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Sou apenas um CARA que procura ser justo, correto e sensato. Defendo os pobres, a liberdade de crença e de não ter crença alguma. Acredito que a verdade é relativa e nada escapa a argumentação.

UM OLHAR SOBRE NOSSAS CORTINAS

VANRAZ

UM OLHAR SOBRE NOSSAS CORTINAS

(O Romance de Burra Preta)

1ª Edição

Copyright© José Ivan Barbosa de Melo Ferraz

918622 – 100 – 159 – 2015

O conteúdo desta obra é de responsabilidade do(s) Autor(es),

Proprietário(s) do(s) Direito Autoral.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

_______________________________

 

Vanraz

                        Um olhar sobre nossas cortinas / Vanraz.

Recife: Vanraz, 2015. 2ª Edição.

ISBN: 978–85–918622–0–7

  1. Contadores de histórias 2. Contos

 

 

 

A mim e aos meus. 

            Quem leu “Um Criador de Histórias” vai se surpreender com o estilo deste novo trabalho. O que se pretende mostrar neste romance é uma fotografia o mais fiel possível do momento sócio-político em que vivemos, do palavreado chulo que usamos abertamente ou veladamente para fazer referências bem-humoradas aos partícipes da sociedade brasileira neste início de século. Aqui, não há uma única expressão criada pelo autor, pois todas foram colhidas do meio social. Este trabalho perderia no tocante ao quesito honestidade se o autor maquiasse ou negligenciasse qualquer frase aqui posta.

“Um Olhar Sobre Nossas Cortinas” é uma crítica nua, crua e sem pudor à sociedade. É a visão do autor sobre um momento social. Se essa visão é errônea, distorcida ou não passa de sandice, não cabe neste momento negar ou afirmar sem com isso incorrer no pecado da falta de isenção. No entanto, tenha certeza de que esse é um olhar com tudo que nele há de mais honesto sobre esse véu social que separa o que somos (e que tentamos ocultar) daquilo que nos esforçamos para demonstrar.

            Vanraz

Capítulo I – A mãe de Severino

Severino Santos era o filho mais velho e único, entre os filhos de Santinha Preta Santos, que tinha sido concebido por obra e graça de um espírito não muito bem identificado. Os outros quarenta ou quarenta e um filhos eram todos “normais”, mesmo sendo de pais cujas identidades eram tão desconhecidas quanto à do pai de Severino.

Tendo sido um líder político da mítica cidade pernambucana chamada Bassouralnavhunda, Bassoural ou simplesmente Navhunda, ele inspirou paixões antagônicas.

Algumas pessoas até diziam: “Severino não dá para ser político, pois é muito legalista e certinho demais”.

Bem-humorado, ele apenas respondia: “Tem razão, não darei. Serei apenas político, mas não darei”.

Talvez as pessoas estivessem certas, mas concluiremos assim somente se olharmos pela ótica desavergonhada, desonesta e troncha do “jeitinho brasileiro”. Parece que aqui neste belíssimo país o correto é agir de modo ilegal ou apenas um pouco ilegal. Seria um meio termo, nem legal demais nem muito ilegal, como se isso fosse logicamente possível. Seria mais ou menos assim: você pode cometer uma ilegalidade, mas numa proporção diminuta, porém, indefinida. Tal proporção subjetiva está mais ou menos na cabeça de cada um. Se alguém segue rigorosamente a lei esse não será motivo de orgulho, mas de desconfiança. Para ser aplaudido e admirado o indivíduo deve saber driblar a lei. Tenho certeza de que Severino seria um excelente político na Dinamarca, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Finlândia ou em qualquer país em que a honestidade não seja motivo de vergonha.

Lembrei-me de um fragmento de texto do célebre mestre Rui Barbosa que ainda, para nossa vergonha, não está desatualizado:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. ”

A mãe de Severino, Santinha Preta Santos, era a própria formosura em pessoa, um anjo que desceu do céu para ensinar aos homens e mulheres que burras e burros, jumentas e jumentos, cabras, porcos e galinhas não sabem acariciar, ouvir lamentos nem acender o relaxante cigarro na cama. Ela sim, pois ainda em tenra idade, dezoito anos, já havia “brincado de médico” com todos os garotos e garotas da fazenda Caruá e da Região do Bassouralnavhunda num raio de mais de dez léguas. Curiosamente, ainda que Navhunda ficasse entre Vitória de Santo Antão e Recife, a “boa” fama de Santinha nunca chegou ao Recife.

Jonas Antônio Holanda de Melo, apelidado de “Ontoim Gala Rala”[1], filho único do riquíssimo dono da fazenda Caruá, alucinadamente apaixonado por Santinha Preta, não conseguia desfrutar completamente do corpo sagrado e brejeiro daquela potranca. Na verdade, ele até teve oportunidade, mas falhou. Que decepção! Depois de mentalizar o corpo de Santinha por vários anos, o pobre “Gala Rala” não se conteve ao ver aquela monumental escultura humana afastar uma fina cortina de seda azul e entrar no seu quarto tão nua quanto no dia em que nasceu. Enquanto isso, “Gala Rala” deitado admirava aquele corpo que lentamente se aproximava fazendo curvas sinuosas com uma dança erótica. Com isso, os músculos do pobre “Gala” se contraíam e relaxavam em espasmos incontroláveis. Com os olhos revirando, ele teve orgasmos múltiplos sem nem ter sido acariciado por Santinha. Ela nem chegou sequer a tocá-lo nem foi tocada por ele. Ficando assustada com aquela cena horrenda, Santinha colocou as mãozinhas na boca abafando um grito de horror. Parecia que “Gala Rala” estava tendo um ataque epilético. Ela chegou a perguntar se ele estava bem. Com um aceno descontrolado de cabeça ele sinalizou que sim.

Recuperando-se do susto, serena e bela ela vestiu cada peça de sua roupa com a calma de uma dama, saindo logo em seguida sem nada dizer. “Gala Rala”, ainda na cama, acabado e trêmulo, escondia seu rosto e sua vergonha sem conseguir disfarçar seus últimos e descontrolados espasmos musculares.

Esse foi um episódio inesquecível para ele que desde então não se deitou com mais ninguém. Relativamente a esse assunto, sonhava com o dia em que finalmente provaria a Santinha que estava curado da ejaculação precoce.

Bondosa, pura e santa, digna de ficar num altar de qualquer templo ao lado de qualquer deus criado pelos humanos, Santinha, depois da experiência traumática com “Gala Rala”, recusava todo galanteio, se vindo dele; evitava seus olhares e se livrava do seu assédio pelo simples fato de temer por sua saúde. Sendo ainda um poço de virtudes, ninguém soube desse fato desastroso pela boca de Santinha. Mas soube pela boca de Dora Doida, sua quase madrasta e confidente, pois ela era uma sujeitinha tão fofoqueira que nem os segredos do quase enteado ela guardava. Eu digo “quase madrasta”, “quase enteado” porque o romance de Dora Doida com o pai de “Gala Rala”, apesar de todo o mundo saber, era secreto na cabeça dos dois. Daqui a pouco, falarei mais sobre Dora Doida. Quanto ao pai de “Gala Rala”, ele é apenas um pouquinho mais do que simplesmente “pai de Gala Rala”, ou seja, nada de muito relevante.

Certo dia, brechando Santinha que tomava banho nua no rio, “Gala Rala” teve outro piripaque. Santinha só percebeu que estava sendo espiada porque o mato ao redor de “Gala Rala” começou a tremer. Ao se aproximar do matinho tomou um tremendo susto, pois lá estava ele segurando seu instrumento, revirando os olhos e, com o corpo todo se contraindo e relaxando em espasmos violentos, gozando feito um bicho. Santinha apenas pegou seu lencinho branco, enxugou o suor da testa de Jonas Antônio, vestiu sua roupa e foi embora sem nada dizer.

Assim era Santinha, no tocante ao aspecto sexual, um fenômeno de sensualidade, sacanagem e putaria que despertava a libido nos machos e fêmeas da cidade. Mas, desocupado leitor que se dispõe a perder tempo lendo essas minhas palavras, fique sabendo de uma coisa: sensualidade, sacanagem e putaria são coisas que estavam presentes nas cabeças das pessoas que a viam, porque Santinha só copulava para cumprir estritamente com o dever prescrito pelos seus legítimos, sinceros, dignos e imaculados instintos naturais.

– Essa Santinha não passa de uma cachorra vagabunda no cio! – Dizia Dora Doida sempre que alguém defendia a moça.

Santinha só tinha pensamentos e atos o mais elevados possível e de tão puros, delicados e singelos acabavam por contribuir, juntamente com seus atributos físicos, para que ela recebesse, mais do que merecidamente, o título de mais belo, honrado e virtuoso ser humano de Navhunda. Ela só participava desses concursos para dar prazer aos espectadores, pois achava cansativa a exposição do seu corpo por horas diante da multidão, ainda mais porque criaram um tal teste de rigidez. Esse teste foi inventado somente para se saber em que ano o peito e a bunda de Santinha, castigados pela ação gravitacional, começariam a segurar uma caneta. As outras candidatas não precisariam se submeter a esse teste, ainda que vencessem o concurso. O teste era personalíssimo e ainda que Santinha perdesse a disputa, coisa que nunca aconteceu, o teste seria realizado. Era o ponto alto do evento: Santinha tirava toda a roupa e era solicitado que ela levantasse os seios. Uma caneta era colocada bem na curvinha entre o final do seio e o começo da costela. Então ela os soltaria. Se eles agarrassem a caneta, significaria que os seios estavam ficando arriados. O mesmo teste era aplicado na bunda. Nunca Santinha fora reprovada nesses testes. Nem depois de ter dezenas de filhos.

Outra característica forte se apresentava naquele ser divino: mãe virtuosa, zelosa e dedicada, de Severino Santos e de seus quarenta ou quarenta e um irmãos. Acredite se quiser, todos eram filhos da mesma mãe, a encantadora Santinha Preta, porém de pais diferentes e de difícil identificação. De uma coisa Santinha não tinha dúvida, os pais dos meninos podiam ser quaisquer machos de Bassouralnavhunda. Isso trazia uma vantagem, pois todos os homens que deitaram e rolaram em cima dela mandavam uma pensãozinha mensalmente para ajudar na criação do rebanho.

Era odiada por muitas mulheres invejosas porque além de bela, era desejada por machos e fêmeas. Elas se perguntavam: “como uma pessoa pode ser tudo em matéria de beleza e sensualidade e não escolher um único macho rico e poderoso para gozar a vida?”

Respondo: ela nunca encontrou esse macho, rico e poderoso. Essas duas qualidades, rico e poderoso, Santinha até dispensava, mas a qualidade de ser MACHO, não. Mas não é esse macho qualquer, pelado, delicado, perfumado e que rouba os creminhos hidratantes da mulher. Para ela tinha que ser MACHO ALFA, muito “MACHO”; mais macho e vigoroso do que todos os machos. Não elogio, mas também não critico a preferência sexual da moça. Ela era Santinha, a bela, e tinha o direito de dar a quem ela quisesse.

Capítulo II

Jonas Antônio Holanda de Melo não era, segundo as boas e más línguas da cidade, nem de longe esse macho. Apelidado de “Ontoim Gala Rala”, era um homem de um metro e oitenta e cinco centímetros de altura que se bem tratado, tomado banho e vestido com belas roupas, podia ser considerado bonito. A cabeleira curta, lisa e loira completava seu portfólio.

Único herdeiro da fazenda Caruá, candidato à sucessão de seu pai no Gabinete Navhunda[2] da Presidência de Bassouralnavhunda, era desse povo galego de uma brancura de pele que ao sol do meio dia ficava vermelho feito crista de galo. Sem falar que o dito cujo suava e fedia feito um porco no lamaçal.

– Fede um cacete! – Defendia Dora Doida, sua quase madrasta. – Ele, assim como eu, descendemos dos legítimos fidalgos europeus que só tomavam banho com o puríssimo leite das rosas perfumadas da floresta negra alemã! Quem toma banho com água é essa ralé daqui de Caruá[3] e Navhunda!

Essa é Dora Doida, outro ícone da fazenda Caruá, no auge de sua rabugice. Todos creditam isso ao fato de ela ter sido bela e que, com seus sessenta anos, mais parecia um maracujá murcho. Ela era uma autêntica boca suja, fofoqueira, despudorada e ranzinza. Quem quisesse se meter em confusão era só se destacar em qualquer coisa ou evento da fazenda Caruá ou de Navhunda. Agora, se quisesse correr risco de morte era só mexer com “Gala Rala” ou com as cinco “virgens”, suas filhas solteiras.

Não sou de espalhar fofocas, mas diziam as más línguas que as filhas dessa Dora Doida eram todas filhas do pai de “Gala Rala”. Também pudera, o pai de “Gala Rala” tinha umas atitudes bastante suspeitas em relação a Dora e sua família. Ele sempre deu “de um tudo” a ela e as suas cinco filhas. Todos diziam, “por uma boca só”, que se “Toim Gala Rala” tivesse o cabelo comprido podia até ser confundido com qualquer uma das filhas de Dora Doida, tamanha era a semelhança. Mas, como não se tinham uma definição desse vínculo conjugal, “Gala Rala” não podia ser considerado completamente enteado.

Outra atitude suspeita era o fato de “Gala Rala” e seu pai transitarem livremente na casa de Dora Doida usando apenas cueca como se estivessem em casa.

São todos uns filhos da puta! – Gritava Dora sempre que ouvia fofocas a seu respeito. – Parem de falar da vida alheia, seus vagabundos de uma figa! Se meus convidados andam de cueca na minha casa, isso é problema meu, cornos safados!

Acho bom mudar de assunto, ou melhor, voltar para “Gala Rala”, que é o melhor que faço.

Falar desse rapaz não é difícil porque nada mais há para falar, senão o fato de ele ter pouco mais de quarenta e cinco anos e depender totalmente, segundo os fofoqueiros de plantão, do pai.

Ele, como noventa e nove por cento das pessoas da localidade, era analfabeto. Também era órfão de mãe, além de candidato a suceder seu pai na presidência da cidade. Também sucederia seu pai na presidência do partido, o P.I.B (Partido dos Intelectuais de Bassouralnavhunda).

Nosso amigo “Gala Rala” era decente, honesto e de uma candura incomparável. Era um bom homem. Tão bom que chegava a ser, segundo alguns, um babaca. Se entrou na rede de esgoto da política de Navhunda, não foi por sua culpa, mas do pai que aos setenta anos, como todo bom político de uma republiqueta de vagabundos, procurava um otário, um figurante, um pau-mandado, um laranja para sucedê-lo sem com isso significar sua ausência do poder. Ninguém na cidade acumularia em si mesmo todas essas características senão, segundo seu próprio pai, “Gala Rala”.

Capítulo III

Difícil mesmo é parar de falar de Santinha Preta Santos, essa morena que parou de envelhecer aos dezoito e hoje, com menos de “alguns anos[4], e após ter tido quarenta e um ou quarenta e dois filhos, parece uma adolescente.

A rapaziada da fazenda Caruá e de Bassouralnavhunda inteira comparava Santinha a uma égua puro sangue daquelas, bicha boa e aprumada com seu um metro e setenta e cinco centímetros de altura. Eles diziam: “Ela não anda como as outras! Vejam só, parece uma égua desfilando com simpatia feito aquelas do desfile de Sete de Setembro[5]! Ela desliza altiva e serena pela rua, com suas ancas largas, naquele passinho elegante que mais parece uma princesa! Vá lá que a bicha seja boazuda feito uma bela égua mangalarga, mas é princesa! Princesa égua! Ô bicha boa da peste!”

Santinha, a invencível miss de Navhunda, era daquelas morenas de pele lisinha sem nenhuma mancha ou marca. Para não dizer que ela não tinha defeito, podia-se ver com imensa dificuldade uma pequeníssima manchinha no braço esquerdo, na altura do ombro, causada por uma vacina tomada na infância.

A danada da Santinha Preta carregava mesmo uma bunda grande feito uma tanajura. Tinha dois peitinhos durinhos cujos bicos pareciam dois talinhos de pêra madura apontando para a lua nascente. A cinturinha era bem fininha como a de um pilãozinho de pisar café. Tinha umas coxas roliças e bem torneadas onde um pequeno joelhinho separava a coxa das macias “batatas das pernas”, isso que se chamam erroneamente de panturrilhas. Aquilo ali era batata, e batata das boas!

Por fim, não se viam nenhum pelinho naquelas belas e fartas pernas. Toda essa formosura terminava nuns pezinhos lindos e delicados como os das fadas. Tinha uma boca bem desenhada e carnuda que quando sorria mostrava a brancura dos dentes perfeitos. Um narizinho pequeno e reto e uns olhinhos apertados como os das gueixas completavam seu rosto delicado. Os cabelos castanhos e cacheados ficavam na altura do meio das costas e esvoaçavam aos sopros suaves dos ventos quentes de dezembro. Ela era uma ninfa enviada pelos deuses. Santinha era tão bonita que quando acordava parecia que tinha saído de um camarim pronta para o grande espetáculo, no nosso caso, o espetáculo da vida real.

Para todos os efeitos, antes de parir seu primeiro filho, Severino Santos, Santinha era virgem.

– Essa rapariga é lá virgem! – Dizia, enciumada, Dora Doida. – Se Santinha Preta for virgem, eu que já dormi com mais de seiscentos homens e tive minhas cinco filhas, sou a própria Virgem Maria! Isso é uma piranha fuleira que já foi arregaçada por todos os vaqueiros da Região! E ainda se acha no direito de recusar em sua cama um fidalgo do calibre do doutorzinho Jonas Antônio Holanda de Melo! Uma rameira safada como aquela fica desdenhando do doutorzinho! Bem feito para ele! Quem mandou querer juntar caviar com bosta de cabra?

Que exagero de Dora. Quanta inveja numa pessoa só. Dora fazia jus ao apelido, “Dora Doida”. Tudo isso porque Dora se sentia a própria mãe de Jonas Antônio… Vamos encurtar esse nome, digamos apenas “Gala Rala”.

Dora Doida fala demais. “Gala Rala” teve a chance dos seus sonhos, mas, por motivos pessoais, não pôde aproveitar. Que culpa tinha essa bondosa ninfeta? Santinha lhe deu a chance que nunca dera a outro homem vindo da classe abastada. Não deu nem vai dar nunca porque todos de Navhunda sabiam que a classe alta formada pelos brancos de origem europeia não costumava fazer corretamente o asseio corporal. Um bom banho fresco era uma coisa que Santinha não dispensava nem aceitava que algum cristão se recusasse a tomar. Isso, segundo ela, era uma massagem de reconhecimento diário do próprio corpo, ainda que fosse realizada apenas com água e sabão. Ela mesma, se não se deitasse com ninguém, tomava três banhos por dia. Se ela copulasse com dez machos, então tomaria dez banhos, além dos três de rotina.

Devo deixar claro que Santinha apreciava homens suados, mas nunca sujos. Homens perfumados não tinham a menor chance com ela, pois apreciava o cheiro do ser humano limpo. Santinha achava que sujeira e suor humanos não combinavam com perfumes. Não era o que pensavam os europeus de Navhunda, que nunca tomaram um banho sequer, mas que se encharcavam com perfumes num calor que beirava os quarenta graus.

“Gala Rala”, para ter a chance que teve com Santinha, precisou tomar banho durante uma semana para desentranhar a seboseira quase que secular.

Se isso era um defeito de Santinha, não sou eu quem vai julgar. O fato é que, por princípio, Santinha não se misturava com os homens ricos, da mesma forma que Geni, de Chico Buarque, não deitava com os nobres que cheiravam a brilho e cobre. Santinha era…

– É uma vagabunda derrubada que dá para essa gentalha pobre e sem futuro! Isso não vale um vintém furado! – Dizia Dora Doida nos momentos de despeito.

Santinha se doava, encantadoramente e apaixonadamente, feito uma santa aos seus devotados como jamais uma santa o fez. Aliás, nunca ouvi falar de uma santa que tratasse tão bem seus clientes fiéis. Usei a palavra “clientes”, mas, desocupado leitor, nunca diga ou sequer pense que Santinha se prostituía. Isso seria uma ofensa à dignidade dessa legítima dama da baixa sociedade de Navhunda, residente na fazenda Caruá, e, entre as “virgens”, escolhida por deus, segundo a perturbada Judite sua mãe, para gerar o grande líder da humanidade: Severino Santos. Bom, antes esse líder tinha que começar sua peregrinação por Navhunda.

A devoção religiosa e o respeito de Santinha pela religião católica eram tão fortes que jamais alguém a viu na igreja sem um véu, uma cobertura para os peitos e o saiote que cobria até seus calcanhares. Depois que ela saía da igreja… Bom, isso é muito particular.

O erotismo em Santinha era algo que aflorava naturalmente. Se ela usasse uma calça comprida as curvas da bunda e das pernas ficavam evidentes. Se usasse blusa de algodão os peitos ficavam querendo pular do decote. Vestido curto, nem pensar. Mesmo quando estava na igreja com o corpo coberto, se ela descobrisse a cabeça um tantinho assim o erotismo fluía dos lábios que tinham a forma mais erótica do que à dos lábios da Angelina Jolie. Para não causar maus pensamentos nos homens e mulheres, só mesmo usando uma burca.

– Eu sei muito bem o que essa safada doa. Essa desavergonhada é sonsa! É uma interesseira, fuleira que apenas empresta o corpo aos machos, pega uma barriga e depois recebe pensão. – Dizia Dora Doida. – Se isso é ser pura, eu também sou santa!

Essa Doida é inconveniente. Critica tudo apenas pelo prazer de ter o que fofocar e assim destilar seu veneno.

Quando falei que Santinha se doava, não me referi apenas à doação do belo corpo aos homens e mulheres, mas também sua doação de carinho, respeito e compreensão aos desamparados, velhos e cansados da vida. Referi-me também ao fato de ela ser misericordiosa e doar, por exemplo, alimentos e remédios aos mais pobres.

Adivinhem: quem era sempre chamada para interpretar o papel de Maria na paixão de cristo?

Diziam que Santinha fazia milagres em vida. No entanto, quem espalhou isso, com a intenção de fazer chacota e macular a imagem da moça, foi Dora Doida. Não sei se devemos dar crédito a uma mulher tão despudorada e fofoqueira, mas vou contar um boato que essa megera andou espalhando. O caso mais famoso de milagre atribuído à Santinha foi o de Ciço do Ovão. Diziam que Ciço, depois de uma pancada nos testículos, sofria com dores terríveis. Como ele fazia parte do cardápio de Santinha, precisou apenas de vinte sessões espirituais de esquentação bucal para ficar curado. Pensem numa boca santa! Ela curava o povo com hálito espiritual quente. O ovo de Ciço não voltou ao tamanho normal, mas nunca mais doeu.

Santinha, segundo a fofoqueira Dora Doida, ficou tão famosa pelas suas curas espirituais que alguns urologistas faliram e se mudaram da cidade.

– Tudo bem, eu me rendo. – Disse o velhinho, Tito Dedo de Anjo, último urologista de Navhunda. – Eu me rendo, abandono minha profissão, mas quero descobrir qual é o segredo dessa tal de Santinha!

Tito marcou uma consulta, segundo Dora Doida, e no dia indicado compareceu. Depois de um bom banho com ervas e uma massagem relaxante, Santinha o seduziu com uma dança erótica que o levou às últimas consequências. Ainda na cama, depois de ter prazer feito um porco, Santinha fez uma manobra digna dos melhores lutadores de luta livre e o velho, quando deu por si, estava numa sessão de aterramento medicinal. Dora Doida dizia que com uma mão Santinha fazia o aterramento e com a outra fazia anotações da seguinte forma:

– Temperatura: trinta e seis graus e meio; pressão: doze por oito; boa viscosidade, enrugamento do tubo com uma boa consistência; próstata com tamanho normal; prega mestra intacta e a prega rainha funcionando bem. Pronto, terminei.

Segundo Dora, o velho Dedo de Anjo, nunca mais deixou de comparecer a uma sessão de aterramento medicinal.

Eu não posso omitir um importante detalhe sobre Santinha, essa valorosa mulher. Ela só “dava” aos animais da espécie humana advindos da ralé e às mulheres que apreciavam banho, provenientes de qualquer que fosse a classe social. O detalhe é este: não importava se era macho ou fêmea, ela queria dar e receber prazer, ainda mais quando o mundo inteiro sabia que Bassouralnavhunda tinha os mais belos animais[6] femininos da espécie homo sapiens. Quanto aos animais machos humanos, Dora Doida tinha razão, eram umas desgraças! Uns desengonçados[7]! Como diz o humorista nordestino, Mução: Ô povo feio!

Outra coisa, ela era uma mulher que se amava tanto que mesmo nos momentos raríssimos em que esteve sozinha nunca sentiu solidão. Ela se bastava. Tão senhora de si, ela nunca teve dúvidas quanto ao falso amor dos homens. Tinha a certeza de que apenas era usada como objeto de prazer, como também usava homens e mulheres para saciar seus desejos. Ninguém tinha dívida com ela, da mesma forma que ela não devia nada a ninguém. Conviver com pessoas era apenas um detalhe, pois Santinha fazia parte de uma sociedade humana, mas se ela passasse o resto da vida sozinha isso não faria nenhuma diferença no seu estado emocional. Como nunca acreditou que era amada, não amava nem odiava ninguém. Seu coração era tão calmo, sereno e feliz que jamais guardava rancor. A vida, para essa honrada ninfa, era como um valsar ao vento com milhares de pétalas perfumadas flutuando ao seu redor. Ao lado dos filhos, sentia-se a maior das divindades.

Ela gostava de ser tocada por pessoas, mas, segundo a carrancuda Dora Doida, na falta de um corpo humano, um pedaço de borracha graúdo pintado com mais de cinquenta tons de vermelho-cinza e safadeza, cujo apelido era “General”, saciava seus mais íntimos anseios nos momentos em que seu corpo, acometido por um insaciável desejo, necessitava de… gente.

Se rejeitar os nobres fedorentos era uma virtude de Santinha, não sou eu quem vai exaltar essa atitude segregacionista. Mas os pobres de Navhunda afirmavam que Santinha era virtuosa justamente por desprezar os fidalgos e se deitar com eles, a ralé desprovida de ouro e perfume, os desdentados “sem eira nem beira”[8].

Santinha, bondosa, imaculada, misericordiosa e desprendida que era, prestava favores sexuais, como já disse, não somente à ralé, aquelas almas abandonadas por deus e pelo diabo, que não tinham chance de se acasalar nem com um orifício aberto cilindricamente num pé de bananeira ou com a própria banana, mas também às belíssimas damas da sociedade, desde que tomassem banho.

– Ela gosta é desse povinho feio de Caruá e Navhunda! Oh, povinho feio e desprovido de atrativos sexuais! – Criticava bastante, Dora Doida. – Tem uns magrelos do espinhaço curvo com tanto tufo de pentelho entrançado com os cabelos do anel que é mesmo que ver a besta-fera! Tenho nojo só de pensar que um dia, para sobreviver nesse lugar de corno, eu tive que “dar” para essa laia!

