deixava a certeza de que a raiva que sentia de Ramilete era por causa da matança dos jumentos para exportação da carne para a China. Era comum, antes de encher a cara de cana num boteco, ele fazer discursos acalorados em defesa do animal e prometer vingança aos assassinos do ser que levou nas costas o menino Jesus.

Disfarçado de fotógrafo, usando uma antiga máquina fotográfica lambe lambe[24] com uma espingarda escondida dentro dela, Robério preparou Ramilete para sua última fotografia. Pelo orifício fotográfico ele preparou a mira, enquadrando bem na testa de Ramilete, armou o cão, colocou a espoleta, apertou o gatilho e eles ouviram um barulhinho seco: tac! O tiro falhou.

Ramilete se assustou e perguntou:

– Está pronta a fotografia?

– Vamos tirar outra foto só por garantia. – Respondeu Robério. Em seguida ele afastou o cão, retirou o duto condutor de fogo da espingarda e encheu a câmara de combustão com pólvora. Socou bastante e colocou, ainda mais, uma quantidade exagerada de pólvora. Recolocou o duto condutor de fogo, pôs uma nova espoleta, fez a mira bem certinha e disse:

– Atenção, vou apertar o gatilho, digo, vou disparar a máquina!

Nesse momento, Polônio entrou trazendo duas garrafas de cachaça e tira-gosto de frango à passarinha.

– Desculpem interrompê-los, mas está na hora do lanche do rei. Seo[25] Robério, digo, Conde Albérius, sirva-se à vontade!

“Conde Albérius, uma porra! Você vai conhecer já, já o baiano Robério Siqueira, seu filho de uma égua”! – Pensou Robério.

– Espero que tenha gostado das roupas apropriadas que o senhor está vestindo e do nome que escolhi para você. – Disse Polônio.

Polônio não encontrou na lista de nomes dinamarqueses nenhum paralelo com o nome Robério. Assim, ele mesmo resolveu que Robério seria o Conde Albérius.

– Vamos conde, – Disse Polônio – experimente nossa cana de cabeça!

– Não bebo quando estou em serviço. Já que você está aqui, junte-se ao rei Ramilete para uma foto de lembrança.

Polônio se juntou ao rei para sair na foto.

– Muito bem, agora façam o “V” da vitória, digam “xis” e vão para o inf…

Albérius puxou o gatilho e o que eles ouviram em seguida foi uma sonora explosão. O tiro saiu literalmente pela culatra arremessando o Conde Albérius três metros para trás e deixando o rosto dele todo tostado e cheio de fuligem. Com a explosão, a espingarda partiu para cima de Ramilete e Polônio feito um míssil numa velocidade impressionante. Ela passou entre os dois quebrando uma vidraça e desaparecendo como um cometa na noite sertaneja. Há quem diga que a máquina do Conde entrou em órbita e está até hoje dando voltas em torno da Terra.

– Conde Albérius, o que aconteceu?! – Perguntou Polônio.

– Estou me tremendo todo – Disse o Conde – Bote uma meiota[26] de cana pra mim!

Quando eles tomaram o último gole de cachaça, Albérius falou chorando:

– Ô desgraça de cana boa! Isso me faz lembrar do finado Renatus, companheiro de pileque! Oh, meu deus, que triste fim ele teve! Nos braços de sua mamãe querida, momentos antes de morrer, depois de passar dois meses substituindo água e as três refeições diárias por cachaça, ele começou a ter convulsões. No seu último suspiro ele perguntou: “Mãe, no céu tem cana? ”. E morreu.

– Foi uma história muito triste. – Disse Ramilete.

– Meu rei, eu sou um imprestável! – Disse Albérius – Eu quase o matei! Mas fique sabendo que, de hoje em diante, é meu padrinho padre Cícero no céu e o senhor na terra! Ô Jesus, dai-me força, Jesus! Quase matei esse homem santo! Ô cachaça boa da porra!

Depois desse dia, nas poucas horas em que Albérius estava sóbrio ele planejava o assassinato do rei Ramilete. No restante das horas, bêbado, ele desmanchava tudo e virava o mais feroz defensor do rei.

Conta-se que o conde Albérius certa vez foi contratado para executar um serviço extra. Ele recebeu um bilhete com a seguinte informação: “Matar Chico Cancão. Pagamento adiantado. Dois contos de réis”.

Albérius respondeu: “Não mato por correspondência. Soque seus dois contos no cu”.

No outro dia apareceu um cidadão na casa de Albérius e se apresentou dizendo que era a pessoa que havia mandado o bilhete no dia anterior. Albérius olhou para o camarada e disse:

– Não mato por carta. Mato na cara. E se quiser eu arranco tripas, bofes e coração para provar! Quer a orelha dele?

– Não, Seo Albérius! Não precisa tanta judiação, não! Basta uma morte matada sem muita dor, num sabe? Dessas mortes bem morridas, mas sem crueldade. Nem precisa estragar muito a cara do desgraçado, num sabe? É pra viúva e os filhos do finado não sofrerem muito.

 – Vou logo lhe dizendo umas coisinhas: não mato idosos nem mulheres; não mato criança nem jumento! Criança eu não mato porque isso é pecado que a gente não paga nem indo pro inferno com tripa e tudo; jumento eu não mato porque foi ele que carregou Nosso Senhor Jesus Cristo fugindo da matança dos romanos. Ainda hoje o jumento traz a marca, nas costas, do mijo santo de Nosso Senhor. Também não gosto de matar padre. Se precisar eu mato, mas dizer que eu gosto, eu não gosto, não! Dá um azar tão infeliz! Sacristão e pastor eu até mato, mas não me peça para matar um jumento. Aí você vira meu inimigo! Casa que tem a imagem de Padre Cícero eu não arrombo e só entro se for para rezar. Não mato quengas nem mulheres gaieras porque toda quenga é protegida pela minha santinha, Maria Madalena, e todo par de chifres tem um corno que o merece! Para finalizar, só mato homem que me faz raiva!

– Ave Maria, tá difícil de lhe contratar! Chico Cancão já lhe fez raiva?

– Não.

– E como é que o senhor vai aceitar minha encomenda de mandá-lo pro além?

– Basta você contar o que ele fez. Aí eu vou escutando e pegando ar feito pneu de trator, num sabe?

– Pegando ar?

– Sim, meu camarada! Eu vou inchando de raiva feito sapo cururu, num sabe?

– Ah, tá!

– O que foi que ele fez?

– Peguei ele na cama com minha mulher.

– Hum… Isso não me deu raiva, não. Ele deu porrada nela?

– Deu.

– Ah, filho de uma puta! Bateu numa mulher casada! Vou arrancar os ovos dele! Diga mais, diga mais! Ela chorou?

– Não. Foi a desgraçada que pediu para apanhar. Eu estou revoltado com uma coisa dessa! Logo eu, que nunca bati nela nem com um chumaço de algodão!

– Perdi a raiva. Tô começando a ter raiva de você! Ele fez a caridade que você nunca fez a sua mulher! Ela gosta de levar pau e porrada! Tá explicado, homi de deus! Acabe com essa frouxura e aceite a gaia[27] que levou! Triste do touro que não aceita as bênçãos de uma vaca, e triste é o corno que não reconhece seu lugar! Isso é choramingo de cornice mal curada!

– Mas ele andou nu pela minha casa!

– Se sua filhinha viu aquele safado nu com as “coisas” arrastando pelo chão, aí não tem jeito! Aí eu pego ar e faço ele engolir as “coisas”! Olhe, eu já estou todo me tremendo de raiva e me coçando feito porco só de pensar na figura desse pedófilo!

– Mas eu nem tenho filho nem filha, mestre Albérius!

– Como é que um homem nessa idade não tem um filho?! Ave Maria, parece que é brocha! Desse jeito eu não pego ar nem pra dar um susto nesse urso que andou acunhando na sua mulher!

Todo triste e choroso, o contratador teve a ideia de criar um argumento infalível para convencer o Conde de que o Chico Cancão deveria morrer:

– É… – Esse “É” foi bem longo – Se tivesse ao menos consertado a imagem de padre Cícero que ele quebrou…

– O quê? Você tá me dizendo que aquele ateuzinho do diabo arrebentou meu padrinho, Pade Cíço? Satanás dos infernos! Ele me paga! Defuntarei, hoje mesmo, esse lúcifer!

Albérius passou uma semana montando acampamento perto das terras de Chico Cancão. Quando estava quase pronto o cerco para pegá-lo, o contratador apareceu e disse:

– Seo Albérius, pode parar com a tocaia. Desisti da avença. Chico Cancão devolveu minha mulher.

– Isso não é da minha conta! Gaia botada pode até ser tirada, mas o espancamento do meu padrinho, Pade Ciço, não se tira! E depois que eu pego ar com um sujeito, só volto ao normal quando eu arranco a cabeça dele e enfio no topo de uma vara!

– Não precisa mais fazer o serviço!

– Vá embora! Faltam dez minutos para Chico aparecer ali, perto da entrada da fazenda. Vou dar um tiro bem no meio dos chifres dele!

– Olhe, pode ficar com os dois contos de réis. Mas não precisa mais matar o infeliz!

– De jeito nenhum! Ninguém desmoraliza Pade Cíço[28] e fica vivo para contar a história!

– Mas foi um acidente! Ele só queria correr de mim e bateu, sem querer, na imagem de meu padrinho!

– Mesmo assim, ele feriu o padre! Vai morrer já, já!

– Mas só quebrou um dedinho do santo padre!

– Ai, meu Deus, isso doeu em mim! Pobre do meu padrinho! Como vai abençoar os pecadores, como eu, se tá faltando um dedinho! Ai, que ódio! Antes de matar esse desgraçado eu vou arrancar todos os dedos dele!

– Mas mestre Albérius! O dedinho já sarou! Eu mesmo consertei!

– Já sarou? Você consertou?

– Consertei!

– Mas ainda tô com raiva! Mato esse filho do capeta ainda hoje!

– Então faça uma coisa: dê só uma coça[29] nesse traidor e tá tudo certo!

– Uma camada de pau no lombo daquele amaldiçoado até que seria justo! Afinal, foi só um dedinho quebrado! Mas o senhor me deu dois contos! Tome um conto de volta porque se eu der uma surra de dois contos naquele miserável, ele nunca mais se levanta do chão! Vou dar uma surra de um conto tão bem dada que toda vez que ele se lembrar disso vai cagar um osso!

Capítulo VI

Na sala de jantar do castelo Elsinor estavam presentes o novo rei dos jumentos (Cláudio, irmão traíra do velho Ramilete), Hamlet Júnior e sua mãe Gertrudes (a quenga do novo rei), Laertes e seu pai Polônio, Voltimando, o corno Cornélio, alguns cavalheiros, vários cortesãos e meia dúzia de babões.

Terminado o café da manhã, onde foram servidos arroz de tatu, tatu cozido, tatu assado e tatu ao molho de tomates com farofa de tatu, o rei limpou a boca com a toalha da mesa e ergueu um brinde aos convidados em cuias de cascos de tatu.

O novo rei, sedento de desejos de possuir Gertrudes com o consentimento dos súditos, pois sem o consentimento ele já havia consumido a vagabunda, apressou-se em divulgar seu casamento:

– A morte do meu irmão, Ramilete, ainda está sendo comemorada, digo, ainda está fresca. Seus ossos ainda contêm um pouco de gordura presa na carne inchada e pútrida onde os vermes se deliciam! Logo mais, seu corpo será devorado também pelas baratas, larvas de insetos, alguns roedores e toda sorte de vermes. Uma coisa que muitos que estão aqui nem imaginam é que tatus também comem defunto.

Houve um burburinho à mesa seguido de alguns argh, argh, ânsias de vômito nos convidados e expressões faciais de reprovação e nojo, mas logo que o rei reiniciou sua fala todos se calaram.

– Embora o decoro recomende luto, – Disse o rei – nossos desejos, digo, a razão se opõe ao fingimento. Esqueçam isso que eu disse. O que eu quero mesmo dizer é que a razão se opõe ao sofrimento pela perda do meu valoroso irmão. Por isso, devemos pensar em nós e nas razões para estarmos vivos. Quem morreu, morreu e nada se pode fazer! Sem mais lenga-lenga, encerro este discurso dizendo que vamos nos acasalar, digo, casar ainda hoje. Eu e Gertrudes, é claro. Tenho outra coisa a dizer: Forte Brás, aquele fedelho, reivindica as terras que seu pai perdeu para o corno velho, digo, meu velho irmão, Ramilete. Todos os dias esse putinho manda recados para mim. Polônio, leia o recado de hoje.

– Sim, valoroso rei. Farei isso com o maior prazer. Aqui diz: “Caguei na sua porta hoje de manhã. Devolva minhas terras e eu mando limpar sua porta. kkkkkkkkkkkkkkkk”.

– Está claro que esse sacana quer briga – Disse o rei – Assim, convoco Voltimando e o corno Cornélio para irem em missão de paz conversar com o tio de Forte Brás. Talvez o velho consiga frear esse filho da puta!

– Tudo faremos, meu rei – Disse Cornélio – Tudo faremos para livrar nosso rei dessa desgraça.

– Tudo, tudo, quase tudo ou nem tudo? – Perguntou Ramilete Júnior. E Voltimando respondeu:

– Tudo, meu senhor.

– E se o velho, tio de Forte Brás, pedir-lhe a esposa em troca desse favor? – Insistiu Ramilete Júnior.

Cornélio deu um passo à frente, estufou o peito e disse:

– Por Sua Majestade, cedo minha mulher, pois daremos tudo que ele quiser!

– Tudo, tudo mesmo? – Perguntou o incrédulo Ramilete Júnior e obteve como resposta um “tudo” bem sonoro.

– Farei uma última pergunta. Veremos se vocês darão tudo mesmo.

– Faça, meu príncipe! – Respondeu o corno Cornélio.

– Se o velho lhe pedir o anel…

– Basta, Ramilete! – Interrompeu o rei.

– Meu rei, uma pergunta do príncipe não pode ficar sem resposta. – Atalhou Voltimando – Cornélio falou tá falado e mesmo que eu caia em casa de marimbondo, pra salvar este reino, cedo até o meu redondo.

– Eu ia perguntar sobre seu anel de formatura – Disse Ramilete – pois sendo presente do rei, é o bem mais precioso que você tem. Quanto ao anel de couro…

– Cale-se, Ramilete! – Gritou o rei.

Quebrando o silêncio constrangedor que se fez, o rei perguntou a Laertes:

– O que o traz aqui?

– Vou à França.

– E o que é que eu tenho a ver com isso?

– Tem tudo a ver, meu senhor – Respondeu o pai de Laertes, Polônio.

– Continue, Polônio – Disse o rei.

– Aproveitaremos a viagem do meu filho para oferecer aos franceses as “coisas” dos jumentos, já que os chineses não querem.

– Bem pensado, Polônio.

Virando-se para Ramilete, o rei falou:

 – E você, meu filho…

– Meu filho, não! Sou seu sobrinho!

– Como você tem tanta certeza assim? – Perguntou o rei.

Um silêncio sepulcral se fez no recinto. Gertrudes ficou vermelha de vergonha; Polônio e todos os convidados deixaram o queixo cair, mas foi quando Ramilete pegou no cabo de sua faca gaúcha que o rei quebrou o silêncio dizendo:

– Peguei vocês, brincadeirinha!

Gertrudes não respirava há quase um minuto. Aliviada, todos ouviram seu suspiro. Ela olhou para Ramilete e disse:

– Filho, não vê que o rei só quer ser seu amiguinho? Pare de botar chifre na cabeça do jumento velho. A morte do seu pai, espumando feito cachorro raivoso, foi normal. Tudo que vive pode, de repente, botar espuma por todos os buracos e morrer de congestão.

– Tem razão, senhora, foi uma morte comum. – Respondeu Ramilete.

– Foi tanta espuma que parecia que ele tinha comido uma caixa de detergente verde. – Completou Polônio – No caminho, por onde o caixão passou rumo ao cemitério, seu pai deixou um rastro de espuma do tamanho de um trem. Era o padre rezando e a espuma saindo da boca dele. Foi tanta espuma que o coveiro olhou para mim e perguntou: “Vou enterrar um homem ou uma barra de sabão?”.

O rei deu uma gargalhada e disse:

– Ramilete, meu filho, não escute as palavras desse ser rude. Polônio é exagerado. Vamos, solte sua dor. Não reprima suas lágrimas.

– Eu não sou seu filho, já disse! Eu não tenho certeza, mas eu não sou seu filho! Não sairei por aí chorando feito uma gazela louca desvairada! Eu vou chorar minha dor como um homem crescido que sou até que se cumpra o que vou lhe dizer: tudo que é vivo morre! Mais cedo ou mais tarde, tudo que é vivo morre!

– Senti um frio na espinha.  – Disse o Rei – Até parece que você está me agourando. Nunca se esqueça de que a morte natural do seu pai foi muito natural. Você não é o primeiro filho neste mundo que perde seu pai. Todos tivemos um pai que morreu. Você teve um pai que morreu. Seu pai teve um pai, que também era meu pai, que morreu. E o pai do seu pai teve um pai que morreu. E o pai do pai do seu pai teve um pai que morreu. E o pai do pai do pai do seu pai teve um pai que morreu. E o pai…

– Já entendi! – Interrompeu Ramilete.

– Se entendeu, então por que tanta mágoa, tanta dor, tanto luto? Além do mais, foi só uma espumazinha besta.

– Não foi, não! – Interrompeu Polônio – Não foi uma espumazinha besta, não! Ainda ontem os meninos estavam brincando de fazer bolinha de sabão com ela!

O rei deu um sorrisinho de menino amarelo e dispersou os convidados encerrando a reunião:

– Agora vamos todos para os nossos aposentos. Quero dizer que cada um vá para o seu aposento. Dormirei um pouco. Gertrudes, venha comigo. Estão subindo umas coisas. É melhor se apressar antes que as coisas caiam e desapareçam.

Ficando sozinho, Ramilete falou aos quatro ventos desabafando sua dor:

– Oh, deus meu, como tenho vontade de tirar minha vida e libertar deste corpo a alma que sofre! Oh, sentimento de pecado que me consome a alma! O que mais tenho que passar nesta vida? Responde, meu deus! Por que não responde? Por que não responde pelo menos uma entre milhares de perguntas que tenho feito? Quem nasceu primeiro, o ovo, a galinha ou a canja? De onde vem a luz anal do vagalume? Responde, oh impostor! Por que só escutas os loucos? Por que as mente sãs não te ouvem, não te veem?

Depois de levar as mãos à cabeça ele se ergue e diz:

– Chega, não mais perderei meu tempo falando com as paredes! Saiba, quem quiser saber, que ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, nada temerei! Nem a ti temerei, oh imaginário ser do bem ou do mal! Escutem os que tiverem ouvidos para escutar: não temo nem o céu nem o inferno nem deuses nem diabos! Meu pai, o único ser capaz de me guiar na escuridão deste mundo, foi-se para sempre nas sombras de uma noite que não tem fim! E a minha mãe, aquela que me deu a luz que me ilumina, agora me cega de vergonha! Aquela que era minha doce mãe, cujos seios me amamentaram, hoje permite, tal qual uma vagabunda, que um vira-lata do rabo fino transforme esses mesmos seios em almofadas de puteiro! O marido nem esfriou no túmulo e ela já se entrega nos braços da luxúria, putaria e safadeza com esse bastardo que se intitula meu pai! A ter um pai como esse, prefiro o fogo ardente do inferno! Digo isso sem sentir o menor medo de ser perfurado, na mansão do Pé de Bode, por cinco milhões de tridentes em brasa! Oh, sensualidade pecaminosa, teu nome é mulher! Nem gastou o primeiro solado do sapato com que acompanhou o enterro do meu pai e já participa de orgia com esse boi tatá dos infernos! Uma cachorra, a quem falta o sentido da razão, teria chorado um pouco mais! Oh, vadia sem escrúpulos! Que pressa infame de dar ao primeiro macho que aparece! Ahrg, cachorra da moléstia, cadela no cio, vaca despudorada e amancebada com um jumento! Por que simplesmente não usou um cinto de castidade e jogou a chave no mar? Um brinquedo de borracha faria o mesmo efeito, oh infame tara! Mas, de todos os métodos existentes para curar o cio que faz arder as entranhas da minha mãe, tenho certeza de que um simples banho gelado para esfriar a…

– Encontrei você, nobre amigo! – Disse Horácio.

– Horácio e Marcelo, que bom vê-los neste momento tão infeliz para mim! O que fazem aqui?

– A inclinação à viadagem nos atrai, digo, a inclinação à vadiagem nos traz aqui.

– Ah, isso não é verdade! Todos sabem que vocês são viados, e não, vadios! Enganei-me, peço perdão! Eu queria dizer que todos sabem que vocês não são vadios. O que traz vocês aqui, afinal?

De repente eles se assustam com os gritos de Gertrudes que vêm de um dos cômodos: “Oh, my god! Oh, my god! Ohhhhhhhh! Ohhhhhhh! Fuck me! Fuck me! Ohhhhhh! Uiiiiiiiiiiiiiiiii! Oh, meu deus”!

– Valei-me, padre Cícero! Isso sim é que é sofrer a dor de perder um marido! – Exclamou Horácio – Vamos, Marcelo, precisamos ajudar a enxugar as lágrimas da mãe do ilustre amigo!

Ramilete murchou os lábios e disse:

– Se vão enxugar alguma coisa, levem uma toalha, uma bacia com água e meia barra de sabão.

– Que mal lhe pergunte, caro príncipe, para que servem tais materiais numa hora desta?

– Qualquer prostituta do interior de Pernambuco saberia lhe responder com precisão. Mas deixemos de lado os prolegômenos, as putarias e vamos direto ao assunto. O que vieram fazer aqui, adoráveis amigos?

– Assistir aos funerais do velho. – Disse Marcelo.

– Lamento dizer que chegaram tarde para isso. Mas se quiserem ficar por mais dois minutos, lavarão a cueca suja do meu tio, as calçolas e os lençóis manchados da minha mãe.

– Não se preocupe com isso, meu príncipe, a camareira do motel fará isso por nós.

– Oh, amigos queridos, isso dói na alma! O fantasma do meu pai ainda deve estar cavalgando pelas pradarias eternas! Enquanto isso, minha mãe cavalga em cima de uma…

– Ramilete, eu vi seu pai! – Interrompeu Horácio.

– Viu quem?

– Vi o corno velho, digo, o velho rei Ramilete.

– Viu quem?

– Vi o jumento velho com estes olhos que a terra nunca haverá de comê-los! Agora, escute bem!

– Sou todo ouvidos! Como ele era?

– Era um belo rei!

– Belo? Não, não era meu pai.

– Um jumento estava montado nele, digo, ele estava montado num jumento!

– Ainda assim, não era meu pai.

– Tinha a cabeça achatada e grande.

– Parece com meu pai, mas ainda acho que não era meu pai.

– Usava o mesmo gibão sujo, surrado e soltava peidos que fediam mais que carniça recusada por urubus!

– Ainda acho que não era ele.

– Disse que passou a vida feito corno cebola: levando gaia e chorando.

– Não, isso quase me convenceu, mas não era ele.

– Mandou lhe entregar a identidade, o CPF, o título de eleitor, duas contas de água e luz para pagar e a fotografia. Veja aqui. É ou não é o corno velho?

– Ser ou não ser, eis a questão! Fico com a primeira opção: “ser”! Neste caso, aceito a ideia de que era meu pai. Pai falou alguma coisa?

– Ele disse: cave minha sepultura e veja se está nascendo um par de chifres. Ele ia dizer outra coisa, mas o galo cantou e…

– Todo mundo sabe – Interrompeu Ramilete – que o galo acorda o deus do dia. O deus do dia, por sua vez, sai por aí com um tridente capturando os espíritos zombeteiros fujões. Para não levar uma tridentada no rabo, os espíritos errantes fogem para suas catacumbas e se enterram em cova funda se não vem o deus do dia para empurrar na sua…

– Foi isso mesmo que aconteceu! – Confirmou Horácio.

– Preciso ver isso! – Exclamou Ramilete – Ficarei de guarda com vocês hoje à noite.

– Será uma honra para nós, meu senhor.

– Se ele aparecer e for mesmo meu velho pai, mesmo que eu seja condenado ao inferno, falarei com ele! Falarei nem que deus, com seu ciúme, sua vaidade, frieza, arrogância, estupidez e fraqueza, lance também minha alma às profundezas do inferno! À meia-noite estarei com vocês! Mantenham segredo sobre isso e aguardem-me.

Sob o olhar intrigado de Ramilete, os dois, Marcelo e Horácio, saltitantes feito duas gazelas felizes com o verão nas estepes canadenses, voltaram para o posto de guarda do castelo.

Capítulo VII

Na casa de polônio, Laertes se prepara para viajar levando uma carga de “coisas” de jumentos para a França. Enquanto isso, em um dos cômodos da casa, nua, Ofélia veste vagarosamente sua meia calça. De corpo moreno escultural, a virgem se veste para se despedir do irmão. O vestido desliza suavemente pelo seu corpo enquanto uma brisa gelada que entra pela janela faz os pelos do bumbum bem desenhado arrepiarem. Os bicos dos seios perfeitos intumesceram com o frio e ela envolveu seu corpo com os braços, atritando as mãos aos ombros, buscando aquecer-se. Arruma os cabelos longos, castanhos e levemente cacheados, descobrindo os ombros delicados. Pinta os lábios com um batom suave, cor de pele, enquanto o espelho estremece de prazer ao ver o mais puro, lindo e honesto rosto de mulher. Um rosto nunca tocado por mãos sujas de machos cujos comportamentos lascivos os tornam indignos de estarem no mesmo ambiente que ela. Após a pintura, suspira e se imagina nos braços do amado Ramilete. Qualquer homem de verdade se sentiria o mais sortudo e mais poderoso que qualquer deus já criado pelos homens se apenas merecesse, por um segundo, o olhar de Ofélia. No entanto, Ramilete, jovem inexperiente e donzelo, apaixonado por ela, agia da mesma forma como agem os potros jovens no cio que necessitam de ajuda do vaqueiro para a introdução da “coisa” na “coisa” da égua. Sem a ajuda do vaqueiro, é capaz de o potro enfiar aquela “coisa” no ouvido da coitada da égua. Mas, fazer o que? Quis a natureza que uma fêmea daquela magnitude, como é o caso de Ofélia, se apaixonasse por um imaturo.

– Ofélia, querida, não posso esperar para sempre! Minha carruagem vai partir!

– Estou indo, irmão!

Ofélia chega à sala e encontra o irmão. Ele a observa de cima a baixo e diz:

– Farei sarapatel do fígado do primeiro porco que tocar esse corpo. Você está linda, como sempre, irmã!

Ele a abraça e na despedida diz:

– Não se esqueça de me mandar notícias. Quanto a Ramilete, aquele mané[30], e os encantamentos de suas atenções, aceite isso apenas como algo passageiro.

– Não mais que isso?

– Não mais. Ele é apenas um mamão, um pau mandado, mas ainda é rico e nobre. Você é apenas uma linda filha de um servo. Ramilete, certamente, vai fazer a vontade do tio, para o bem dos negócios da família. Ele jamais terá vontade própria. Cuide-se. Quando aquele mané diz que te ama está apenas desejando que você facilite e ele a derrube numa cama.

– Não sei se ele é capaz, irmão.

– Não duvide, irmã, até um cego consegue. Vai tateando, tateando… Assim, pense bem e defenda sua honra. Se abrir as pernas ele pega você com dificuldade, mas pega. Cuidado, irmã! A donzela mais casta não é bastante casta se retira a casca e seu corpo gasta, oferecendo sua…

– Sua rima não parece muita boa, dileto irmão. –Interrompeu Ofélia.

– Foi mal. Eu quis dizer que não desnude seu corpo para um cachorro se satisfazer à luz da lua. Nunca esqueça que batatinha quando nasce esparrama pelo chão e as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.

– Não entendi essa última frase, amado irmão.

– Eu quis dizer que colchão e travesseiros de pena de ganso, esparramados pelo chão, costumam presenciar o voo dos cabaços das donzelas atraídas pelo canto da sereia, entendeu?

Com a cabecinha um pouco zonza, ela indicou que entendeu, por achar que não valia a pena discutir tamanha idiotice, e disse:

– Ah, tá. Agora, vê se não faz como os falsos defensores da castidade alheia que dizem uma coisa e fazem outra e se acham a própria luz do cu do vagalume. Não caia no canto das sereias e se beber não dirija. Se dirigir não beba. Se beber, durma virado para a parede.

– Não entendi, cara irmã, essa última frase.

– Eu quis dizer que caneco de bêbado não tem dono, amado irmão.

– Ah, tá. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, estica lá, encolhe cá, vai pelando o sabiá.

– Não entendi, doce e adorável irmão, essa última frase.

– Eu quis dizer que você fique longe da pomba de Ramilete. Deixe ele se acabar na mão feito colher de pedreiro.

– Ah, tá! Bem aventurados os padeiros que não queimam a rosca, pois eles…

– Tchau, papai está vindo aí. – Interrompeu Laertes.

– Aí, também! – Respondeu Ofélia apontando para os glúteos do irmão.

– Ainda aqui, Laertes? A carruagem está num pé e noutro te esperando, homem de deus! Apresse-se!

Ele põe a mão na cabeça do filho e diz:

– Vai com a minha benção, vai! E trata de guardar minhas últimas palavras: não fale tudo que pensa, nem haja conforme tudo que pensou, pois tolo que pensa merda, faz muita merda; seja amistoso e bom, mas não se abra muito, pois quem se abre demais acaba mostrando o fundo das calças; os amigos de verdade, agarre-os com unhas e dentes, mas nunca deixe que os franguinhos recém saídos do ovo o agarrem por trás; dê um boi pra não entrar numa briga, mas se entrar, dê uma boiada para não sair dela; ouça todas as fofocas de manicure quando for ao salão de beleza, mas não se torne uma delas; escute a opinião tola dos criacionistas, se isto te trouxer vantagens econômicas, como o prêmio Templeton, mas se a doença te levar pra cama, confie somente nos doutores evolucionistas; se usar roupas velhas não confie naquelas que tenham um rasgo na bunda, pois esse descuido com os fundos revela o homem. A bunda é o maior patrimônio que um homem pode ter, não empreste nem peça emprestado, pois quem empresta perde a bunda e o amigo e quem pede emprestado já perdeu o controle de sua própria bunda. Seja fiel a você mesmo, nunca ache que emprestar o caneco uma vez não causa vício, pois se enganar a si mesmo será capaz de enganar os outros; nunca deixe alguém farejar seu cangote e conduzir seus atos como se conduzem as marionetes, pois, por experiência própria com o rei, eu…

– Pai, eu já entendi. Agora preciso ir.

– Vai, meu filho, vai com as “coisas” dos jumentos. Espero que não dê aos burros na água, digo, não dê com os burros na água. Digo melhor, não dê de jeito nenhum!

– Pai, eu já entendi!

– Outra coisa, espero que os franceses aceitem as pombas e as bolas dos jumentos.

– Obrigado, pai.

Virando-se para a irmã, ele assim falou:

– Adeus, Ofélia, e não se esqueça do que eu disse.

– Não esquecerei, querido irmão.

Laertes apenas pôs os pés na escadinha da carruagem e Polônio, curioso feito camareira de motel quando percebe uma mancha estranha nos lençóis, se dirigiu a Ofélia:

– O que ele disse?

– Ele disse tanta coisa que eu fiquei confusa.

– Vamos, tente lembrar, tolinha!

– Falou de um mamão na cama… Se eu abrisse a boca um cachorro ia se satisfazer com a lua… Disse que batatinha quando nasce esparrama pelo chão e os cabaços, que com as pombas voam, não gorjeiam como lá.

– Bobagens! O que mais ele disse?

– Falou de uma sereia que cantava loas enquanto uma colher se acabava na mão do padeiro. Falou que Ramilete gostava de pelar o sabiá…

– Ah, eu sabia! Sabia, como se soubesse hoje, que o sabiá sóbrio sabia assobiar! Ele tinha que falar de Ramilete, o canela de sabiá! Por aí, falam que você e o príncipe andam bastante entusiasmados um com o outro! Conte-me! O que há entre vocês?

– Apenas ternura de irmãos.

– Ternura uma ova! Você, por ser pura e casta, não sabe do perigo que passa nas mãos daquele sonso! Aquilo é um tarado, minha filha! Aquele donzelo seria capaz de estuprar uma porca recém-parida!

– Senhor, não sei o que pensar!

– Ele já meteu a mão em suas “coisas”?

– Senhor, por favor, isso me ofende! Se ele me importuna com palavras de amor, isso ele faz da forma mais honrosa!

– Alçapão para apanhar rolas, digo, pererecas! Não acredite nas promessas dele! São chispas! Dão mais luz que calor! Quando o sangue ferve, a língua coça e as coisas inflam! O que ele diz a você são apenas mensagens de ânsias pecaminosas: coisas que essa cabecinha de anjo celestial ainda não entende. Você não percebe porque ainda é uma virgem pura e inocente. De hoje em diante não quero você trocando juras de amor com ele. Você está proibida, entendeu?

– Apenas obedeço, meu pai.

Ofélia abaixou a cabeça, cumprimentou o pai e disse que ia chorar no quarto como fazem as donzelas dos filmes quando são proibidas de ver seus amados.

Capítulo VIII

Após a conversa com seu pai, Ofélia, em vez de ir lamentar sua sorte no quarto, foi praticar tiro ao alvo usando arco e flecha. No meio do seu treino diário, apareceu Ramilete montado em um cavalo. Ela mirou em sua direção e disparou. O tiro acertou o chapéu dele. Assustado, o cavalo empinou as patas dianteiras e o derrubou. Ela não se conteve, deu uma sonora gargalhada e disse:

– Você “caiu do cavalo”, meu amado!