Santinha desfilava toda sua beleza, indiferente aos comentários maldosos, principalmente se partiam de Dora Doida. Santinha era santa porque sabia, como ninguém, passar por esses fuxicos da vida sem se perturbar e ainda, quando encontrava Dora Doida, fazia questão de cumprimentá-la com um magnífico sorriso acompanhado de dois beijinhos no ombro. Afinal, ninguém tinha nada a ver com a vida dela. Se ela preferia amar os rudes, pobres, desdentados e suados vaqueiros cujos odores febris lembravam o cheiro dos cavalos, não era da conta de ninguém. Uma fêmea humana avantajada como aquela, que todos comparavam a uma égua saudável e bela, só podia gostar mesmo de animais. Que fique bem claro: apenas animais humanos, pois uma extremada defensora dos animais não humanos, como é o caso de Santinha, jamais admitiria a imposição de tamanho sofrimento[9] a esses seres que tanto nos alegram e nos presenteiam com o prazer de suas companhias.

Capítulo IV – O Primogênito

Severino Santos foi o primeiro filho de Santinha Preta Santos. Ele foi concebido pelo poder de um espírito zombeteiro. Era o que dizia Dora Doida, pois o verdadeiro espírito santo, segundo ela, já havia fecundado outra há mais de dois mil anos e, pelo que consta na bula cristã, a vinda de outro messias não estava nos planos da divindade.

– Tudo bem, admito que Santinha já era furada[10]! Mesmo antes de ser moça já tinha dado a deus e ao mundo! Mas ela jura que não deu para ninguém nos últimos doze meses! – Disse Judite Silva Santos, mãe de Santinha, na tarde em que Chico Zureia, pai de Santinha, descobriu que a filha estava prenhe[11].

Chico Zureia Santos, que ficara vermelho feito camarão no sal, tremia feito vara verde só de pensar em ficar frente a frente com o comedor de Santinha. Ele suspendeu as calças, apertou o cinturão e, de cima dos solados dos velhos sapatos de couro, esbravejou:

– É o quê?! Furada?! E você não fez nada, sua coiteira[12]?! Quem foi o filho de uma puta que comeu Santinha?!

Acontece que Judite, sentindo que o tom de voz usado por Zureia trazia uma condenação a ela, que deveria ter vigiado mais o cabaço da filha, recolheu as mãos até a cintura, encarou Chico Zureia e falou:

– Oh, coitado! Só você não sabia que todo mundo comia sua filha! Mas menino, tenha vergonha nessa cara de quenga! E eu vou agora segurar as rolas do povo todo desta fazenda?! Você pare de me culpar e aceite o acontecido, que é o melhor que se faz!

– Mas Judite, agora seremos todos desgraçados! Santinha vai virar uma cachorra no cio e vai sair dando para todo mundo! Oh, meu deus, que desgraça! Criei essa menina com tanta dedicação e vem agora um comedor de rapadura com farinha seca e descabaça[13] a menina! Isso é uma desgraça, Judite!

– Você está falando de quem, homem?

– Estou falando desse comedor safado! Desse puto que rachou Santinha!

– Você tenha vergonha na cara, seu excomungado! Num fale assim de Santinha, seu cabra safado! Eu num disse que Santinha disse, e que todo mundo está de prova, que ninguém come ela há mais de doze meses?!

– E como é que ela está buchuda? Quem é o pai?

– Você lembra que o padre disse que a mãe de deus era virgem e que quem “coisou”[14] com ela foi um anjo?

– Quer dizer que até os anjos do céu estão comendo Santinha?

– Não é assim que se diz, seu herege! Olha o respeito! Ela foi utilizada como instrumento particular da providência divina com o objetivo de trazer harmonia para esse bando de filho da puta aqui da fazenda Caruá e do mundo! Ela vai trazer o messias definitivo! Vai ser o último! Até os judeus vão aceitar o nosso salvador!

Judite fixou o olhar para o alto como se estivesse em êxtase. Em seguida, ergueu o braço direito e, socando o ar, falou:

– Nosso neto vai ser o redentor! Aquele que vai tirar esse povo da merda! Mas temo que será tarde demais, pois tudo terá um fim! É o fim dos tempos, homem de deus! Todos vão finalmente saber onde fica “O Quinto dos Infernos”, a “Caixa–Prego”, o “Inferno das Cuia”, “A Casa da mãe Joana”, “Onde Judas Perdeu as Botas”, a “Puta Que Te Pariu” e o “Corno Que Amassou”!

Zureia estava assustado com o estado hipnótico de Judite. Ele franziu a testa e gritou:

– Que porra é essa, mulher?!

Ela se virou para ele e, com o dedo em riste, falou:

– Vai ter o dia que todo filho da puta conhecerá seu pai! Nem toda racha terá um pau, mas todo par de chifres terá apenas o corno que o merece! Toda puta receberá respeito, carteira assinada e transitará livremente entre esses putos preconceituosos, pois suas funções sociais serão reconhecidas! Aí sim, finalmente se saberá o verdadeiro significado da frase: “É dando que se recebe”!

– Que merda é isso que você está dizendo? – Perguntou ele. Judite nem ouviu, continuou sua pregação:

– Meu neto será o líder dessa gente vagabunda, arruaceira e sem futuro até o dia do fim do mundo! Essa geração de corno não passará e muitos daqui não experimentarão a morte até que tenha chegado o fim! Eu vejo, eu profetizo! Mas antes que chegue o fim, muitos sinais serão vistos nos céus! No fim dos tempos surgirá no meio dessa sociedade de canalhas um tipo de gente que nem é macho nem é fêmea! Será um tipo andrógeno assexuado cuja reprodução se dará nos consultórios dos doutores! Sem fêmea nem macho, aquele que não nascer capado, se quiser se aliviar, só mesmo encontrando no mato uma bananeira para torar[15]. Também haverá uma mudança nos valores, pois o que é crime deixará de ser, e será na segunda caixa que se esconderá para depois ser pago, como um legítimo mensalão, longe das garras do leão, o ouro sujo dos bandidos de plantão! Com dinheiro sujo vão comprar sítio e tríplex. Vai ser tanto dinheiro escondido que não vai ter lavadeira que dê conta! É dinheiro escondido nos bancos do exterior, nos apartamentos, nos bolsos dos paletós, nos sapatos, nas cuecas e, de tanto esconderem essa porra, sem terem um pingo de vergonha na cara, desde o Norte até o Sul vão encontrar dinheiro sujo até enfiado no …! (Censura do autor).

Parecia que Judite estava em transe. Ela fixava seus olhos num vazio entre as telhas da velha casa por onde entrava um facho de luz solar. Até aí, Chico Zureia escutava atentamente. Mas quando Judite começou a falar em línguas estranhas, do tipo, decantasi charanabaia, enfieitenorabios, demantorábia chalalacovia, remenências hemorrodias xerecabecanus, ofiurusnocutucoças e outras merdas, ele se aproximou dela, segurou seus ombros e gritou:

– Que é isso, Judite? Você está com o cão nos couros, miséria? Sai, demônio! Sai desse corpo que não te pertence! Pega teus panos de bunda e vai encarnar no rabo da puta que te pariu!

Em seguida, ouviu-se um barulho provocado pelo tapa, desferido por Zureia, na cara de Judite.

Plaft!

– Eita, tapa do carai[16], seu miséria! Valei-me, Maria da Penha! – Gritou Judite. E continuou:

Você tá doido, infeliz das costa oca! Tu me paga, corno da orelha lascada! Corre senão vou te sangrar! Depois arranco teus ovos e faço você comê-los!

– Judite, minha ternurinha, você tava recebendo o cão dos infernos nos teus couros!

– Que cão, que nada, seu ateuzinho! Eu tava falando na língua dos anjos!

Plaft! – Ouviu-se outro barulho de um tapa desferido por Judite na cara de Zureia.

Quando a discussão dos dois acabou, Judite, que era uma beata papa-hóstia e autêntica esfria-batina, convenceu o marido sobre a possibilidade de ter um neto santo.

Zureia, nosso neto vai ser um santo na nossa família que é “dos Santos”, homem de deus! Será mais um filho do espírito santo!

Zureia entronchou a cara, recolheu seu orgulho ferido pela desonra, ainda que o comedor de Santinha dessa vez tenha sido, segundo a beata Judite, o próprio espírito santo, e disse:

É preferível um neto da nossa família “dos Santos”, filho de um espírito santo, a um neto “dos Santos” filho da minha santa Santinha com um “chupa-gás” sem futuro, como são todos os vaqueiros desta fazenda, mesmo que, sabidamente por todos, Santinha, sendo hoje uma santa de véu e coroa, tenha no seu passado a fama de ter andado por aí de mão em mão!

Ele riu ainda e falou olhando para o céu:

Uma santa que já foi igual a Maria Madalena![17] Quem quiser que atire a primeira pedra! Mas o corno que assim fizer vai se ver com minha peixeira de doze polegadas cortando, uma a uma, todas as pregas do …! (Censura do autor).

Capítulo V – Natividade

Judite fez questão de confeccionar uma manjedoura para o neto nascer, igualzinha à do suposto irmão que nascera há mais de dois mil anos, pois, na sua loucura, ela nunca teve dúvida de que seu genro era mesmo o Divino Espírito Santo.

Ao contrário do que ela esperava, no dia em que nasceu seu neto, não apareceu nenhuma estrela, pois as nuvens cobriam o céu numa tempestade violenta. Em vez de três reis magos, apareceram três magros jumentos loucos para “acunhar” na jumenta carinhosamente chamada de Jacinta que na ocasião estava ocupada amamentando Severino. A jumenta Jacinta estava tão orgulhosa do seu serviço que enquanto Severino sugava suas tetas, ela derramava um olhar terno e meigo de uma autentica ama de leite.

Algumas horas depois de mamar na jumenta, Severino revelou seu dote. Foi quando Judite se descuidou e levou uma mijada na cara. A avó prestou mais atenção à genitália do pequeno Severino e num grito falou:

Ave Maria, corre que a parteira cortou errado o cordão umbilical desse cristão! Ela deixou dois palmos e meio para o lado de fora!

Santinha também se assustou com aquela tripinha saliente e já ia gritar pela parteira, mas, observando melhor, e talvez lembrando dos seus incontáveis amantes, falou:

Ôxe[18], mainha! Esse menino tem que ter quantos umbigos? Não está vendo aqui em cima o umbigo, não? Esse aí embaixo é o negocinho dele! É o… Como é mesmo? É o cipó do menino!

A avó olhou direito e disse:

Valha-me, deus! Vôte[19], que lapa de peia é essa?! Será que ele é filho de um espírito santo misturado com um jumento?

Essa coisa de mistura genética fica mais bem explicada pela Biologia dos Darwin e Dawkins[20]. Deixo de lado essa questão para relatar que anos depois, em Tambaba, praia paraibana de nudismo, Severino Santos, conhecido então como Biu das Jumentas ou Burra Preta, deixaria um rastro inconfundível na areia. Eram as marcas de suas pegadas seguidas por um risco contínuo causado por seu instrumento particular.

Só podia mesmo ser filho do espírito santo, mamãe! – Suspirou Santinha. – Veja que sorriso angelical!

– Espírito Santo um cacete! – Dizia Dora Doida. – Esse menino é filho de um espírito de porco ou de jumento. Também pode ser filho de cavalos, de cachorros e de todos os vaqueiros da Região! Santinha é uma indefinida sexual, peniqueira e desavergonhada! Desavergonhada, não! Santinha é uma quenga! Não, Santinha não é só uma quenga! Santinha é uma quenga safada, rapariga, sapa, fubica velha e arrombada por seiscentos mil demônios do inferno! Aquela macheira vadia é traiçoeira e gaiera! Pariu um filho mal feito e que sua única virtude será a de ser corno, sem vergonha, safado e coroado bastardo por ser um legítimo filho da puta!

Amigo leitor, desculpe-me por esses palavrões de Dora Doida. Estou pasmo com tamanha falta de respeito. Agora, uma coisa eu tenho que dizer para defender Dora: ela pode até ser mal-educada, mas tem a virtude de não dizer meias-palavras. Dora, definitivamente, não tem “papas na língua”. Quando ela se “arreta[21], sai da frente que lá vem esculhambação!

Santinha Preta gostou de fazer o primeiro e logo partiu para o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto filhos de uma vez só. Recebeu o Bolsa-Família do governo de Bassouralnavhunda, deu feito chuchu no mato e depois do décimo primeiro filho descobriu que estava grávida de quíntuplos outra vez.

Ela se sentia uma mulher feliz, pois todos os homens de Navhunda diziam que a amavam como se fossem seus maridos. Não acreditando nesses amores, Santinha deixava claro que ela não era de ninguém. Isso não importava, pois eles sabiam que era melhor dividir filé com os outros do que comer carne de pescoço sozinhos. Assim, sem ser exclusividade de ninguém, Santinha era de todos como de todos eram suas dezenas de filhos. Como nenhum homem era capaz de afirmar qual, no meio daquela filharada toda, era o seu filho, qualquer macho da fazenda Caruá ou de Bassouralnavhunda, exceto “Gala Rala”, que apenas se acabava na mão feito colher de pedreiro, sentia-se o próprio pai de qualquer um dos meninos dela.

Capítulo VI

O Onzeno

O décimo primeiro filho de Santinha que nascera faltando um dos dedos, apelidado de Onze, por ser um atrás do outro, e que mais tarde diziam que era meio “diferente”, tinha uns trejeitos e um apego exagerado às coisas femininas sem que isso afetasse em nada sua condição emocional, pois ele se aceitava independentemente do mundo. Fazia graça, nas reuniões de família, quando dançava imitando uma bailarina. Também gostava de usar os vestidos de Santinha só para fazer os outros rirem. Ele era frágil e, por isso, um pouco “doentinho”.

– Doentinho, um cacete! – Dizia Dora Doida. – Onze? Onze é uma interrogação!

Talvez devido a essas “diferenças”, ao problema de audição que o fazia ficar empinado quando colocava quatro dedinhos na orelha para ouvir melhor; também devido ao aspecto delicado e a magreza que lhe davam um tom pálido à pele, desde cedo incutiram em sua frágil cabecinha a ideia de que deveria viver em extrema comunhão com o divino. Mas, contrariando sua mãe e sua avó, autênticas papa-hóstias, foi ser bispo evangélico sem nunca ter sido padre.

Curioso é que de tanto ouvir falar sobre antigos deuses, era comum ao bispo Onze fazer confusão entre o deus cristão e os deuses pagãos, Hórus, Mithra, Attis, Dionysus, Osíris e Krishna.

A única oração que o Onze sabia de cor era:

“Osíris Amém!  O senhor é o meu pastor e nada me faltará.

Tu me fazes repousar em pastos verdejantes.

 

Leva-me para junto das águas de descanso no paraíso das terras de Nefér .

 

Refrigera minha alma. Guia-me pelas veredas de Maat por amor de seu nome.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu Osíris Amém estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam.

 

Preparas uma mesa no tribunal dos mortos e na presença de meus adversários unges-me a cabeça com óleo, e o meu cálice transborda.

 

Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias de minha vida; e habitarei em Betel na casa do Senhor para todo o sempre.

 

Osíris Amém! O senhor é o meu pastor e nada me faltará.

Outra curiosidade é que, após o surgimento da energia elétrica em Bassoural, na hora do culto, Onze colocava o CD[22] da bíblia narrada por Cid Moreira, pois ninguém sabia ler, nem mesmo ele. Para não perder a pose, a dignidade e o respeito conquistado pelo uso diário de um paletó surrado num calor de mais de quarenta graus à sombra, ele colocava os óculos, abria a bíblia em qualquer página, muitas vezes de cabeça para baixo, e ficava gesticulando. Parecia um maestro. De vez em quando, sem conhecer bem a “palavra” e, devido a sua péssima audição, dava uns gritos de “abreluia”. Era “abreluia” para lá, “abreluia” para cá; lembrava aos fiéis sobre a santidade do trízimo (Dez por cento para o Pai, dez por cento para o Filho e dez por cento para o Espírito Santo); falava com admiração sobre seu irmão mais velho, Biu Burra Preta, pois sabia das intenções políticas dele, e mandava soltar o vozeirão de Cid Moreira.

Onze nascera de um pai-nosso rodeado de noventa e três ave-marias bem rezadas. Foi assim: certo dia na igreja de São Tanás, Santinha se ajoelhou e orou com tanta devoção que quando se levantou não percebeu, mas as beatas, quando ela já havia se dirigido para receber a hóstia, gritaram: “Comadre Santinha, pare de arrastar esse menino! ”

Santinha Preta, desde o décimo varão, já não sentia dor nenhuma na hora de parir e seus filhos nasciam com tanta facilidade que o médico lhe pediu cuidados nas horas em que fosse evacuar, pois um filho poderia ir junto.

Ela, em média, tinha até dois filhos e meio por ano.

Isso é uma vaca! – Dizia Dora.

Na hora de amamentar parecia uma porca com seus porquinhos se revezando entre as tetas. Tanto era assim que Severino Santos, cujos apelidos eram Severino Burra Preta ou Biu das Jumentas, pois todo Severino acaba sendo chamado de Biu, que mais tarde seria também conhecido como Biu das Quengas, ao ouvir de qualquer sonhador a sonoridade da partícula condicional, “se”, dizia:

– “Se” uma ova! Que porra de “se”! “Se” minha mãe tivesse uma carreira de peitos, seria uma porca! A distância de um “se” para a realidade é infinita! Tira teus pés dessa nuvem, arregaça essas mangas de camisa, deixa dessa besteira de “se”, “se”, “se”, lembra-te do dever de dignidade humana e vai tomar no c… de tanto trabalhar! Mas o trabalho, para trazer dignidade, tem que ser honesto! Levanta esse traseiro gordo dessa cadeira, ajeita esses colhões murchos dentro dessa cueca encardida, sacode a poeira da bunda, toma uma lapada de cana, deixa de ser corno, filho da puta, pidão e arruaceiro e vai tomar conta dessa tua vida vadia!

Uma vizinha chegou a ficar preocupada e disse que “tinha pena da Comadre Santinha, pois de tanto se dedicar às coisas do desconhecido espiritual, bastava passar por um terreiro de macumba que lhe pulavam nas costas uns três caboclos, dois pretos-velhos e um pai-de-santo”. Aí, era só esperar mais ou menos onze meses e um rebento ia arrebentá-la. Os filhos de Santinha só nasciam, no mínimo, depois de dez meses. Teve um que demorou tanto que, ao nascer, a parteira mandou chamar um barbeiro. Quando ele chegou foi orientado por ela a tirar a barba do menino e, com a mesma lâmina, raspar-lhes todos os pentelhos.

Eram tantos filhos que a identificação pelos nomes seria tarefa demasiadamente extenuante. Eles usavam crachá com uma numeração que recebiam conforme a ordem de nascimento.

– Esse que acabou de nascer é filho de quem mesmo, Judite? – Perguntava Zureia inconformado com a fertilidade da filha e o fato de nunca se saber quem era esse espírito reprodutor comedor de sua belíssima filha.

– Judite, se o pai desse menino que acabou de nascer for o mesmo “Espírito Santo” de quem você falou, daqui a pouco o céu vai ficar desabitado! E vai ter tanto messias neste mundo que vai faltar madeira e prego para a crucificação!

Dificuldades à parte, Santinha amava e se dedicava aos filhos com devoção.

– Essa cachorra só tem devoção ao Santo Pau[23]! – Dizia Dora Doida. – Cria os filhos abandonados, feito bicho solto no mato, como deus criou batatas! Oh, bicha desleixada!

Todo fato tem duas versões, no mínimo. Essa era a versão de Dora Doida. Não estou aqui para defender Santinha, escrevo apenas o que se passou em Navhunda. Mas devo deixar claro que apenas Dora Doida falava de Santinha nesse tom.

Capítulo VII

Xifópago

Pobre Santinha! De suas entranhas, tão acostumadas ao contato com os machos, só nasciam machos! Ela dizia que só parava de ter filhos “quando nascesse uma menina para fazer um casal”. Foi viajando nas nuvens tempestuosas dessa história de fazer um casal de filhos que ela terminou parando no quadragésimo primeiro ou quadragésimo segundo filho, o Xifópago. A partir daí ela tinha dúvida quanto à contagem deles. O quadragésimo primeiro era só um ou eram dois? O Bolsa-Família seria pago em dobro?

Eles ou ele recebeu ou receberam o apelido de “Dobros”. Eram muito diferentes tanto na personalidade como na inteligência. Eram duas cabeças com ideias contrárias que dividiam o mesmo corpo. Não era raro saírem no tapa depois de alguma disputa.

– Oh, gente feia! – Era o que todos diziam. – Oh, gentinha feia, esses meninos de Santinha! Ave Maria! Esse povo é tão feio que se a mãe natureza não impedisse sua procriação a humanidade em breve seria uma completa aberração. Antes Santinha não tivesse o cuidado que o médico recomendou ao ir cagar! Oh, gente de feiura inimaginável! Uns tem a canela fina como um mosquito e a cabeça tão grande que parece uma caixa d’água. Eles têm uns joelhos enormes que parecem duas jacas dividindo ao meio uns cambitos secos! Tem uns que é mesmo que ver umas lagartixas: bucho grande e perna fina! E aquelas barrigas amarelas cheias de vermes e os dentes vermelhos de tanto comerem barro? O Vinte e Cinco até que é um sujeito simpático. Pena que, para seu desgosto, o apelido lhe caiu como uma luva. O danado é peludo, tem o tronco grande e largo, mas as pernas são curtas e finas. Todos o conhecem por “Sabirila”, a mistura de sabiá com gorila.

– Nenhum deles tem pescoço! – Afirmava Dora Doida. – A comida sai da boca e cai direto no estômago. Eu nunca vi um deles se engasgar com nada! E são tão baixinhos que a comida sai do estômago e vai diretinho para o c…! (Censura do autor).

O Xifópago de Santinha era meio a meio. Um lado do corpo agia independentemente do outro. Um deles era filósofo, conhecido por muitos navhundenses por “O Grande Mestre”, enquanto o outro apenas conhecia o linguajar rasteiro e truculento dos brutos de Bassouralnavhunda. Este a que acabo de me referir, bebia muita pinga e tinha preguiça de pensar, mas, para ser semianalfabeto, recém-formado no Mobral (Movimento Bassoureiro Rural de Alfabetização) até que tinha uma boa caligrafia.

Certo dia, Dobros estava devolvendo à natureza tudo que dela ele havia tirado no dia anterior. Mesmo naquela posição incômoda, um deles, o filósofo e mestre, afirmou:

 – É a pura verdade, mano. O relógio marca o tempo, o tempo marca o homem enchendo-o de rugas. O tempo não para. Mas se o relógio parar, mesmo que por sessenta meses, ainda assim, terão se passado cinco anos de muita tormenta!

– Que merda! – Disse o outro gêmeo. – É cagando e falando merda!

Todo choroso, o filósofo disse:

– Num momento de concentração e muita reflexão como este, você mostra apenas ignorância e insensibilidade!

– Cala essa boca! Vê se faz força aí para terminar essa merda e a gente sair logo daqui!

– Quem é você? O que é você – Perguntou o filósofo.

– Você está louco? – Respondeu o outro.

– Sou louco, sim! E você, o que é? Responda-me! Eu sou um louco, e você?

O outro gêmeo ficou atônito, olhou com desconfiança para o filósofo e disse:

– Quem mais eu poderia ser, seu doido!? Sou seu irmão e passo minha vida ouvindo você falar merda!

– Que resposta pobre! Quem era você, o que era você e onde você estava quando nem você nem nada no universo tinham a consciência de que você existia?

– Mano, além de ser um indefinido, você é louco?

– Não faça perguntas, apenas responda! Você é muito esperto e eu sou um louco! Então responda! O que é você? Quem era você, o que era você e onde estava quando nem você nem nada no universo tinham a consciência de que você existia?

– Não sei.

– Há alguns minutos, você tinha consciência, enquanto fazia alguma coisa ou simplesmente pensava em algo, de que você existia como uma unidade orgânica autônoma neste universo? Se você tinha consciência, em que estava pensando ou o que estava fazendo? Certamente seu coração batia, você tinha consciência disso? Quem era ou o que você era há alguns minutos? Onde estava sua consciência?

– Sei lá!

– Eu sei. Você era quase nada. Se tivesse morrido quando sua consciência estava em lugar nenhum você nem teria sentido. Você era apenas uma partícula da Terra. Você era apenas uma “coisa” sem muita importância. Eu poderia comparar você a qualquer outra coisa, até mesmo a uma pedra. Você era algo viajando junto com a Terra pela via láctea, que por sua vez, viaja na expansão do universo!

– Cara, isso foi profundo! Você é louco e quer me deixar confuso!

– As pessoas normais vivem suas vidinhas normais conforme as regras e as coisas criadas por loucos! Não tenho vergonha da minha loucura! Só os loucos mudam as coisas desse mundo. Quanto aos normais, apenas seguem as tendências ditadas por loucos!

 

 

 

 

 

Capítulo VIII

 

Os filhos de Santinha eram todos diferentes. Uns eram amarelos, outros eram brancos. Tinha alguns que eram parecidos com japoneses, chineses, cearenses, indianos e outros eram tão feios que o povo jurava que eram extraterrestres. Eram conhecidos como os trigêmeos alienígenas de Santinha Preta.

– Só faltava isso: ser rapariga de extraterrestres! Oh, bichinha vagabunda intergaláctica! – Atacava Dora Doida.

Você deve estar se perguntando por que o adjetivo “cearense” foi citado como se fosse a designação de um povo diferente. Se não se perguntou não importa, eu respondo assim mesmo: o cearense é uma espécie maravilhosamente única que habita qualquer lugar deste planeta. Não há um lugar na terra onde não haja um cearense. Pense num bichinho para gostar de andar pelo mundo! Penso que quando o ser humano fizer contato com alienígenas, a frase que será ouvida em resposta, pelos terráqueos, será: ô abestado! Sou eu fuleirage! Fui abduzido e agora tô servindo de intérprete! Avia, macho, contato interplanetário é mais caro!

Dizem por aí que na primeira guerra do Golfo Pérsico um americano estava entrincheirado quando de repente apareceu um iraquiano que lhe apontava uma arma. Sem munição, o americano ergueu as mãos para o céu e gritou:

– Valei-me, meu padim pade ciço![24]

Surpreso, o iraquiano falou:

– Eita, macho! Tu também é cearense?

Havia um detalhe secreto nos filhos de Santinha. Alguns deles tinham o pinto muito pequeno, como era o caso do Quarentinha Cientista; outros tinham o pinto normal, era o caso do Xifópago. Os alienígenas tinham seus pintos tão pequenos que qualquer pessoa afirmaria que ali só podia ter os ovos. Décimo Eletricista, o Caixa d’água, era casado e tão fiel à esposa que tinha o apelido de ferrolho[25]. Assim, sua intimidade era protegida. Trinta e Três era hermafrodita. Vinte e Quatro era transexual e tinha o pinto normal, mas não suportava homens. Ele gostava mesmo era de mulher e se relacionava com elas numa relação estranhamente denominada por ele de hétero-homossexual.

Todos eram estéreis, inclusive Severino. Dora Doida dizia, maldosamente, que a esterilidade deles foi a melhor arma encontrada pela natureza para impedir aberrações.

Onze é um personagem que fica de fora dessas contas, pois se tinha pinto ninguém sabia; se era fértil ou estéril isso nunca teve importância. Onze era apenas Onze, o bispo “mais ou menos”.

Severino, com sua lapa de peia de muito mais de cinquenta centímetros, apesar de não ter pescoço nem o cabeção como um dos seus irmãos, o Décimo Eletricista, não era feio nem bonito; não era baixo, mas não tinha estatura normal; não era branco nem preto, nem fraco nem forte. Tinha um semblante enigmático que todos diziam que nem estava chorando nem sorrindo, como também não estava triste nem alegre.