– É melhor do que “cair do banco[31]” como seu irmão afeminado! Ofélia, você ficou louca?!

– Louca eu vou ficar se você me enganar! Sabia que eu consigo acertar dois ovos com uma flechada mesmo estando a cem metros?

No chão, Ramilete Júnior encolheu as pernas e disse:

– Que horror!

– Se for no seu caso, eu não uso o arco e a flecha. Eu calço uma bota bico fino e estouro seus ovos!

– Ofélia, nunca faça nem uma coisa nem outra, tá, meu bem? Deixemos de lado os ovos e vamos falar de nós. Como vou ficar de guarda hoje à noite, com Horácio e Marcelo, resolvi passar esta tarde com você.

– Estou proibida de vê-lo, meu amor. Preciso ir antes que meu pai nos veja.

Ramilete montou em seu cavalo e antes de seguir seu destino Ofélia se aproximou, beijou-lhe as mãos e deu uma leve mordida no dedo indicador do príncipe. Ele sorriu e disse:

– Voltou a ser criança, foi? Está dando para morder agora, é?

Ela pegou outra vez o dedo dele e o introduziu por inteiro em sua boca para em seguida retirá-lo lentamente como se estivesse chupando um pirulito. Todos os músculos do pudico príncipe ficaram rijos e seus olhos estiveram perto de sair de suas órbitas. Tal qual uma donzela pura e casta, com um sorrisinho desconsertado, ela ainda prendeu a linguinha entre os seus dentinhos alvíssimos como as nuvens de algodão e, balançando levemente a cabecinha, corou. Ramilete sentiu o calor donzelíssimo tomar seu corpo inteiro, tremeu nervosamente feito rola de porco, ruboresceu o rosto pálido, enxugou o suor da testa e falou com voz sofrida de quem estava sentindo muita dor:

– Tá me dando um calor estranho no corpo! Acho que vou pegar um resfriado e vou ter muita febre.

– Febre? Queria eu que você fosse tão quente quanto uma noite de febre. É mais fácil você congelar, meu amor.

– Não entendi, Ofélia.

– Eu quis dizer que você é um sorvetinho. Mas eu vou preparar uma bela calda de chocolate quente para você.

– Eu quero o meu com baunilha.

Dizendo isto, ele partiu para o posto da guarda. Mas foi cavalgando de um modo estranho: esticando as pernas e colocando uma das mãos por dentro da cueca. Antes que você pense alguma coisa feia, devo dizer que os homens precisam aparar seus pelos pubianos de vez em quando, pois se esses pelos ficarem muito longos eles se enroscam na genitália murcha. Agora, imagine: o que acontecerá se algo fizer essa genitália crescer e se expandir? Isso mesmo, ela arranca os pelos pela raiz. Nosso herói experimentou essa sensação.

Depois de arrumar as “coisas” no emaranhado de pentelhos, ele se sentiu aliviado da dor e deixou escapar a estúpida frase que serpenteava em sua mente: “Ave Maria! Ofélia daquele tamanho ainda chupa dedo”! Que coisa feia!

Capítulo IX

Na esplanada do castelo estavam Ramilete, Horácio e Marcelo conversando, como todas as pessoas que vivem de bem com a vida, sacanagens. Somente quando eu, o narrador, passei a observá-los é que as conversas adquiriram um nível bem melhor.

– Aqui faz um frio do carai! – Disse Ramilete.

– Ele penetra na gente, não é? Vai entrando por todos os buracos. – Disse Horácio.

– Estou fora desse papo sombrio! Esse negócio de sentir coisa penetrando não é comigo. – Defendeu-se Ramilete.

– Escutem – Alertou Marcelo – Já soou meia noite. Está perto da hora em que o velho costuma aparecer.

Eles escutam o som de fogos de artifício.

– O que é isso? – Perguntou Marcelo. Ramilete respondeu:

– Começou a orgia no castelo. Isso é um deboche brutal, uma infâmia!

– É um costume?

– Não. É uma imposição daquele porco. Todos devem obedecer. Lá dentro, todo mundo pega todo mundo. No outro dia, eles agem como se nada tivesse acontecido. Não há puteiro no mundo onde se pratique mais devassidão do que na cama daquele cachorro!

– E Ofélia? – Perguntou Marcelo.

– Ela nunca participou disso nem vai participar nunca! – Respondeu Ramilete. – Um dia acabarei com esse randevu[32] e só respeitarei as mulheres honradas, as mulheres desonradas por algum filho da puta, as putas profissionais e as putas confessionais. Aquelas que posam de damas de honra, mas não passam de vadias serão expulsas. Esses novos hábitos adquiridos pelas pessoas decentes que foram transformadas em vadios e vadias, com a chegada desse cachorro no comando, fizeram com que suas virtudes fossem atiradas na lama. Isso é lamentável e intolerável! Uma gota do mal, meus amigos, uma simples gotinha suspeita transforma o leite da bondade no lodo da infâmia!

– Veja, meu senhor, lá está o fantasma! – Disse Horácio.

– Anjos e mensageiros de deus! – Gritou Ramilete – Defendam-nos agora ou vão para o inferno com seus deuses e todas as putas de Jerusalém! Santo que não me ajuda, faça o favor de não me atrapalhar!

E olhando para o fantasma, Ramilete ordenou:

– E você, sobrecu de peru preto, o que faz aqui?! Fala logo, resto de carniça do diabo! Diz o que deseja ou sou capaz de segui-lo até o inferno! Chegando lá, arranco o par de chifres do Belzebu e um deles deixo para as vagabundas, o outro, no satanás afundo! Volte para sua catacumba se não as pombas vão girar e se enterrar na sua…

– Meu senhor, tenha misericórdia! Tenha pena da alma desse infeliz! Modere o tom de voz! – Interrompeu Marcelo se dirigindo a Ramilete.

O fantasma se vira para Marcelo e, sem dizer nada, abre os braços, estica o beiço, pende a cabeça para o lado direito e faz um gesto como se estivesse reclamando do palavreado de Ramilete.

– Está vendo, meu senhor – Continuou Marcelo – Ele não aprovou seu vocabulário. Eu conheço bem esse fantasma. Ele está reclamando do seu palavreado. Pegue leve, por favor, pois acreditamos que se trata de seu genitor!

– Eu me excedi. Peço desculpas. Diga a ele que vou aliviar.

Marcelo vai até o fantasma e diz:

– Desculpe os maus modos do rapaz. É que ele está meio nervoso. Coitado, descobriu que sua mãe é uma quenga, sabe como são essas coisas, né? Todos os vaqueiros andaram tirando leite da velha e agora o tio é quem está amaciando o lombo dela. Ele suspeita que é filho do urso, sabe como é, né? Agora eu vou voltar e a gente continua.

O fantasma faz sinal de positivo. Marcelo volta e diz:

– Tudo bem, pode continuar, meu senhor.

– O que você falou para ele? – Perguntou Ramilete.

– Eu disse que você estava nervoso porque teve medo de o Congresso Nacional enterrar o impeachment da presidente Dilma.

– Por falar nisso, como está a República?

– O Partido dos Trabalhadores afundou o país em dívidas e corrupção. Luís Inácio perdeu todo o respeito dos eleitores. O presidente do Senado e o presidente da Câmara estão envolvidos em corrupção até o pescoço. Resumindo: a lama cobre o Brasil.

O fantasma, impaciente com a demora para o reinício do diálogo com Ramilete, gesticulou apontando para o braço esquerdo, mais ou menos onde fica o relógio, indicando o avançar das horas. Marcelo fez sinal de positivo para o fantasma e disse que ia reiniciar a conversa.

– Meu senhor, – Disse Marcelo – o fantasma está preocupado com o galo! Daqui a pouco o filho da puta vai cantar. Faça logo suas perguntas, por favor.

– Tudo bem, amigo, vou perguntar.

Ramilete dirige a voz para o fantasma e pergunta:

– Você é meu rei, meu pai? Vai, responde! Não me deixa nervoso, desgraçado! Por que resolveu sair da tumba?

– Ele está fazendo sinal para que o senhor o acompanhe. – Disse Marcelo.

– Não vá, meu senhor – Disse Horácio. – Ele pode levá-lo com tripa e tudo para o inferno! Sabe lá o que os demônios podem fazer com o senhor? E depois? Direi aos nossos amigos que na casa do Cramunhão[33], Ramilete enamorou-se dos seus amantes, cujos membros eram como o de jumentos, e cujos fluxos eram como o dos cavalos[34]?

– Se não vou, ele não fala! Vou atrás dele! – Disse Ramilete.

– Não vá senhor! Depois não diga que eu não avisei! – Insistiu Horácio.

– Ora, não diga bobagens! Minha vida não vale um vintém! Minha alma é tão sebosa quanto à dele e, depois, umas pregas a mais ou a menos não fazem diferença alguma! Vou atrás dele! Não tentem me impedir!

– Mas, senhor, e se ele o arrastar para um harém cheio de loiras, negras, brancas e morenas gostosas lançando sua alma à perdição dos espíritos chifrudos e corroídos pelos prazeres da carne? E se depois de estuprado elas o atirarem de um penhasco cujo fundo está cheio de cavalos no cio?

– Mesmo com todo esse sofrimento, vou com ele! Não tentem me impedir senão rasgo o rabo de vocês com um toco sulista[35].

Ramilete segue o fantasma. Marcelo tenta segurá-lo, mas seu esforço é em vão.

– Tentarei segurá-lo, pois quero conhecer esse toco sulista! – Disse Marcelo.

– Vou com você, Marcelo, mas o que significa esse tal de toco sulista? – Perguntou Horácio.

– Não sei ao certo, mas desconfio que há algo de podre na república brasileira.

Capítulo X

 

– Para onde você me leva, ave de mau agouro? – Perguntou Ramilete – Fala ou não passo daqui!

– Você consegue me escutar? – Perguntou o fantasma.

– Tão claro como o dia.

– Está quase na hora em que devo voltar para as chamas do inferno. Siga-me.

– Por que anda com dificuldade?

– Quando você enterrou seu pai, digo, quando você me enterrou, certificou-se de que a cova era funda?

– Não era funda.

– Foi por isso que o deus do dia enterrou uma espada na minha… Deixe isso para lá. Quero que você me vingue.

– O quê?

– Sou o espírito do seu pai. Fui condenado a vagar pela noite com uma espada enterrada no traseiro até que eu pague por todos os crimes que cometi contra os jumentos. À noite, sinto certo alívio, mas durante o dia a espada esquenta muito com o fogo do inferno e me incomoda bastante e… Não posso dizer mais nada sobre os segredos do inferno. Digo apenas isso para aguçar a curiosidade e meter medo nos trouxas que acreditam que os demônios existem. Voltando ao assunto… Se você algum dia amou seu pai…

– Ó, deus, como eu o amei!

– Então, vingue-o, digo, vingue-me! Fui assassinado!

– Conte-me o que aconteceu e eu voarei para a vingança!

– Fui envenenado pelo meu irmão!

– Meu pai envenenou você?

– Você é estúpido? Seu pai sou eu!

– Ah, tá! Então meu pai foi envenenado? Ele está bem?

– Seu cabeça de pipoca! Se seu pai sou eu e eu sou o fantasma dele com uma espada enfiada no rabo, claro que não estou bem!

– Ah, tá! Entendi. É que Cláudio também diz que é meu pai. Todo mundo diz que é meu pai! Até Xaréu já insinuou isso. 

– Basta! Eu sou seu pai e não ele! Não tenho certeza disso por que não fiz o DNA, mas afirmo que sou seu pai! Na dúvida, depois de toda essa confusão, peça o exame.

– Não importa, eu vingarei meu pai!

– Tudo bem. Agora, ouça-me: foi assim, alimentado pela mão de um irmão, que perdi ao mesmo tempo a coroa, a rainha e a vida. A rainha, nem tanto, ela já estava velha, gorda, rabugenta e tão cheia de pregas quanto o cu de um gato. Mas, com o assassinato, Cláudio me roubou uma vida inteira de prazeres carnais! Não posso mais fumar, beber nem raparigar à vontade! Sem essas coisas, um homem nem precisa mais viver.

– Mas pai, eu não faço nada disso e quero viver!

– Você é um subproduto defeituoso da cachorrice do homem, não conta!

– Você também nunca fez nada disso do que está falando. Sempre o conheci tomando remédio controlado de tarja preta, logo, não podia beber; você nunca fumou quando jovem nem podia fumar agora por causa da doença dos pulmões; e, pelo que sei, há mais de dez anos o senhor não sabe o que é uma racha, pois o moinho já não mói mais, está de fogo murcho.

– Ora, não me lembre dessas coisas! Bom, isso agora não importa. O fato é que eu ainda queria viver e o filho da puta me matou. Isso basta. Vá lá e prepare a vingança. Mas não contamine sua alma engendrando coisa alguma contra sua mãe, entendeu? Entregue-a ao satanás, só isso. Agora preciso ir. As baterias dos vagalumes já estão fracas deixando pálidas suas luzes. A porra do galo vai cantar e acordar o filho da puta que enterrou a espada em minha… Você sabe o quê! Adeus de uma vez. Lembre-se de mim.

Quando o fantasma ia se perdendo de vista na escuridão daquele fim de madrugada, nosso herói viu um fraco clarão de raio e o baixo ronco de um trovão. Também ouviu o fantasma reclamar: “ai, filho de uma arrombada! Vai enfiar essa espada no cu da tua mãe”!

Desesperado, Ramilete grita:

– Oh, legião dos seiscentos mil demônios que ainda vivem no céu, ajudem-me a preparar a vingança! Se não puderem me ajudar, ao menos digam o endereço do inferno que irei, eu mesmo, em pele, osso, ódio e coração consultar o Ferrabrás. Ó, angústia, ó dor! Como posso viver em paz sabendo que meu pai vive atormentado no inferno? Oh, como deve ser dura a vida naquele horrendo lugar! E aquela espada enfiada no…

– Meu senhor! – Interrompeu Horácio, quase sem fôlego.

– O senhor está bem? – Perguntou Marcelo também esbaforido. 

– Estou bem. Prepararei minha luta contra a cobra de dois cus! Voltem para os seus afazeres!

– O que aconteceu, onde está a surucucu? – Perguntou Marcelo.

– Querem saber o que aconteceu, não é? Depois vão sair por aí fofocando feito duas peniqueiras, não é?

– Não, senhor, nossas bocas são dois túmulos!

– Juram guardar segredo?

– Juramos, senhor.

– Ok! Direi então assim: não há em todo o Brasil um só canalha que não seja… um patife consumado. Pronto, falei!

– Senhor, não é necessário um fantasma sair do inferno para nos dizer isso. Até quem mora no Curdistão ou Cu Distante, mais conhecido como o cu do mundo, sabe disso!

– Tem razão – Confirmou Ramilete – E se o fantasma tivesse me dito que:

“Lá em cima daquela serra

Tem um pé de umbu botando

Umbu verde, umbu maduro

Umbu seco e umbu secando”?

 

– Não entendi, meu príncipe! – Disse Marcelo.

– Então, fica o dito pelo não dito e tudo no cu de Expedito. Vamos apertar as mãos e depois voltem para os seus trabalhos. Agora, deixem-me só. Vou rezar para São… São… São qualquer coisa!

– O senhor não está dizendo coisa com coisa. Bebeu xixi de mariposa?

– Não, Horácio. Mas que rima pobre e infantil você acabou de usar! Querem saber? Vão amolegar um rolo de fumo de jumento e me deixem em paz!

– Marcelo, acho que nosso príncipe está variando! Está ficando louco! É possível que rasgue dinheiro e coma merda antes de amanhecer o dia!

– Perdão, amigos! – Disse Ramilete – Horácio tem razão: estou ficando despombalizado, perturbado, demente, alienado, desmiolado, ou seja, estou doido. Quanto ao fantasma, esqueçam. Agora, preciso de um favor.

– Peça e faremos.

– Ninguém pode saber de nada do que aconteceu aqui.

– Ninguém saberá.

– Jure, Horácio.

– Dou minha palavra, senhor. – Disse Marcelo.

– Eu dou o que o senhor quiser. – Disse Horácio.

– Concluam o juramento beijando o cabo. Aí não! Beijem o cabo da minha espada!

– Que coisa estranha, senhor, beijar um cabo? Ó dia, Ó noite cruel! – Disse Horácio.

– Sim, beijar esse cabo é estranho, mas é a única coisa em formato de cruz que temos aqui. – Disse Ramilete – Portanto, como estranho deve ser recebido. Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que imagina sua filosofia de mesa de botequim.

Ramilete segurou as mãos dos dois e disse:

– Talvez eu tenha que adotar, de agora em diante, atitudes estranhas, absurdas. Parecerei mais louco do que de costume. Jurem que jamais revelarão este meu segredo. Peguem no cabo e jurem. Aí não, seus pervertidos! Peguem no cabo da espada!

– Juramos. – Responderam eles.

– Continuem fazendo o resto da guarda. Agora, vou dormir um pouco.

Capítulo XI

 

Em vez de ir dormir em seu quarto, Ramilete foi até o quarto de Ofélia. Sua intenção era manter sua amada informada sobre sua aflição por saber que o pai fora assassinado pelo próprio irmão. Também informaria a ela sobre as atitudes esquisitas que ele tomaria como parte de um plano para surpreender o assassino.

Chegando ao castelo, ele escalou uma parede até chegar à sacada que dava para o quarto de Ofélia. Abriu a porta devagar e viu um belo corpo nu de fêmea humana coberto apenas por um finíssimo véu. Indiferente, ele se aproximou da cama para acordá-la. Sentindo a presença de estranho, Ofélia abriu os olhos. Antes que ela gritasse, ele tapou sua boca até que finalmente ela o reconheceu. Confiante que a ninfeta não iria gritar, ele a soltou devagar. Fingindo estar assustada, ela, que sempre havia dormido de roupa e que justamente naquela noite havia esquecido de usar ao menos uma calcinha, cobriu os belos seios em vão, pois o príncipe nem tinha notado o quanto eram bonitos. Mesmo sendo virgem, pura e santa, ela percebeu que cobriu demais o corpo. Então, descobriu um pouco os seios deixando apenas um grande decote para atrair a atenção do macho friorento.

– O que faz aqui?  – Perguntou a virgem – Meu pai pode nos ver e achar que algo mais aconteceu! Ele pode pensar que você rasgou minha roupa, jogou-me na cama, beijou meus seios e…

– Não é nada disso, escute! Querida Ofélia, eu estou perdido! Minha alma está atônita!

– Vou vestir minha camisolinha transparente de bolinha. Enquanto isso, conte-me o que aconteceu.

Ofélia se levantou da cama deixando o lençol deslizar sobre seu corpo até revelar suas curvas. As costas foram sendo descobertas e aos poucos a cintura fina, juntamente com os contornos dos quadris, revelava a forma de um magnífico violão. O Bumbum perfeito acabava quando começavam a se desenhar as coxas grossas e perfeitamente torneadas. O artesão que fez os moldes daquele corpo certamente foi sacrificado pelos deuses para que nunca mais repetisse em outra fêmea tamanha precisão e beleza.

Acredito que enquanto Ofélia vestia sua minúscula camisolinha, pensou em colocar sobre a cabeça um daqueles chapéus de Carmem Miranda ou até mesmo uma imensa melancia para ver se chamava a atenção do amado. Tudo em vão. A donzelice encruada e incrustada no cérebro o impedia de ver o portal para o paraíso bem diante do seu focinho.

Como se a cena de nudez que acabei de descrever não estivesse acontecendo, Ramilete, sentado na beirada da cama, falou:

– Agora que estou aqui, pensei melhor e acho que não devo revelar o que se passa comigo neste momento. Só quero que você me prometa que jamais terá dúvidas sobre o amor que sinto. Amo você como jamais amei alguém em toda minha vida.

Ela subiu na cama e, engatinhando até ele com seu olhar fixo e hipnotizador, falou:

– Tem certeza do que sente? Isso é amor ou é apenas desejo de tirar a roupa que me cobre e possuir meu corpo na cama agora? Se fizer isso, tentarei gritar, viu? Não se atreva! Mas sei que será inútil gritar, pois você me impedirá tampando minha boca. Isso vai me machucar, então, prometo que não gritarei. Eu podia me debater e resistir até a morte, mas você pularia em cima de mim como um garanhão africano e…

– Que coisa mais brutal, Ofélia! Como pode me comparar a um cavalo? Outra coisa, eu sei distinguir todo tipo de sentimento. Eu sei, minha flor, mais do que ninguém o que é o amor.  Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, se eu não tivesse seu amor, eu não seria nada! Ainda que eu conhecesse todos os mistérios e toda a ciência… Ainda que eu tivesse toda a fé, toda esperança nos homens… Ainda que eu pudesse extinguir o mal e aliviar a dor dos que sofrem, se eu não tivesse o seu amor, nem sentisse amor por você, nada eu seria! Nosso amor é sóbrio, é benigno; não se envaidece, não mata nem se mata! Tudo suporta! Só em parte o conhecemos e em parte sabemos o que representa em nossas vidas. Mas é quando meu corpo se une ao seu que ele se faz compreender por inteiro. E é assim que percebemos o quanto ele é perfeito entre nós! É quando estou com você face a face, como estamos agora, que percebo que tudo que outrora era uma parte floresce como um todo. Só o amor, o nosso amor… Só ele, meu amor, apenas ele conhece o que verdade[36].

– Essa foi a maior declaração de amor que já ouvi. Mas… E aí? O que acontece depois?

– Prometa que também guardará segredo sobre o comportamento estranho que adotarei de agora em diante.

– Prometo qualquer coisa.

Ela o abraçou e o empurrou sobre a cama. Em cima dele, como se fosse cavalgar, tirou lentamente sua camisola. Quando a camisola apertada liberou seus seios, a imagem que Ramilete pôde ver, em câmera lenta, foi de hipnotizar: dois seios grandes e redondos balançando lentamente. Um calor indescritível tomou conta do seu corpo e os instintos naturais, tais quais os de um cachorro, dominaram seu corpo e corromperam o cérebro virgem. Ele se lembrou que seus pentelhos podiam estar novamente enroscados no seu pinto e se apressou em abrir o zíper e libertar a mimosa para evitar, assim, uma depilação forçada. Foi nesse momento que a donzelice abandonou nosso amigo Ramilete, tirando a vez do menino e deixando aflorar os sentimentos do homem. O próximo passo dele foi observar com outros olhos os seios e examinar detidamente a imagem da camisola liberando lentamente os longos cabelos. E foi tirando a camisola e a ceroula do príncipe que Ofélia pôde cavalgar e ser cavalgada até o amanhecer.

Depois de transarem até a exaustão, Ramilete confessou sua felicidade por estar ali, na mesma cama, com a mais linda das mortais. Olhando nos olhos dela, Ramilete falou:

– Veja meu amor, não somos diferentes. Somos humanos, apenas isso! Só isso deve nos interessar. É essa maldita sociedade que nos distingue um do outro, cria divergências e, assim, divide-nos! Haverá um dia em que as cercas da ignorância não mais nos separarão. Nesse dia eu não precisarei discutir a preferência sexual de ninguém, pois só haverá uma resposta: preferência sexual humana. A cor da pele será apenas um belo adereço no revestimento do corpo e minha cor será igual a sua: cor humana; ninguém precisará dizer qual é sua raça ou sua crença, pois só haverá uma resposta para cada pergunta: raça humana, crença humana. Assim, nesse dia, nenhum pensamento filosófico ou teológico que definam uma entidade sobrenatural fará sentido, pois, sendo honesto, ninguém terá coragem de definir um ser do bem ou do mal, e mesmo que alguém ousasse defini-lo não haveria ninguém interessado em ouvir tamanho disparate! Todos saberão que um ser sobrenatural definido e proferido por quem quer seja é um falso ser! Sabendo que o mal não existe, e sim a ignorância que leva à intolerância e todos os outros males, aprenderemos desde cedo a ter sede de saber e de aceitar as diferenças. Nesse dia teremos o reinado das virtudes cuja rainha será a honestidade e todos os humanos celebrarão o desprezo pela mediocridade!

Extasiada com o que acabou de ouvir, Ofélia olhou para ele e ficou admirando seu belo rosto. Para quê palavras se lágrimas podem substituir um dicionário inteiro? Ela sentiu sua alma se libertar de toda a baixa autoestima que a fazia se sentir inferior, por ser apenas a filha de um criado do rei. Seus olhos cheios d’água sentiram os lábios dele, e   abraços apertados aqueceram entre os lençóis aquele delicado corpo de mulher.

Capítulo XII

 Ofélia compareceu à mesa para o café da manhã com seu pai, Polônio. Ele perguntou o que tinha acontecido, mas ela só fazia rir de felicidade. Quando conseguiu conter o acesso de riso ela falou:

– Ramilete enlouqueceu! Kkkkkkkkkkkkkkkkkk!

Ela olhava para Polônio e, quando pensava no esforço que seu pai e seu irmão fizeram para conservar sua virgindade, não se aguentava e dava altas gargalhadas.

– Venha cá! – Disse Polônio – Vamos falar com o rei. Vocês dois estão loucos! Os dois estão sofrendo de delírios de amor.

Em um dos aposentos do castelo estão conversando com o rei dos jumentos, a quenga rainha, Rosencrantz e Guildenstern.

– Bem-vindos, caros Rosencrantz e Guildenstern! – Disse o rei – O motivo de chamá-los com urgência foi o fato de necessitarmos de seus préstimos e termos a certeza de que apenas vocês podem nos ajudar. Afinal, vocês dois foram criados com o nosso príncipe Ramilete. Devem ter ouvido alguma coisa sobre a metamorfose dele. Metamorfose é a palavra certa, pois ele não é mais aquilo que foi. Não sabemos que coisa pode tê-lo afastado tanto da razão. Eu diria que ele perdeu completamente o juízo. A morte natural do pai pode ter influenciado. Além disso nada sabemos. Peço aos dois que fiquem aqui por algum tempo, para que ele se divirta um pouco com vocês e para que descubram algo esclarecedor sobre o que o aflige.

– Será um prazer poder ajudar nosso amigo. – Disse Guildenstern – Os céus permitam que nossa presença e nossos atos possam ser úteis a ele. Peço que nos deem licença. Vamos procurá-lo.

– Têm toda licença – Disse o rei.

Polônio entrou no recinto com Voltimando e o Corno Cornélio. Disse ele:

– Sei o que perturba nosso querido Ramilete!

– Então diga, homem de deus! – Pediu Gertrudes.

– Primeiro, vamos ouvir o que conseguiram Voltimando e o Corno Cornélio com o tio do Forte Brás. Depois eu conto sobre o príncipe.

– Então, que falem logo nossos amigos Voltimando e o Corno! – Ordenou o rei.

– Deu tudo certo, meu senhor – Informou Voltimando – O tio do moleque já o reprendeu e disse que os bilhetinhos desaforados não mais serão enviados. Fiquem tranquilos.

– Que preço vocês pagaram por isso? – Perguntou o rei – Digam e pagarei na mesma moeda!

Cornélio e Voltimando olharam um para o outro com uma tristeza claramente decifrável. O rei, compreendendo aquele silêncio de mosteiro, antecipou-se em agradecer com apenas um aperto de mão. Gertrudes, como toda mulher que não deixa passar despercebido qualquer detalhe, entregou aos dois um pouco de pomada Hipoglós e pediu que eles fossem descansar da viagem. O rei se virou para Polônio e perguntou:

– Diga-nos agora, Polônio, o que descobriu?

– A loucura do jovem Ramilete só tem uma explicação: o amor mal correspondido de Ofélia!

– Como você tem tanta certeza disso? – Perguntou Gertrudes.

– Ora, minha senhora, tenho tanta certeza disso quanto tenho certeza de que é perda de tempo especular sobre o que é a majestade, o que é o dever, o que é o dia, o que é a noite! Majestade só pode ser ma-jes-ta-de. Dia é dia, noite é noite, e tempo é tempo! Pensar nisso é apenas perturbar a majestade, esquivar-se do dever, desperdiçar o dia, a noite e o tempo! Porque o tempo perguntou para o tempo: quanto tempo o tempo tem! O tempo respondeu para o tempo: o tempo tem tanto tempo quanto o tempo o tempo tem!

Com esse palavreado, os dois neurônios de Gertrudes entraram em colapso. Ela sentiu vertigem e quase desmaiou. Por fim, o rei ordenou:

– Menos arte da embromação e mais sustância, Polônio! Que desgraça de filosofia é essa que você acabou de pronunciar?

– Meu senhor, trata-se de filosofia forte. O senhor jamais conseguiria acompanhar. Veja bem, se eu estivesse embromando, então tudo embromado estaria. Longe de mim! Não sou baluarte de tamanha parte. Sendo digno de belas-artes, diga de mim qualquer coisa menos atribuir esta arte. Mesmo sobre a mira de Bonaparte, com seu velho bacamarte, continuo negando, pois sendo do signo de marte e, a ter minha honra descrita no vergonhoso estandarte, prefiro morrer de enfarte.

– Polônio, menos! – Gritou o rei – Com esse palavreado, sinto que você está machucando meus testículos! Fala logo, desgraçado!

– Serei direto e breve, meu senhor! – Disse Polônio – Ouçam o que o atrevido príncipe escreveu para minha filha: “Duvide que o sol seja a claridade, duvide que as estrelas sejam chamas, suspeite da mentira na verdade, mas não duvide deste que te ama! Oh, cara Ofélia, sou tão ruim com os versos”!

– Ramilete enviou isso a Ofélia? – Perguntou Gertrudes.

– O próprio. – Respondeu prontamente, Polônio.

– Ao menos ele reconhece que seus versos são horríveis! Como Ofélia recebeu isso? – Perguntou a mãe decepcionada.

– Bom, tratei de jogar um balde de água fria nessa paixão impossível. Disse a ela que Ramilete era um nobre e ela, uma pobre filha de um simples criado. Portanto, fora da sua órbita. Ordenei imediatamente que ela se afastasse dele. Ela me obedeceu e ele caiu em desgraça: agora é um louco varrido.

– Acha que é isso? – Perguntou Gertrudes ao rei.

– É bem possível. – Respondeu ele – Com essa incapacidade de escrever um bom poema, só pode mesmo estar à beira da loucura!

– Arranquem minha cabeça, se eu estiver errado! Provarei o que digo! Soltarei minha filha para ele e, nós três, escondidos atrás de uma tapeçaria, ouviremos tudo! Se ele não a ama, perco meu emprego de servo de Vossas Majestades.

– Se você estiver errado, prefiro a primeira opção: arrancar sua cabeça. Tudo bem, tentaremos a prova. – Disse o rei.

– Vejam, ele está vindo em nossa direção com um livro na mão! – Interrompeu Gertrudes.

– Imploro, meu rei – Disse Polônio – Deixem-me a sós com ele!

O rei e a rainha concordam e saem de fininho. Polônio, a sós com Ramilete, pergunta:

– Como você está?

Pondo em prática seu plano de fingir que ficou louco, Ramilete Júnior responde:

– Bem, Zeus seja louvado e os traíras enforcados!

– Está me reconhecendo?

– Como não? Você é o babão real. Talvez um verme menor do que um carrapato. Uma mosca na carniça, um vaso ruim. Não, apenas um babão. Isso basta para defini-lo. Você tem uma filha?

– Tenho.

– Cuidado com os carrapatos na orelha dela.

– Carrapatos, meu senhor?

– Sim, ela é mansa e adestrada?

– O senhor não diz coisa com coisa. O que está lendo?

– Palavras humanas.

– Como assim?

– Palavras, palavras, apenas palavras humanas.

– De que se tratam?

– São palavras que falam de outras palavras.

– De quais outras palavras, meu príncipe?

– De palavras escritas, às vezes sem sal e sem açúcar, mas de apenas palavras que tratam de palavras. Também leio palavras sem brilhos, carregadas de opressão, mas, ainda assim, leio palavras que falam apenas de palavras. Palavras de desespero proferidas com razão… Palavras de pobres almas ditas num momento de aflição. Tristes são essas palavras, mas ainda assim as leio! Leio palavras escritas com ternura, amor e emoção, mas no final das contas leio apenas palavras. Palavras de carinho, de consolo e de gratidão: nobres palavras tiradas do coração. Às vezes leio belas palavras humanas, meu amigo! Leio ainda palavras escritas com sarcasmos, preconceitos e desolação. Tristes são, mas ainda assim, são apenas palavras. Palavras amargas carregadas de humilhação… Palavras cuspidas, vomitadas, escarradas… Leio palavras atiradas com ódio, com desprezo e maldições: palavras de negras almas. Indignas são; impuras são, mas não deixam, por mais que eu relute, de serem apenas e tão-somente palavras humanas. Tais palavras quando ditas podem até causar estrondo, eco e dor. Mas, de tão grotescas, não resistirão ao tempo. Assim, leio palavras, meu amigo. Apenas palavras.

– O senhor tem estilo, meu príncipe. Agora, permita que eu o alerte: dê ouvidos aos mortos. Acredite nas aparições de fantasmas. Elas revelam a verdade.

– Devo entrar numa tumba?

– Seria o melhor a se fazer neste momento, mas não é necessário. Apenas dê ouvidos aos mortos. Agora, se me permite, caro príncipe, devo deixá-lo em paz.

– Sua presença aqui é indiferente.

– Não quero roubar seu tempo.

– Tempo que para mim não significa nada. Se minha vida não vale nada, imagine quanto vale meu tempo.

– Passe bem, senhor.

Polônio nem havia deixado o recinto quando entraram Rosencrantz e Guildenstern. Depois dos cumprimentos, Ramilete perguntou?

– Que novidades vocês trazem?

– Trazemos apenas a alegria de saber que o Brasil tem o melhor governo do mundo.