– Já sei! Só eu posso definir esse corno! – Dizia Dora Doida sempre que tentavam definir Severino. – A cara dele diz tudo! Severino Burra Preta tem a cara de quem está sempre cagando!

Dora sempre é inoportuna. Perdoem, caros e escassos leitores, por que não dizer, raríssimos e desocupados leitores. Perdoem essa alma doida, angustiada e enganada.

Agora vou contar uma verdade sobre essa boca de latrina. Dora estava muito enganada sobre suas “virgens”. Só ela “botava a mão no fogo” por suas “castas” filhas. Podem acreditar, preciosos leitores, que, com algumas exceções, todos os filhos de Santinha Preta comeram quatro das cinco “virgens” de Dora Doida!

– Comeram uma porra! Aqueles indefinidos nunca comeram ninguém! – Saía sempre em defesa de suas “honradas” filhas, nossa amiga Dora Doida. – Se eu souber que um desses animais “buliu” com qualquer uma das virgens, corto o pau em dois pedaços: um eu empurro na boca e o outro eu enfio na bunda!

Vejamos quem não comeu as “virgens” e o porquê: Severino Burra Preta, porque além de ter o “negócio” muito grande era admirador secreto de uma delas, Virgínia, e, por respeito a um sentimento puro que nutria por ela, não quis comer as outras; Décimo, porque só comeria uma mulher se fosse casado com ela; Onze, porque gostava de outras coisas. Além disso, ele era bispo, portanto, mais do que padre. Se padre já não deve comer ninguém, que dirá bispo. Os Xifópagos não comeram as meninas de Dora porque só tinham um pinto e um gostava de uma “coisa” e o outro gostava de outra “coisa”. Os Trigêmeos Extraterrestres, porque eram infinitamente feios e de grande só tinham os ovos, nunca sequer tocaram nas virtuosas. Vinte e Um não comeu nenhuma delas porque era trifásico e só fazia um vinte e um se fosse com aterramento. Vinte e Quatro, o transexual, que uma hora era mulher, outra hora era homem e no restante do tempo era indefinido também sequer encostou em um dedo das “virgens”. Como era difícil saber quando ele era homem, as virgens acharam isso muito complicado e desistiram dele.  Trinta e Três, o macho que acreditava que era uma fêmea e que preferia outra fêmea, também não comeu as “virgens” porque elas não gostavam de mulheres. Quarentinha não comeu ninguém porque sua gordura escondia o minúsculo pinto. De resto, todos comeram quatro das cinco meninas de Dora Doida. Inclua-se aí, mais da metade da população de Navhunda.

Capítulo IX

Asininos

Na adolescência, Severino era ainda conhecido como Biu das Jumentas, Severino Burra Preta, Biu da Burra Preta ou simplesmente, Burra Preta. Só um pouco mais tarde é que ele ficou sendo o Biu das Quengas.

O apelido Burra Preta ficou consagrado quando ele foi descoberto em comunhão marital com Jacinta, sua ama de leite, numa relação incestuosa tal qual à de Édipo e Jocasta[26].

Jacinta era uma jumentinha castanha, mansa e “bem-apessoada” que Chico Zureia, avô de Biu, criava no quintal da casa de Santinha.  Foi paixão à primeira vista. Isso, na verdade, era uma escapulida de Biu, pois ele vivia há muito tempo um romance casto com Petrônia, sua amável e afável burrinha preta.

Certa vez disseram a Biu que na Índia um homem havia se casado com uma cachorra. Ele se lembrou de Petrônia e com um ar nostálgico falou:

– Só a sem-vergonhice desse povo de Caruá é capaz de aceitar as barreiras invisíveis do preconceito, lançar mão da safadeza e da perversidade para criticar e tentar impedir as relações de corações puros e sedentos de afeto. Meu amor por Petrônia está além da quenguice escrota e indiscreta dessas damas da noite, aqui de Caruá, que se vendem por cem réis. Petrônia, eu não alugo, num vendo, num disponho, num troco, num como nem deixo ninguém comer! Ela vai se manter virgem e imaculada! Petrônia vai se conservar pura e sem pecados! Jacinta, não! É jumenta-mulher! É tão mulher ou mais mulher do que todas as mulheres desse Sertão velho de Navhunda! Esta, sim, é uma verdadeira quenga dos infernos! É jumenta que não se dá ao respeito, meu camarada! Dá para qualquer um! Não nasceu para ser jumenta, e sim, uma cadela! Ô bicha perniciosa, descarada, sem-vergonha, safada, traíra, malandra, traiçoeira, tarada, catrevage, canalha e despudorada! Aquela rapariga do cão me bota em cada situação! Outro dia eu estava passeando montado no lombo de Jacinta quando passou um jumento e aquela traidora deu uma piscada para ele. Meu compadre, esse jumento partiu atrás de nós tão sedento de safadeza que se ele tivesse enfiado aquela coisa dez centímetros acima, eu ia passar uns dois anos me aliviando com pomada Hipoglós. Para as coisas ficarem mais fáceis para mim, tentei pular do lombo da jumenta, mas não consegui. Meu compadre, eu tive que passar mais de dez minutos com o jumento mordiscando minha nuca enquanto comia Jacinta. Não é que o infeliz quando montou na fuleira da Jacinta enfiou as patas dianteiras nos meus dois bolsos do gibão!

CAPÍTULO X

Ritinha de Xandu

Quando o tempo das fêmeas asininas passou na vida de Biu Burra Preta, ele encontrou Ritinha de Xandu, uma donzela graúda sem muita beleza, mas com um par de pernas e bunda grande que era mesmo que ver a mãe de Severino por trás. Ritinha se parecia com Santinha, mas só por conta do traseirão. Aquilo era um bagageiro tão grande que na posição meia-água, podia-se colocar uma mala em cima.

O título de beleza “ino e vortano[27], ou seja, de frente e de trás, mesmo depois de ter parido quarenta e um ou quarenta e dois filhos, ainda era de Santinha. Aliás, Santinha, depois de dar cria a esse rebanho de gente heterogênea na feiura, ainda era a mais bonita e cobiçada. Ela não era como muitas Raimundas, que eram feias de cara e boas de bunda. Santinha era bela de cara e boa de tudo.

Mesmo beirando os… os muitos anos, sem uma rugazinha sequer, ninguém dizia que Santinha tinha mais de vinte aninhos. O tempo não passava para ela. Estrias e celulite eram coisas que só davam no “c… dos outros”. Ela estava incólume, linda e radiante como quando tinha dezoito anos. Não havia sinal de enrugamento da pele. Pasmem, nem as mãos e pescoço de Santinha continham o menor engelhamento! A pele era sedosa como a das adolescentes e cheirava a leite. Santinha era um fenômeno da natureza.  Isso deixava Dora Doida e algumas das “virgens” com tanta inveja que por diversas vezes apelaram para a bruxaria.

Mesmo sabendo que tinha o corpo fechado[28], uma das simpatias que Santinha usava para se livrar de feitiços, tirar quebranto, mau-olhado e todo tipo de superstição burra e doentia era uma pequena oração repetida sete vezes como um mantra: “Praga de urubu, pega no “oi” do cu!”

Mas esse capítulo era para falar só de Ritinha. Desculpem. É que me perco no prazer de descrever a beleza jamais descrita neste mundo: a beleza trigueira da Santinha Preta.

Se Santinha e Ritinha saíssem juntas todos perguntavam:

– Oh, Ritinha, e tu já tem filha moça desse tamanho? Tu menstruasses um dia desses, menina!

Mas, Ritinha também era boa!

– Aquela bicha do rabão?! – Dizia Dora Doida enciumada. – Só podia ser nora da quenga da Santinha! Ô bicha feia do queixo de graviola! Aquilo é capacete de piolho de moto-taxista! A infeliz parece uma tanajura sem peito! Só se salva mesmo a lapa de bunda que ela carrega. Assim mesmo, aquilo ali só dura, no máximo uns cinco anos. Vai cair, ficar murcha e tão cheia de celulite que vai se parecer com a casca de uma laranja! De resto, aquilo lá não vale nada!

Não vou nem comentar as loucuras de Dora Doida. Você já sabe, caro leitor, que eu não tenho nada a ver com isso.

Não se sabe ao certo se Biu se contentava com Ritinha de Xandu, mas o que se falava “por uma boca só” é que Burra Preta não tinha abandonado de vez o vício de suas noitadas animalescas. Ele era visto constantemente nas madrugadas, na “Baixa da Égua”, com seu tradicional banquinho de madeira. Para os leitores novos, não acostumados com a expressão acima, devo dizer que a “Baixa da Égua” é o lugar designado e propiciamente adequado para se fazer a cerimônia, denominada por Jessier Quirino[29], de “A mulherização das jumentinhas”. O banquinho ajudava a igualar as alturas.

Lembrei-me de um caso envolvendo Severino e suas aventuras amorosas. Foi numa tarde de inverno, no quintal da casa de Zureia, que Noquinha da Poica[30], filho de Noca Barrão[31] e irmão de Ritinha de Xandu, presenciou uma cena íntima de Burra Preta.

Ele desejava conversar com Biu sobre os preparativos para o casamento de Ritinha. Uma vez que no Interior não se batem palmas quando estão às portas de amigos, Noquinha foi emburacando por “dentro da casa” e só parou no quintal quando viu a cena de amor entre Biu e Jacinta. Passado o susto, Noquinha recuou sem ser notado e foi se sentar na varanda da casa. Daí a pouco chegava Biu fumando um cigarro de palha. Ao ver o futuro cunhado, Biu disse:

– Amigo, Noquinha! O amigo não morre tão cedo! Eu tava ali fazendo um servicinho no quintal, mas só pensando no amigo!

– Não, amigo Biu! Tu num tava pensando em mim, não! Deixe disso!

– Tava sim! O amigo mora no meu coração!

Burra Preta, daí a alguns meses se casaria com Ritinha e esse episódio animal seria esquecido.

Biu jurou de pés juntos que só se casaria com uma moça virgem. Dito e feito.

– Dito e feito uma porra! – Atacava Dora sempre que alguém elogiava Santinha ou Ritinha. – Ritinha de Xandu é pior que a rapariga da Santinha! Aquilo é uma vaca, peniqueira[32] e biscate! É uma rachada dos infernos e como é filha de Xandu, também é fofoqueira, gasguita[33] e macheira[34]!

Na noite de núpcias, quando Ritinha de Xandu viu a sombra descomunal do objeto tridimensional de “Biu da Burra Preta”, desenhado geometricamente para raríssimas cavidades erógenas, pensou logo em correr. Porém, mais rápido e letal do que um escorpião no cio, Burra Preta atalhou, desviando-se de uma porca que estava comendo uma casca de melancia e, quando Ritinha pensava que estava livre da potencialmente perigosa arma de Biu, deparou-se com ele que sorria, feito Mona Lisa, aquele sorriso cínico e ameaçador. Ritinha, com o dedinho indicador entre os dentes, no canto da boca, assustada e sonsa ao mesmo tempo, disse:

Ai!

Um fogo surgiu da extremidade esmaltada das unhas dos dedões dos pés e foi subindo pela canela, demorou-se um pouco no contorno dos nós dos joelhos, saiu rasgando as coxas, aqueceu as entranhas, passou pela barriga, subiu ao coração, chegou à cabeça e Ritinha desfaleceu nos braços de Burra Preta.

Depois desse dia, Ritinha nunca mais foi a mesma e todos os homens de Navhunda que tiveram a sorte de derrubá-la[35], fazendo cumprir a profecia de Dora Doida de que Biu seria corno, praguejavam e o mandavam aos suplícios dos seiscentos mil demônios.

– “Maldito seja Biu das Jumentas! O imprestável estragou a menina!”

Capítulo XI – Segurando a pomba da salvação, ela descobriu o amor

De tanto levar chifre de Ritinha, Severino foi ficando frio. E quanto mais a relação esfriava, mais corno ele ficava. Isso não era segredo em Navhunda.

– Eu sempre afirmei com convicção: Burra Preta tinha que ser corno. – Dizia Dora Doida.

Mas eis que numa tarde quente, Biu estava tomando banho nu no rio sem perceber que a vinte metros dele estava sozinha e nua, uma das mais belas loiras da cidade, Virgínia, filha de Dora Doida e primeira princesa do concurso de beleza de Navhunda. Ela tinha um metro e setenta centímetros de altura, cabelos loiros e cacheados, olhos azuis, pele branca levemente avermelhada pelo sol, corpo perfeitamente bem desenhado e uma beleza de faces, peitos e bunda que só poderia perder para Santinha. Virgínia era verdadeiramente virgem. Mas, dizer que ela era virgem é muito pouco. Ela era a representação do ser humano limpo de toda a imundície própria da espécie. Era pura de corpo, alma e coração.

Biu estava deitado, de barriga para cima, boiando próximo à margem, onde as águas do rio eram mais calmas. Enquanto flutuava, olhava para as nuvens que naquele instante desenhavam algo qualquer. Mas Biu só enxergava uma sensualidade glútea desnuda. Qualquer que fosse o desenho da nuvem, aquele animal no cio só via o imenso rabo de Ritinha. E era nisso que, para ele, sua esposa se resumia: uma bunda. Bunda objeto infiel, sem rosto, sem cérebro, sem vontades. Ele já não amava nem a bunda, por ser apenas um artefato de prazer, nem sua dona.

Nesses momentos de reflexão, quem de longe visse Burra Preta, jamais entenderia que se tratava de um sujeito boiando, pois o que se via era uma cabeça grande se levantando sendo seguida por um enorme pescoço. Parecia o monstro do Lago Ness[36]. Era a ferramenta sexual de Biu que, alimentada pelos pensamentos pecaminosos, inflava, inflava, crescia, crescia e, quando ele se lembrava que se tratava apenas de uma bunda como outra qualquer e que após a gravidade e o tempo finalizarem seus trabalhos não restaria mais nada, seu instrumento murchava e caía na água fazendo barulho: splash!

Virgínia ouviu aquele som, levantou a cabeça para fora da água e procurou a origem dele por todas as direções. Naquele momento, Burra Preta voltava a pensar no traseirão da esposa e a cena do monstro do Lago Ness recomeçava. Emergindo feito um periscópio, surgia a cabeça sendo seguida pelo pescoço. Ao ver aquilo, Virgínia pensou: “É uma jiboia”!

Qualquer animal[37], naquele momento, sairia da água imediatamente. Sendo feminino e humano faria o maior escândalo correndo e gritando, menos Virgínia. Ela não era mulher de fugir de uma cobra. E tendo, como bicho de estimação, uma jiboia fêmea em casa, ela pensou: “Não vou perder a oportunidade de levar um companheiro para minha cobrinha!”

Quando o negócio de Biu murchou e caiu na água, Virgínia, que já estava a um metro e meio do monstro, saiu da água voando e mergulhando como um golfinho. Mais rápida e certeira do que o bote de uma serpente, Virgínia deu de garra com o bicho pela cabeça e o segurou firme.

Uma confusão se formou com os gritos de Severino e Virgínia. Ela correu para um lado e Burra Preta para o outro provocando um estiramento no couro do “negócio” dele. Mas Virgínia não estava disposta a ceder e quanto mais Biu puxava de um lado, mais ela apertava e puxava do outro até que cedeu.

No momento seguinte, refeito do susto, Biu viu, após a garota soltar seu enorme cipó, que ela se aproximava de uma zona profunda do rio onde uma forte correnteza ameaçava arrastá-la. Decidido a salvá-la de qualquer jeito, Biu mergulhou e se aproximou da moça. Nesse momento, para não se afogar, ela se debateu procurando agarrar qualquer coisa. A primeira coisa que encostou na mão de Virgínia foram os “ovos” de Biu. Ela os agarrou e puxou. Foi assim que ela pôde vir à tona para respirar e ouvir os urros de dor de uma autêntica Burra Preta.

Mais uma vez, assustada, ela soltou os dois componentes do sistema reprodutor dele e afundou. Mesmo sentindo muita dor ele mergulhou atrás dela. Agora era a mangueira de Biu que outra vez ela segurava. Desta vez, nada a faria soltar aquela “coisa” da salvação. Quando os dois vieram à tona em segurança, ela desfaleceu. Assim, Biu retirou Virgínia da água, colocou nos braços e a levou até um lugar seguro. Mantendo-a em seus braços, encostou-se a uma árvore e se sentou.

O momento agora era outro, bem diferente. Aliviado, Biu abriu um sorriso. A mulher por quem ele era apaixonado desde a adolescência estava agora ali em seus braços, nua, desmaiada e ainda, por mais incrível que pareça, segurando o instrumento que que a salvou. Sim, leitor, ela foi salva por uma rola.

As filhas de Dora eram lindas, mas Virgínia era a mais bela entre elas. Não preciso dizer mais nada. Mas como sou um sujeito apaixonado por qualquer assunto que dissemino, para completar o entendimento sobre a beleza de Virgínia, eu direi apenas que se juntarmos a cabeça da Angelina Jolie com o corpo (acompanhado do imenso rabo) da Kim Kardashian, formaríamos um belo animal[38] humano, mas ainda assim, esse animal resultante nem chegaria aos pés de Virgínia. Com esse exemplo, acho que o leitor ainda não compreendeu bem o universo de beleza dessa menina. Vou dar outro exemplo: imagine Santinha Preta. Pois bem, se Santinha não existisse, Virgínia seria a mulher mais bonita do multiverso[39].

Biu e Virgínia tinham pouco mais de trinta e quatro anos. Por esse tempo ela já não era uma menininha, era fruta madura e gostosa. Não tinha a beleza adolescente de Santinha, mas a beleza madura, impecável das mulheres depois dos trinta. Era senhora de si. Loira e tão linda quanto fora sua mãe, Dora Doida. Tinha o corpão, como já citei, da Kim Kardashian com aquelas curvas bem desenhadas que só homens maduros sabem apreciar. Não tinha a bunda imensa como à de Ritinha, mas era grande, lisinha e proporcional ao resto do corpo tal qual a bunda de Santinha.

Com aquilo tudo nos seus braços Severino não conseguiu conter sua mente promíscua e seu “instrumento de colaboração para a multiplicação da espécie humana”[40] começou a inflar novamente. A compressão dos dedos de Virgínia interrompia a circulação do sangue e a pressão do membro aumentava. Naquela agonia de Biu, Virgínia aos poucos acordava. Ao perceber que estava nua e que Burra Preta a segurava nos braços, ela gritou:

– Severino, o que está fazendo?! Socorro!

Para abafar seus gritos, Severino a apertou contra seu peito e disse:

– Eu acabei de salvá-la de um afogamento! Pare de gritar!

Com sua consciência refeita, o susto se transformou em um prazer repentino por ter seu corpo, pela primeira vez em sua vida, agasalhado por um corpo masculino. Seus seios pressionados contra o peito dele receberam um calor nunca antes sentido. Seu corpo estremeceu, mas o recato a fez lembrar que uma donzela não poderia se entregar à luxúria sem resistência, então tentou fugir dos braços dele. Toda ação leva a uma reação. Severino deu-lhe um aperto tão forte que ela revirou os olhinhos e soltou um gritinho de prazer.

– Não vou machucar você! Acalme-se! – Disse ele com voz suave e aveludada de amante espanhol.

Ele afrouxou um pouco a pressão que fazia e ela pôde falar de modo reticente, vacilante:

– Então… Por que… não me larga… e vai embora?

– Eu até podia fazer isso, mas você está segurando com força minha “coisa”!

Quando ela olhou para sua mão viu o “negócio” de Biu, vermelho de tanta pressão que ela fazia com a mão.

– Ah, desculpe! Machuquei você?

– Não foi nada! Isso aí funcionou melhor do que uma corda! Se você não segurasse firme essa coisinha aí, não sei o que poderia ter acontecido.

Um pouco encabulada, ela largou a “besteirinha” de Biu, mas antes fez um tímido carinho na coisa. Pediu muitas desculpas, vestiu-se rapidamente e foi embora.

As noites de Virgínia e Biu nunca mais foram as mesmas, pois enquanto calores estranhos a consumiam, Biu a observava da janela de seu quarto que ficava em frente ao quarto dela.

Certa noite, sem resistir às provocações, pois ela afastava de propósito sua cortina, abria a janela e se deitava nua na cama, Burra Preta apareceu de assalto em seu quarto e a consumiu a noite inteira.

Alguém pode estar se perguntando como foi esse consumo. Como? Como uma virgem suportaria uma ferramenta de cópula tão grande? Acontece que Virgínia tinha nascido com uma anomalia, pois seu canal vaginal, tal qual o de uma jumenta, media mais ou menos cinquenta centímetros de comprimento. Era uma bainha perfeita para a espada de Biu. Como todos sabem que amor de pica é o que fica, eles se apaixonaram imediatamente.

Pela manhã, Virgínia serviu o café na cama e se trancou com Biu no quarto, avisando às irmãs que não a incomodassem, pois estava indisposta.

Biu pegou Virgínia pela cintura, fez bastante carinho e… “Tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe”[41] até a hora do almoço. Depois do almoço… “Tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe” até a hora do jantar. Depois do jantar…

O sol anunciava o amanhecer do dia seguinte quando Biu saía pela janela do quarto de Virgínia. Ele parecia um gato magro e surrado que voltava para casa após quinze dias correndo atrás das gatas pelos telhados. Apresentava olheiras e cambaleava fraco e sonolento quando entrou em sua casa. No corredor, cruzou com um “pai-de-santo” conhecido como “Caboclo Mamador” que fez questão de explicar sua estada ali:

– Amigo Biu, depois de procurar você por toda a cidade, enlouquecida, sua esposa precisou dos meus serviços, pois a mesma foi possuída a noite toda por uma legião demônios!

– E o senhor expulsa demônio assim, nu? – Perguntou Biu.

– Faz calor! Seu quarto é muito quente! – Respondeu o caboclo.

– Você tem razão, comprarei um ventilador maior. Mas eu gostaria que me explicasse uma coisa: o senhor tem razão quanto ao calor, mas como vai me explicar o fato de estar de “pau duro”?

– Ô homi discunfiado! Se com uma das mãos eu seguro um “Preto Veio”, com a outra, o livro sagrado, onde é que eu vou pendurar aquele pote ali de água benta?

Como o Caboclo havia apontado para um pote, que parecia um balde de gelo, Biu exclamou surpreso com a força do instrumento:

– Ah, bom!

No banheiro, Biu cumprimentou o açougueiro que, além de carne fresca, garantiu que se não fosse a galinha preta que trouxera, Ritinha ainda estaria nas garras do Pazuzu[42].

No quarto, encontrou Ritinha nua e suando muito. Ao lado, o dono do mercadinho, enrolado em lençóis fumava um cigarro, e antes que Biu perguntasse, foi logo se defendendo:

– Alguém tinha que trazer as velas pretas, a cachaça e a farofa! Fica tudo por minha conta! Não precisa pagar nada!

– Tudo bem – Disse Biu. – Vou dormir no quarto dos fundos. Tomara que esse capeta esteja bem longe quando eu acordar!

 

Capítulo XII – Navhunda acordou com o tiro na bunda

 

Ouviram-se pontapés na porta do quarto de Virgínia seguidos por um tiro certeiro na bunda de Burra Preta.

De alguma forma, Dora Doida havia descoberto que a filha estava tendo um caso com um desconhecido. Assim, depois de algumas semanas de muito amor no quarto de Virgínia, Burra Preta acordou com as pancadas na porta e só teve tempo de pegar um lençol branco e se atirar pela janela. Quando se levantou, foi alvejado com um tiro de sal grosso na bunda. Atordoado, já ia entrando em sua casa, mas desviou a tempo, para não denunciar a si próprio, e sumiu pela rua de braços abertos com o lençol na cabeça.

Com o barulho, todas as janelas foram-se abrindo, inclusive a janela do quarto de Biu que fora aberta pelo “Caboclo Mamador”. Na rua o povo ficou aturdido com a imagem que viu. Parecia que uma arraia branca tinha escapado do mar e agora corria livremente pelas ruas de Navhunda.

A bicha é das grandes! – Disse o “Caboclo Mamador”Olha, Ritinha, você está vendo o rabo dela? Aquilo tem um esporão perigosíssimo na ponta!

– E onde foi que você viu arraia correndo na rua? E aquilo não é esporão coisa nenhuma!

Ao menos Ritinha não acreditou na estória da arraia velocista, pois aquele esporão lhe era bastante familiar.

Depois do ocorrido, Dora Doida resolveu despachar Virgínia para o Recife, onde ela ficaria reclusa para estudar em um internato de freiras, enquanto esperaria a ordem da mãe para embarcar num navio com destino à Irlanda, terra natal de sua avó. Lá, ela deveria passar o resto de sua vida morando com umas primas.

– Filha minha tem que ser pura! – Disse Dora Doida.

Depois desse fato, Severino se dedicou a investigar o paradeiro de Virgínia sem despertar suspeita na população, nem sobre o motivo do sumiço dela nem sobre a verdadeira identidade da arraia navhundense.

Biu, praticamente, se refugiou nos braços de sua mãe. Apenas ela, Santinha, a mãe dedicada que cuidava das feridas provocadas pelo sal na bunda do filho, sem saber da verdadeira história, acolhia-o em seus braços nos difíceis momentos de saudade em que as lágrimas dele eram todas dedicadas a Virgínia, seu mais puro amor. Amor no sentido próprio e puro da palavra. E se pudéssemos perguntar a cada um deles por que eles se amavam, responderiam: porque é ele, porque sou eu; porque é ela, porque sou eu.  Porque enquanto eu nada faço que o impeça de ser ele, ele nada faz que me impeça de ser quem eu sou ou quem eu queira ser; porque enquanto eu nada faço que a impeça de ser ela, ela nada faz que me impeça de ser quem eu sou ou quem eu queira ser [43].

Santinha, que já havia desistido de saber o porquê de tanto sofrimento do filho, apenas se resumia à tarefa de acalentá-lo, enxugando-lhe as lágrimas com carinho e massageando seu couro cabeludo com a ponta das unhas. Fazia isso com a esperança de que ele se refizesse emocionalmente e adquirisse forças para tocar, a cada dia, sua vida política de sindicalista e profissional esfriador de verruma.

Capítulo XIII – O Esfria–Verruma

A primeira ocupação de Severino Burra Preta na fazenda Caruá, foi na fabriqueta de móveis. Sua função era esfriar a verruma[44] do marceneiro.

Tendo trabalhado por menos de um ano, Biu ia bem no seu emprego até que um novo gerente, um caboclo enorme, posteriormente apelidado de Tigre, chamou-o até o escritório da empresa. O Tigre perguntou:

– Qual é a sua função aqui?

– Esfria-verruma.

– Você sabe que seu salário está errado?

– Sei sim. Pode aumentar.

– Cortaremos seu salário pela metade.

– Não aceito.

– Demitirei você.

Antes da demissão, o gerente tentou convencer Biu a ganhar igual aos demais trabalhadores da fazenda, mas ele não aceitou. Burra Preta fincou pé e disse que só ficava no emprego se ganhasse o dobro do que ganhavam os demais. O gerente o demitiu e resolveu acumular sua função de gerente com a de “esfria-verruma”.

No primeiro dia de trabalho o gerente foi chamado e iniciou sua tarefa. Na primeira esfriada, quando a verruma estava bem quente, o gerente estirou a língua para fora da boca e o marceneiro colocou a verruma quente na língua dele. Em seguida, ouviu-se o chiado e a verruma estava pronta para ser usada novamente. Na segunda esfriada, o marceneiro percebeu que a careca do gerente estava molhada de suor, mas não hesitou, puxou a língua dele e…

Tchiiiiiiiiiiiiii!