– O resto do mundo já acabou? Se temos o melhor governo, o que tem o resto do mundo? O que dizem não passa de lorota. Vocês são bajuladores que vivem apenas de poeira de bunda. O suprassumo do cu do cavalo do rei tem mais valor do que vocês. Como não tenho mais palavras para descrevê-los, vou levá-los ao cagador do rei onde comerão com fartura, após me traírem contando tudo sobre mim àquele verme.

– Ora, não diga gracejos, meu senhor. Podemos nos divertir antes disso? – Perguntou Rosencrantz.

– Quer brincar de Tarimba? – Perguntou Ramilete.

– Obrigado, mas não estou disposto. – Respondeu Guildenstern.

– Querem ganhar um gano?

– Meu senhor, a propósito, o que é um gano? – Perguntou Rosencrantz.

– Gano é um cara…

– Meu senhor, não responda, por favor! – Interrompeu Guildenstern.

– Então, só me resta levá-los ao rei. Lá, vocês saberão o que fazer.

– Mesmo não aprovando sua fala, faremos o que o senhor ordena. – Disse Rosencrantz.

– Não ordeno nada.

– Então, ficaremos de pé ao seu lado.

– Vieram me observar para contar àquele patife?

– Não, meu senhor!

– Eu sei que foram chamados. Confessem ou terei que forçá-los a isso.

– Fomos chamados, meu príncipe. – Disse Rosencrantz.

– Vou dizer porque estão aqui. Assim, vocês não quebrarão a promessa de sigilo feita ao rei. Todo mundo sabe que as estrelas não são chispas de fogo e só idiotas acreditam nisso. O mundo tem muito mais do que seis mil anos. A fé não remove coisíssima nenhuma. As parábolas, conforme o próprio crucificado falou, só servem para confundir e evitar a salvação de alguns[37]. Homens gigantes nunca existiram, mas macacos gigantes sim. Isso deve ter confundido os tolos. O homem, que os bocós afirmam que veio do barro, é mal feito, louco em suas ações, paradigma do satanás, feio, limitado, impreciso, quintessência do extremo fedor e só pode ter como parente os tijolos de construção ou o barro produzido, como dejeto, pelo próprio Mastema[38]. Referi-me apenas ao homem, ser que desprezo. A mulher é outra coisa.

– Meu bom Deus! – Disse Rosencrantz ao pé do ouvido de Guildenstern – Ele está realmente louco! E ainda diz heresias!

– A mulher é o verso profano reverso. – Continuou Ramilete – É o avesso do avesso do avesso do homem. Se deus existe, não pode ser deus, e sim, deusa! Se não existe, é apenas homem! Homem imperfeito, mau, vaidoso, orgulhoso, melindroso e cheio de frescura, falso, traidor, avarento, miserável, desgraçado e assassino!

Aos gritos, Ramilete continuou sua fala desesperada se aproveitando da suposta condição de louco para desabafar:

Assassino, assassino, assassino, fratricida, Caim desgraçado!

Rosencrantz e Guildenstern ficaram apavorados e gritaram:

– Senhor, o que está acontecendo?

– Entre nós há um Caim que matou Abel.

Dizendo isso, Ramilete deu alta gargalhada e continuou:

– Não sei! Não sei o que está acontecendo comigo! Minha mente está confusa! Não sei se falo verdades ou asneiras! Estou perdendo a razão! A loucura é minha irmã e prima de todos os demônios do inferno! Vamos sair daqui antes que eu perca o pescoço, a língua e a alma arrancados sem esforço, pelas mãos ou pela foice da santíssima inquisição!

– Ó rima podre, pobre e desgraçada! – Repreendeu Rosencrantz – Vamos, precisamos receber os atores comediantes que estão chegando. Mas por favor, meu senhor, tente se controlar!

– Os atores que representam o rei e a rainha serão bem recebidos. – Disse Ramilete.

– Esses têm algo de especial, meu senhor? – Perguntou Rosencrantz.

– Não. Basta que encenem como eu quero. Assim, na hora de piar, piem! Na hora de relinchar, relinchem! Na hora de cacarejar…

– Bom, aí estão eles. – Disse Guildenstern.

– Cavalheiros, sejam bem-vindos a Elsinor. – Acenou Ramilete.

Polônio se aproximou e falou:

– Saúde, senhores!

– Ora, vejam só quem também acaba de chegar: Polônio, o bebê babão. – Disse Ramilete – Se eu chutar o ovo do rei, quebro todos os dentes dele! kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Aposto que veio me dizer que os atores estão chegando!

– Ainda assim, devo lhe informar que uns atores estão chegando, meu senhor. – Disse Polônio – E trazem, montado, excelente repertório!

– Temos muitos jumentos para eles montarem e outros tantos que montarão neles. – Disse Ramilete.

– Perdoe-me, não entendi, meu senhor. – Desculpou-se Polônio.

– Então repetirei: mais vale um pássaro na mão do que dois voando em vão! E se uma andorinha não faz verão, quantos pardais fazem um avião? Se o dia é da caça, não haverá dia para o caçador!

Polônio arregalou os olhos e pensou: “Meu deus, esse homem está doidinho da silva!”.

Preocupado, Polônio perguntou:

– Em que posso ajudá-lo, meu príncipe? Há algo que eu possa fazer para desanuviar seus pensamentos?

– Pode, sim. Responda-me: numa ponte de madeira, que suporta apenas um homem atravessando de cada vez, desde que eu seja cauteloso, consigo atravessá-la?

– Se a ponte suporta um homem, então o senhor conseguirá atravessá-la.

– Oh, homem de pouca inteligência! Como pode me ajudar se você não resolve um problema simples como esse? É obvio que não conseguirei atravessá-la!

– Por quê?

– Porque um homem cauteloso é o mesmo que um homem prevenido. E um homem prevenido vale por dois!

Diante da surpresa de Polônio, Ramilete disse:

– Esqueça o que eu disse. Filosofia é algo que você não alcança, pois, meu amigo, quem espera sempre cansa e quem procura sempre acha, se não um prego, uma tacha. Quem sua filha beija, açúcar da minha boca brota, pois seus lábios só pousam em outros que os adoçam.

Polônio deixou o queixo cair e pensou mais uma vez: “Pedirei ao rei a internação desse lunático. Ele sempre fala da minha filha. Só pode ser isso: enlouqueceu por causa de Ofélia”.

– Vou cumprimentar os atores – Disse Ramilete – Com licença, velho Cancão sem fogo!

E, virando-se para seus amigos disse:

– Peço licença a vocês também, pequenas codornas.

Quando Ramilete se distanciou, Polônio perguntou aos dois, Rosencrantz e Guildenstern:

– O que me dizem do seu amigo?

Ambos responderam:

– Perdeu totalmente a razão. Está realmente louco!

Após cumprimentar os atores, Ramilete chamou Polônio e pediu que ele providenciasse boas instalações para os artistas dizendo:

– Escolha as melhores instalações ou experimente cair na desgraça das difamações proferidas por eles. Prefira que escrevam em sua lápide: aqui jaz um canalha. Mas não queira jamais, enquanto vivo, que eles componham uma estrofe sequer de literatura de cordel, a seu respeito, com minúscula difamação. Ela correrá o mundo, feito rastilho de pólvora, num segundo! O pior cego é aquele que não quer ver a ponta do seu nariz! Você consegue ver uma rola voando, Polônio?

– O senhor me deixou confuso. Mas providenciarei o que os atores merecem.

– Não. Trate melhor do que isso. Se tratarmos os humanos como eles realmente merecem, nenhum escaparia de uma surra bem dada de chicote de cipó de boi. O primeiro da fila seria você, o Judas que traiu Jesus!

– Eu nunca traí Jesus, meu senhor!

– Então, aceite ser Dalila, a puta que traiu Sansão!

Ramilete, disfarçado de louco, pretendia ofender Polônio o máximo possível, pois sabia que o mesmo havia traído seu pai quando apoiou todos os atos de Cláudio. Polônio, intrigado, tratou de atribuir os maus tratos à loucura que consumia o juízo do pobre príncipe.

– Venham, senhores! – Disse Polônio.

Ramilete se dirigiu aos atores e disse:

– Sigam-no, fiquem à vontade e se preparem para uma apresentação em dois dias. Que fique aqui comigo apenas o diretor da companhia de teatro.

– Em que posso servi-lo, senhor? – Perguntou o diretor.

Ramilete leva o diretor a um canto, fora dos olhos e ouvidos de Rosencrantz e Guildenstern, e diz:

– Pagarei bem se vocês encenarem “O Assassinato de Gonzaga” com algumas modificações minhas.

– Claro, podemos encenar, senhor.

– Então vá se juntar aos outros. Levarei os textos alterados para vocês ensaiarem.

Ramilete se aproveita da visita dos artistas para montar uma versão de uma peça conhecida, O Assassinato de Gonzaga, só que com algumas alterações no enredo da peça principal. Ele inclui nessa apresentação as circunstâncias em que seu pai teria sido assassinado pelo próprio irmão, Cláudio, o atual rei. O objetivo de Ramilete era provocar o tio a ponto de ele revelar sua culpa.

Ramilete se dirige aos dois amigos, Rosencrantz e Guildenstern e se despede:

– Acomodem-se no castelo e me deixem a sós com meus fantasmas.

– O senhor consegue ver fantasmas? – Perguntou Guildenstern.

– Neste momento, só vocês dois.

– Até logo, meu senhor. – Disse Rosencrantz.

Ficando sozinho, Ramilete desabafou: “Prepararei minha vingança com textos repletos de verdades onde só deveria haver o repouso das ilusões ou desilusões dos poetas! Esses atores cuspirão, na cara do rei, tudo que tenho a dizer”! E depois… O que farei depois? Repousarei no leito dos covardes? Rirão de mim por eu não ter coragem de enfiar uma faca no peito do traidor? E Ofélia? Ela também dirá que sou um covarde? Ó vingança maldita!

Ele caminha de um lado para o outro do salão e decide:

– Devo arrancar o coração do rei com as próprias mãos! Isso, sim, é vingança! Mas, espere um momento. E se o fantasma me engana? E se a morte do meu pai foi realmente natural? Devo primeiro ter a certeza do assassinato. Os atores farão seus papéis e eu observarei. Ouvi dizer que certos criminosos, assistindo a uma peça, foram tão tocados pelas sugestões das cenas que imediatamente confessaram seus crimes. Isso parece tolice, mas não há, no momento, melhor maneira de descobrir a verdade. Vamos ver o que vai acontecer.

 

 

 

 

 

Capítulo XIII

Num salão do castelo estão presentes o rei Cláudio, Gertrudes, Rosencrantz, Guildenstern, Polônio e a belíssima Ofélia.

– Vocês, os melhores amigos desse louco, não conseguem, com algum subterfúgio, arrancar dele o motivo desse agir estranho? – Perguntou o rei aos amigos Rosencrantz e Guildenstern.

– Ele se recusa a revelar a causa. – Disse Rosencrantz – As blasfêmias que profere são tão terríveis que nem o papa pode livrá-lo do fogo do inferno! Ele está completamente louco, meu senhor!

– Ele não vai nos dizer, pois os loucos não sabem os motivos que os transformaram. Eles nem mesmo admitem que são loucos! – Disse Guildenstern.

– Ele trata vocês bem? – Perguntou Gertrudes.

– Embora nos tenha chamado de codornas – Disse Guildenstern – de bajuladores que vivem apenas de poeira de bunda… E ainda que tenha dito que valemos menos do que o suprassumo do cu do cavalo… Bom, de resto, ele nos trata como cavalheiros, exceto por dizer que comeríamos merda nos aposentos do rei.

Essa última frase fez Gertrudes ficar enojada. Para mudar de assunto, ela perguntou:

– Por que vocês não foram…

– Comer bosta? ­– Interrompeu Rosencrantz.

– Argh! Não! Por que vocês não o convidaram para alguma diversão? – Perguntou Gertrudes.

– Nós o convidamos, mas ele só queria brincar de Tarimba.

– Ah, tá. – Disse Gertrudes – Mas como se brinca de tarimba?

– Quem responder será enforcado! – Antecipou-se o rei.

– Meu senhor, ele também nos ofereceu um gano. – Disse Rosencrantz.

O rei, demonstrando irritação, esbravejou:

– Como ele teve coragem de oferecer isso a vocês!

Gertrudes arregalou os olhos de curiosidade e perguntou:

– Mas o que é um gano?

E Guildenstern respondeu:

– É um cara…

– Cale-se Guildenstern! – Interrompeu Polônio.

Fez-se um silêncio no recinto e Polônio continuou:

Ainda assim, haverá diversão para ele, majestade. Um grupo de teatro chegou no castelo e Ramilete tratou de contratá-lo. Ele também me pediu que convidasse o senhor e sua senhora para assistirem a um espetáculo.

– Pois, lá estaremos. Farei isso com um imenso prazer. Animem-no para que assim ele possa tirar prazer desse espetáculo e esquecer o assunto da morte natural do meu falecido irmão.

– Nós o faremos, senhor. Agora, com sua licença, retirar-nos-emos. – Disseram Rosencrantz e Guildenstern.

O rei chamou Gertrudes a um canto da sala e falou:

– Gertrudes, minha querida, deixe-nos agora. Aplicaremos uma das artimanhas de Polônio. Você sabe, ele tem essas manias de gente safada que fica atrás das cortinas ouvindo conversa alheia. Eu não gosto disso, mas, para o bem do seu filho, ouviremos a conversa de Ramilete com Ofélia sem que ele saiba disso. Ofélia está sabendo de tudo e já aceitou participar da farsa. Não é mesmo minha criança?

– Sim, majestade. – Respondeu Ofélia.

Marcaremos o encontro dos dois. Saberemos o que causou tanta perturbação naquela cabeça oca. – Disse o rei.

Ofélia se despediu de todos e foi até os aposentos de Ramilete para lhe contar sobre o ocorrido e confirmar o encontro. Estava tão apressada que entrou no quarto dele sem bater.

– O que você tem na mão, meu querido? – Perguntou Ofélia.

– Meu amor, você me assustou! Estou apenas alisando o sabiá.

– Ah, tá.

Ele larga o sabiá e vai até ela. Os dois se abraçam e se beijam. Ele a leva para a cama, olha bem no fundo dos seus olhos, faz um longo carinho em seu rosto, beija suavemente sua boca, desabotoa seu vestido e…

O sabiá entrou na gaiola.

Depois do amor, vem o cansaço. Agora, deitado ele observa um ponto qualquer no teto do quarto. Percebeu que o sabiá tinha saído da gaiola, mas nem se importou com isso. Quanto a Ofélia, num movimento rápido ela monta em cima dele. Mudando seu foco, ele observa agora aquela belíssima imagem de mulher nua sem o menor pudor e diz:

– Troco o reino inteiro por você.

E ela respondeu:

– Nada tenho de precioso além da vida. Dou-a em troca da certeza do seu amor.

– Tenha a certeza, meu amor, mas se conserve viva para mim.

O sabiá entrou e saiu da gaiola diversas vezes como se estivesse marcando o tempo. Era tempo de amar.

A noite se aproximava quando o último botão do vestido dela era abotoado. Na calmaria daquela ocasião, ela contou com detalhes todo o plano do pai e do rei. Com um longo beijo eles se despediram e ele disse:

– Não se preocupe com nada. Deixe que eles planejem nosso encontro. Falaremos tudo que nenhum deles deseja ouvir.  Quero que prometa uma coisa: nunca duvide do meu amor por você.

– Eu prometo.

– Farei por merecer sua promessa.

Você, cara leitora, que conhece a verdadeira história contada por Willian Shakespeare, deve estar bastante aliviada, pois presume que o destino de Ofélia será diferente. Afinal, no próximo encontro dos dois, sob os olhares furtivos do rei e de Polônio, as falas deles serão falseadas, fingidas. Mas, amiga leitora, a menos que seja ateia, você sabe que maldições acontecem. Sim, elas acontecem. Qualquer que seja sua religião ou seita, amada leitora, nelas o mal existe. E as maldições são o que de pior existe no submundo habitado por espíritos malditos e condenados para sempre a viverem espalhando maldades pelo mundo. Por mais que se tentem alterar o rumo dos acontecimentos, uma vez que são derivados de uma maldição, eles terão que se cumprir. Sinto muito, mas apenas tento narrar os fatos exatamente como eles aconteceram. Serei fiel à história pernambucana.

Saindo dos aposentos de Ramilete, Ofélia não percebeu, mas era seguida pelos olhares de um corvo, falso, rabugento e traidor: Guildenstern. Morrendo de amores por Ofélia, sem nunca ter sido correspondido, ele arquitetou um plano traiçoeiro para separá-la de Ramilete.

Ao passar pelo salão principal ele se aproximou de Ofélia e perguntou:

– Como pode trocar um amor decente, honesto e promissor, como o meu, pelo amor falso, lascivo e vulgar do louco Ramilete?

– O que me diz, senhor?

– Espera aqui e verás se o que digo não é verdade.

Naquele mesmo instante Ramilete passou apressado pelo salão. Devido à baixa iluminação e a distância que Ofélia e Guildenstern estavam, ele nem percebeu a presença dos dois.

– Siga-me e verá. – Disse Guildenstern.

De longe Ofélia e Guildenstern viram Ramilete entregar umas folhas de papel a uma das artistas da companhia de teatro. Em seguida presenciou, aos prantos e sem nada entender, a terrível cena de beijo entre a desconhecida e seu amado Ramilete. Guildenstern fingindo poupá-la daquela triste visão, tratou de tirar Ofélia dali. Assim agindo, ele a impediu de ver que Ramilete empurrou a atriz manifestando sua total discordância dos meios empregados pela mulher para lhe roubar um beijo.

Nos seus aposentos, Ofélia sofria. Aquela foi a noite mais longa de toda a sua vida.  Guildenstern também se recolheu aos seus aposentos e se preparou mentalmente para colher os frutos, nos próximos dias, do seu desprezível feito.

Capítulo XIV

 

Na tarde do dia seguinte acontecia o encontro entre Ofélia e Ramilete. A um canto do salão ela estava triste e desolada, pois flagrara, no dia anterior, seu amado príncipe aos beijos com uma das atrizes da companhia de teatro. Seu coração estava partido em mil pedaços.

Escondidos atrás de grossas cortinas, parecendo dois ratos, estavam o rei e o autor dessa estúpida, infame, pueril e ridícula estratégia: Polônio. Noutro canto estava Ramilete inocentemente pronto para o falso diálogo com a amada.

– Ser ou não ser, eis a questão! – Disse Ramilete em pose de ator de teatro grego.

– Fingido, isso é o que você é! Finge amor por mim enquanto se agarra com qualquer cachorra! E ainda me vem com essa frase ridícula: ser ou não ser.

Com o dedo em riste, ela ainda disse:

Ser ou não ser, um cacete! Está indeciso, seu filho da puta?

Ramilete, assustado com a excelente atuação da amada, e tentando caprichar na sua péssima atuação de ator romântico, falou:

– Nunca estive tão consciente e tão decidido sobre aquilo que não sinto por você: amor. “Ser ou não ser” é apenas a repetição das palavras que ouvi de Marcelo em conversa com Horácio. “Ser ou não ser – eis a questão”, disse um deles. O outro respondeu: “Ou você decide ou vai viver a vida fugindo das pessoas como se estivesse o tempo todo trancado num armário. Saia do armário, Horácio”.

– Não estou interessada em ouvir questões envolvendo seus amigos afeminados!

– Mas Ofélia, esse momento que vivo me deixa indeciso também!

– Você também é gay?

Ela abriu um sorriso e pensou: “se ele é gay, então a cena do beijo que presenciei ontem não era real! Era tudo uma brincadeira de mau gosto! Ele continua sendo só meu”!

O sorriso da ninfeta se desfez quando ele disse:

– Vocês podem até achar que eu sou louco, mas eu nunca fui viado! Espere um momento… Preciso pensar melhor antes de afirmar tal coisa.

Ramilete coçou o queixo fazendo uma cara de pensador e perguntou:

– Brincar de troca-troca na infância tá valendo na definição de gay?

Uma voz que ninguém sabe de onde veio trouxe a resposta:

­– Não. Não vale.

– Filho da puta, então você não é uma bichinha?! – Gritou Ofélia, com lágrimas nos olhos, dando um grande susto no amado.

– Nada contra os que gostam de sofrer carregando peso nas costas, mas eu não sou gay! Você queria que eu fosse um gay, Ofélia?

– Antes fosse!

Aos poucos Ramilete foi se refazendo do susto e voltando a sua interpretação.

– Devo atirar de vez minha alma ao inferno pegando em armas para extirpar o mal que me aflige? Ou devo cometer suicídio e assim dormir profundamente feito uma donzela que brigou com a mãe? Não tenho coragem de me matar! Não há tanto motivo para isso! As pedras rolam, rolam, rolam e rolam.

– Quando está indeciso você costuma se atirar nos braços da primeira vadia que aparece?

– Águas paradas não movem o dedinho. Se eu assim procedesse, seria para o bem da cura dessa sandice que me aflige e me envergonha! Doido que é doido não diz que é doido! Assim, apenas digo que estou confuso. Você não tem que se importar com as vacas que eu como. Você é uma vaca?

– Vaca é a sua mãe que botou chifres no touro velho! Achei que você falava verdades quando dizia que me amava, seu desgraçado mentiroso!

– À noite, minha amiga, todos os camelos são amarelos, os ratos são cogumelos, os gatos não usam botas e a tragédia se faz do amor entre um jumento e uma cadela! Eu falei a palavra amor? Não me lembro de ter dito tal coisa. Eu nunca amei você, Ofélia.

– E o anel, seu fresco?

– O que tem meu anel? Todos sabem que um menino de ouro, quando derretido, dá um anel. Mas o que isso tem a ver com o fato de eu achar você um ser desprezível?

– Você deu o anel…

– Cale-se mulher! Não ouse falar de coisas tão baixas! Nunca entre na intimidade de um homem dessa forma! Mais vale viver com o cu na mão do que chorar a rosquinha queimada!

– Do que você está falando, seu louco?

Ela tirou da bolsa uma pequena caixa e disse:

– Eu estava me referindo a este anel aqui, seu estúpido!

– Ah, tá. Isso me deixa um pouco aliviado.

– Estou devolvendo essa merda para que você dê as suas putas?

– Nunca imaginei que você fosse honesta a tal ponto! Aliás, você não me parece nada honesta quando invade os aposentos de um homem! Você desata um nó que é uma beleza!

– Você é apenas um patife, desgraçado! Se eu fosse um homem, cravaria um punhal no teu…

– Cale-se, vadia! Eu te amei um dia! Vejo que só perdi meu tempo! Hoje, nada sinto.

– Quase acreditei em você, canalha!

– Quase? Não devia acreditar. Eu, na verdade, nunca te amei. No dia em que eu pensei que te amava, conheci uma cabritinha e…

– Cale-se, estúpido! Antes você deveria se apaixonar por um jumento, se é que isso nunca aconteceu!

– Ei, pode parar! Não me faça lembrar de momentos difíceis da minha vida. Façamos o seguinte: vá para um convento e se agarre a uma freira na fábrica de sabão!

– Vá tomar no …

– Cale-se! O momento agora é o da revelação. Vou dizer o motivo da minha loucura! Este é o momento que todos estão esperando.

Ramilete piscou o olho para Ofélia, mas, tremendo de raiva, ela não entendeu e isso a irritou ainda mais.

Atrás das cortinas, os ouvidos do rei e de Polônio se posicionaram feito orelha de jumento para ouvir a revelação. Ofélia se aproximou de Ramilete e lhe deu uma bofetada. Ele coçou o rosto e disse baixinho:

– Caralho! Você bateu valendo! Estou apenas fingindo que sou louco!

Ela se aproximou do ouvido dele e falou:

– Eu vi você beijando aquela puta! A próxima porrada que eu lhe der vai ser nos ovos! E não se esqueça de que eu sou boa em manejar arco e flecha!

Ele a segurou e falou baixinho:

– Meu amor, eu posso explicar depois! Não estrague nossa cena, por favor! Agora precisamos voltar à encenação. Vou voltar para o meu personagem!

Ela o empurrou e disse:

– Chutarei seus ovos e a bunda da vagabunda!

– O melhor que você tem a fazer é tomar um banho gelado e ir para um convento. Vá refrescar a periquita! Onde está seu pai, aquele baba-ovo do rei?

– Tá na casa da puta que te pariu!

– Ah, tá. Mas…

Ramilete deu uma pausa na voz e observou melhor sua amada. Ele estava em dúvida sobre a atuação de Ofélia. “Será que ela está mesmo com raiva”? Pensou ele. Na dúvida, ele optou por continuar a encenação:

– Como eu ia dizendo, antes minha mãe tivesse dado à luz um porco!

– Só se ela botasse luz pelo cu!

– Não me interrompa, mulher! Nunca ouse cortar a fala de um homem amado por deus. Oh, ser bíblico desprezível e imoral! Como continuação da minha fala, devo dizer que um cretino como eu não merece viver! Sou arrogante, vingativo e filho da puta! Tenho mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los! Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Sou um desvairado, canalha e pecador! Não acredite em mim! Mas, sem mais ninguém para acreditar, acredite em mim! É melhor acreditar em mim do que no idiota do seu pai! Agora vai! Casa com um imbecil da laia dele! Não, digo melhor, vai para um cabaré ganhar a vida honestamente! Uma puta vale mais do que…

Ofélia se aproximou dele e, como havia prometido, chutou seus ovos. Tremendo de dor ele ainda falou:

– Eu ainda precisava finalizar dizendo que o motivo da minha loucura foi a maquiagem malfeita que você fez! O batom deixou sua boca troncha!

Ramilete sai da sala quase rastejando de dor. Ofélia fica nervosa e diz:

– Desgraçado! Ainda diz que não sei me pintar! Da próxima vez eu vou pintar tua cara com uma lâmina! Oh, deus, como sou infeliz! Sou a mulher mais desgraçada deste mundo. Entreguei-me na cama a um porco desgraçado! Um cachorro que me troca pela primeira quenga dos infernos! Oh, desgraçada de mim, que vi na cama o que vi, vendo o que jamais verei; que fiz na cama o que fiz, fazendo o que jamais farei!

Ela se deixa cair aos prantos em um dos sofás enquanto os dois ratos saem de detrás das cortinas.

– Ele não a ama – Disse o rei – O motivo dele é outro! Talvez seja um motivo muito perigoso para mim. Devo me livrar desse louco! Vou mandá-lo para Serra Talhada. Lá, ele ficará hospedado no Hotel Inglaterra.

– Boa ideia. Mande esse filho de corno para puta que o pariu! – Disse Polônio.

– Polônio, você sabia que ele pode ser meu filho?

– Oh, poderoso rei, peço perdão! Eu quis dizer que o mande falar com a sua mãe. Talvez ela consiga arrancar dele a verdade sobre a loucura. Mais uma vez estarei lá no mesmo recinto de forma oculta, atrás das cortinas.

– Polônio, você não tem vergonha nessa cara de rapariga, não? Um velho da sua idade, com a cara cheia de pregas, comportando-se como uma quenga alcoviteira, peniqueira, fofoqueira escondida e respirando poeira de bunda! Essa sua mania feia de ficar atrás das cortinas ainda vai lhe custar a vida!

– Olha só quem fala! – Exclamou Polônio.

– Falarei com Gertrudes. –Disse o rei – Mas essa será a última vez que você se comportará como uma fuleira!

– Faço isso porque a loucura dos pequenos deve ser reprimida com camisa de força e choque elétrico nos colhões; mas a dos grandes, como é o caso do príncipe, deve ser observada apenas.

– Babão! – Disse um coro de vozes de pessoas que até hoje nunca foram identificadas.

Capítulo XV

Recuperado das dores provocadas por Ofélia, no dia anterior, e vendo o adiantar das horas, Ramilete procura o diretor da companhia de teatro e dá as últimas instruções sobre como deve ser a atuação dos artistas. Em seguida, encontra Horácio e pede que ele o ajude a observar o rei na hora da apresentação:

– Horácio, fique de olhos bem abertos em cima do rei. Não deixe escapar nenhum detalhe das expressões desse canalha. Depois julgaremos suas atitudes e decidiremos sobre o que falou o fantasma do meu pai. Saberemos se o que ele disse é verdade ou é apenas uma brincadeira satânica vinda do imundo anjo do inferno!

– Ficarei de olho, meu senhor!

– Horácio, estão chegando os convidados. Devo voltar ao meu papel de louco. Vai, procura um bom lugar para sentar e observa tudo, vai!

O rei se aproxima de Ramilete.

– Ora, ora como vai meu sobrinho querido!

– Como uma onda no mar carregando bosta, alimento da alma. Se peço sopa, trazem poupa. Se peço pouco, trazem porco ou não trazem “nada”. Mas “nada” ainda é muita coisa para quem tem tudo. Vivo na esperança de viver. Vivo um dia por dia, morrendo todo dia!

– Não entendi porra nenhuma! Você entendeu alguma coisa, Polônio?

– Tudo, tudo, tudo e nada, nada e nada. – Respondeu Polônio.

Serenamente como quem observa o tempo, Ramilete falou:

– Quem nada, nada e nada, acaba morrendo na praia. Peço que não me confundam com um boi porque chifre que nasce torto morre torto e não serve para assar castanha.

– O senhor tem estilo, caro príncipe. – Disse Polônio. – O senhor só precisa de um ajuste no quesito concatenação das ideias.

– Os atores estão prontos. Procuremos nossos poleiros. – Disse Ramilete – Cuidado para não fazerem merdas, uns nas cabeças dos outros!

– Querido, sente-se do meu lado! – Disse Gertrudes se dirigindo ao filho Ramilete.

– Madame, – Respondeu o príncipe – prefiro sentar ao lado de uma puta conhecida do que ao lado de uma santa de má fama! As quenguinhas novas são mais bonitas do que a senhora! Faça uma plástica porque seu rosto está mais engelhado do que pele de cu de sapo!

Gertrudes ficou tão paralisada e horrorizada com as palavras do filho que só voltou a si dois minutos depois quando Ramilete, a pretexto de arrumar as almofadas de sua cadeira, levantou-se, posicionou seu traseiro a dez centímetros da cara dela e soltou um peido pólvora barulhento. Depois disso, Ramilete olhou para Ofélia e disse:

– Posso me entranhar nas suas tetas?

– Vá se escorar no pau de um jumento, seu maldito mentiroso e fingido! – Respondeu Ofélia.

Ele se aproximou da amada e disse baixinho:

– Meu amor, o louco aqui sou eu! Eu estou representando! Acho que você está levando tudo muito a sério!

– Você ainda não viu nada, seu traidor miserável! Se eu pegar você outra vez com aquela atriz eu corto seu pinto e dou aos cachorros!

– Mas querida…

– Cale-se e sente aqui ao meu lado onde eu possa observá-lo! A peça vai começar, sente-se, cretino!

A peça começou. Entram um rei e uma rainha. Eles se comportam como amantes sinceros e honestos. Ambos se abraçam e ela se ajoelha aos pés dele e o venera. Entre beijos e abraços, os dois se sentam próximos a um canteiro de flor. Ela se deita e ele faz o mesmo. Enfim, ele adormece. Percebendo isso, ela se levanta e sai. Agora entra um homem que tira a coroa do rei e derrama veneno em seu ouvido. Em seguida se retira beijando a coroa enquanto que o moribundo rei bota espuma pelas ventas e pela boca. A rainha entra em cena e vê seu marido morto. Ela faz apaixonadas demonstrações de dor. O envenenador volta e finge também sentir a mesma dor. Um comparsa dele retira o cadáver em meio à espuma, enquanto o assassino corteja a rainha viúva com dedicação e presentes. Ela recusa os presentes dele, mas de tanto insistir ela acaba cedendo. Por fim, saem de cena os dois amantes trocando juras de amor.

Ofélia estava sentada entre Gertrudes e Ramilete. Confusa e ainda chateada com o amado, ela se vira para Gertrudes e pergunta:

– A senhora entendeu alguma coisa?

Ramilete interveio dizendo:

– Querida irmã, isso é um mistério maligno, ou melhor, maldito.

– Primeiro, eu não sou sua irmã! Segundo, não se meta na conversa entre mim e sua mãe!

– Calma, minha criança, a loucura o confunde o tempo todo! Dê um desconto. O coitado está assim desde a morte do seu pai. – Defendeu Gertrudes.

Ofélia observa o amado e cospe em cima dele alguns desaforos:

– Falso, traidor, mentiroso e fingido, isso é o que ele é!

Atrás de Ofélia e Ramilete está Guildenstern prestando atenção e se deliciando com o mau humor dela.

Entra em cena outro ator. Ramilete, atento aos acontecimentos do palco, nem se incomodou com a fala de Ofélia e comentou:

– Esse daí vai dizer que os atores não guardam segredo algum. Depois entrarão o rei e a rainha novamente. Só que desta vez a cena será toda falada, e não muda como a primeira. Teremos agora elementos esclarecedores da primeira cena.

Chateada, Ofélia fingiu que não ouviu. Conforme Ramilete falou, entraram em cena os atores rei e rainha.

– Já o sol, inúmeras voltas deu desde que o amor uniu você e eu. – Disse o rei ator. Esse ator, conforme Ramilete pediu ao diretor da peça, representa seu pai.

– Que ele dê milhões de voltas antes que esse amor chegue ao fim. – Disse a rainha atriz. Essa atriz representa Gertrudes.

– Tenho mais passado do que futuro! – Disse o rei ator. – Meu fim certamente está próximo. Mas alegra meu coração saber que depois de mim outro dormirá no meu colchão.

– Não, eu não aceito! – Disse a rainha atriz – Eu não aceito toalha molhada em cima da cama nem cueca surrada no meu travesseiro, pois laranja de maribondo se encontra em qualquer janeiro e só tem outro parceiro aquela que mata o primeiro!