Após ter ouvido o chiado da verruma, o marceneiro olhou para o gerente, que além de muito suado deixava escorrer uma lágrima do olho esquerdo, e perguntou:

– Ôxe, tá chorando por causa duma besteirinha dessa? Burra Preta aguentava calado e nem fazia careta!

O gerente, com uma voz chorosa, respondeu:

– Não é isso, não! É que toda vez que escuto esse barulhinho do chiado da verruma, eu me lembro de “Maria Antonieta”!

– É sua parenta?

– Não! É minha cabritinha!

Na terceira vez que a verruma veio quente para ser esfriada, o gerente fez uma careta, abriu a boca, estirou a língua e…

– Tchiiiiiiiiiiiiiiii. – Mais uma lágrima escorreu.

O marceneiro olhou novamente para o gerente e perguntou:

Ela morreu foi?

O gerente respondeu:

Não! Chega de lembranças de Maria Antonieta! Chame o senhor Burra Preta e diga que eu pago o salário que ele pediu!

Todas as pessoas da fazenda, ao tomarem ciência do acontecido com Burra Preta, atentaram para suas ações profissionais e começaram a convidar o gerente para experimentar suas funções, pois todos achavam que tinham iguais direitos e queriam o mesmo tratamento dado ao “esfria-verruma”.

Assim, um dia o gerente estava limpando merda de porco no chiqueiro, outro dia estava aprumando as “coisas” dos cavalos nas “coisas” das éguas. Também masturbava porcos e touros para colher sêmen para o laboratório de inseminação artificial e ministrava remédios para vermes inserindo-os nos cus dos cavalos.

Teve um dia que o gerente limpou cinco fossas e, no curral dos jumentos, faltou pouco para ele ser dilacerado por um dos animais que o confundiu com uma jumenta no cio.

O gerente já estava ficando cansado dessas convocações de trabalhos experimentais. Ele deu um basta nisso quando atendeu ao pedido dos Tigres[45] para recolher as fezes de todas as casas da fazenda e jogar no rio. Foi daí que surgiu seu apelido, Tigre.

Todos os trabalhadores, desde o engraxate, passando pelo masturbador oficial até os tigres, das empregadas domésticas até o babão do ovo do patrão pediram aumento salarial.

Como se já não faltasse mais nada, a cafetina chamada Ginna Coturno, com as profissionais do sexo reunidas em assembleia, fez um convite ao gerente para experimentar uma noite de fornicação com os vaqueiros da fazenda o qual ele sabiamente recusou alegando que não havia necessidade de experimentar aquele sagrado ofício que já fora compreendido até por deus, nosso senhor, quando esteve na terra convivendo com a putaria deste mundo encarnada em Maria Madalena.

Olhe. – Disse o Tigre. – Você é apenas uma vadia, no bom sentido, claro! Se eu não fosse tão apegado às coisas da eternidade, eu diria que o próprio deus apoia a imoralidade! Isso que vocês fazem é safadeza pequena! Veja só o que diz Ló, o homem que deus salva naquela tragédia de Sodoma e Gomorra, em Gênesis 19:8. Ló não quis deixar dois anjos a mercê de um bando de depravados e, como ele era um homem justo, um homem de deus, resolveu oferecer suas duas filhas virgens para um estupro coletivo.  Ele disse para o grupo de imorais:

 “Fareis delas como bom for nos vossos olhos.”(Gênesis 19:18)

– Ele fez isso com as próprias filhas? – Perguntou, Ginna!

O Tigre olhou nos olhos de Ginna e disse:

Não se espante assim. Para os valorosos homens de deus, as sagradas mulheres não valiam nada naquela época. Então, quem sou eu para julgar vocês, digníssimas senhoras?!

O gerente se levantou da cadeira em que estava e deu dois passos em direção a um crucifixo. Parou, olhou pensativo e se dirigiu novamente a Ginna dizendo:

– Escute essa outra passagem da bíblia: Jacó pede a Labão que lhe entregue Raquel dizendo: “(…) para que entre a ela.” Mas ao invés disso, Labão lhe entrega Lia. Então Jacó “(…) entrou a ela por engano.” Em outras palavras, Dona Ginna Coturno, Jacó foi enganado até de manhã porque “coisou” com Lia e não com Raquel! Note, Dona Coturno, que ele não sabia em quem estava “entrando”! Finalmente eles acertaram as contas, e Jacó consegue “entrar” em Raquel também. Isso acontece em Gênesis 29:21 – 30. Ele “coisou” com as duas, entendeu?

– Isso tem mesmo na bíblia? – Perguntou a honrada vadia, Ginna Coturno.

– Tem, incrédula donzela! Ouça esta outra história. Está em Gênesis 30:15 – 16. Raquel comercializa “favores” do marido por algumas mandrágoras. Assim, quando Jacó retorna a casa, Lia lhe diz: “A mim entrarás, porque certamente te aluguei com as mandrágoras do meu filho. E deitou-se com ela aquela noite.” Se isso não for uma história de prostituição na bíblia, eu não sei o que é isso!

Ginna olhou nos olhos do gerente e perguntou:

– Por que acabou de me contar essas histórias?

– Porque não vejo nenhuma diferença entre você, as santas mulheres e essas mulheres virtuosas daqui de Bassouralnavhunda. Nunca se sinta inferior ou ache que comete algum pecado!

– E aí, vai aceitar o convite?

– Oh, santa mulher! Sou um homem que compreende perfeitamente, diante do brutal apetite sexual da vaqueirada, as agruras por que passam as senhoras quando estão cumprindo com os seus deveres sagrados de deixar um homem “entrar” e “sair” inúmeras vezes desses corpos sagrados! Entendo ainda, que é injusta a alcunha, “mulher de vida fácil”, recebida pelas senhoras.

Levando em consideração o tamanho avantajado das “coisas” dos vaqueiros e as energias das pobres moças que eram consumidas por aquela gente incansável, o gerente autorizou um aumento de cem por cento nos serviços prestados. Antes que recebesse outros convites, colocou no documento de autorização, em letras garrafais o seguinte: “INCLUAM-SE NESTA AUTORIZAÇÃO DAS PROFISSIONAIS DO SEXO TODOS OS OUTROS PROFISSIONAIS DA FAZENDA QUE PRESTAREM SERVIÇOS DE NATUREZA SEXUAL”.

Por fim, só restou ao gerente reconhecer que todos os trabalhadores assalariados da fazenda não passavam de pobres “esfria-verrumas” e, portanto, nada seria mais justo do que valorizar seus ofícios com aumentos salariais.

Capítulo XIV

O Partido dos Esfria-Verrumas

Essa questão se alastrou de um jeito que saiu do âmbito da fazenda Caruá e chegou a Navhunda. De lá, partiu para o Recife e dominou o Brasil. Não demorou muito e o governo de Navhunda, representado pelo pai de “Gala Rala”, teve que aprovar um código de garantias dos direitos de todo e qualquer esfria-verruma. Assim nasceu a CLEV (Consolidação das Leis dos Esfriadores de Verruma).

Da reunião desse povo todo nasceu o primeiro sindicato dos esfria-verrumas sob a presidência de Biu Burra Preta.

Estaria se cumprindo a profecia de Judite? Biu seria o líder dessa gente? Sim. Biu seria o líder, mas quem realmente mandava eram seus irmãos corruptos e inúmeros espertalhões que usavam sua imagem. Biu nunca passou de um figurante, um “laranja” no sindicato e no futuro partido.

Daí foi só encher o cu de cachaça, parar a produção industrial, fazer piquete na porteira da fazenda, impedindo a entrada dos trabalhadores, levar porrada da polícia, raparigar à vontade, prometer defender os esfrias-verruma de toda e qualquer opressão do patrão e do governo, mas fazendo jogo duplo; ser contra, “de mentirinha”, as privatizações e sonhar com o dia em que o peão viraria patrão.

Depois, a depender do apoio daquela gente esfriadora de verruma, Biu Burra Preta não só governaria a fazenda Caruá, mas toda a nação de esfria-verrumas livres de Bassouralnavhunda!

Numa das badernas, Biu ficou bastante ferido quando seus seguidores reuniram vários sem-tetos e invadiram um prédio público. Na verdade, essa invasão nunca teve o apoio dele que realmente não sabia que se tratava de um bem público[46]. Mas, por ser o cabeça do sindicato, levou a culpa e tomou muita pancada. Quando o cacete terminou, Biu, que já tinha levado umas cinquenta dedadas no monossílabo tônico, estava no chão com quarenta e cinco costelas quebradas. Para sua sorte, nesse momento de aflição esteve o tempo todo amparado entre as macias tetas de uma cidadã desconhecida, rodeado por três esfria-verrumas, meia dúzia de pudim de cana, vinte babões, trinta e uma mulheres de profissão não-tributável e dezessete vagabundos. Os esfria-verrumas intelectuais e os puritanos correram e se refugiaram num prostíbulo embaixo das camas das meninas. Dias mais tarde, um deles, numa das reuniões do sindicato, na qual contava sua façanha de ter escapado do cacete da polícia, disse que as meninas deveriam ganhar colchões novos, pois na ocasião da fuga, quando estava debaixo da cama de uma profissional do sexo, sempre que um vaqueiro errava o alvo o pinto dele rasgava o colchão e se alojava a dois centímetros do seu nariz. Dias depois, estava na rua uma grande campanha para arrecadar fundos para comprar a principal ferramenta extracorpórea de trabalho das meninas.

Os assessores de Biu Burra Preta, quando estavam refazendo o cálculo das dedadas e das costelas quebradas do líder, juraram que o mesmo teria levado apenas uma dedada curta e que trinta costelas foram quebradas. Indagados sobre o fato de um ser humano ter apenas doze pares de costelas, os assessores de Biu disseram que algumas costelas foram quebradas em dois lugares.

– Devia ter quebrado o osso do cu! Esse Burra Preta, além de fantoche, filho da puta e safado, é mentiroso. Eu mesma vi que ele levou vinte dedadas e não foi das curtas não! Foi dedada profunda, daquelas que rasgam todas as pregas! – Dizia Dora Doida.

Não demorou muito para os assessores de Biu, liderados pelo bispo Onze, juntarem todos os esfria-verrumas sindicalizados ou não, os cus-de-cana, os caga-na-pá, os vagabundos, todos os viciados em drogas lícitas e ilícitas, os caga-três-terreiros, os heterossexuais e seus opostos, as senhoras de reputação duvidosa[47] (com seus respectivos filhos eleitos) cuja profissão ainda não era tributada pelo governo e toda sorte de criminosos, estupradores, borra-botas, caga-na-lata, ladravazes e lalaus de toda qualidade; todos os catitas furtadores de galinhas e até ladrões de cavalos, todos os sebosos, estelionatários, os alunos do Mobral (também conhecidos como a elite intelectual de Navhunda); todos os homens e mulheres metidos a puritanos e paladinos da moral e dos bons costumes, que se julgavam únicos decentes e honestos, mas que não passavam de hipócritas; todos os ultraortodoxos religiosos, os rezadores, tiradores de quebranto e mau-olhado, os pais de santos machos e outros, os satanistas, os religiosos excomungados por se amancebarem com burros e jumentos, os bispos que já foram padres e até os que nunca vestiram batina, os apóstolos que nunca conheceram o messias, os seminaristas virgens e os duvidosos, as noivas virgens viúvas do crucificado e  fundar o primeiro partido dos esfria-verrumas sob a presidência do agora famoso, sem nunca ter dito uma só palavra a título de discurso político, Biu das Quengas.

Alguns meses depois do sucesso alcançado pelo partido, sob a liderança do Bispo Onze, que não gostava de ficar atrás de ninguém, sempre liderando, sempre na frente dos homens, todos os religiosos aderiram ao partido. Onze era agora o líder do partido, da facção religiosa e principal articulista da campanha de Biu. Ele usava um bordão meio esquisito sempre que liderava os coleguinhas. Dizia ele:

– Comigo é assim: é um atrás do outro, como na fila indiana! Sigamos juntos em nome de Hórus! Amém?

– Isso é lá bispo de vergonha! Como é que confunde o nome do espírito santo que também é deus e filho de deus, nosso pai, com o nome de um maldito deus pagão? Presta atenção na fé, cabra safado! – Indignada, Dora Doida criticava o bispo.

– Que engraçado, dizia o Xifópago filósofo, deus enviou ele mesmo na forma de espírito santo para engravidar uma virgem para que nascesse ele mesmo!

– Foi isso mesmo que aconteceu, aberração! – Dizia Dora Doida ao ouvir tal heresia. – Não queira entender dos planos da divindade, seu indefinido sexual!

Não foi fácil juntar esse povo tão heterogêneo. As meninas da Casa da Luz Encarnada, vulgo puteiro, respeitosamente denominadas profissionais do sexo, comandadas por Ginna Coturno nas lutas contra a falta de decência das falsas donzelas da sociedade, que com sexo fácil consumiam seus namorados numa concorrência desleal com as profissionais, não queriam ficar perto dos bandidos nem dos sebosos, mas aos poucos, aprenderam a tolerar e foram elas que edificaram a sede do partido cujo nome foi escrito em letras garrafais: CASA DE TOLERÂNCIAS.

Os esfria-verrumas reclamavam que os pudins de cana e os vagabundos além de não fazerem nada, só atrapalhavam. Mas, com o desejo de ver a bandeira da tolerância estampada no mais alto mastro do palácio presidencial da nação dos esfria-verrumas, fizeram da vagabundagem um modo de vida a ser respeitado e tolerado em prol da total transformação de Bassouralnavhunda.

A corrupção, que antes era combatida com unhas e dentes pelos Esfrias, depois da criação do partido e da conquista de alguns cargos públicos, passou a ser algo que, segundo seus líderes, não passava de intriga da oposição e perseguição política pelo órgãos judiciais, conforme se depreende das palavras do bispo:

– Não podemos condenar inocentes! – Dizia Onze. – Todos são inocentes mesmo que as provas demonstrem o contrário! Se, ainda que entre os condenados não haja um único inocente, a justiça para ser feita deve absolver todos com a fundamentação mais adequada à preservação da liberdade humana! Todas as provas colhidas contra os membros do partido não deixam dúvidas de que a lama escorre frouxamente pelas gavetas públicas, mas não serão meras provinhas que vão tirar a liberdade de um de nós. O direito de liberdade humana é maior do que qualquer prova. Exceto nosso líder, Biu das putas, todos do partido foram pegos roubando. No entanto, como defensor da legalidade absoluta, determinei o arquivamento de todos os processos, pois as gravações feitas, que mostram claramente nossos políticos enfiando dinheiro até pelos buracos do cu, foram obtidas sem autorização judicial! E ainda que um juiz autorizasse, isso configuraria perseguição político-judicial. Estou indignada, digo, indignado! Eles tiveram a coragem de gravar a minha voz pedindo propina! Logo eu, uma… um servo do senhor! Mas, graças a deus, temos dinheiro para contratar e contratamos um dos melhores peritos deste país e ele afirmou que aquela voz de travestir na fita não era a minha. Assim, nada há em termos de prova legalmente aceita. Se me prenderem, fiquem sabendo de uma coisa, prenderam um inocente! Eu afirmo que sou inocente e isso basta. Nossa próxima bandeira de luta, será o desarmamento da polícia militar, uma vez que já desamamos os cidadãos. Com isso a paz reinará. Agora, com a permissão de Hórus, encerro esta reunião.

Por conta dos escândalos de pedofilia envolvendo líderes religiosos ultraortodoxos do partido, na Casa de Tolerâncias as crianças só podiam ficar próximas dos ateus declarados. Os satanistas não podiam se aproximar das crianças porque eram considerados crentes em alguma entidade sobrenatural fictícia e, portanto, declarados não ateus, ou seja, religiosos ortodoxos não cristãos.

Os agnósticos foram considerados suspeitos, pois ficavam o tempo todo em cima do muro. Assim, as crianças também não poderiam se aproximar deles.

Os puritanos hipócritas do partido, defensores da tese de que os pobres e marginalizados deveriam ser obrigados a seguirem uma cartilha da moral e dos bons costumes editada por eles, formavam o único grupo que não se misturava nem tolerava sequer o cheiro do povo.

– Isso não é partido político! Isso é a reunião duma corja de bandidos, baderneiros fedorentos, vagabundos, malfeitores, canalhas e filhos do cão! – Dizia Dora Doida nos seus momentos de insatisfação.

Mesmo com tanta gente diferente o partido ia muito bem nos seus negócios com uma propaganda extraoficial cujos slogans eram: É esfriando nossa mão que a gente se entende; Nós esfria, mas nós goza; Quem esquenta cu de pobre é peido azedo; É dando que se recebe e é esfriando que se aprende a esfriar; Tem amigo safado quem pode; Ei, oposição, não fui teu pai porque esfriei e corri daquela quenga; Tu esquenta e nós esfrias; Não me queira quente, pois eu só sei lhe comer frio; Se a grana é fria, traz aqui que nós esquenta; Se caixa dois não é crime, por via das dúvidas, pague o meu fora do caixa;  e Quem coça cu de pato é lagoa.

Sob a liderança do Bispo Onze, sempre à revelia de Biu, o partido cresceu, recebeu muita propina e muito dinheiro do Fundo Partidário e só encontrou oposição ferrenha no GICB – Grupo dos Intelectuais e Cavalheiros de Bassouralnavhunda.

Tratava-se de um grupo de pessoas neoliberais tão corruptas e sebosas quanto os Esfrias. Eles se autodenominavam intelectuais, mas a pessoa do grupo que mais tinha estudado só sabia resolver problemas envolvendo apenas as operações de soma e subtração de números naturais. O restante era analfabeto de pai, mãe e parteira[48], inclusive o líder, pai de “Gala Rala”.

Capítulo XV

G.I.C.B

O Grupo dos Intelectuais e Cavalheiros de Bassouralnavhunda (GICB) era comandado pelo braço de ferro do pai de “Gala Rala”, suposto pai das “virgens”, e secretariado por Dora Doida.

Os membros do grupo eram as pessoas da mais alta classe social de Navhunda. Tratava-se de pessoas normais cujas virtudes e defeitos são encontrados em qualquer pessoa deste mundo. Eram pessoas como outras quaisquer que jamais acreditaram que ao morrer iam comer terra até pelo cu, como qualquer miserável do mundo. Essas pessoas cultuavam seu deus, qualquer que seja ele, até mesmo algum deus pagão; pregavam da boca para fora o amor ao próximo, mas só quando o próximo estava próximo e se achavam acima do bem e do mal. Tinham a certeza de que representavam o suprassumo da decência ainda que cometessem indecências e tivessem um comportamento antiético e imoral. Tinham a caridade como um dos pilares de dignidade humana e acreditavam que a praticavam embora explorassem, expropriassem, roubassem, furtassem os mais incultos e vulneráveis seres desprivilegiados da sua comunidade. Afirmavam que eram desprendidos de preconceitos ainda que, como era do conhecimento de todos, sentissem nojo dos pobres ou discriminassem pessoas cujas peles ou preferências sexuais fossem diferentes das suas. Essas pessoas, ainda que a maioria delas sentisse (como era o caso da própria Dora Doida) atração ou fizesse amor com pessoas do mesmo sexo, maltratavam e discriminavam homossexuais fazendo um jogo sujo de aparências, de hipocrisia e falsidade. Estou falando simplesmente de pessoas que se achavam normais. Dessas que criticam erros de outras pessoas sem se darem conta de que cometem os mesmos erros.

Em se tratando de pessoas do GICB, refiro-me a pessoas de aparência decente (como se a aparência pudesse definir alguém), mas que tinham fezes não somente nos intestinos, mas na mente e no coração. Eram pessoas comuns encontradas no seio de uma sociedade que se dizia honesta, justa e participativa, ainda que essas pessoas achassem que disputar, com vantagens indevidas e favores políticos, o jogo da sobrevivência neste mundo, fosse o correto a se fazer. Estou falando de um certo lixo social comum entre os cidadãos da alta classe social de Navhunda. Mas não nos enganemos, a cara-metade desse povo era encontrada na média e baixa classe dessa mesma sociedade.

Numa pesquisa feita sobre o comportamento social da elite do povo de Bassouralnavhunda, o GICB, obteve-se o seguinte: a) cem por cento dos entrevistados motoristas afirmaram que já cruzaram uma via com o sinal vermelho; b) cem por cento das pessoas afirmaram que já mentiram pelo menos uma vez na vida, mesmo sendo aquela mentirinha leve; c) cem por cento das pessoas afirmaram que já enganaram alguém pelo menos uma vez na vida; d) cem por cento responderam que em toda sua vida cometeram pelo menos um furto, mesmo que bem pequeno como é o caso de furtar uma flor do jardim alheio; e) cem por cento já se utilizaram de favores políticos e já tiveram pelo menos uma atitude preconceituosa, racista ou discriminativa; f) cem por cento dos entrevistados afirmaram que acreditavam em “olho gordo” e eram invejados por alguém, mas ninguém afirmou que sentia inveja de ninguém.

Outras questões sobre desvios comportamentais foram abordadas, no entanto, só as unânimes foram colocadas aqui. No final, cem por cento das pessoas entrevistadas, após lerem o significado da palavra honesto[49], responderam que eram honestas.

O mesmo teste foi aplicado entre os esfria-verrumas e o resultado foi idêntico.

 

Capítulo XVI – O Grupo dos Intelectuais do Cabo de Vassoura na…

 

Dora Doida era a pessoa mais influente do grupo dos intelectuais e a mais comentada nas rodas de fofocas. Ninguém gostava do modo como ela dizia tudo que lhe vinha à cabeça, pois as pessoas desconheciam sua insanidade e o mal de Tourette[50] que a acometiam. Mas todos a toleravam por causa da proximidade dela com o pai de “Gala Rala”, o líder do GICB.

Mesmo tendo sido pobre, profissional de todas as formas de sexo, ladra, fofoqueira, trambiqueira e tendo cometido todo tipo de safadeza e putaria na vida, após sua conversão religiosa, ela não só se achava pura como o pessoal do GICB, como também se achava no direito de meter o pau nos outros, sem distinção. Podia ser um esfria-verruma ou um integrante do seu Grupo, ninguém escapava da língua de Dora.

Dora Doida era financiada pelo amante, o pai de “Gala Rala”, e, além dos serviços sexuais, prestava favores políticos de espionagem, sabotagem, falso testemunho, calúnia, difamação e fuxico.

– Fuxico, uma porra! Amante, um cacete, filhos de uma vadia! Eu presto serviços sociais de investigação e inteligência, consultoria política, psicologia de alcova e estou cagando e andando para o que os outros pensam! – Dizia Dora Doida em sua defesa.

Nos momentos de algazarra, os partidários de Burra Preta denominavam o GICB de Grupo dos Intelectuais do Cabo de Bassoura Enfiado na…

Tal denominação, segundo o bispo Onze, era apropriada, pois seus integrantes andavam de forma delicada, sempre com a coluna ereta e o olhar no horizonte, numa postura imperialista e autoritária. Nunca quebravam o protocolo, nem se atrasavam ou chegavam mais cedo nos compromissos com hora marcada. Se algum esfria-verruma tinha o dissabor de esbarrar em alguém do GICB, recebia um olhar de reprovação e um gesto de entronchamento de boca. O curioso é que as pessoas do GICB não envergavam a coluna nem abaixavam a cabeça. Se precisavam olhar para baixo, quando davam ordens aos esfria-verrumas, apenas movimentavam os olhos. Devido a esse comportamento, o bispo Onze popularizou a tese de que a sigla GICB significava, mesmo, Grupo dos Intelectuais do Cabo de Bassoura[51] Enfiado na Bunda.

Ao ser questionado sobre essa afirmação, Onze assegurou que os integrantes do citado grupo passavam por uma cerimônia de iniciação na qual era enfiado um cabo de bassoura lá, onde, segundo Jessier Quirino, poeta paraibano, as costas mudam de nome. O enterramento era tão profundo que o cabo da bassoura só parava na goela do iniciado. Daí a dificuldade de movimentação corporal.

Capítulo XVII

Quarentinha Cientista

O quadragésimo filho de Santinha, apelidado de “Quarentinha”, sempre foi gordo e até os dezoito anos tinha a inteligência de um burro. O Mobral (Movimento Bassoureiro Rural de Alfabetização) não só fez a diferença em sua vida como acrescentou a palavra “Cientista” ao apelido “Quarentinha”.

Ele entendia bem as quatro operações matemáticas fundamentais, mas desde que se utilizassem apenas os números naturais. Por esse feito, ele podia se considerar integrante da elite intelectual de Navhunda.

O Cientista pesava mais ou menos trezentos quilos e comia, feito uma draga, dez quilos de porcaria por dia.

Ele era desses “intelectuais” que não gostavam de jogar conversa fora. E se alguma pergunta ou algum cumprimento no trato social requeriam uma resposta rotineira, ele tinha até preguiça de falar. Dizia: “o obvio não deve ser pronunciado”. Chegou ao extremo de apenas murmurar para as pessoas.

Nos seus estudos sobre comportamento humano ele percebeu que respostas obvias podiam ser dadas com quaisquer tipos de sons, ainda que ininteligíveis. Percebendo a frieza das pessoas no trato social, ele, ao ouvir de alguém um bom-dia, respondia, bmmm blaaaa, ou fazia algum grunhido. Isso porque percebeu que ninguém estava nem aí para o que as outras pessoas queriam, faziam ou sentiam. Dar um bom-dia era só uma questão de hábito.

– Se alguém diz: olá, tudo bem? Não pense que esse alguém está realmente preocupado com você. – Dizia Quarentinha. – Responda apenas que está tudo bem mesmo que esteja tudo mal. Ninguém de Navhunda está nem aí para você, nem quer saber sobre suas lamentações, seu “mimimi”. Se você tem um problema e quer desabafar, saiba que será inútil, pois o seu ouvinte contará coisas tão terríveis sobre ele que você vai se envergonhar de ter choramingado pelos cantos das paredes com problemas insignificantes, ou seja, você vai se sentir um fraco, um derrotado, um perdedor. Na vida é assim: engula o choro e toque a vida. Aceite sua mísera condição de humano ou se dane para lá!

Assim, quando pessoas se cruzam e se cumprimentam, segundo o Cientista, não importa o que elas digam. Elas podem até berrar umas para as outras que ainda assim ambas entenderão tudo. Um gesto de mão, ainda segundo ele, ajudava a completar o entendimento.

Era comum uma pessoa que estava sentada na frente de sua casa perguntar a um transeunte amigo seu para onde ele iria.

Quarentinha, ao passar na frente da casa de Pedo Barrão, ouviu a perguntinha indiscreta:

– Vai a donde?

E ele respondeu erguendo o braço e apontando para a frente:

– Ranmme rimmmm da buta que te rariu!

Num velório, Quarentinha se recusava a usar as velhas expressões: “Meus pêsames”; “É triste, mas quando deus quer é assim”;Ele era um bom homem”; “Morreu como um passarinho”; “Esse é o destino de todos nós”; “Ele descansou”; “Vá com deus”; “Que deus o tenha num bom lugar”; “Ontem ele estava contente e alegre; hoje, morto! É triste, mas a vida é assim mesmo!”, “Tudo que vive, um dia morre!”; “A gente não é nada neste mundo de meu deus!”.

Essas frases, para nosso amigo Quarentinha, eram enfadonhas. Segundo ele, as pessoas por não terem o que dizer, não conseguem, num velório, fugir das expressões acima que, se não dizem o óbvio, já não dizem mais nada.