E o rei ator responde:

– A carne é fraca, minha pequena. Que mulher não enfrentaria uma bomba, subindo ladeira para dançar um samba, descendo ladeira numa caçamba, correndo e pulando atrás de uma pomba?

E a rainha atriz responde:

– Da mulher que você fala, vi uma que se chama Raimunda. Comigo não se parece, pois tem lá enorme bunda. Desse mal sempre padece aquela que é vagabunda.

E o rei ator responde:

– Pelo que diz, você é mulher que esfria o facho, mas aquela que nega o ato é a primeira a buscar um macho. Quero ver você manter essa crença sem ruído, pois quando eu tiver morrido, quero ver se você aguenta três dias nesse moído.

E a rainha responde:

– Que o inferno me queime viva e do diabo eu seja amiga; que o céu me ceife a vida, que o mar me faça ferida, que um touro eu tenha parido se depois de você morrido eu arranjar outro marido.

Ouvindo isso, Ramilete falou para Ofélia:

– Eis um belo perjúrio! Cadelas no cio juram melhor!

– Juras solenemente. Agora me deixe, querida – Disse o rei ator – Enfadonho é este momento, pois sei que no fundo mente. Deixe que sozinho eu durma vendo estrelas no firmamento.

– Durma, meu amor. Que o sono embale a sua alma.

Ramilete dirige a palavra a sua mãe e pergunta:

– Que achou?

– Acho que a rainha da peça promete demais.

– Ao menos a rainha da peça promete! – Disse Ramilete – Promete não procurar uma rola quando a rola que ela tem desaparecer da gaiola!

O rei Cláudio interveio:

– Nisso há alguma ofensa?

– Não. – Respondeu Ramilete – É apenas brincadeira. Tudo é brincadeira. Até o veneno é de brincadeira. Não há a menor intenção de ofender ninguém.

– Como se chama esse drama? – Perguntou o rei Cláudio.

– “A Ratoeira”. Armadilha para pegar gabiru. Mas trata de fato real: o assassinato de Gonzaga. O senhor não imagina, mas o irmão mata Gonzaga e ainda fica com a mulher dele. Mas isso não tem a menor importância para nós que temos a consciência tranquila e a alma livre. Veja como vai ser fácil matar Gonzaga num jardim, com veneno derramado em seu mungunzá. Tudo isso para usurpar o trono. Agora vem a cena em que o assassino arrebata o amor da mulher de Gonzaga.

Ofélia interrompeu a narração de Ramilete porque percebeu que o rei Cláudio não estava se sentindo bem.

– O rei se levantou. – Disse Ofélia.

– Sente alguma coisa, meu senhor – Perguntou Gertrudes.

– Parem essa peça! – Gritou Polônio.

– Não me sinto bem. Preciso de luz – Disse o rei.

O rei se recolheu aos seus aposentos e o salão foi, aos poucos, esvaziado.

Ao olhar para a porta dos fundos, que dá acesso ao camarim dos atores, Ofélia vê a atriz que beijou seu amado. Como uma fêmea de leão disposta a não dividir seu macho com outra leoa, ela a segue e, tenham certeza, caros leitores, do encontro dela com a suposta rival, só saíram verdades e nada mais. Nem um arranhão. Apenas palavras carregadas com verdades desmanchando toda a trama de Guildenstern.

No recinto, onde a peça estava sendo encenada, ficaram apenas Ramilete e Horácio.

– Horácio, não tenho a menor dúvida sobre a veracidade das palavras do fantasma. Você concorda?

– Não tenho dúvidas. Concordo com o senhor: o fantasma estava certo.

– Quando se falou no veneno…

– Observei tudo. O rei Cláudio se denunciou.

Rosencrantz e Guildenstern entram no recinto, apressadamente, interrompendo a conversa dos dois amigos:

– Senhor, o rei está destemperado!

– Falta-lhe tempero? Procure na cozinha, pois a lavagem para porcos que eu tenho para administrar só aumentará a sua bílis.

– É destempero de cólera, meu senhor!

– Nesse caso, seria mais inteligente procurar um médico.

– Sua mãe nos pediu para procurá-lo. Ela quer vê-lo, no seu quarto de dormir, antes de se deitar.

Polônio entrou no recinto e Guildenstern falou:

– Polônio, a rainha quer vê-lo também.

– Obrigado pelo aviso. Irei agora mesmo.

– Aproveite e diga a ela que irei logo em seguida. – Disse Ramilete.

– Sim, meu senhor. Direi.

Ramilete se despede de seu amigo dizendo:

– Devo falar com minha mãe, mas antes gostaria que me deixassem sozinho. Até logo meus amigos.

Sozinho, Ramilete trava uma luta inglória. Ele fica entre o desejo de cuspir fogo em cima da sua mãe, com palavras amargas, despejando nela toda a sua angústia e dor, e o dever de respeito ao ser que lhe trouxe ao mundo.

Fraqueza”, pensou ele. “Ela é apenas fraca e, além disso, mais uma vítima desse monstro assassino. Serei duro, frio, mas moderado. Quanto ao rei, esse experimentará da minha vingança! Este é o momento. Devo ir”.

Ele respirou fundo e foi ao encontro da sua mãe. Mas antes deu uma passadinha furtiva nos aposentos do rei para ver sua reação depois da peça.

Capítulo XVI

Nos aposentos do rei encontram-se Rosencrantz e Guildenstern envolvidos em demasiados cuidados para proteger a saúde real. Eles fazem de tudo para distrair o tirano e acalmar-lhe o ânimo.

– Não gosto do jeito desse maluco! – Disse o rei andando em círculo. – Esse lunático tem que ficar longe do castelo! Vocês terão essa incumbência! Levem-no para Serra Talhada e o mantenham lá até que volte ao normal! Esse doido é um perigo entre nós!

– Terei o maior prazer em mantê-lo longe do palácio. – Disse Guildenstern.

Enquanto o rei andava em círculos, gesticulando e balbuciando pragas, Rosencrantz levou Guildenstern a um canto dos aposentos e, sem perceber que Ramilete havia entrado pela janela e estava escondido bem próximo deles, perguntou:

– Você tem alguma razão especial para essa sua atitude, além de separar o príncipe Ramilete de Ofélia? Eu sei que você contratou a atriz para provocar ciúme!

– Esqueça esse assunto. Digamos que minha razão especial seja apenas a de proteger o rei, meu amigo.

– Apressem-se! – Ordenou o rei – Tirem esse louco daqui!

– Faremos isso agora mesmo, meu senhor. – Disse Guildenstern.

Nisso, Polônio entrou esbaforido. Antes que ele falasse alguma coisa, o rei fez sinal para que Guildenstern e Rosencrantz os deixassem sozinhos. Em seguida Polônio falou:

– Senhor, acabo de saber que ele se dirigiu aos aposentos da rainha! Espionarei atrás das cortinas e tudo que eu ouvir, trarei como notícia para Vossa Majestade! Estou crente que a rainha vai censurá-lo com veemência e adequadamente pelas loucuras que tem aprontado! Dê-me licença, meu senhor, devo agir com pressa!

– Vá o quanto antes.

O rei se atirou de joelhos aos pés da cama, entrelaçou os dedos das mãos e se confessou: “não tenho nem vontade de rezar, pois sei que os anjos de luz não me escutarão. Sou tão infame que minhas palavras só serão ouvidas pelos demônios. Só esses seres se regozijarão com os meus feitos: o assassinato de um irmão, a posse de todos os seus bens e o pecado da luxúria com sua mulher”.

Nesse momento aparece uma sombra por trás da cortina de uma das janelas. É Ramilete com um punhal na mão se aproximando furtivamente por trás do rei. Ele hesita, para e volta. Em seguida sai por onde havia entrado alguns minutos antes, sem ser notado por ninguém.

Capítulo XVII

Consciente de toda armação forjada pelo rei, e acreditando que nessa história o crime mais grave de sua mãe foi o de procurar uma rola, Ramilete se aproximou da porta do quarto dela e bateu.

– Entre. – Disse Gertrudes.

Ao entrar, Ramilete disse:

– Seria eu uma louca cotovia que via, que via, que via? Ao entrar em leito tão nobre, impregnado de vapores de orgia, que cotovia não sentiria? Que cotovia tal coisa não imaginaria, estando diante da cúmplice que na cama ardia?

– Meu filho, pare com esse delírio! Que mãe suportaria a dor de ver seu único filho desmoronar em loucura? Estou a ponto de enlouquecer também! Eu imploro, conte-me sobre o que o atormenta!

– Aqui estou, minha mãe, na armadilha para passarinhos. Não sou mais uma cotovia. Agora venho como pardal onde pombas e rolas voam.

– Não suporto mais essa maldição na nossa vida!

– Maldição? Entre as mulheres é você a maldita Eva que trocou o paraíso por uma trepada!

– Meu filho, Eva trocou o paraíso pelo conhecimento! Ela comeu o fruto…

– Não importa a ordem dos acontecimentos! O que importa é que ela comeu a fruta e Adão a comeu! Logo, ele comeu a fruta! Daí nasceu Caim que matou o irmão!

– Como queira! Mas onde você entra nessa história?

– Eu sou o bendito fruto de uma pura relação de amor entre você e meu pai, morto pelo irmão, Caim! Estou disposto a lançar mão de todas as armas de vingança!

– Meu filho, seu pai lançou uma maldição sobre nós! Não comandamos mais nossas atitudes, nossas vidas…

– Que bobagem está me dizendo, mulher?

– Pegue o livro que está sobre a cabeceira da minha cama! Eu o encontrei hoje pela manhã entre os objetos do seu pai. Folheei apenas por alguns minutos, mas pude concluir que algo nos direciona o tempo todo para que reproduzamos os mesmos fatos descritos na peça “Hamlet” de Shakespeare.

– O que está me dizendo?

– Pegue-o e leia!

– Faça isso, Hamlet! – Disse o fantasma do rei assassinado que acabava de aparecer.

– Quem disse isso? – Perguntou Ramilete – Só meu pai pronunciava meu nome corretamente. Apenas os ignorantes me chamam de Ramilete. Meu pai, sim, chamava-me corretamente: “Hamlet”.

– Leia o livro! Faça isso agora! – Disse o fantasma.

– Meu filho, com quem você está conversando? – Perguntou Gertrudes.

– Não está vendo? É o fantasma do meu pai!

– Ave Maria! – Gritou Gertrudes – É ele mesmo! Estou envergonhada! Não consigo, nem quero olhar para seu pai! Sinto como se tivesse traído sua confiança ao deitar com outro na cama que foi dele!

Gertrudes pegou o velho livro de capa de couro e colocou nas mãos de Ramilete digo, Hamlet. Afinal, um narrador da minha estirpe não deve integrar o rol dos ignorantes. De agora em diante só vou chamar nosso príncipe de Hamlet.

– Leia isto! Vamos, leia! Sairei deste quarto agora mesmo! Não tenho coragem de encarar seu pai!

– Não se atreva a deixar este lugar, mulher! – Gritou Hamlet.

– Ela tem razão, meu filho. – Disse o fantasma – Eu atraí uma maldição para nossa família. Empolguei-me tanto com histórias de reis e rainhas, contadas por meu avô, que desejei ardentemente viver uma delas. Comprei vastas quantidades de terras, construí um castelo e orientei, segundo o roteiro de um sonho, a vida dos camponeses que vieram para cá. Eu dei um sentido glorioso à vida deles. Fiz com que vivessem como num conto de fadas. Eles até esqueceram como é a vida fora das nossas muralhas. Nem mesmo você, meu filho, sabe como é viver lá fora, pois nunca permiti que as influências de lá contaminassem aquilo que sempre considerei como meu reino. Eu escolhi a vida que todos deveriam viver. Quando percebi que tudo havia se transformado em maldição e que o comando não era mais meu, já era tarde demais. Depois que morri, nada mais me interessava, senão, a vingança. Ninguém melhor do que meu próprio filho para fazer isso por mim. E agora, vingue-me.

– Vivemos sua fantasia? – Perguntou Hamlet.

– Não mais que isso, meu filho. – Respondeu Gertrudes – Essa maldição nos persegue desde o dia em que seu pai afirmou que criaria seu reino. O cantar do galo, naquela ocasião, selou nosso destino.

– Um galo?! Você está me dizendo que um galo selou para sempre o destino de homens livres?!

– Se você abrir esse livro, a verdade será revelada. – Disse o fantasma.

Hamlet sentou-se na cama da mãe e leu a primeira página. O fantasma, sentindo-se aliviado, falou:

– Conheça a verdade e ela o libertará. Sinto que agora posso descansar em paz. Adeus, meu filho.

– Pai! Pai, onde você está? O que faço agora? Pai!

Depois que passou a euforia de Hamlet, causada pela surpresa da revelação, Gertrudes falou:

– Apenas leia o livro.

Após a leitura das duas primeiras cenas da peça, Hamlet percebeu a semelhança dos fatos ali contidos com sua história real. Gertrudes, vendo a inquietação e espanto do filho, disse:

– Polônio, saia daí. Creio que não há mais motivos para isso. Agora, deixe-me a sós com meu filho.

– Deixarei vocês. – Disse Polônio – Isso poupa momentaneamente minha vida, mas a maldição continua. Parece impossível detê-la.

– Faça o que ela pediu e não fale mais bobagens!  – Repreendeu Hamlet.

Polônio abaixou a cabeça e saiu.

– Ofélia aparece aqui na terceira cena. – Disse Hamlet, meia hora após a saída de Polônio. – A quarta e a quinta cenas estão escritas aqui exatamente como se passaram comigo e com os meus amigos, Marcelo e Horácio! Como isso é possível?

Hamlet pulou a primeira cena do segundo ato, pois não lhe dizia respeito, leu a segunda cena e ficou impressionado com a semelhança com sua vida. Fazendo leitura dinâmica, logo chegou ao terceiro ato. Ele leu a quarta cena e disse:

– Eu ia matar Polônio! Eu ia matar esse desgraçado!  Como se sentiria Ofélia depois disso?

– Vá até a quinta cena desse quarto ato. Depois verá que ela morre no final da sétima cena. – Disse Gertrudes.

– Não deixarei que esse maldito livro conduza minhas ações! Não matei o maluco Polônio! Isso é sinal de que podemos mudar tudo! Maldições não existem! O que existem são loucos dirigindo a vida de pessoas, manipulando seus sentimentos e, quem sabe, até seus pensamentos! Não lutarei com Laertes, conforme está escrito aqui, pois tanto o pai como o irmão, são preciosos para a manutenção da saúde mental de Ofélia. Não deixarei essa maldita peça me guiar, mas o crime cometido por Cláudio não pode ficar impune! O assassino do meu pai vai ter que pagar pelo seu crime! Agora preciso ver Ofélia! Tenho que afastá-la dessa desgraça!

– Nunca ouvi dizer que alguém escapou de uma maldição, meu filho.

– Maldições não existem! O que existe são pessoas condicionadas a viver uma fantasia! Alguém está nos guiando nessa loucura! No início foi meu pai! Depois dele, quem continuou manipulando os fatos? Vou descobrir, ou melhor, vou confirmar aquilo de que já tenho certeza!

Ele sai à procura de Ofélia, encontra Polônio e diz:

– Está satisfeito com tudo que fez?

– Eu só quis realizar o sonho do seu pai.

– Você e Cláudio manipularam os fatos desde o início! Moldaram nossas vidas de acordo com uma fantasia, não foi? Vamos, responda! Que espécies de loucos fariam isso? Você ia sacrificar sua vida e a vida da sua filha, seu cretino! E tudo por nada! E a morte do meu pai? Vocês o envenenaram!

– Não, eu não participei disso! Eu confesso que perdi o controle da situação, mas nunca mataria seu pai! Não consegui parar seu tio. Ele sempre me dizia que não se podia controlar uma maldição. Estava tudo escrito, meu senhor! Segundo ele, tinha que se cumprir! Quando eu descobri que ele tinha envenenado seu pai, percebi que tudo isso estava indo longe demais! O fantasma… O fantasma que você e seus amigos viram foi criação minha! Eu criei a situação do fantasma para alertá-lo do crime! Acredite em mim! O fantasma era só uma encenação coordenada por mim. Eu queria que o senhor soubesse da verdade.

– Você estava atrás das cortinas exatamente como na peça! Você ia deixar que eu o matasse?

– O senhor não ia conseguir me matar. Eu estava preparado para evitar isso. Havia no quarto de sua mãe três seguranças escondidos comigo, além do suposto fantasma do seu pai.

– Engendrou tudo isso? Você é um monstro, um louco!

– Eu tive que fazer isso para tentar deter seu tio!

– Por que não fez isso antes da morte do meu pai? Podia ter sumido daqui, talvez! Qualquer coisa, menos apoiar a loucura desse canalha assassino! Não estrangulo você agora porque sua filha não merece isso! Você não passa de cúmplice, bajulador, infame! Vive se humilhando diante dele! Meu pai deu amizade…  Você esqueceu isso em troca da migalha de pão que o assassino oferecia! Saia da minha frente! Tenho nojo de você!