Um colega do MOBRAL, certa vez perguntou ao Cientista:

– O que o nobre colega vai querer ouvir em seu funeral, se tudo que se diz já foi dito? Que frase original devo pronunciar?

– O que eu mais gostaria de ouvir do nobre colega é: “ele está se mexendo! Parem o enterro!”

Acontece que Quarentinha foi exagerando nos seus murmúrios chegando ao ponto de se divertir xingando as pessoas.

Teve um dia que ele quase se deu mal. Ao passar por Beto da Onça e ouvir um boa-tarde, disse:

Tumanucu!

Beto voltou e disse:

– O que você falou?

– Eu disse tomate cru. Eu ia terminar de dizer, mas você passou rápido demais. Eu queria dizer assim: tomate cru faz bem à pele.

– Oh sim, claro! Obrigado, amigo!

Beto deu as costas e seguiu seu caminho, mas parou quando o Cientista gritou:

– Tua mãe é rapariga?

Beto voltou e, berrando no ouvido do nosso amigo, perguntou:

– O amigo quis dizer que minha mãe é o quê?!

– Dona Zezé? Não me referi àquela santa senhora! Eu perguntei se tu, amanhã, vais para a liga. A liga de dominó, homem! Esqueceu?

Internamente Quarentinha ria da cara de babaca de Beto da Onça.

A maioria das descobertas científicas é feita por acidente. Não podia ser diferente com o Quarentinha Cientista. Sua primeira grande descoberta foi que podia expandir fogo pelo traseiro. Isso aconteceu no dia do aniversário de trinta anos do bispo Onze, quando ele tinha terminado de almoçar.

No almoço foram servidos, entre outros combustíveis, muita cebola de churrasco e dezenas de quilos de batata doce que o Cientista apreciou sem moderação.

Ao dormir por quase três horas no chão frio da sala de visitas, tempo suficiente para fermentar uma tonelada de alimentos calóricos, ouviu-se um barulho que vinha da sua barriga. Ele relaxou o esfíncter, pois sabia que esses barulhos eram perigosos e podiam causar um “nó na tripa”, e soltou a bomba.

Uma vez que estava na casa do irmão, portanto não se tratava de casa de estranhos, a velha regra de ouro que diz que na casa de estranhos não “se peida com o cu todo” não estava valendo naquele momento. Sem perceber que a menos de trinta centímetros do seu enorme traseiro havia um oratório de São Jerome[52], o Cientista, com o cu todo, soltou um peido ventania que varreu o oratório com São Jerônimo e as duas velinhas que estavam acesas.

Dizer que o Cientista liberou uma flatulência é algo que não retrata com fidelidade o que realmente aconteceu. Não foi uma simples liberação de vento intestinal. Foi um peido quase atômico.

Caro leitor, você conhece, certamente, aquele peido podre e quente que quando sai dá a sensação de que o cano exaustor por onde ele passou, ou derreteu ou ainda solta as últimas labaredas. Para se ter uma ideia do estrago feito, imagine a explosão de um botijão de gás. Sem tirar nem pôr, foi isso que aconteceu. Nascia assim, a ideia da primeira bomba atômica de Navhunda.

Após a explosão, passando pelos escombros da casa, o Xifópago filósofo parou e disse:

– Realmente, bagaceira e bunda, só prestam se for grande! Escreve isso aí, mano!

– Se eu fosse escrever toda merda que você fala, minha agenda seria uma fossa!

– Você é um Brutamontes antissentimental!

Ao concluir o MOBRAL, o Cientista, o maior intelectual de Navhunda, propôs a criação da primeira bomba atômica com tecnologia totalmente nacional. A matéria prima era composta de uma mistura formada por titica de galinha, cocô de pato, bosta de porco, merda de burra misturada com excrementos de vacas e, principalmente, fezes humanas. Tudo isso era processado na usina de cana e separado por dois reatores eletrônicos para lâmpadas fluorescentes.

Para sua bomba, era necessário muito gás. Da experiência traumática na casa do irmão, Quarentinha inventou o Biu-gás, nome que batizou em homenagem ao seu irmão, Biu Burra Preta.

No dia da apresentação da descoberta, no auditório central do Mobral, ele definiu o gás inventado como uma mistura gasosa combustível composta principalmente de metano, gás carbônico, gás sulfídrico, nitrogênio, água e amônia.

– Grande merda, essa descoberta! – Interveio Dora Doida. – Isso é merda fermentada! Qualquer comilão indefinido sexual da tua laia faz isso!

Você pode estar se perguntando, raríssimo leitor, como Dora pode querer ferir as pessoas dessa forma, ainda mais porque a própria Dora não era “definida” como heterossexual? Respondo da seguinte forma: preste atenção nos membros da sociedade em que você vive e saberá. As pessoas parecem loucas ou, o que é pior, desprovidas de inteligência. Quem nunca ouviu alguém criticar os outros por atos que ele mesmo pratica? Dora Doida seria uma hipócrita se não descontássemos seu probleminha de saúde mental. Mas não se assustem com isso, pois filosoficamente falando, sem a hipocrisia não vislumbro a existência de nenhuma sociedade humana. Se você acha que estou falando asneiras, diga-me: quantas vezes você sorriu aquele sorriso amarelo para alguém, talvez seu chefe, quando, na verdade, você queria mandar esse alguém tomar no monossílabo?

Mas, pensar sobre isso não é interessante. O que interessa é que o Quarentinha Cientista não deu ouvidos às palavras de Dora e falou:

– O Biu-gás é produzido pela decomposição da matéria orgânica. Nos meus experimentos observei a ação de bichinhos bem pequenininhos, na ausência de oxigênio e em condições adequadas de temperatura, umidade e acidez, produzindo o gás que chamo de Biu-gás e que dedico ao futuro presidente de Bassouralnavhunda, meu irmão, Biu das Quengas. Assim, caros amigos, podemos produzir o Biu-gás com dejetos humanos e de animais. Construí um recipiente que chamei de Biu-digestor, também em homenagem ao mano Biu, futuro presidente. Só falta agora a matéria-prima.

– Merda! O Cientista quer muita merda! – Disse Dora Doida. Em seguida, não se conteve e deu altas gargalhadas com vivas a “Gala Rala”:

Viva “Ontoim Gala Rala”, futuro presidente desta porra! Aquele que promoverá a igualdade, liberdade e a fraternidade entre esses putos! Aqui em Navhunda só tem cornos, meninas de reputação duvidosa e “coisados”! Esse Biu das Putas é corno! Digo isso e apresento as provas! “Ontoim Gala Rala” é o único que representa um sonho de liberdade!

– Liberdade é cagar de porta aberta! Ninguém pode dizer que é livre se não tem coragem de cagar com a porta do banheiro aberta! – Gritou o Xifópago filósofo enquanto andava entre as pessoas procurando um bom lugar para sentar e assistir à apresentação do seu irmão.

Escreva isso, mano. Vai entrar no meu livro de filosofia.

– Que merda é isso que você inventou? – Disse o outro gêmeo.

O Xifópago viu um bom lugar para se sentar e resolveu se dirigir até lá. Passando entre as pessoas, sem querer, pisou no pé de uma senhora que estava sentada e ouviu um desaforo:

– Com essas duas cabeças ainda pisa no meu pé? Você está cego?

O filósofo respondeu imediatamente:

– Cego é aquele que tem três olhos e nada vê.

– E você que tem quatro, como explica ter pisado no meu pé?

– Errou! Eu tenho cinco e você tem três.

– Onde é que está o quinto que não viu meu pé?

– Exatamente no mesmo lugar onde está o seu terceiro: enfiado no cu, sua vaca desgraçada!

A senhora, horrorizada com o que ouviu, tapou a boca, fez um gesto de beiço e o ignorou para prestar atenção ao que falava Quarentinha.

Devo registrar que Dora Doida exagerou ao dizer que “Gala” representava um sonho de liberdade, pois a “democracia”[53] em Navhunda sempre esteve consolidada. Como nossa amiga é um pouco perturbada, apenas fez soar o título, “Um Sonho de Liberdade”, filme a que assistira dias antes.

Se Burra Preta for eleito… – Continuou Quarentinha. – … todas as casas da fazenda Caruá e de Navhunda terão coletores de gases humanos e cagadores oficiais onde todo excremento produzido escorrerá para o grande reator! Chega de “tigres” carregando merda para despejar no rio! Em vez de alimento para os peixes, produziremos energia elétrica, faremos o saneamento básico e construiremos nossa bomba!

Todos os xeleléus de Biu das Quengas aplaudiram e gritaram “vivas” por mais de um minuto. O irmão de Biu lançava, assim, a proposta para a eletrificação, o saneamento básico e a defesa das fronteiras de Navhunda.

Depois disso, o Cientista continuou seu discurso:

– E direi com orgulho: com as merdas que vocês andam fazendo, Navhunda será uma potência energética!

Depois das palmas dos babões, Quarentinha, com o braço esquerdo erguido, socando o ar, acrescentou:

Vamos cagar, minha gente! Vamos cagar!

Depois das palmas dos cheira-peidos, o Cientista falou:

Comunidade científica de Navhunda, veja a prova de que é possível tirar energia de excrementos! A igreja do mano Onze, esse enviado de deus, aleluia, está totalmente, aleluia, eletrificada. A Casa de Tolerâncias, sede do nosso maravilhoso partido, é o segundo ponto da Fazenda Caruá totalmente eletrificado! Em breve, todos vocês terão energia elétrica fornecida a um preço justo pela minha companhia energética! Mas isso é muito pouco! Eu tenho a honra de dizer que Navhunda será a maior potência atômica do planeta!

Depois de dez segundos de palmas dos babões, Dora aproveitou para dar uma alfinetada no Cientista:

Quarentinha, percebo que sua cabeça tem como função principal separar suas enormes orelhas de burro. De tanto mexer com merda a merda subiu para sua cabeça oca!

Quarentinha respondeu:

– Espero que o apocalipse, que os loucos tanto apregoam, venha algum dia com a força dos seiscentos diabos e acabe com todos os “Boi Vei” de Caruá!

Esse era um dos apelidos que Dora mais odiava. Esse apelido, “Boi Vei”, doía em sua alma, mexia com seus brios e rebaixava sua dignidade ao mesmo tempo em que reduzia a pó um restinho de vaidade. Logo ela, a “Bela Galega” de um passado não muito distante; aquela que já foi a profissional de reputação duvidosa mais desejada de Navhunda. Seria agora, a bela “Galega”, motivo de piadas que depreciavam imensamente seus já raríssimos atributos de beleza? Como alguém poderia ter tamanha ousadia ao compará-la a um boi, ainda por cima, velho?

Irada, Dora gritou:

– O apocalipse trará uma besta de sete cabeças! Uma delas eu guiarei diretinho para que se enterre profundamente no centro desse teu cu! Desça daí desse palanque e venha até aqui que eu quero quebrar sua cara!

Dessa vez o Cientista fingiu nada ouvir e continuou:

Farei uma brevíssima exposição sobre os planos de construção da nossa primeira bomba atômica!

– Soca essa bomba no teu rabo, filho da puta! Para que diabos Navhunda quer uma merda de uma bomba! – Gritou Dora Doida. – Bomba e guerra são coisas de gente vagabunda, desordeira e selvagem! Lugar que tem bomba é lugar de lixo!

Fingindo que nada ouviu, Quarentinha iniciou sua explanação:

– Necessitamos de uma bomba atômica para combater os Sebastianistas liderados por Antônio Conselheiro[54] e o próprio Dom Sebastião[55]. Acreditem se quiserem, mas será aqui em Navhunda que Dom Sebastião e o velho Antônio Conselheiro ressuscitarão! Quem não acreditar em mim, acho melhor mudar de lugar porque se ficar aqui verá que não sobrará pedra sobre pedra!

– Esses dois vagabundos vão encarnar nesse teu traseiro gordo! Soca essa bomba no teu rabo, filho do satanás!

Nota-se que Quarentinha não tinha o juízo muito bom ao profetizar a vinda dessas duas figuras. Aliás, a população de Navhunda parecia necessitar urgentemente de uma visita ao psiquiatra.

– Agora ouçam bem o que vou lhes dizer – Gritou Quarentinha.

– Vá se lascar com essa porra! – Gritou Dora.

Ele fingiu mais uma vez não ter ouvido nada, apesar de Dora Doida xingá-lo se aproveitando do silêncio que se fazia nas pausas do seu discurso.

 – Ouçam bem! – Disse Quarentinha.

– E você está surdo?! Está com o ouvido onde? Fique sabendo que “Boi Vei” é a quenga da tua mãe!

– Aumentem o som do meu microfone para que ninguém ouça essa “Vaca Veia”! – Pediu Quarentinha. – Agora ouçam o que tenho a dizer: na natureza, existem dois isótopos das flatulências animais, o F-235 e o F-238. Este último ocorre com abundância e representa noventa e nove vírgula três por cento de toda a produção de flatulência da Terra. Mas o F-238 não serve para fazer uma bomba. O que realmente me interessa é o F-235, que corresponde a apenas zero vírgula sete por cento das flatulências humanas. Para conseguir o F-235 é necessário muito excremento enriquecido.

Você quer dizer, merda de gente rica, é? – Perguntou Dora Doida com uma sonora gargalhada.

– Depois que eu conseguir os excrementos enriquecidos, devo transformá-los em gás no Biu-digestor e colocá-los na centrífuga para conseguir, finalmente, a flatulência F-235 com noventa por cento de pureza. Isso exige grana e alta tecnologia. Mas eu tenho a solução para a alta tecnologia. Adicionarei uma quantidade secreta de excremento de burro com mijo de jumenta parida e dois por cento de ácido hidrofluoridico. Daí teremos o hexafluoreto bufol. Colocando na centrífuga, isso certamente resultará no F-235 com noventa por cento de pureza.

– Isso é o mesmo que peido azedo! – Gritou Dora Doida dando altas gargalhadas.

– O próximo passo será misturar o F-235 com cálcio para que o mesmo se solidifique. Cortarei ao meio e terei duas partes iguais.

– Vira merda outra vez? – Perguntou Dora Doida.

– A etapa final será o detonador com uma bomba comum. Depois é só botar tudo dentro de uma ogiva e estará pronta a bomba. Vocês não entenderam, não foi? Vou explicar: dentro da ogiva eu boto as duas partes do F-235 mais a bomba comum. Quando essa bomba explodir, empurrará um pedaço de F-235 contra o outro pedaço de F-235. Isso provocará uma reação em cadeia nacional que resultará na maior explosão atômica da história mundial. Assim, estará resolvido o primeiro problema. O segundo problema é grana, dinheiro!

O Cientista, após concluir sua análise técnica, levantou-se e disse:

– A reunião acabou. Quem quiser contribuir com o projeto fique sentado que eu recolherei o dinheiro. Quem não for contribuir pode ir embora.

Ele se virou para pegar uns papéis para garantir o investimento do povo e, como encontrou dificuldade para achá-los, pois havia papéis misturados na sua velha valise, perdeu alguns minutos preciosos, o que serviu de vantagem para que todos se retirassem “de fininho”.

Quando finalmente ele pôde prestar atenção à plateia, percebeu que estava sozinho.

Sem dinheiro para tocar o projeto, resolveu roubar o banco da cidade, mas antes deu uma passadinha lá para ver se havia dinheiro. Chegando lá, conversou com o presidente do estabelecimento financeiro, que também era o gerente, caixa e faxineiro e descobriu que a principal fonte de recurso daquela instituição pública era a carrocinha de cachorro quente mantida na frente do banco. Todo dinheiro daquela instituição, segundo o gerente, foi desviado para pagar propina aos gestores dos dois principais partidos de Navhunda.

O Cientista saiu de lá decepcionado e resolvido a obter empréstimos com a maior entidade capitalista do mundo: deus. A bomba seria construída com a ajuda de deus e, para isso, usaria o dinheiro do dízimo que seu irmão arrecadava. Ademais, sendo um dos líderes do Partido dos Esfrias, Onze não guardava apenas o dinheiro sagrado, mas também muito dinheiro sujo.

– Só um maluco igual a você pensaria em usar o dinheiro de deus numa bomba. – Disse o bispo Onze. – Onde já se viu tamanha heresia? Somente uma pessoa sem deus no coração criaria uma bomba dessa!

– Saiba que as guerras e as bombas foram criadas exatamente por pessoas que tinham deus no coração.

– Nunca deixarei você usar o dízimo!

– Então usaremos o dinheiro que você recebe das empreiteiras.

– Onde estão as provas?

– Não tenho provas!

– Neste caso, fica o dito pelo não dito. Eu não ouvi nada e você não disse nada. Agora, suma daqui e pare de assistir ao Jornal Nacional.

Se com deus não seria possível obter dinheiro, a solução seria procurar Luci.

– Quem é Luci? – Perguntou o bispo.

– Lúcifer! – Respondeu Quarentinha.

– Você teria coragem de procurar o inimigo?

– Vou procurá-lo agora mesmo!

– Vá embora satanista infeliz![56] Vá procurar as trevas para se esconder da luz divina, cabra safado!

– Você diz isso porque vive confortavelmente com o luxo e a luxúria promovidos pelo dinheiro desse povo miserável!

– O demônio está usando você para atacar as coisas de deus! Vá embora, serpente do mal! Vou encomendar sua alma sebosa ao maligno filho das trevas! Tomara que ele arrebente seu rabo com um enorme tridente de fogo!

Quarentinha se retirou da igreja do irmão e procurou o líder satânico de Bassouralnavhunda, Toninho de Jesus.

Chegando à casa de Toninho, deu uma olhada nos quatro cantos e saiu. Toninho o seguiu e perguntou:

– Você já vai embora?

– Vou. Meu problema é dinheiro.

– Veio ao lugar certo.

– Isso aqui é uma pocilga! A menos que você seja um porco, não pode ter nenhum dinheiro aí! Se você não conseguiu resolver o seu problema com o chifrudo, como conseguirá resolver o meu?

– Eu não tenho problema algum! Ser pobre é um problema para você?

– É.

– O Dono da companhia de eletricidade não deve ser pobre.

– Como é que um pobre como você vai me ajudar? Na certa você vai me cobrar algumas moedas pelos seus serviços. Ele, o capeta, não pode te dar mais do que eu?

– Quem disse a você que eu quero as coisas dele? Eu sou um homem de deus! Um seguidor de cristo! Como profissional, com a experiência de vinte anos como obreiro, eu apenas faço a intermediação entre você e o “Fútil”. Você é que vai acertar as contas com ele. Não tenho nada a ver se você quer perder sua alma e passar a vida ou a morte toda no inferno, queimando durante toda a eternidade!

– Você não é parceiro dele?

– Realizo um trabalho como outro qualquer. Eu ganho a vida intermediando a compra de almas para o capeta. Mas, quando se trata de devoção, aí é diferente! Sou evangélico, meu negócio é com deus. Na igreja eu ajudo o pastor a dominar o Belzebu, mas na minha casa o negócio é outro. Deixemos de conversa, conte logo seu problema.

Após ouvir o Quarentinha ele falou:

– Faremos da minha casa, o templo! Você faz a reforma. – Disse Toninho de Jesus.

– Se eu tivesse dinheiro disponível para construir ou reformar um templo, acha que eu estaria aqui?

– Deixe para lá a reforma. Você precisa fazer um pacto com o “Pé-de-bode”!

– Onde está ele?

– Calma, filho! Tá pensando que é assim? Aqui tem diretoria! Ouça bem: durante sete dias você deve trazer um jantar com galinha preta assada e temperada. Depois desses sete dias o altar estará pronto para receber seu mestre.

– E o dinheiro de que preciso?

– A gente trabalha com o dízimo adiantado. A velha máxima, “É dando que se recebe”, também vale aqui. Você tem que pagar pelo meu trabalho. Depois ele entrará por aquela porta com uma sacola cheia de dinheiro. Todo dinheiro que você me der será dez por cento do que conterá na sacola do “Canhoto”.

– Por que a gente não faz uma conta diferente? Façamos assim: todo dinheiro que o “Fedorento” me der, dez por cento serão seus.

– E você acha que um homem santo como eu vai pegar em dinheiro sujo? Nunca aceitarei dinheiro que venha das mãos podres do “Coisa Ruim”. Primeiro você me dá o dinheiro limpo, depois ele lhe dá o dinheiro maldito.

– Prove que isso vai acontecer! Prove que receberei esse dinheiro.

– Fé. É só isso que vou dizer, tenha fé no Ferrabrás!

– Eu não tenho fé, sou ateu!

– Ateu?! Por que você não me disse assim que entrou? Estou perdendo meu tempo! Não quero negócio com ateu! Adeus, amigo!

– Sou ateu, mas se você me provar o que está dizendo, faço qualquer negócio!

– Não, não. A sessão está encerrada. O negócio só funciona com quem acredita. Você é agnóstico.

– Eita, mundo desgraçado! Até para fazer pacto com o diabo você tem que ser crente!

Na saída, Quarentinha encontrou um velhinho alto e magro que lhe perguntou:

– Você é aquele a quem procuro?

– Quem você procura?

– O homem da luz, aquele que ilumina as trevas!

– Se você vive na escuridão, eu posso levar luz a sua casa.

– Quer comprar minha alma?

– É o quê, rapaz? Alma? Eu vendo energia elétrica! Não tenho dinheiro para comprar alma, não! Fala lá com aquele crente ali!

– Crente?

– É, meu amigo! Depois que o conhecimento se espalhou no mundo com a velocidade da luz, até o inferno está com dificuldade para encontrar secretários. O jeito que tem é recrutar religiosos! Só eles acreditam em papai-noel, bruxas, duendes e demônios.

– Isso não parece fazer sentido.

– Não só faz sentido como existe aí uma condição de existência: um depende do outro. Sem alguém para crer em sua existência, o que seria do satanás? Sem o satanás, o que inventariam os homens para nos impor medo e nos dominar? É, meu amigo, ninguém, mais do que uma pessoa religiosa, teria a ferramenta principal e necessária para cooptar…

– Que ferramenta é essa?

– Fé. Para você pleitear algo e ter a certeza de que terá cinquenta por cento de chance de conseguir o que se quer, o senhor tem que ter fé. Se não tiver fé, fique sabendo que o senhor terá apenas uma chance em duas de conseguir o que quer. Ou seja, ter fé e não ter fé é a mesma coisa.

Quarentinha se retirou e voltou para sua casa decepcionado. O jeito mais fácil de conseguir dinheiro foi aumentando, à medida que mais usuários utilizassem seus serviços, as tarifas de energia para investir os recursos num projeto louco, absurdo e irresponsável. No centro de Navhunda, ele montou seu macabro laboratório e produziu uma pequena bomba de teste e uma outra bomba ainda maior estava em fase de acabamento.

Capítulo XVIII

O Último suspiro de Zureia

Em meio a uma guerra psicológica entre o GICB e o Partido dos Esfrias, morreu de parada cardíaca o velho “Chico Zureia”.

Gaguejando em frente ao caixão do avô, Burra Preta, que após o sumiço de Virgínia se dedicou aos estudos, frequentando diariamente o Mobral, fez o primeiro e único discurso político de sua vida.

Sendo semianalfabeto, Burra Preta leu o discurso escrito pelo Dobros, mas, incipiente em seus estudos, era incapaz de raciocinar sobre o conteúdo. Assim, não percebeu que o que lia, na verdade, era um discurso eleitoreiro. Foi um debulhamento[57] mal feito de palavreado medonho sem oxítonas, paroxítonas e muito menos, proparoxítonas. Era um soletramento mal pronunciado sem ponto nem vírgula e sem dedicar uma linha sequer ao defunto.

– Ele falou muita merda! – Dizia Dora. – Mais vale ouvir um jumento zurrando do que esse maluco berrando!

 Por fim, livre do texto do irmão, dando os primeiros sinais de que caminhava para a total alfabetização, discursou livremente. Mostrando-se bastante emocionado, depois que sua avó exigiu que falasse do velho Zureia, Biu das Quengas disse:

– Morreu um esfria-verruma! Com toda experiência acumulada, fazia questão de me dizer que era apenas um aprendiz! Trabalhar honestamente, dizia ele, é como esfriar uma verruma na língua todo santo dia! Mas tem seus altos e baixos como qualquer outro trabalho. O mais importante de tudo é relaxar, suportar a dor com frieza e tentar colher de tudo isso um aprendizado honesto!

Nesse momento, o gêmeo Xifópago filósofo ficou bastante pensativo. Depois de ouvir as palmas dos seguidores de Biu, pediu para que o outro gêmeo escrevesse:

– Na carreira de todo trabalhador há várias subidas e descidas, mas todas servem como aprendizagem e aperfeiçoamento humanos, porém, o trabalhador que nada aprende com isso é o ascensorista.

Biu tentou continuar seu discurso, mas, emocionado, não conseguiu. Fez sinal para que Quarentinha falasse em seu lugar.

Morreu um macho! – Disse Quarentinha Não é porque estou falando do meu avô, mas um elogio agora lhe cai bem! Meu avô foi um arrombado! Pense num macho arrombado[58]!

Todos os cabos eleitorais fizeram um levante com gritos de “muito bem” finalizados com aplausos de quase um minuto.

Era um legítimo esfria-verruma macho! E quando eu digo que era macho, não estou falando desses machos que dão no cu de qualquer um, não! Esse filho da puta era macho até debaixo de um burro!

Houve mais uma salva de palmas com bastantes gritos.

Ao ouvir pela sexta vez a palavra macho, principalmente, “macho arrombado” e “macho até debaixo de um burro”, o bispo Onze, tapando a boca delicadamente com três dedinhos, num gesto desaprovou o discurso do seu irmão que, ainda de improviso, tratou logo de se emendar. Olhando para o bispo Onze, falou:

Falei macho, mas não sou contra nenhum tipo de preferência sexual. Apenas divulgo a preferência dele. Aqui em Navhunda os cidadãos são livres e desejam Navhunda sem medo, sem rancor e sem falso pudor! Quem tem o que é seu, lasca onde quer, arromba onde quer e dá para quem quiser! O corpo é o instrumento de labuta mais sagrado que alguns esfria-verrumas usam para labutar! E é labutando e de lá tirando que se vive a labutar!

Judite fez uma cara de quem não estava acreditando nas merdas que escutava. Ela pensou em interromper o discurso do neto, mas as palmas e assobios a impediram.

– Puta que pariu! – Exclamou Dora Doida. – De onde veio tanta gente sebosa, inoportuna e chaleira para apreciar esse discurso ridículo?! Parem com essa bajulação e enterrem logo esse corno!

Quarentinha fez umas caras e gestos como se reprovasse o palavreado de Dora e disse:

– Essa senhora não tem respeito pelos mortos! Mas como se trata de pessoa despombalizada dos juízos, eu perdoo! Sendo o futuro secretário das ciências e tecnologia, não devo guardar rancor! Mas se eu não fosse esse cientista sério e respeitador, metia a mão na cara dessa coisa! Mas meu coração é puro! Não vou sujar meus verbos com esse “Boi Vei”!

– “Boi Vei” é a puta que te pariu e o corno que te lascou! Repita isso e eu vou aí nessa porra e arranco sua língua pelo cu, filho da puta! “Boi Vei” é a quenga da tua mãe, cachorro!

Em meio às palmas ninguém ouviu os xingamentos de “Boi Vei”, digo, Dora Doida. Assim, Judite se aproximou do neto e falou ao seu ouvido:

Fale do seu avô, menino! Mas fale com respeito! Cuidado com esse palavreado que pode ter duplo sentido! Depois finalize o discurso, pois está ficando tarde! A noite está chegando e aquela infeliz da Dora Doida já está “agitando o coreto”!