– Perdoe-me! Eu quis fugir, mas era tarde. Nada do que eu fazia mudava os acontecimentos. O senhor pode me matar agora! Faça isso e alivie sua dor!

– Basta, seu louco! Saia da minha frente, pois preciso ver Ofélia!

Ele vai até o quarto de Ofélia e a encontra fazendo uma trança nos longos cabelos. Aproxima-se da penteadeira e ela o vê pelo espelho. Vira-se, levanta-se e se atira em seus braços.

– Eu precisava ter a certeza de que você estava bem, meu amor. Sei que lhe devo explicações… Na verdade, as explicações sobre o beijo que você viu acontecer comigo e a atriz, quem saberá explicar melhor é o próprio mentor da cena.

– Já descobri tudo. Foi Guildenstern. Ele armou tudo para nos separar.

– Nesse momento eu só peço que confie em mim. Acabarei com toda essa farsa e esclarecerei tudo.

Ela suspirou e disse:

– Perdoe-me por ter desconfiado de você.

– Não há o que perdoar. Só prometa que não vai deixar de me amar nunca.

– Eu prometo.

Ele a beijou e se retirou do quarto com o intuito de acertar as contas com Cláudio. Na entrada dos aposentos do tio ele encontra Guildenstern e Rosencrantz que tentam dissuadi-lo da ideia.

– Guildenstern, saia da minha frente antes que eu esqueça que um dia fomos amigos! E você, Rosencrantz, mesmo sabendo da conspiração do Guildenstern contra mim e Ofélia, não fez nada para minimizar o sofrimento dela! Quero que os dois sumam do castelo para sempre!

Virando-se para Guildenstern ele ainda diz:

– Invente outra coisa, Ofélia não caiu na sua armadilha ridícula!

Enquanto isso, em um dos salões, Laertes, após seu regresso da França, é recebido pelo rei.

– Laertes, meu bom Laertes percebo que desde que aqui chegou você tem andado de um jeito estranho! Conte-me o que aconteceu!

– Prefiro que Vossa Majestade me poupe de tamanha vergonha.

– Como seu rei e soberano, exijo que me conte tudo.

– Não posso desobedecer ao rei. Mas tudo isso é bastante constrangedor.

– Conte tudo.

– Logo que cheguei à França, fui oferecer ao presidente de lá as coisas dos jumentos. Ele me falou que tudo que eles adquirem é usado para o conforto do povo. Se ele comprasse aquele monte de rolas de jumento, então teria que doá-las para o povo. Aí ele me fez uma pergunta: “você sabe o que é liberté, égalité e fraternité?” Eu disse que não sabia, então ele me fez outra pergunta: “você sabe o que aconteceu com o último soberano que infringiu os deveres com essas três palavras? ” Eu disse mais uma vez que não sabia, então ele fez a terceira e última pergunta: “você sabe qual é o povo que leva, do seu governo, fumo no rabo e nem sequer grita”? Eu disse a ele que também não sabia e ele disse: “Você vai saber”. Eles me levaram para uma cela e pegaram uma das rolas de jumento e enfiaram no meu rabo. Tentei gritar, mas cada vez que eu ameaçava abrir o bocão eles apertavam uma peixeira no meu pescoço. Fiquei preso esse tempo todinho com direito à companhia dos cipós dos jumentos que eu levei. Era tanta rola de jumento que tive a ideia de fazer alguma coisa com elas. Comecei a fazer bengala, cabo de faca, cabo de colher, de garfo e de enxada. Aprendi a fazer até cabo de espada. Eu trouxe um presente para o senhor. Veja que maravilha: uma bengala de jumento!

Hamlet chuta a porta e entra de assalto interrompendo a conversa dos dois. Com uma espada em punho ele diz ao rei:

– Desembainhe sua espada! Eu lhe darei a chance que você não deu ao meu pai.

Laertes pega sua espada cabo de rola e se coloca na frente do rei, pronto para defendê-lo. Polônio entra e se dirige ao filho:

– Recolha sua espada cabo de rola, Laertes! Esse assassino precisa ser detido! Vamos, recolha sua espada e saia da frente desse maldito!

O filho obedece e Polônio diz:

– Contribuí para a criação de um monstro. Eu mesmo ponho um fim nisso!

 Polônio avança para cima do rei com espada em punho. O rei se esquiva da investida dele e, com a bengala do jumento que acabou de receber de presente, bate em sua cabeça. Em seguida, crava um florete no peito do adversário. Laertes vai ajudar o pai que está ferido no chão, pega a espada da mão de Polônio e antes que ele se arme para desafiar o rei, este lhe aplica um golpe com a bengala de rola de jumento. Ofélia entra e vê toda a cena. Aos prantos ela vai até o irmão e tenta fazê-lo levantar. Sem sucesso, ela corre até o pai e tenta reanimá-lo, mas tudo é em vão: o pai está morto e o irmão, ferido.

Enquanto isso, Hamlet trava luta com o rei e o fere. Caído, ele recebe os cuidados de Gertrudes que acabava de adentrar no local. É nesse momento que o rei tem a infeliz ideia de tomá-la como refém.

Vendo seu pai morto, Ofélia para de chorar de repente, enxuga as lágrimas e deixa uma ira surda e incontrolável tomar seu corpo. Um rubor colérico toma sua face. Com os olhos apertados ela vira o rosto lentamente na direção de Cláudio. Um olhar de um bilhão de chispas de fogo encontra os olhos de cachorro acuado do rei. Ela respira fundo, ergue-se e lentamente sai da cena do crime, enquanto Hamlet, Guildenstern e Rosencrantz iniciam negociação com Cláudio para libertar Gertrudes. Nem dois minutos se passaram e Ofélia volta com seu arco e flecha. O meigo e frágil semblante de princesa que ela sempre carregou em sua vida deu lugar a uma face madura com um olhar sério e duro na direção do assassino de seu pai. Com uma voz que saia forçando passagem entre os alvíssimos dentes ela falou:

– Seu reinado de crimes terminou!

– Quero que vocês deixem o castelo para sempre! Saiam agora ou eu corto a garganta de Gertrudes! – Gritou o rei.

– Há tempo para tudo, meu rei – Disse Ofélia enquanto colocava a flecha no arco – “Existe um tempo certo para cada coisa, momento oportuno para cada propósito debaixo do sol: tempo de nascer, tempo de morrer; tempo de plantar, tempo de colher[39]”.

 Com uma frieza nunca antes percebida numa bela, doce, meiga e frágil princesa, Ofélia mira na cabeça de Cláudio e, para a surpresa de todos, sem dizer mais nenhuma palavra, atira.

Uma flechada certeira, que teve como destino um ponto situado entre os olhos do assassino de seu pai, acabou com toda a confusão.

Vendo que tudo havia terminado com seu último ato, a bela dobrou os joelhos e foi amparada por seu amado.

Daí por diante, nunca mais se soube da matança de jumentos para exportação, fato que trouxe tranquilidade para o Conde Albérius que acabou livrando seu companheiro pinguço de uma morte mil vezes anunciada e nunca concretizada.

Em vez do uso obrigatório das roupas quente europeias, adotou-se, na fazenda Nova Dinamarca, a liberdade de escolha e, consequentemente, o uso de roupas mais adequadas àquele lugar cuja temperatura chegava facilmente, no verão, aos quarenta graus centígrados.

Horácio, Marcelo e Laertes destruíram os armários de seus antigos lares; dividiram o aluguel de uma nova casa com sauna gay e fachada cor de rosa; juntaram suas roupas em um único closet[40] e foram curtir a liberdade de uma vida com um pouco de frescura. Eles brincavam tanto com suas espadas que ficaram conhecidos como “Os Três Mosqueteiros”. De vez em quando recebiam as visitas do corno Cornélio e de Voltimando. Esses dois, perguntados sobre os motivos de seus andares estranhos, juravam de pés juntos, beijando o sinal da cruz, que haviam escorregado num toco.

Rosencrantz e Guildenstern, perdoados por Hamlet, passaram a ser guias turísticos de Elsinor onde contavam toda a história narrada por Shakespeare, na peça Hamlet, e a história da suposta maldição de Hamlet que tomou conta daquele castelo.

Gertrudes nunca mais foi a mesma. Enclausurou-se, a contragosto do filho que sempre a perdoou, em uma das torres do castelo e lá permaneceu até o fim dos seus dias.

Por fim, resta dizer, amigo ou amiga leitora, que para a felicidade de Hamlet, Ofélia nunca mais usou seu arco e flecha. Assim, nunca pudemos saber se ela seria capaz de acertar, com apenas uma flecha, dois alvos ao mesmo tempo. Também, para a garantia de uma nova geração de pequenos Hamlets e Ofélias, ela nunca mais quis demonstrar que, com apenas uma bota de bico fino, seria capaz de acertar dois ovos.

E assim, como acontece com qualquer casal que verdadeiramente se ama, retirando um do outro pequenas farpas do dia a dia, na presença de imensos e duradores buquês de flores, entre incontáveis beijos e abraços sob os lençóis eles foram felizes um dia após outro, cada dia de suas vidas.

Outros títulos do autor serão facilmente encontrados na maior distribuidora virtual de livros do planeta: http://www.amazon.com:

– Um Criador de Histórias;

– O Último Anjo;

– Em Nome de Deus;

– Um Olhar Sobre Nossas Cortinas.

VANRAZ

vanrazferraz@gmail.com

[1] Personagem da peça “Hamlet” de Shakespeare.

[2] Pernambuco é um Estado do Brasil. Localizado no Nordeste, sua capital é Recife.

[3] Flor.

[4]A Guerra do Paraguai foi um conflito militar que ocorreu na América do Sul no período de 1864 a 1870. Nessa guerra o Paraguai lutou sozinho (e perdeu) contra a Tríplice Aliança, apoiada pela Inglaterra, formada por Brasil, Argentina e Uruguai.

[5] A Santa Inquisição foi uma espécie de tribunal católico criado na Idade Média para condenar todos aqueles que eram contra os dogmas pregados pela Igreja. Esse surto de insanidade humana, em nome de um suposto deus, serviu também de desculpa para a prática de inúmeros outros crimes contra a humanidade. Estabelecido pelo Papa Gregório IX, esse maldito Tribunal do Santo Ofício perseguiu, torturou e mandou para a fogueira milhares de pessoas consideradas bruxas, heréticas ou simplesmente por serem praticantes de outra religião que não o catolicismo. Essa maldição católica afundou a Europa, por vários séculos, numa terrível era de trevas. Acreditem, naquela época, uma religião teve o poder de trazer o inferno para a Terra com todos os seus demônios encarnados e vestidos com batinas!

[6] Expressão usada, pelo menos no interior de Pernambuco, que quer dizer: “Dê-se por satisfeito”, “pelo menos isso”, “isso é bom. Podia ter sido pior”, “Dê graças a Deus”.

[7] Faz referência aos órgãos genitais do jumento.

[8] Conto de réis era uma expressão adotada, antigamente, no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis. Réis é o plural de Real. Um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de mil-réis. Em Portugal a moeda Real foi substituída pelo escudo. No Brasil essa moeda foi substituída pelo Cruzeiro. Atualmente o Brasil adota o Real como moeda.

[9] “No pau” é uma expressão usada no Nordeste do Brasil que significa “comprar à vista”, “pagamento em dinheiro no ato da compra”.

[10] Mungunzá ou Munguzá é um doce feito de grãos de milho levemente triturado, cozidos em um caldo contendo leite de coco ou de vaca, açúcar, canela em pó ou em casca e cravo-da-índia. O prato faz parte da culinária nordestina.

[11] Cícero Romão Batista foi um sacerdote católico brasileiro. Na devoção popular é conhecido como Padre Cícero ou Padim Ciço. Carismático, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará, bem como, do Nordeste. Foi excomungado pela igreja. No ano de dois mil e dezesseis, os devotos do  Padre Cícero comemoram a reconciliação com o Vaticano. Isso pôs fim a uma punição de mais de cem anos. Quando morreu, há 81 anos, Padre Cícero não podia sequer celebrar missa.

[12] Expressão usada, no Sertão pernambucano, por visitante que está diante da casa do seu anfitrião. Ele chama a atenção de quem está dentro da casa. Significa: Você que está dentro da casa!

[13] Palavra que no Nordeste brasileiro é usada para designar uma pessoa boba.

[14] Axila.

[15] Trecho da letra da música dos Titãs, O Pulso.

[16] Descabaçar: desvirginar.

[17] Buchada de bode, ou simplesmente buchada, é um prato típico da região Nordeste do Brasil.

[18] Bêbado.

[19] Deixe as coisas como elas estão: calmas; deixe sossegados;

[20] Homi: homem.

[21] Vamos simbora: Vamos embora; Vamos em boa hora.

[22] Prato típico nordestino feito à base de pata de boi.

[23] Pequena arma antiga semelhante ao revólver. Possui dois pequenos canos e pode disparar duas balas.

[24] Máquina lambe lambe: conhecida como máquina-caixote, revestida em couro cru e coberta na parte posterior com uma espécie de saco negro, com três aberturas: dois orifícios para os braços e um para enfiar a cabeça na hora de bater e revelar as fotografias.

[25] Derivação regressiva de “senhor”. Expressão muito usada no Nordeste brasileiro.

[26] Meiota: 300ml, que corresponde a metade de uma garrafa tradicional de cachaça de 600ml.

[27] Traição.

[28] Padre Cícero.

[29] Surra.

[30] Tolo.

[31] Expressão utilizada para denominar pessoas que não gostam do sexo oposto.

[32] Local destinado à prostituição: rendez-vous.

[33] Cramunhão: capeta da garrafa. É mais uma palavra usada por gente tonta para designar o diabo, figura fictícia que povoa as mentes fracas de seres supersticiosos. Dizem os tolos que, depois de um pacto, um ovo de galinha é fecundado pelo próprio diabo. A pessoa que fez o pacto terá que pegar o ovo e levar para casa. Dele nascerá um diabinho que o servirá a vida toda e no fim dela levará sua alma. Quanta bobagem!

[34] Ezequiel 23 – 20, Bíblia: E enamorou-se dos seus amantes, cujo membro é como o de jumentos, e cujo fluxo é como o dos cavalos.

[35] Dizem que um habitante do Sul foi atendido num hospital com um sangramento bastante suspeito no traseiro. O paciente insistiu que se acidentou quando escorregou e caiu em cima de um toco de árvore. O médico diz que não parece acidente com toco. Então, oferece dois remédios e afirma que só pode ministrar o remédio correto. Um remédio seria para arrombamento anal provocado por um toco e o outro remédio seria para arrombamento anal normal, causado por objeto orgânico e pulsante semelhante ao quinto membro do jumento. Disse o médico: se eu aplicar o remédio errado, você morre. Qual escolhe? Devo aplicar mesmo o remédio para toco? O paciente do Sul respondeu: – Não. Aplique esse outro remédio. Mas que foi toco, foi!

[36] Adaptação. 1 Coríntios 13. Bíblia.

[37] “E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas, para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.”- Marcos 4:11-12.

[38] Líder dos espíritos malignos.

[39] Eclesiastes, Cap. 3.

[40] Local sem portas apropriado para guardar roupas.

Trecho de diálogo de “A Maldição de Hamlet”.

(…) não somos diferentes. Somos humanos, apenas isso! Só isso deve nos interessar. É essa maldita sociedade que nos distingue um do outro, cria divergências e, assim, divide-nos! Haverá um dia em que as cercas da ignorância não mais nos separarão. Nesse dia eu não precisarei discutir a preferência sexual de ninguém, pois só haverá uma resposta: preferência sexual humana. A cor da pele será apenas um belo adereço no revestimento do corpo e minha cor será igual a sua: cor humana; ninguém precisará dizer qual é sua raça ou sua crença, pois só haverá uma resposta para cada pergunta: raça humana, crença humana. Assim, nesse dia, nenhum pensamento filosófico ou teológico que definam uma entidade sobrenatural fará sentido, pois, sendo honesto, ninguém terá coragem de definir um ser do bem ou do mal, e mesmo que alguém ousasse defini-lo não haveria ninguém interessado em ouvir tamanho disparate! Todos saberão que um ser sobrenatural definido e proferido por quem quer seja é um falso ser! Sabendo que o mal não existe, e sim a ignorância que leva à intolerância e todos os outros males, aprenderemos desde cedo a ter sede de saber e de aceitar as diferenças. Nesse dia teremos o reinado das virtudes cuja rainha será a honestidade e todos os humanos celebrarão o desprezo pela mediocridade!

Vanraz

O BELO

“O homem é o que há de mais belo para o homem” (CÍCERO. De Nat. D.,lib. I). E isto não é um sintoma de limitação, pois acha belos outros seres além de si; apraz-se também com a beleza das formas dos animais, com a beleza das formas das plantas, com a beleza da natureza em geral. Mas somente a forma absoluta, perfeita, pode admirar sem inveja as formas dos outros seres.