Ele fez sinal de positivo para a avó e disse que estava tudo sob controle e que ia finalizar.

– Todos metiam o pau no meu avô, por trás! Era pau para todo lado! Covardes, quero ver meter agora! Por trás é muito fácil!

– Finalize! – Disse Judite já bastante aflita.

Nesse momento, sem que ninguém percebesse, Santinha, atrás de umas catacumbas, não conseguindo controlar o vício, transava com Tião Cu de Sola. À esquerda estava “Cu de Sola”; à direita, uma cruz simbolizava que ali descansava um cristão; no centro, agarrada aos braços da cruz, como se fizesse uma súplica, estava a beleza pura, sem máculas da mais bela fêmea que já existiu: Santinha. Ela estava literalmente “entre a cruz e a espada”.

Enquanto isso, “Quarentinha”, motivado pelos aplausos dos babões, deixando-se levar pelo pecado da vaidade rasgava o verbo a discursar:

Ele levou nas costas o tempo todo esse povo!

Onze colocou novamente os três dedinhos nos lábios e revirou os olhinhos.

Com essa frase, Dora Doida emendou:

Ave, Maria! Essa porra era um homem ou um… – Dora Doida foi interrompida e não foi possível completar a frase. Todos entenderam o recado e a repreenderam com o olhar, mas sabiam que os doidos não deviam ser levados a sério. Era melhor ignorá-la.

– Se esse “Boi Vei” fosse macho igual a mim ­– Gritou Quarentinha. – Eu saltava em cima dela feito um jumento!

– Que conversa desgraçada é essa para ser dita num enterro? Finalize! Está na hora do enterro! – Insistiu Judite. – Enterrem!

– Passou da hora! – Disse Dora Doida. – Esse corno já está até fedendo! Ainda hoje ele estará no inferno levando dedada.

Vendo os coveiros jogando terra em cima do caixão, o Xifópago filósofo falou:

– A pior coisa do mundo só acontece uma vez na vida! É quando você vai para seu próprio enterro!

Em seguida, enxugou uma lágrima sendo observado com estupefação pelo irmão gêmeo.

Você sabe qual é a maior autoridade do mundo? – Perguntou gêmeo filósofo.

– É aquela que julga, respondeu o outro.

– Errou! É aquela que prende.

– Eu disse que era aquela que julga! O juiz julga e prende! Eu acertei!

– Um juiz julga, prende e outro juiz solta. Eu estou falando da maior autoridade deste mundo! Alguém que prende e ninguém solta!

– Puta que pariu! Quem é esse porra?!

– O coveiro.

Capítulo XIX

Dorothy Stwart da Silva e Ginna Stwart da Silva

Vamos fazer uma visita ao passado para que possamos conhecer um pouco da origem de duas distintas senhoras da sociedade navhundense.

Filhas de pai cearense e mãe irlandesa, mas nascidas em Londres e criadas na Espanha até os três anos de idade, as irmãs Dorothy Stwart da Silva e Ginna Stwart da Silva, duas loirinhas lindas que cursaram o primeiro grau menor em Portugal, com apenas quinze aninhos exerciam suas atividades com maestria num dos inúmeros puteiros da França.

Tendo sido escravas sexuais de um mafioso italiano, as duas fugiram para a Alemanha. Daí a alguns meses atravessaram a fronteira chegando à Holanda e, trocando favores sexuais com um casal de suecos, pegaram um navio na Bélgica, naufragando em seguida no Canal da Mancha. Sendo socorridas, foram parar em Lisboa e, graças ao bom português que falavam, chegaram ao Brasil aportando em Recife.

Usando a mesma estratégia das suas viagens pela Europa, Dorothy se entregou no cais a pelo menos uma dúzia de marinheiros e duas senhoritas solitárias enquanto Ginna, com o dinheiro arrecadado, procurava uma pensão.

Ao chegar à Rua do Bom Jesus, Ginna cruzou com um boiadeiro que lhe ofereceu o braço para que ela subisse um pequeno degrau que dava para o salão de uma pensão. Ela agradeceu e deu um passo para dentro da casa, porém recuou e fez sinal para que o moço parasse. Falando em bom português com sotaque nordestino, pois herdara o sobrenome “Silva” e a língua do pai cearense, Ginna se dirigiu ao moço dizendo:

– Vejo que está de partida sabe deus para aonde. Poderia sugerir algum lugar aonde eu possa ir com minha irmã?

– Sim, uma pensão para moças – Respondeu ele.

– Mas não se pode morar para sempre numa pensão. É muito caro. Também não permitem visitas noturnas nas pensões, não é mesmo?

– Por que a senhorita precisa receber visitas noturnas?

– Para pagar a pensão.

– Se não permitem visitas noturnas nas pensões para moças, que pensão a senhorita precisa pagar?

Ela fez uma cara de quem não estava compreendendo a tolice do moço e perguntou:

– Você é sempre assim?

– Assim, como?

Ela fixou o olhar nele e disse:

– Parece que você é um bom moço. E de tão bom moço, parece estúpido. Mas… Esqueça o que eu disse. Aonde você está indo?

– Navhunda.

– Quê? Você falou o quê, seu safado?!

– É o nome do lugar, moça! Na-vhun-da.

– Ah, bom! Pensei que você estava faltando com respeito a minha pessoa! O que tem lá?

– A fazenda Caruá.

– E o que é que tem nessa fazenda?

– Boi, vaca, jumento, galinha, porco…

– Jumento e burro eu já sei que tem. O que mais há?

– Gente.

– Gente burra, boi, vaca, jumento, galinha, porco isso eu sei que tem, você já disse. Aposto que tem pessoas, acertei?

– Tem mais jumentos do que pessoas.

Ginna aspirou forte o ar quente de Recife e soltou rapidamente demonstrando que estava fatigada. Em seguida perguntou:

– Jumento, gente ou gente jumenta?

– Tanto faz.

Impaciente, Ginna resolveu zombar com o moço:

– Responda-me uma coisa: você vai no passo do compasso desta vida, porém num passo tão descompassado que foi fazer um nó e deu um laço. O que fazer para reorganizar o passo sem compasso nem sobrepasso?

– Quê?

– Sua conexão é feita pelo Mozila Fire Fox ou o Internet Explorer? Quantos gigabytes cabem na memória da sua cabeça de rã?

– Quê?!!!

– Vou reorganizar suas ideias. Escute bem isso: o tempo perguntou para o tempo: quanto tempo o tempo tem? O tempo respondeu para o tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem. Quanto tempo o tempo tem?

O moço fez uma careta e gritou:

– Que?!!!!

– Tudo bem, isso foi uma formatação, algo como reconfigurar seus escassos neurônios. Vamos recomeçar. O que tem nessa tal de “Caruá”? Tipo… Tipo diversão.

– Ah, minha senhora, Caruá tem tanta coisa que parece uma cidade dentro da cidade de Bassouralnavhunda!

Ginna sorriu e perguntou:

– Você pode nos levar até lá?

Dorothy havia terminado seu “fácil” e lucrativo trabalho e, pelo menos há cinco minutos, procurava a irmã. Ao vê-la conversando com o moço, aproximou-se e falou:

– Já estou toda assada! – Disse Dorothy – Você é quem vai dar para esse aí! Para mim, chega!

– Bom estou de saída e faminto, eu vou comer alguma coisa. – Disse o moço.

Dorothy respondeu na hora.

– Coma ela!

– Dora! – Gritou Ginna. – Você me deixa encabulada! Além disso, sabe que eu tenho trauma! Não consigo… Você sabe!

– É melhor ficar encabulada do que ficar toda fissurada como eu estou! Quem era aquela do navio? Ginna, você pensa que sou burra?

– Não sei do que você está falando!

– Você dormiu na cabine dela!

– E daí? Além de se prostituir e gostar de mulheres, o que mais você faz?

O moço balançou a cabeça, sorriu cinicamente e falou:

– Entendi. Vocês trabalham diferente, não é? Por que não disse logo, menina! Vou levar vocês para o bordel de Navhunda! Isso dá um bom dinheiro! Meu nome é… Podem me chamar de Chico Zureia.

Ele estendeu a mão para uma delas e ela falou sorrindo:

– Eu sou Dorothy. Pode me chamar de Dora.

A outra também se apresentou, porém, séria e sem estender-lhe a mão:

– Eu sou Ginna.

Zureia olhou para ela de cima a baixo e disse:

Coturno trinta e oito.

Dorothy soltou uma gargalhada tão alta que todos que passavam pela rua pararam para observar.

– Coturno trinta e oito um cacete, seu estúpido! – Gritou Ginna.

Zureia estava estático e admirado com a reação da moça. A irmã, ainda dando altas gargalhadas, falou:

Ginna Coturno trinta e oito!

Percebendo que Ginna estava furiosa, Zureia se defendeu:

– Eu só quis dizer que na fazenda você vai precisar de um coturno trinta e oito para o seu delicado pezinho! Lá tem muita lama nessa época do ano!

Foi assim que Dora Doida e Ginna Coturno chegaram a Navhunda e, com a ajuda de Chico Zureia, estabeleceram-se abrindo uma casa de massagem.

Apaixonando-se por Zureia, Dorothy se decepcionou com ele que a trocou por Judite. Traumatizada e tendo desenvolvido problemas nervosos, ela passou a ver e ouvir pessoas mortas. Nessa época, ela ganhou de Judite, sua rival, o apelido de Dora Doida.  Devido à ignorância do povo, Dora Doida passou a ser mãe de santo, atividade que exercia paralelamente à profissão de quenga, até o dia em que conheceu um médico americano que a tratou com remédios para loucos. Depois disso, sem os poderes espirituais e sem ter como ganhar um dinheirinho extra, ela fundou a Igreja Multiversal do Império do Ser Supremo. Assim, como missionária, passou a viver da sagrada receita do dízimo. Uma coisa que nunca saiu dela foi o rancor que alimentava o ódio por Zureia, Judite e sua família.

Deixando de ser garota de profissão não-tributável aos trinta anos, ainda na flor da juventude, formosa e bela, virou mulher “direita” e de vez em quando “dava uma” com um antigo cliente. Foi dando uma, depois duas, três e até quatro por noite que ela, acreditando que assim seria uma mulher mais decente, decidiu ser predominantemente mulher de apenas um homem.

Sendo amante do pai de “Gala Rala”, mas dando umas escapulidas atrás do altar com alguns irmãos e irmãs de fé, engravidou quatro vezes e teve cinco filhas cujos pais nunca foram identificados.

Após fundar a igreja, Dora Doida acreditava cegamente que estava purificada e livre de todo mal da humanidade. Livrando-se das impurezas do passado e do presente, resolveu se preparar para o futuro. Com a certeza de que o homossexualismo era pecado, pois tudo isso estava escrito no livro sagrado, a primeira providência que tomou foi não aceitar mais a homossexualidade às claras de sua irmã. Para ela, a companhia de uma pecadora seria o mesmo que cometer o pecado. Assim, resolveu atirar Ginna Coturno Trinta e Oito às baratas do lixão de Bassouralnavhunda. Mas, sacudindo a poeira e “dando” a volta por cima, Ginna, que fazia questão de renegar seu sobrenome Stwart da Silva, deu uma surra em Dora, foi ganhar a vida como cafetina e, de vez em quando, prostituía-se com mulheres.

Os anos se passaram e as coisas, aos poucos, foram-se acomodando nas gavetas sujas e empoeiradas do tempo até que Dora abandonou completamente sua vida devassa. Ela se dedicou à igreja, à manutenção do partido político, às filhas e às cuecas do pai de “Gala Rala”. De vez em quando participava dos eventos da família de Zureia só para ter a oportunidade de alfinetar seus adversários políticos.

Ginna Coturno, depois que perdeu todos os atrativos sexuais, passou a viver como sindicalista defendendo as profissionais do sexo. Como membro do partido dos esfrias, ela era a mais atuante na defesa das mulheres e, principalmente, das profissionais do sexo.

 Dora Doida, para proteger sua beleza, só teve sua primeira filha, Virgínia, aos trinta e cinco anos. Dois meses depois é que Santinha teve Severino. Depois disso, Dora começou a murchar e se expandir feito fole de sanfona. Ela murchava, expandia-se, expulsava uma filha e voltava a murchar. Assim, sua pele, de tanto esticar e encolher feito couro de pica, ficou parecida com a casca de um maracujá murcho esquecido em uma dessas sujas e empoeiradas prateleiras da vida.

Quem teve a oportunidade de usar, abusar ou simplesmente conviver com Dora Doida e Ginna Coturno, nos primeiros momentos em que elas apareceram em Navhunda, jamais imaginou que um dia as duas pudessem perder a formosura. Mas o tempo, com sua inexorável arrogância, não perdoa. Ele vem feito vento de tormenta pegando os prevenidos e os desprevenidos, sacudindo-os nas tempestades do dia a dia, subjugando-os em todos os momentos dessa vida, arrancando-lhes o encanto, destruindo-lhes o frescor da juventude, quando resseca e enruga a pele, somente para massacrar e desfigurar aquilo que é belo. E tudo isso é feito pelo simples prazer que o tempo tem de ver surgir o feio, o seco, o cinza, o sinistro, o silêncio, o repouso e o pó que esvazia a vida.

Capítulo XX – A Campanha

Ao redor da mesa de reuniões da Casa de Tolerâncias estava a equipe de Biu das Quengas que o esperava.

– Isso é a antessala do cu do mundo! Fica vizinha ao gabinete presidencial do chifrudo, último degrau dos quintos dos infernos! – Dizia Dora Doida em clara referência à sede do partido dos Esfrias.

Graças ao fundo partidário, a mesa do partido era farta. Não faltavam champanha nem caviar. E, para relembrar os tempos de miséria em que viveram, quando comiam calango e insetos com batata de umbu, o Onze, contra a vontade do honesto Biu das Quengas, mandou contratar, com o dinheiro do fundo, uma senhora mulata fritadeira de passarinha[59]. A única recomendação era a de que o sabor não poderia ser diferente do sabor da passarinha da capital pernambucana. Assim, o óleo da fritura a ser usado teria que ser aquele preto e sujo de poeira levantada pelos veículos nos semáforos do Recife. Tudo tinha que ser igualzinho como a passarinha vendida na beira da pista.

Na sede do partido podia faltar água, mas se Onze chegasse e não encontrasse a passarinha frita com uma lapada de cana, todos os membros levavam esporro[60], desde o vira-lata que ficava deitado à porta até Judite a mais respeitada do clã da família “dos Santos”.

– Esse bando de sebosos, comedores de tatu de cemitério com cachaça roubada de despacho de encruzilhada nunca comeu do bom! Agora, com o dinheiro do povo, come até caviar! Sai para lá, carniça! – Reclamava com razão nossa amiga Dora Doida. Mas ela, sendo uma hipócrita, não percebia que fazia a mesma coisa com o dinheiro do Fundo Partidário que o seu partido recebia.

De volta à sala de reuniões:

– Senhoras e senhores, “Biu Das Quengas”, o grande líder, está atrasado para nossa primeira reunião! – Disse o coordenador da campanha, Onze, futuro secretário da pasta da defesa GLSTUVX e Z.

– Fiquem todos de pé para rezar o “Pão Nosso”.

Em seguida olhou a sua volta, procurando seu assessor, e falou:

– Zeca Burrico! Onde está o Zeca Burrico?

– Estou aqui, mestre, atrás do senhor!

– A paz do senhor, irmão! Agora, coloque o CD.

– Eu boto o “Padre Karaokê” ou o Cid Moreira?

– Prefiro o Cid. Fico toda arrepiada, digo, arrepiado com aquele vozeirão!

Quarentinha Cientista não se levantou. O Representante dos papudinhos tentou se erguer, mas não conseguiu. Ginna Coturno retocava a maquiagem pesada que usava para esconder as rugas. Os vagabundos estavam jogando porrinha e sequer ouviram o pedido do bispo. Dois traficantes, que também não escutaram nada, discutiam seus planos para transportar quinhentos quilos de cocaína num helicóptero de um político. O irmão de um deputado cearense esticava uma genuína cueca Zorba enquanto Ritinha de Xandu alisava a perna de um de seus amantes, o pai-de-santo conhecido como “Caboclo Mamador”. Judite, futura secretária da Casa Civil, assinava sem ler um acordo de compra, condicionado à vitória de Biu nas eleições, de uma refinaria de fezes americana para produção do Biu-gás. Essa refinaria seria adquirida por um valor cem vezes maior do que o que realmente valia. Fezes refinadas garantiriam o gás leve, de melhor qualidade para mover as turbinas do progresso de Navhunda.  No cantinho da sala, dois alunos do último ano do Mobral soletravam as últimas sílabas da frase “Vovó viu o ovo do vovô” da Cartilha Analítica de Virginaldo Marretta.

– Solicito à comunidade científica que, em respeito ao meu direito de crença, levante-se. – Disse o bispo Onze se referindo ao seu irmão Quarentinha que insistia em ficar sentado.

– Como representante da comunidade científica e dos ateus de Bassouralnavhunda e, fazendo valer nosso direito de descrença, não me curvo aos seus caprichos seculares. – Respondeu Quarentinha.

– Sendo assim, como chefe da campanha de Biu e futuro secretário da pasta da defesa GLSTUVXZ ordeno que o futuro Secretário das Ciências e Tecnologia deixe a Casa de…

Ele coçou a cabeça e continuou:

– Deixe a Sede do partido!

– Vou! Vou, mas levo tudo que é meu! E digo mais, Navhunda e seus cidadãos não se curvarão aos seus caprichos! Navhunda morre, se for preciso, mas não deixará que voltem a esta terra uma súcia de demônios da inquisição! Se Navhunda não sobreviver, enterrem Navhunda, mas numa cova funda! Quanto a você, enterrem em cova rasa para que venha um urubu para comer a sua …

Interrompo essa rima podre para informar que Quarentinha saiu, Onze fechou a porta e disse para os demais:

– Leva, desgraçado! Leva teus panos de bunda! Uma peste ateia dessa, que não sabe a letra nem de “parabéns para você”, recusa-se a rezar o pão-nosso! Vai-te embora, carniça do cão! Esse seguidor do demônio diz isso porque não emprestei o dinheiro sagrado de deus para ele construir uma bomba de merda!

– Respeite seu irmão. – Defendeu Judite.

– Onze. – Gritou Cu-de-Cana. – Eu até sabia a letra de “Parabéns para você”. Mas depois que inventaram essa porra de “É pique! É pique, é pique, é pique”, eu não sei mais de merda nenhuma!

O bispo olhou a sua volta e não viu seu secretário. Então chamou:

– Zeca Burrico! Onde está o Zeca Burrico?

– Atrás do senhor, mestre!

– A paz do senhor, Burrico! Agora bote o CD.

Um minuto depois, Burrico falou:

– Mestre, não temos energia elétrica!

– Vá lá fora ver o que aconteceu.

Cinco minutos depois, Burrico voltou e informou que Quarentinha teria mandado seu irmão, Décimo Eletricista, desligar a Casa de Força[61] por falta de pagamento.

– Não tem problema. – Disse o bispo Onze. – Burrico, inicie a oração! Nós o acompanharemos!

– Mestre, só sei rezar acompanhando o Padre Karaokê. Ele sempre diz qual é a próxima frase. Eu nem preciso pensar.

– Tudo bem, Burrico. – Disse o bispo. – Preste mais atenção na hora da reza! Dona Ginna Coturno, por favor, inicie!

– Se você disser como é que começa, por mim tudo bem.

– Ah, Ginna, você realmente não é digna de salvação! Mano “Dobros”, inicie!

Todos calados. Nem um pio.

– Hereges! Falsos profetas do fim do mundo! Amantes da “Mãe de Pantanha”! Cornos do chifre queimado e da orelha lascada! Povo sem deus é povo miserável e cheio de hemorroidas no cu! Que o inferno queime vossas almas e o diabo enfie todos os dias aquele garfo quente no fiofó de vocês! Algum filho da… Onze olhou para Judite e ela o repreendeu com um gesto e um franzido de sobrancelhas. Ele mudou o tom de voz e prosseguiu. Alguém aí sabe rezar?!

– Onze, meu filho! Seja mais paciente!

– Desculpe, vó! O mano Quarentinha me deixou nervosa, digo nervoso! A senhora pode iniciar o “pão-nosso”?

– Nunca! Nesse ambiente de promiscuidade jamais direi uma sílaba sequer da oração sagrada! Reze você esse tal de “pão-nosso”! A oração que conheço é Pai-Nosso!

Cinco segundos se passaram em silêncio. Todos calados. Nem um pio. O bispo fez uma cara de indignação e disse:

– Vamos rezar em silêncio!

Seis segundos depois, Onze levantou o braço direito balbuciando alguma coisa e finalizou:

– … livrai-nos dos “malarmém”!

Cu-de-cana sorriu e perguntou:

– Onze, eu nunca compreendi bem essa reza. Você sabe me dizer quem foi o “malarmém”?

– Herege dos infernos! – Respondeu o bispo. – Como ousas questionar os ensinamentos sagrados?! Mais uma pergunta infame dessa e eu excomungo você, pudim de cana dos infernos!

– Onze, meu filho, como pode um ungido de deus ficar tão nervoso assim? Não estaria deus em seu coração?!

– Desculpe vovó! É que estou tão nervosa, digo, nervoso!

Vamos começar a reunião. – Disse Ginna Coturno. – Sugiro que o tema da campanha seja: “Todo mundo é gente”. Toda família tem que ser formada por um homem com outro homem, ou dois transgêneros, ou uma mulher com outra mulher e se sobrarem héteros, eles também poderão formar família sendo-lhes assegurados os mesmos direitos. O que me dizem?

– Esse lance aí não é comigo. – Respondeu Kid Coca. – Represento os viciados e quero a liberalização de todas as drogas, já! É dever de Navhunda garantir nossa droga de cada dia! Se quiser Navhunda feliz, libera a raiz.

Estou cagando e andando para os viciados! – Disse Zeca Moleza. – Só quero garantias para o bolsa-família, os auxílios-moradias e o seguro-desemprego!

Nesse momento, Biu das Quengas apareceu na sala trazendo seu irmão Quarentinha.

– Fale, Quarentinha. Diga o que pretendemos. – Disse Biu.

Depois de cinco segundos de palmas pelas primeiras palavras de Biu, Quarentinha falou:

– No nosso governo a ciência não terá prioridade sobre a superstição religiosa, mesmo sabendo que ciência é prova e religião é fé. Mas as pessoas são diferentes, sabemos muito bem disso. Em uns percebemos fé de mais, outros, fé de menos! Fé de menos têm os ateus, nem por isso fedem mais; fé de mais têm os religiosos, nem por isso fedem menos. Portanto, filosoficamente, concluo que somos todos iguais. Assim, queremos os mesmos direitos. Você não pode instalar em Navhunda um governo teocrático.

– É? – Disse o bispo Onze. – Coloque isso na pauta!

– Colocarei.

– Acontece que quem faz a pauta sou eu. Portanto, sua proposta não será apreciada.

– Puta que pariu – Gritou Quarentinha. – Esqueça essa porra de pauta! Pauta de …

– Parem com esse furdunço! – Interrompeu Judite. – Biu, diga alguma coisa!

– Restabeleça-se a energia elétrica! – Ordenou Biu.

Depois de cinco segundos de palmas pelas palavras de Biu, Quarentinha falou:

– Mano “Das Quengas”, atenderei seu pedido com uma condição: que o Onze pague a conta de energia. Biu pensou um pouco e disse:

– A conta deve ser paga.

Depois de quatro segundos de palmas pelas palavras de Biu, Onze falou:

– Estou lisa, digo, liso!

– O mano devia ter mais cuidado com o uso de expressões femininas, pois está se entregando demais. – Disse o Xifópago. – Mas deixemos isso de lado. Como coordenador de arrecadação, eu pago a conta da igreja e da Casa de Tolerâncias quando receber a próxima verba do fundo partidário.

Cu-de-Cana, com sua voz arrastada, reclamou:

– Aqui só se pensa em meter a mão no fundo. Navhunda tem o fundo mais arrombado do país!

– Agora, será que podemos começar essa reunião? – Perguntou o bispo Onze.

– Por mim, tudo bem. – Disse Biu. – Antes de começar eu peço que tenham mais cuidado com o dinheiro do fundo. Isso é dinheiro público! A conta de energia do partido é por minha conta e a conta da igreja deve ser paga pelo Onze com o dízimo que recebe.

Depois de cinco segundos de silêncio e cara feia, com direito a entronchamento de boca, pelas palavras de Biu, Onze falou:

– Tudo bem, eu pago essa merda! Depois pegue meu dinheiro e soque no…

– Onze!  – Gritou Judite. – Olhe o respeito, menino!

– Desculpe, vovó! É que estou tão abalada, perturbada, destrambelhada e raivosa que quero até chorar!

– Chega de frescura! Engula o choro e adiante essa reunião!

– Tudo bem, vovó! Vamos à pauta de hoje! Não, pensando bem, vamos esquecer a porra da pauta, por enquanto. O que interessa no momento é saber que a oposição está caindo de pau na gente, lá fora!

– O que eles dizem? – Perguntou Judite.

– Dizem que somos um agrupamento de corruptos, cornos, traidores, cachaceiros, indefinidos sexuais, viciados, vagabundos, criminosos, profissionais do sexo, vadios, descrentes em deus, ladrões e borra-botas.

– Até aí, não disseram nada que possa nos ofender. Dizem mais alguma coisa?

– Mas vovó, isso já basta para perdermos as eleições!

– Disseram algo mais? – Perguntou Quarentinha.

– Ouvi dizer que nos chamam de mentirosos e hipócritas. – Informou Judite.

– Desgraçados! Malditos! Filhos das almas sebosas dos infernos! Como ousam falar isso de nós? Tenho vontade de arrancar as tripas desses porcos! – Defendeu o Onze.

Cabisbaixo, Severino falou:

– Talvez eu esteja errado, mas devo dizer a vocês que não sei mais o que quero. Espero que me entendam. É que as últimas palavras de meu avô me atormentam.

– Estarei ao seu lado, Severino. – Disse Judite.

– O fato, vovó, é que se eleito governarei juntamente com o povo, ou seja, com tudo que há de mais troncho em Navhunda. Não posso escolher a quem devo governar. Há entre nós e no seio desse povo, dando total apoio, os honestos em minoria, os bandidos em maioria, os hipócritas, mentirosos, viciados, corruptos e toda a sorte de infames e malfeitores. Sem a ajuda deles, não ganharei as eleições.

Depois de dez segundos de silêncio e cara feia pelas palavras de Biu, o Xifópago falou:

– Você, com toda razão, está preocupado, com o fato de ser apoiado por certas pessoas de reputação duvidosa. Mas entenda que somos um partido tão plural quanto nossa sociedade o é. Então, pare de se preocupar com isso e vamos pensar em como vencer. Minha ideia é a seguinte: se conseguirmos agir como agem todas as sociedades humanas deste planeta, talvez isso nos dê uma certa vantagem. O problema é que para isso teríamos que evoluir um pouco mais porque nossa sociedade é bruta demais. É selvagem demais.

– Como é que agem as sociedades de que você falou? – Perguntou Burra Preta.

– Se falar alguma merda eu quebro sua cara. – Disse o Xifópago alcoólatra.

– Se eu fosse você, tomaria no …! – Disse o filósofo quando foi interrompido por sua avó com olhares de chispas.

– Eu sei disso, mano. Eu sei que você gostaria que eu tomasse no… Mas enquanto você dividir esse corpo comigo eu não deixo você fazer o que quer. – Respondeu o alcoólatra.

– É, meu bem? Você sabia que cu de bêbado não tem dono?

Ninguém se aguentou. Todos riram bastante menos Onze que resolveu encerrar a reunião.

– O que ficou decidido? – Perguntou Biu das Quengas.

O futuro secretário das comunicações respondeu:

– Ficou decidido que falemos uma leunião na plóxima semana.

Biu olhou bem para o futuro secretário e perguntou:

– O quê? Fizemos uma reunião para marcar uma reunião? Espere um momento, quem é você? Parece-me familiar.

– Sou manicule, pedicule, colto pinto e aliso.

– Você corta o quê?

– Cabelo!

– Você é o…

– Tlinta e tlês.

Judite olhou para os dois irmãos e disse:

– É nisto que dá criar esses meninos soltos na buraqueira! Esse aí não reconheceu o próprio irmão!

A reunião tinha sido dada por encerrada. Todos se dirigiam à porta de saída quando Judite interveio:

Esperem! Aonde pensam que vão? Interromperam o pensamento do seu irmão, Dobros! Mal-educados! Vão embora sem deixá-lo concluir? Bando de jumentos! Escutem seu irmão! Fale Dobros. Responda à pergunta de Biu!

– Vovó você me deixa sem graça! Estão todos me olhando agora! – Disse o filósofo.

– Ele só fala merda, vovó! – Disse o alcoólatra.

– Ah, vovó, não sei se ainda quero falar. Estou sem graça!

– Fala logo! Deixa de frescura! – Disse o Xifópago alcoólatra.

O filósofo olhou para o irmão gêmeo e disse:

– Já deu seu showzinho, meu bem! A festa acabou! Os holofotes estão sobre mim, agora! Eles querem ouvir a mim!

O alcoólatra olhou para a avó e disse:

– Vovó, você está vendo agora porque eu não paro de beber?

E virando-se para o gêmeo gritou:

– Fale logo ou eu quebro sua cara!

Todo choroso e com dois dedinhos apertando o nariz o filósofo reclamou:

– Está vendo, vovó, como esse grosso fala comigo?

– Fale, meu bem! – Disse a avó.

– Ai, não sei como começo! Preciso de um lenço!

Ele ajeitou os cílios e a sobrancelha olhando num espelhinho cor-de-rosa que o irmão alcoólatra segurava a contragosto. Em seguida, apertou o lábio inferior com os dentes. O Xifópago alcoólatra olhou de lado para não ver a cena nem mostrar ao filósofo que estava perdendo a paciência. Depois de mais um movimento de cabeça considerado tipicamente feminino, o filósofo finalmente falou:

– Vejam, meus queridos! Com relação às críticas da oposição e ao desabafo do mano Burra Preta, afirmo que eles estão vendo as coisas por uma ótica correta do ponto de vista da ética, da moral e dos bons costumes. Mas isso de que nos acusam existe em qualquer sociedade deste mundo. Não inventamos os desvios de conduta. Claro está que em outros lugares a imoralidade não está tão generalizada e enraizada como aqui, mas não há sociedade perfeita. Voltemos ao que mais nos interessa, a oposição. Numa análise sobre o nosso caso, percebemos que eles nos observam com os olhos de quem vê apenas o que está fora de si e, fazendo uma comparação com o “ideal de sociedade”, enxergam-nos como imorais. Ao contrário, Biu nos olha de dentro para fora e, da mesma forma, comparando-nos com o “ideal de sociedade”, nos vê como imorais. A diferença se torna visível entre eles e Biu quando sabemos que nosso irmão vê aquilo que não pratica e eles praticam aquilo que vêm e que criticam. São hipócritas. Agora, devo responder ao questionamento de Biu: sejamos hipócritas como eles, ou melhor, esforcemo-nos nesse empreendimento, pois até para sermos hipócritas, sinto que nos falta evoluir um pouco.

– Explique melhor isso. – Pediu Quarentinha.

– Somos moralmente primitivos. Analisando nosso comportamento percebo que praticamos, mas não somos capazes de enxergar a nossa imoralidade. Isso seria infantilidade? Eu mesmo respondo: somos seres normais que caminham rumo ao “ideal de sociedade”, mas que devido à imperfeição de caráter, vivemos a realidade da nossa imperfeição. Somos imorais; eles, imorais e hipócritas e Biu, certinho do jeito que é, não é deste mundo. Se aqui permanecer, será sacrificado. Agora, meus irmãos, nosso problema é que não sabemos fingir tão bem quanto esses que nos acusam. Mostramos para todo o mundo o real, o que realmente somos. Nós não fingimos ser o que não somos, pois para isso precisaríamos também evoluir intelectualmente. Quanto mais selvagem o homem, menos hipócrita ele será. Oh, triste dedução! O fato é que não fingimos nem fazemos questão de mostrar para eles que somos essa ralé, ou seja, somos indiferentes. Agimos naturalmente e nos revelamos como seres ordinários. Tais quais os animais, não estamos presos a nada, principalmente às convenções sociais! Rasgamos o contrato social de Hobbes.

Dizendo isso o Xifópago entristeceu e quase ficou sem esperança, mas Onze falou:

– Chega de filosofia deprê! Diga logo a solução!

– Você não me entendeu, mas tentarei dar a solução. A sociedade que eles e nós inventamos é um imenso teatro. Querido Biu, não somos nem de longe perfeitos como você gostaria que fôssemos. Logo, aceite nossa vulgaridade, porque é isso que você tem para o momento, e façamos o jogo deles da maneira que conseguirmos fazer. Esqueçamos minha tese sobre evoluir e sejamos hipócritas ao nosso modo.

– Claro! Podemos fazer isso até ganharmos as eleições. Depois das eleições voltaremos ao normal – Disse Onze.

– Que seja assim! – Continuou o Xifópago. – Vamos fingir que está tudo bem e que somos “perfeitos” como eles. Parem de enxergar as coisas como elas são e passem a vê-las, de modo paciente, como elas precisam ser! Nossa sociedade é formada pelo conjunto de fingimentos, ou seja, pela hipocrisia dos integrantes. Podemos chamar isso de tolerância, é mais bonito. Então, ficamos assim combinados: não demonstrem publicamente o que vocês são, se tal demonstração puder revelar uma conduta hipocritamente não recomendada. Vejam as coisas sempre de uma maneira sutil, refinada e delicada como se vocês também tivessem um cabo de vassoura enterrado no …

 – Menino! – Repreendeu Judite interrompendo a fala do filósofo.

– Na prática, como usaremos isso para fazer Biu ganhar a eleição? Ele é honesto demais para fazer esse papelzinho! – Perguntou Quarentinha.

– Escondam Biu. Quanto aos outros de nós, façamos o que todos fazem. Evitem, diante de grandes aglomerações, falar de pontos polêmicos. Mas quando estiverem a sós com um dos lados do ponto polêmico façam assim: diante de criminosos defendam penas mais brandas e sempre digam que os momentos de loucuras nos fazem cometer crimes que jamais cometeríamos se o momento fosse outro; diante dos que sofreram os crimes, digam o contrário. Hajam assim com todos os atores dos problemas apontados: ateus, religiosos, homofóbicos, preconceituosos, racistas, xenófobos, estelionatários, etc. É isso que eles fazem.  No final das contas, apenas vivemos uma fantasia numa sociedade de “faz de conta”. Fica o dito pelo não-dito.

Um coro se fez para continuar a frase do filósofo:

– … e tudo no cu de expedito.

Evidentemente, Biu e Judite não participaram desse complemento frasal podre e pobre.

– Só atos e palavras não bastam. O dinheiro do fundo está se acabando! – Disse o coordenador da campanha.

– Vá buscar dinheiro privado, disse o filósofo.

– Não há uma só empresa privada de quem Dora Doida ainda não pegou dinheiro. Agora é tarde.

– Onze, você não sabe como as coisas funcionam? As empresas privadas compram os dois lados da eleição. Assim, a aposta que teria cinquenta por cento de chance de vencer, agora tem cem.

– E depois?

– Depois, o empresário terá uma listinha de reivindicações a fazer.

– Ficaremos presos a eles! Governaremos feito ratos! Prefiro a derrota que liberta à vitória que escraviza. – Disse Biu.

O filósofo fez uma cara de riso e disse:

– Aí você está querendo que eu inicie um debate filosófico sobre o que significa liberdade, meu bem!

O Xifópago alcoólatra falou imediatamente:

– Liberdade, segundo você mesmo, é cagar de portas abertas.

Ninguém se conteve. Todos riram, exceto Burra Preta que estava ficando incomodado com aquele discurso do filósofo.

– A reunião está encerrada. – Disse Biu. E baixinho acrescentou: – Vou vomitar um pouco.

Biu lembrou das últimas palavras do avô, palavras essas que nem mesmo eu sei quais são, e percebeu que se encontrava numa terrível encruzilhada: como vencer uma eleição se não tinha dinheiro nem coragem para comprar os votos do eleitor?  “Se eu tivesse dinheiro bastava comprar os votos” – Pensou ele. “Depois de vencida a eleição, eu não estaria devendo nada a ninguém. Então era só governar em paz para trazer benefícios para todos. Mas, sem dinheiro, tenho que recorrer aos ricos. Livro-me da dívida com o povo, mas caio nas mãos dos poderosos e, para saudar a dívida com eles, entrego o patrimônio do povo. Não, não posso fazer isso. Comprar os votos é desonesto demais. Aceitar dinheiro de empresários para depois beneficiá-los é o mesmo que trair esse povo. Sou apenas um esfria-verruma. Nem sou desonesto nem traidor.”

No caminho para sua casa Biu travou uma luta com sua consciência. Uma pergunta desejava resposta urgentemente: deveria ele manter a pureza de seus ideais ou cair de vez nos encantos da política e atirar na lama sua honra?

Como Biu havia chegado a casa mais cedo do que de costume, Ritinha de Xandu nem se preocupou em fechar a porta do quarto onde ela se encontrava com o “Caboclo Mamador”. Foram surpreendidos por Severino.

Não faça isso que você está pensando! – Disse o Mamador quando Biu entrou no quarto com a cabeça mergulhada em pensamentos sobre como se conservar justo, honesto e limpo no meio da lama que consumiu a moral, a justiça e a dignidade do povo.

– Você acha que trair a confiança dos outros é correto? – Perguntou Biu.

– Isso não são essas coisas todas, não! Esse negócio de traição é uma besteira! Ninguém precisa matar ninguém por causa disso, não é? – Defendeu o Caboclo.

– Não sei ainda. Preciso pensar sobre o assunto.

Ritinha e o Caboclo Mamador, sem entenderem o que se passava na cabeça do esfria-verruma, vestiram-se rapidamente enquanto ele pensava sobre seu futuro sentado à beira da cama.

– Pense direitinho para não fazer besteira e depois se arrepender! Estou de saída. Até amanhã! – Disse o pai-de-santo.

– Até amanhã. Não vai me benzer? – Perguntou Biu.

– Hoje, não. Estou sem energias.

Quando o Caboclo Mamador saiu, Biu informou a Ritinha sobre sua decisão de morar definitivamente com sua mãe e sua avó. Ritinha pegou uma sacola de feira e perguntou:

– Quer que eu arrume suas coisas?

– Quero. Mas não esqueça de me devolver essa calça que o “Mamador” acabou de vestir. Foi presente de mamãe.

 

Capítulo XXI – Judite Morreu

 

 

De saudades de Zureia, Judite morreu.

– Morreu tarde! – Disse a rival, Dora Doida, ao saber da morte súbita. – Menos uma para eu odiar neste mundo.

No funeral, insistiram para que Biu fizesse um discurso, mas ele se recusou.

– Esse é um grande momento, Biu! Isso sensibiliza o povo! – Insistiu o Onze.

– O que tem dentro de você? – Perguntou BiuNão responda. Não perca seu tempo. Fale você ao povo. Diga o que quiser.

Uma velhinha se aproximou de Quarentinha e disse com voz trêmula e pausada:

– Sua avó era uma pessoa maravilhosa! Morreu feito um passarinho! Olhe para ela. Parece até que está sorrindo! Foi morar na casa de deus! É, meu filho, para morrer basta estar vivo. Nós não somos nada. Quando deus quer, não tem jeito. Esse é o destino de todos nós. Do pó viemos, ao pó voltaremos.

Cansado de ouvir as mesmas frases durante o velório, Quarentinha desabafou baixinho e rangendo os dentes:

– Puta que pariu!

– O que você disse, meu filho?

– A ponte que caiu! Com licença, vou ver a ponte que caiu!

Como última homenagem, Onze resolveu citar um versículo do livro sagrado. Ele perguntou:

– Onde está o Burrico? Burrico!

– Aqui, mestre.

– Onde?

– Atrás do senhor, mestre!

– A paz do senhor, Burriquinho! Bote o Cid para nos fazer ouvir a “palavra”.

Burrico colocou o CD para tocar aleatoriamente e foi surpreendido com o vozeirão do Cid:

“Todavia ela multiplicou as suas prostituições, lembrando-se dos dias da sua mocidade, em que se prostituíra na terra do Egito. E enamorou-se dos seus amantes, cujos membros eram como os de jumentos, e cuja ejaculação era como a de cavalos”[62].

Com os olhos arregalados e a mão direita tapando levemente sua boca, Onze gritou:

– Burrico, tira isso daí! Você só pode ser um doente! Só pensa em pornografia! Bote o CD correto!

– Desculpe, mestre! Vou botar outro CD.

– Vamos glorificar! Escutem agora e entendam porque eu escolhi seguir esse deus de amor. Bote o CD, Burrico!

Quando o CD começou a tocar, eles ouviram Isaías 45:5-7:

“Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro; além de mim não há deus. Eu o fortalecerei, ainda que você não tenha me admitido, de forma que do nascente ao poente saibam todos que não há ninguém além de mim. Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro. Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas”.

 

– Burrico, tira isso daí! Você só pode estar louco, Burrico! Quem já ouviu uma blasfêmia dessa! Deus é amor, Burrico! Deus jamais criaria o mal para consumir nossas frágeis e imperfeitas almas!

Ouvindo isso, Quarentinha não perdeu a oportunidade de questionar:

– Como um ser tão perfeito criaria seres imperfeitos? Da perfeição, é possível surgir o imperfeito? Se somos imperfeitos, teria deus errado quando nos criou? Ou ele nos fez assim de propósito? Se ele pode e sabe fazer as coisas perfeitas, por que nos fez imperfeitos? Que culpa tenho se, pela vontade de deus, sou imperfeito? Se um automóvel sai da fábrica com erros, a culpa é do automóvel ou de quem o fez?

– Mano Quarentinha, enquanto o demônio estiver consumindo suas entranhas, não respondo suas blasfêmias. Sai daí, Burrico, eu vou colocar o CD correto!

Assim, o próprio Onze soltou o vozeirão de Cid Moreira:

 

“Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele. Porém, todas as meninas virgens deixai-as viver para vós.”[63]

 

– Meu filho! Onde você foi buscar isso? – Gritou Santinha. – Pare já com suas loucuras! Chega!

Santinha deu o sinal para que os coveiros começassem o enterro. Depois do funeral, Severino Santos se retirou levando consigo sua mãe.

Capítulo XXII – A Descoberta do Amor

Um mês depois, quem estava outra vez sozinha tomando banho nua no rio? Era a bela, a esplêndida, a maravilhosa criatura divina, a mais santa entre todas as mulheres que já nasceram e as que ainda estão para nascer neste planeta, Santinha Preta.

Depois de encenar no mato a peça em que cinco bandidos batem violentamente no mocinho para fazer com que ele vomite o que nunca comeu, “Gala Rala” se aproximou da margem do rio e olhou apaixonadamente para ela.

Quando Santinha saia lentamente da água, tal qual Iemanjá, ele viu aparecer primeiramente o belo rosto. Ela sacudia o cabelo normalmente, mas sua imagem se movimentando só chegava até o cérebro dele em câmera lenta. Depois foi a vez de aparecerem os belos ombros seguidos pelos maravilhosos seios turbinados. Nenhum cirurgião plástico acreditaria que aqueles seios amamentaram no mínimo seus quarenta e um ou quarenta e dois filhos. Só um perito diria que se tratavam de seios naturais, pois ninguém acreditaria que naqueles dois melões não continham ao menos novecentos mililitros de silicone.

Quando ela caminhou um pouco mais nas águas plácidas do rio, ele viu o umbigo, a cintura fina e o abdômen com sua musculatura levemente definida. Especialistas diriam que ela, além de malhar durante horas numa academia, fazia uso de anabolizantes, mas ao ouvirem a suave voz, logo mudariam de opinião dizendo: “Enganei-me. Ela não tem a voz de traveco das mulheres bombadas! Esse abdômen e essas pernas são naturalíssimos! ”

Andando mais um pouco, Santinha descobriu totalmente as coxas. Vendo que “Gala Rala” se tremia todinho, parou e lembrou que sempre se afastara dele para proteger sua saúde. Ela nunca esqueceu daquele último encontro. Após alguns segundos, com os olhos fixos naquela figura humana, ela percebeu que a tremedeira dele havia passado. Só assim pôde sair da água e vestir o short de lycra, tamanho “P”. Ao colocar uma minúscula blusa branca transparente de algodão, ela viu “Gala Rala” segurar seu órgão sem conseguir conter uma segunda ejaculação. Sendo uma mulher bem vivida e sexualmente resolvida, ela sentiu apenas seu ego satisfeito por ter, desde sempre, o poder de fazer um macho feliz. O poder era dela. Se um macho tem poder, mais poder ainda tem a fêmea que o conquista, que o submete aos seus desejos. Neste caso, ela nem queria conquistar, mas conquistou; nem queria submetê-lo a nenhum desejo, mas ele se prontificou a isso. O poder era dela.

Santinha se aproximou e estendeu-lhe a mão em cumprimento, como sinal de educação. Ele, com a mão molhada de… de… A mão dele estava úmida, mesmo assim apertou a dela. Percebendo o que tinha acabado de fazer, ele corou. As mãos se separaram com certa dificuldade, pois o calor secou rapidamente o líquido de sua mão criando uma espécie de cola.

Desculpe-me. – Disse ele.

Ela apenas sorriu docemente.

– Preciso falar. – Disse ele com voz trêmula, enquanto sua mão procurava novamente segurar a dela. – Se você é santa, entra na minha vida e faz um milagre. Tira-me dessa prisão e dá-me um sentido à vida.

Com a mão que Gala Rala não segurava, ela tocou o peito dele e disse:

– Antônio, eu não sei como fazer isso. Mas faria, se pudesse.

– Acabou de fazer. Com apenas o toque da sua mão, eu já me sinto outro homem. Eu…

Essa interrupção da fala de “Gala Rala” serve para dar uma ideia sobre o milagre verdadeiro que começou a operar nele a partir do toque de Santinha. Parecia que uma energia de mais de seiscentos mil volts entrava pelos seus dedos e ia tomando todo seu corpo, desentupindo as veias e desentranhando a estupidez armazenada no cérebro. Essa energia, ao passar pela garganta, desentalou um nódulo, feito um caroço de manga, que o fazia falar feito um bode rouco. Vendo a tremedeira de “Gala Rala”, ela sentiu vontade de abraçá-lo e o fez demoradamente como um ato de caridade, absorvendo todo o impacto dos espasmos. Mas até mesmo as santas sabem distinguir caridade de tesão. Fazendo um pouco de carinho, como uma santa jamais ousou fazer num fiel, uma atmosfera densa de gases refrescantes e perfumados envolveu os dois e a magia se completou desfazendo a cara de abestalhado que ele tinha para dar lugar a um semblante mais sério, altivo, seguro e maduro. Daquele abraço surgiu um homem de verdade.

Olhando nos olhos de Santinha, com voz e olhar de amante latino, ele disse:

– Eu a amo e já não tenho medo nem receio de dizer isso. Tire de mim essa ansiedade, essa tristeza de viver apenas sonhando com os seus afagos, com o seu carinho. Mas acima de tudo, tire esse vazio que trago em mim! Você não é de ninguém, eu sei, mas ao mesmo tempo é de todos, menos minha! Logo eu … Logo eu que a venero! Logo eu que preciso tanto de você!

– Nunca nem imaginei isso. Você precisa de mim?

– Como o ar que respiro.

– Do modo como acabou de falar, sabe muito a meu respeito.

– Sei tudo e a aceito exatamente como é.

– Se sabe que sou de todos, aceitaria me dividir com os outros? Aceitaria ser mais um na minha cama?

– Como posso dividir meu amor se todo amor sincero é egoísta? Como posso dividir aquilo de que necessito, de forma inteira, completa para poder viver? Como posso deixar que outros desfrutem daquilo que precisa ser só meu? Se para ter você, tenho que dividi-la como um objeto de uso qualquer, prefiro continuar seguindo seu corpo e me satisfazendo enquanto o vejo, mas fugindo dos seus olhos, das suas mãos que acariciam outros e das pernas que os acolhem!

Fitando os olhos de Santinha, segurando fortemente seus ombros, trincando os dentes feito um pistoleiro do velho oeste americano e dando uma leve balançada na moça, Gala Rala falou:

 – Para ser minha, tem que ser só minha!

Achando que cometera um despautério, ele ia pedir desculpas e perguntar se a machucou, mas recuou quando a viu esmorecer, dobrar um pouco o joelho, e revirar os olhinhos.

Cara leitora, não há nada errado com as mulheres frágeis, sonhadoras, romântica e que esperam seu príncipe encantado, aquele que é delicado, que tem o corpo todo lisinho, sem pelos, que traz flores, que frequenta salão de beleza e que usa creminho hidratante no corpo. Mas saiba que Santinha era daquelas mulheres que são atraídas por homens que na hora de desfrutá-las são dominadores e rudes; que têm o que esse tipo de mulher chama de “atitude”, de “pegada”. Sabe aquele macho-alfa, bruto, do tipo vaqueiro, grosso, que dá porrada e que xinga? Pronto, é desse tipo. Ela gosta de macho que a domine, que a sacuda e diga: “vou mostrar quem é que manda aqui”. Que fique claro: isso é só na hora de amar. No resto do dia, esse homem pode agir normalmente como um ser civilizado, porém, macho.

É claro que esse tipo de homem nunca apareceu na vida de Santinha nem povoava seu imaginário sexual pelo simples fato de ela não ter tido nunca uma experiência desse tipo. Conscientemente, ela jamais descreveria esse tipo de homem como o seu preferido. Talvez tenha sido por isso que ela se doava tanto a tantos machos diferentes, banalizando o sexo, e não escolhia nenhum deles. Ainda não tinha aparecido aquele que, com “atitude” e “pegada”, a fizesse literalmente ovular. Esse macho seria nosso amigo “Gala Rala”?

– Não conhecia esse seu lado… romântico! – Disse Santinha com cara de sonsa.

– Não costumo ser romântico. Você provocou isso. Basta vê-la e… Bom… agora que vi…

– Você me ver como os outros. Certamente, pensa em mim como os outros. Só isso.

– Não! Isso não é verdade! Nunca tive a oportunidade de amar outra mulher. Você foi a primeira que teve o poder de cativar meu coração.

– Nunca me senti amada por ninguém. Nem sei o que é isso. Sei que sou desejada, mas nunca soube que era amada.

Ele se aproximou, beijou suas mãos e, com um jeito sedutor, disse:

Amo. Nada mais amo além de você neste mundo.

– Não está mentindo só para me seduzir como faz com outras?

Nesse momento os olhos de Santinha se encheram d’água. Então ele disse:

– Não há “outras”. Desde o nosso último encontro, eu não sei o que são “outras”.  Não sei que palavras usar para dizer que realmente amo você. Vem comigo! Vamos sumir daqui! O que prende você a esta terra de corruptos?

Ela olhou fixamente para ele e deu um pequeno passo para trás como nunca fizera com nenhum outro homem. Estaria ela, a deusa do amor, o esplendor da beleza balançada pelas palavras de um conquistador?

Santinha virou o rosto devagar como se estivesse se preparando para sair dali, mas sentindo que ele segurava levemente seu dedo mínimo, parou e disse:

– As eleições…

– Não dou a mínima importância a essas eleições. Eu voto em você!

– Não sou candidata. Você e meu filho são os únicos candidatos.

– Então votarei em seu filho.

– Na contagem, isso significaria apenas menos um voto para você. Sabe que vencerá facilmente essas eleições com o restante dos votos.

– Não vencerei nada. Ainda acha que, se eleito, governarei?

– Não sei. Mas, para o bem do meu filho, você vencerá a disputa.

– Você não se comove com minha situação? Não tenho escolha, Santinha! Ganhando ou perdendo nunca governarei nada! Meu pai fará isso! Ainda mais, tem o mensalão! Já fui abordado por uma corja de vereadores abutres! Só me apoiarão se eu mantiver o mensalão criado pelo meu pai.

– Mensalão?

– Sim. É um dinheiro sujo que eu tenho que pagar mensalmente. Sem esse pagamento não se pode governar. Não sou um canalha, Santinha. Jamais permitirei essa farra com o dinheiro público! Isso é coisa dessa gentinha vagabunda e nojenta! Povinho medíocre! Canalhas, malditos, demagogos safados! Cus de cana dos infernos! Desistirei por você! Fuja disso comigo!

– Desistindo por mim, meu filho ganhará. Se eu for com você, nunca saberá o que de fato me motivou; se foi a vitória do meu filho ou algum sentimento mais profundo por você. Não, eu não vou. Não vou com você, Jonas. Fique aqui e vença as eleições.

– Não estou desistindo por você.

– Você acabou de afirmar isso.

– Se disser que vai comigo, então elegerei você como meu principal motivo. Mas a verdade é que há dias estou preparando minha fuga. Já organizei todas as minhas coisas lá no rancho, aquele do nosso primeiro encontro. Depois do debate com seu filho, desaparecerei de Bassouralnavhunda sem ser notado. Tentarei recomeçar minha vida longe do meu pai. Bem longe, muito longe. Só levarei comigo tudo que herdei de minha mãe.

– Sairá sozinho, sem destino?

– Não. Farei companhia a Virginia na sua ida para a Irlanda.

– Você e Virgínia estão juntos?

– Não! Ela é minha irmã, quero dizer, acho que ela é minha irmã. Meu pai a levou para um convento em Recife. Lá, ela teria algumas aulas de línguas e depois partiria para a Irlanda. Sua viagem está marcada para o dia das eleições. A surpresa é que eu também vou. Ninguém sabe que planejo essa viagem, nem mesmo Virgínia.

De alguma forma, isso incomodou Santinha. Não por causa de Virgínia, a quem seu filho amava e choramingava pelos cantos das paredes o tempo todo, pois ela nunca soube qual o verdadeiro motivo das dores do filho. Aliás, ninguém sabia do segredo de Severino. Mas a partir daquele encontro, ela desconfiava que quem partiria para Irlanda não era apenas o adversário político do seu filho.

– Desejo boa sorte a você. – Disse ela.

Sem que ela esperasse, ele a agarrou e prendeu em seus braços com um longo beijo. Ela quase despencou no chão de tanto tesão quando ele enrolou os cabelos dela na mão, pegando pelo rabo de cavalo, e puxando para trás entortando e deixando seu pescoço pronto para receber caninos sedentos. Naquela posição ele se sentiu o próprio Drácula preste a morder. Com o outro braço ele a prendeu em seu corpo. Ambos foram ao chão se enrolando feito duas cobras no cio. Cada beijo que ele dava era correspondido com outro vindo dela. Uma sede tomou conta dos dois e suas línguas se enroscaram com chupadas vigorosas enquanto braços e pernas eram usados como garras para prender e dominar um ao outro.

Na posição que Santinha ficou, junto ao corpo dele, não lhe permitia qualquer movimento. Estava presa. Enquanto um dos braços e as pernas dele impediam qualquer movimento de fuga, parecendo um leão segurando vigorosamente uma leoa com uma dentada no pescoço, com a outra mão ele tirava as minúsculas peças de roupa dela. De vez em quando ela fingia que ia se soltar das garras do macho só para sentir a pressão que ele faria como reação. Parecia um estupro, mas na verdade se tratava de um macho mostrando para uma fêmea quem de fato mandava na situação. Ela estremecia de prazer só de sentir que o macho a dominava.

Ao final, exaustos de tanto se amarem, eles apenas trocavam carinhos. Minutos depois, refeita do transe ela se levantou, vestiu suas roupas e simplesmente caminhou em direção a sua casa. Em sua caminhada, intercalando curtos sorrisos com expressões de preocupação, sem saber o porquê, começou a sentir uma estranha vontade de chorar.

Tenho certeza de que ela sabia o motivo da sua angústia: a perda para sempre do único homem que realmente a amou e que a tratou no chão como ninguém a havia tratado nas melhores camas; o único homem que soube espremê-la entre braços e coxas, como um animal, para tirar o máximo de prazer que um corpo feminino pudesse produzir.

Capítulo XXIII – O contrato da refinaria

As campanhas de Biu e de “Gala Rala” foram às ruas sem eles. “A seboseira de uma campanha é demais para mim! Sou político, mas tenho nojo dessa classe vagabunda e maldita de Navhunda! – Dizia Biu. Já o candidato, “Gala Rala”, sequer era encontrado para dizer algo. Com medo de que ele falasse verdades sobre política, seu pai o escondia dos jornalistas e apresentava Dora Doida como sua porta-voz.

Nada mais se ouviu de Burra Preta até o dia do debate. Ele recusou todos os convites para aparições públicas e privadas e rasgou cinco vezes a mesma minuta de contrato de compra da refinaria americana de Passadunas que Ritinha de Xandu, substituta de Judite na secretária da casa civil, recebera de Quarentinha. O sexto contrato com o mesmo teor já estava assinado, carimbado e com firma reconhecida em cartório quando Biu o achou e rasgou. O próprio Quarentinha teria lido esse contrato para Ritinha de Xandu e afirmado que se tratava de uma receita de bolo. O sétimo contrato foi para a casa de Ritinha com uma cruz no envelope. O mensageiro jurou que Quarentinha garantiu que se tratava de uma mensagem do papa. Em seguida, pegou o dedão dela e carimbou no contrato levando uma via para os americanos. Com isso, numa possível vitória de “Biu Das Quengas”, atolariam Navhunda em dívidas e o Cientista ganharia gorda propina.

Capítulo XXIV – Sem Fundo

 O sumiço de Biu, segundo o Xifópago filósofo, era a única maneira que ele tinha de não se comprometer com a safadeza política antes das eleições. Sem comparecer a encontros privados com empresários, para se vender feito porco fedorento de chiqueiro, Biu não arrecadou fundos para comprar os eleitores tal qual se compram burros de feira. Para não dizer que a campanha de Biu não tentou comprar os votos do povo, Onze, sem conhecimento de Biu, distribuiu na igreja um saco de óculos e dentaduras. Era só meter a mão no saco, pegar uma dentadura ou um par de óculos e experimentar até achar aquele ou aquela que melhor servissem. Alguns eleitores reclamaram da ausência de um lavabo no local, pois não parecia correto tirar uma dentadura frouxa da boca e devolvê-la diretamente ao saco. A resposta que ouviam do bispo foi: “cavalo dado não se lavam os dentes”.

A campanha do adversário, alheia aos pedidos de “Gala Rala” para que se seguissem a lei, era só canalhice. No clube da cidade organizavam leilões de compra de votos onde cada eleitor se apresentava no púlpito e dizia quanto desejava receber por seu voto. Se fechassem negócio, assinariam os papéis e reconheceriam a firma em cartório. O documento resultante desse acordo receberia o nome de “voto de contrato”. De posse desse documento, os assessores do candidato o depositariam na urna.  Tinha o “voto de cabresto” que recebia essa denominação porque os eleitores eram transportados pelo candidato em caminhões como se fossem bois que saíam de currais. Também tinha o voto de rabo solto, para diferenciar do voto de rabo preso.

Finalizarei aqui esse capítulo porque se eu insistir nesse assunto Dora Doida se manifestará. Como se trata de um romance em que predomina o respeito ao leitor, basta de tanta patifaria.

Capítulo XXV – Isso nunca pode se comparar a um peido sobre as velas de São Jerome

Uma grande explosão foi ouvida a mais de dez quilômetros do centro da cidade. A explosão abriu uma cratera de dez metros de largura por cinco de profundidade. Era domingo e não havia ninguém no local.

Quando Quarentinha ouviu o comentário sobre o ocorrido, disse:

– Isso nunca pode se comparar a um peido sobre as velas de São Jerome! Foi apenas uma bombinha de demonstração. A verdadeira, aquela que vai solucionar o problema da falta d’água da cidade já está pronta.

– Você falou em combater Dom Sebastião e o Beato Salu com essa bomba. Não me lembro de você ter mencionado a questão da água. – Exclamou o irmão Décimo.

– Tentei enganar esse povo besta com essa história. Se eu dissesse exatamente o que eu pretendia, certamente eu encontraria resistência ao projeto ou, o que é pior, concorrência! Mas eu falei de algo mais atraente: guerra. Bom, não convenci ninguém com isso. Para evitar concorrência, não direi a ninguém o que realmente pretendo.

– Eu posso saber?

– Por que não? Eu pretendo solucionar o problema da falta de água e ganhar muito dinheiro!

– Como uma bomba solucionará o problema da água? – Perguntou o Décimo.

– Simples, caro irmão. Cada bomba, se utilizada corretamente, abrirá uma cratera de dez quilômetros quadrados por trinta metros de profundidade em apenas dois segundos. Depois é só esperar a próxima chuva que a inundará e teremos água à vontade! Construirei meu próprio lago e venderei água encanada!

– Não está falando sério! Isso é ridículo! Uma bomba dessa magnitude pode ser bastante perigosa!

– Essa é a resistência ao projeto que eu temia. Se você diz isso, o que dirá esse povo burro?

– Você viu a cratera que se formou com sua pequena bomba de demonstração?

– Claro! No local da explosão se formou apenas uma pequena caixa d’água. Nada comparável ao verdadeiro lago que criarei!

– Espero que essa bomba esteja bem longe de Navhunda.

– Não há perigo, irmão.

– Sim, acredito em você, mas uma bomba assim tem que estar a mais de vinte mil quilômetros daqui!

– Ela está a vinte centímetros de você.

– O quê?! Esse objeto esférico atrás de mim não é um Biu-digestor? Você não pode brincar com essas coisas!

– Ninguém sabe da existência dessa bomba. Estou aguardando uns contatos e, com essa bombinha aí, construirei o primeiro lago artificial para um agricultor daqui de Navhunda. Com isso, ganharei algum dinheiro! Por falar em ganhar dinheiro, como vai a eletrificação da cidade?

Meio trêmulo e olhando com desconfiança para a bomba, Décimo falou:

– Setenta por cento das casas estão usando nossa energia. Estamos faturando bem.

– Precisamos de mais dinheiro para a bomba do lago que abastecerá a cidade. Aumente a tarifa em cem por cento.

– Ficou louco?

– Setenta por cento e nem um pontinho a menos! Quem quer conforto tem que pagar por ele.

– Aumentarei, mas o povo não vai gostar nada disso! É melhor você deixar as coisas como estão!

– Se reclamarem, diga-lhes que se Biu vencer daremos um desconto de dez por cento.

– E quanto a essa bomba? Não me sinto seguro com essa coisa aqui no centro de Bassoural.

– Bobagem! Com apenas três bombas dessa ficaremos ricos! Terei esta cidade aos meus pés! Agora, mexa-se. Vamos trabalhar!

Capítulo XXVI – O Debate na Rádio Local

– Hoje teremos, caros ouvintes, um grande debate! – Disse o locutor da rádio local – Num oferecimento de absorvente Tufo, em puríssimo algodão, da marca registrada, Boi And Boi! Agora, queridos ouvintes, à direita do seu rádio temos, “Ontoim Gaaaaala Rala”! À esquerda temos o esfria-mestre, Biiiiiiu das Quennnnngas! Compre cuecas de copinho da marca registrada Dasbolas!

Depois da musiquinha do comercial, o locutor iniciou o debate:

– Ouviremos em primeiríssimo lugar o competentíssimo filho do “pai de Gala Rala”, ele mesmo, o próprio “Gaaaaaaala Rala”! Pela primeira vez, ele dirá quais são suas metas, suas propostas para fazer de Bassouralnavhunda uma próspera cidade! Agora caríssimos ouvintes, liguem e respondam: Navhunda merece nada ou merece tudo?

O telefone tocou:

– Alô!

Do outro lado da linha alguém falou com voz de mulher que faz uso de anabolizantes:

– Eu gostaria de participar do programa respondendo a pergunta.

– Então respooooooonda, minha flor!

– Navhunda, tuuuuuuuuuuuuuuudo!

Nesse momento, Onze, que fazia parte da comitiva de Biu, abriu a boca e revirou os olhinhos.

O locutor prosseguiu:

– É o povo ligando e contribuindo para que aconteça este magnífico espetáculo da democracia! Antes de ouvirmos esses maravilhosos candidatos, não se esqueçam: compre cuecas de copinho da marca registrada Dasbolas! Use Daaaaaaaaaaaaaaasbolas e prenda muito mais suas bolas!

E agora, caros ouvintes, o momento mais esperado! Com a palavra, Dr. Gaaaaaala Rala! Qual será sua plataforma de governo, se eleito?

Nesse momento a assessora de “Gala Rala”, Dora Doida, pegou o microfone e falou:

– O plano dele é não ter porra nenhuma de plano! Quem vive de plano é agrimensor. Ele vai levar Navhunda à frente! Nunca irá para trás! Nós só vamos para frente! Nunca voltamos! O resto é picaretagem e fuleiragem!

– Dona Dooooooora, muito obrigado pela sua brilhante explicação, mas o povo quer ouvir o can-di-da-to! Apenas o can-di-da-t-o-tó!

– Eu não estou vendo povo nenhum aqui! Se você quer ouvir o candidato vá para casa do c…! Aqui quem fala sou eu porque esta rádio é do pai do candidato.

– Não se preocuuuuuupe, Dona Dooooora! É assim mesmo que vai acontecer esse graaaaaaande debate! Perrrrrguntarei agora ao candidato Biiiiiiiiiiiiu das Quennnngas! Qual é o seu plano para assumir a cadeira Navhunda?

Nesse momento o assessor de Biu, o Xifópago filósofo, pegou o microfone e falou:

 – Navhunda quer Biu. Ele vai lá e vai fazer melhor do que “Gala Rala”! Navhunda é do povo e o povo dá Navhunda a quem quiser! Das mãos do povo, Biu pegará Navhunda! E somente o povo tomará Navhunda de Biu! Biu tomará Navhunda desses corruptos e se o povo quiser subir um degrau rumo ao progresso, Biu empurrará Navhunda!

Com esse palavreado, Onze ficou boquiaberto e revirou os olhos inúmeras vezes.

– Lembrando que o povo gostaria de ouvir apenas o can-di-da-t-o-tó, senhor “Gala Rala”, o gabinete Navhunda é tudo para esse povo. Se o senhor pegar Navhunda, o que fará?

– Quem pegar Navhunda tem que dar muito para esse povo. – Disse a assessora, Dora Doida. – Esse Biu das Quengas vai apenas enterrar Navhunda!

O assessor de Biu retrucou:

– Vocês é que estão afundando Navhunda! Agem como se fossem os verdadeiros donos até da bunda do povo! Se ganharem outra vez, vão tomar Navhunda e foder Navhunda de vez!

– Afundar Navhunda? Jamais afundaremos, pois Navhunda nada! – Respondeu Dora.

– E se Navhunda nadar, nadar e morrer na praia, vocês levam Navhunda, deixam Navhunda ou enterram Navhunda? – Perguntou o filósofo.

– Quem vai enterrar Navhunda são esses desocupados, arruaceiros representados por esse vagabundo que está sentado aí – Respondeu Dora.

O locutor interveio antes que houvesse briga:

– Senhores candidatos, parem com essas ofensas! Farei novas perguntas lembrando que o povo quer ouvir os candidatos! Apenas os can-di-da-tos! Sr. “Gala Rala”, na atual conjuntura democrático-cristã, o que o gabinete Navhunda fará para libertar-se desses valores sacros milenares que aí reinam em detrimento da liberdade de crenças e do Estado laico?

– É o quê, rapaz? Isso já foi respondido! Está dentro da porra do plano de não ter plano! – Respondeu, Dora Doida.

– O que responde a oposição? – Perguntou o locutor. O Xifópago respondeu:

– Só temos uma coisa a responder: Atolaram Navhunda, mas Biu vai desatolar!

– Atolaram na sua! – Gritou Dora.

– Fica na tua, “Boi Vei” – Retrucou o gêmeo filósofo.

Com esse desaforo, Dora Doida atirou o microfone no gêmeo filósofo, mas pegou na cara do gêmeo alcoólatra. Este estava tão bêbado que nem sentiu. O locutor tratou logo de acalmar os ânimos antes que alguém se ferisse gravemente e perguntou:

– Senhor “Gala Rala”, até que ponto o plano de não ter plano não deixará Navhunda atolar?

– Por Navhunda, tudo! Tudo faremos para Navhunda crescer! – Disse Dora.

– E se Navhunda parar, mergulhada em dívidas? – Perguntou o locutor.

– Alguém terá que levar Navhunda. Tenho certeza de que o povo sempre leva Navhunda! – Respondeu Dora.

O locutor perguntou:

– E se o povo estiver cansado de levar Navhunda, alguém aqui se habilita a levar Navhunda?

Onze se levantou, pediu a palavra e disse:

– Como coordenador da campanha de Biu das Quengas, responderei: todos nós estamos preparados para levar Navhunda!

– Fale somente por você! – Defendeu-se o Xifópago alcoólatra.

– Senhores ouvintes, para finalizar este debate cada candidato dirá o que o povo deverá esperar de cada um. Senhor “Gala Rala”, comece.

Dora pegou o microfone e falou:

– Todos os eleitores de “Gala Rala” terão direito a um copo de caldo de cana com pão e mortadela. Depois receberão um sapato para o pé esquerdo. Tudo isso acontecerá antes da votação. Se ganharmos as eleições, vocês receberão o outro pé de sapato. Também, para aqueles que já estão usando a parte de baixo da dentadura, daremos, após as eleições, a parte de cima. Lembro que ainda dá tempo de vender seu voto. Cobrimos qualquer oferta. Se “Gala Rala” perder as eleições, coisa que não acredito, arrancaremos as dentaduras do povo na porrada para deixarem de ser safados! No mais, “Gala Rala” se despede dos seus eleitores, mandando-lhes milhões de abraços fraternos, lembrando do dever de lealdade, mas acima de tudo, tendo a certeza de ter Navhunda à mão.

– Que fale agora o candidato Biiiiiiiiiiu das Quengas!

Ginna Coturno pegou o microfone e falou:

– Somos contra a compra de votos! Se “Das Quengas” ganhar, eu prometo que abro o estabelecimento fornecedor de mão-de-obra não-tributável e as meninas vão dar de graça! Na campanha desse honrado candidato, ninguém compra nada nem paga porra nenhuma! Quero informar que se Burra Preta for eleito, todas elas, as profissionais do sexo, serão funcionárias de Navhunda, trabalharão de graça para o povo e terão, além daquilo que os eleitores vão dar, um salário digno e muito respeito. Mais respeito do que deve ter essa rapariga safada que um dia foi filha dos meus pais!

Dora pegou um cinzeiro de barro e arremessou contra Ginna Coturno, mas o alvo atingido foi novamente o gêmeo bêbado.

– Indefinida dos infernos! – Gritou Dora Doida.

Essa foi a última frase ouvida pelos radiouvintes. A rádio foi totalmente destruída pelos cabos eleitorais. A polícia foi chamada, mas apenas ouviu os relatos de ambos os lados e liberou todos para a votação no dia seguinte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo XXVII

Jazigo

Naquele dia, após o debate, Santinha achou seu filho mais triste do que de costume. Há algum tempo ela não o acolhia nos braços para ouvir seus lamentos. Na verdade, era Santinha que estava distante. Tão distante que ela nem percebeu a magreza e palidez do filho que há dias quase não se alimentava. A saudade de Virgínia e a esperança de um dia encontrá-la é que o faziam continuar vivo.

Em Recife, Virgínia observava a lua por trás de uma grade que tornava intransponível a janela do quarto de clausura. Durante o dia, sempre vigiada por religiosas, ela era obrigada a rezar pelo menos cinco vezes, nos intervalos da dura jornada de trabalho como lavadeira de roupas[64].

Naquela noite, antes de dormir, ela apenas cumpriu com o seu ritual de observar a lua numa louca tentativa de se comunicar com seu amado, pois tinha a certeza de que Severino fazia o mesmo naquele exato momento.

Em Bassoural, Santinha se recolhia ao quarto para chorar como fazia diariamente. A fortaleza que era ela, antes de ouvir as últimas palavras de Jonas Antônio, aos poucos ruía para ser invadida por uma profunda melancolia. Mas a tristeza dessa ninfa se dava por quê? A única resposta que fazia sentido era que nossa amiga sentia saudade daquilo que nunca teve: amor. Assim, todos os dias ela era tomada por um confuso sentimento de frustração, medo, descaso, abandono, solidão e um imenso vazio na alma: coisas de coração sofredor.

A depressão se aproximava lenta e sorrateiramente como uma sombra disposta a sufocá-la até a morte. Sentia sempre um aperto esmagador no peito e uma vontade imensa de chorar. E chorava. Só as lágrimas que banhavam seu coração eram capazes de sufocar um pouco sua agonia.

Nada mais fazia sentido em sua vida. Depois de toda a batalha pela vida feliz que teve, ela, mesmo com sua beleza inalterada pelo tempo, sentia-se frágil, desprotegida e não mais cabia em si própria. Buscando uma solução, ela atribuiu seus sentimentos à falta que fazia a mãe, o pai e todos os seus filhos que há algum tempo já haviam saído de casa para cuidarem de suas vidas. Pensou em buscar amparo em bocas, braços, pernas e calores humanos, mas rapidamente veio um avassalador sentimento de repúdio, repulsa e nojo a essa ideia. Foi até sua cama, agarrou-se a um macio travesseiro e continuou seu choro.

Severino, que após o jantar descansava numa rede na varanda da casa, observando a mesma lua de Virgínia, foi até o quarto de sua mãe e bateu na porta. Ela pediu que ele esperasse um momento enquanto enxugava os olhos. Em seguida disse que ele podia entrar.

No quarto, Severino olhou para sua mãe e percebeu que ela havia chorado. Seus olhos se encheram d’água e ele se aproximou da cama dela e se deitou. Ambos se abraçaram e choraram sem explicação.

– Por que você chora, meu filho?

– Choro com pena da vida vazia que estou levando, mamãe. Choro também porque estou antecipando a dor pela saudade que sentirei de você quando eu estiver bem longe daqui.

– Você vai embora?

– Vou. Não consigo mais viver aqui.

– E as eleições?

– Não quero mais saber de eleições, minha mãe.

– Sempre achei que isso fosse importante para você e seus irmãos.

– Isso é importante apenas para eles que querem dinheiro fácil. Eu sou um esfria-verruma. Eu só quero aquilo que eu conquistar com meu suor. É isso que faz sentido para mim.  Vou atrás de um sentido para minha vida.

Santinha se ergueu, sentou-se encostada na cabeceira da cama e disse:

– Filho, você tem certeza disso? Essa eleição não vale nada para você?

– Não vale nada. Eu só queria ajudar pessoas, mas não encontro uma sequer que mereça ajuda. Nada nem ninguém conseguirão desentranhar a sujeira impregnada na alma desse povo. Todos estão corrompidos. Estou decidido, mamãe. Vou partir.

– Sendo assim, estou livre para também decidir a minha vida.

– Você sempre esteve livre, mamãe.

– Não. Se as eleições não mais interessam a você, ele saberá que se eu o acompanhar não é para fazer com que ele desista, deixando o caminho livre para você. Agora, sinto-me livre para dizer a Jonas que vou com ele e Virgínia para a Irlanda.

– É o quê? O que você falou, mamãe?

Santinha contou toda a história da viagem de Virgínia para a Irlanda e antes de terminar foi beijada e abraçada por Severino ao menos dez vezes. Por fim, ele falou:

– Vá embora, minha mãe! Seja muito feliz! Vá, arrume suas malas depressa! Eu a levarei até ele!

– Mas, Severino…

– Agora, mamãe! Vá! Depressa, antes que ele parta! Vou preparar minhas coisas também!

– Está escuro, lá fora, meu filho!

– Oh, mamãe! Devemos ir agora! Amanhã de manhã a cidade estará cheia de gente para a votação! Como sairei daqui com esse povo todo me seguindo?

– Está bem!

Três horas depois, Biu e Santinha estavam às portas da granja de Jonas Antônio. O caseiro veio recebê-los com a informação de que o patrão havia partido para o Recife, onde deveria se encontrar com a senhorita Virgínia.

Mesmo cansados da viagem, Biu e Santinha resolveram partir imediatamente para o Recife. Seriam mais quatro horas de viagem no lombo de cavalos. Para ajudar na viagem, o caseiro ofereceu dois cavalos descansados e uma mula para carregar as bagagens.

Eram nove horas da manhã em Recife quando Biu e Santinha atravessavam os imensos portões do grande casarão de freiras.

O relinchar e a inquietação dos cavalos lá fora aconteceram no exato momento em que eles ouviram uma resposta desanimadora da religiosa de plantão:

– Eles saíram daqui, há trinta minutos.

Severino e Santinha desceram apressadamente as escadas do casarão e chegaram até a porta de saída. Dali, viram que seus cavalos estavam inquietos e faziam força para se libertarem das cordas que os prendiam. Eles correram até os animais para tentar acalmá-los e foram surpreendidos com um tremor de terra que sacudiu o local. Santinha olhou para trás e viu o casarão desabar completamente sobre as freiras. Parecia um castigo de deus, como na cena da destruição de Sodoma e Gomorra. Somente as pobres lavadeiras de roupas escaparam da tragédia porque naquele momento estavam distantes do casarão, estendendo roupas num imenso varal. Depois de alguns segundos, eles ouviram um som ensurdecedor de trovão.

 O Tremor de terra não foi tão forte a ponto de derrubar as outras inúmeras edificações recifenses, nem tão fraco que não se pudesse temer pelo pior. Mas foi o suficiente para eu lhe dizer, raríssimo leitor, que a cidade de Navhunda, bem como sua população, a partir daquele momento não mais existiam. Em seu lugar, havia agora uma imensa cratera de trinta metros de profundidade por dez quilômetros quadrados de largura: um imenso jazigo. Os céus de Navhunda ficaram negros e, como a poeira e pedras foram arremessadas para a atmosfera, escondendo o sol, uma noite fria se abateu sobre o local.

Neste momento farei uma pausa de um minuto de silêncio. Interromperei a angustiante corrida de Severino e Santinha, à procura de Jonas Antônio e Virgínia, para em seguida colocar você, paciente leitor, a par dos acontecimentos que levaram ao triste fim da cidade e de sua população.

Capítulo XXVIII – A Cratera

No dia da eleição, o sol amanheceu brilhante no horizonte e aos poucos os eleitores chegavam e aguardavam a chegada dos candidatos. Não sabiam eles que nem Jonas Antônio nem Severino se encontravam na cidade. Um estava em Recife com Virginia e o outro se dirigia para lá com Santinha.

Dora Doida organizava a fila do pagamento pela compra dos votos enquanto Onze anunciava o fogo do inferno para os eleitores traidores da causa dos Esfria-verrumas.

Conforme Ginna Coturno havia prometido, naquele dia as profissionais do sexo tomaram banho demorado e se enfeitaram com as cores do partido. Elas aguardavam pacientemente os primeiros eleitores de Biu para uma prazerosa recompensa pelos votos depositados em nome do candidato.

Às oito horas da manhã, o juiz eleitoral apareceu em frente ao prédio onde as eleições seriam realizadas e convidou os dois candidatos a comporem uma das mesas para as cerimônias de abertura. Do meio da multidão ninguém se habilitou. Dos dois lados, ouviam-se questionamentos a respeito do paradeiro dos candidatos até que o juiz informou que sem a presença e os votos iniciais dos candidatos, as eleições não poderiam ser realizadas.

Houve uma confusão generalizada. Enquanto as pessoas tentavam entender o porquê da ausência dos competidores, o pai de “Gala Rala” se aproximou do juiz eleitoral e pediu para se dirigir à população. Tendo obtido a permissão, ele pegou o microfone e disse:

– Aquele filho de uma rapariga desistiu!

Do meio do povo veio a pergunta:

– Qual dos dois?

– Eu respondo pelo meu ex-filho! Aquele desgraçado fugiu levando parte da minha fortuna!

– Neste caso, Biu das Quengas é o vencedor! – Gritou o bispo Onze.

Antes que o juiz eleitoral pudesse se pronunciar a respeito, Quarentinha fez sinal para o juiz pedindo para falar. Tendo obtido a permissão, com um bilhetinho na mão, ele informou que Biu também havia desistido.

O bilhetinho continha poucas palavras, mas não deixava dúvidas sobre a real intenção de Biu:

“Desarmei o palanque e recolhi a verruma. Decidi não espalhar desonra. Podem quebrar a urna, eu não volto mais”.

O juiz declarou encerradas as eleições às oito horas e trinta minutos e informou o prazo de dois anos para as próximas eleições. Enquanto isso, o pai de “Gala Rala” teria seu mandato prorrogado.

Dora Doida, que não perdia a oportunidade para alfinetar a oposição, pegou o microfone e disse:

– Serão mais dois anos livres dessa corja de vagabundos!

Os partidários de Dora comemoravam e gritavam vivas ao pai de “Gala Rala”, enquanto Quarentinha e sua turma de fracassados se retiravam lentamente.

No caminho para o seu laboratório, tremendo de raiva pela humilhação, principalmente por causa das palavras de Dora Doida, ele pensou em dar o troco. Assim, Quarentinha chamou o Décimo Eletricista e disse algo em seu ouvido. Em menos de cinco minutos o Décimo pedia ao juiz que lhe permitisse usar o microfone para dar uma notícia ao povo. Tendo obtido a permissão, ele pediu a atenção do povo e disse:

– Tenho duas informações a dar a vocês. A primeira é que nossa empresa de energia elétrica não quer mais como cliente a senhora Dorothy, mais conhecida como Dora Doida, ou Boi Véi.

– Soque sua eletricidade no cu, seu cabeça de caixa d’água dos infernos! Tomara que um raio caia destruindo todas as subestações de vocês, seus filhos de uma arrombada. – Praguejou Dora Doida.

– A segunda informação é que teremos um pequeno aumento na tarifa de energia elétrica. Algo em torno de… Será um pequeno percentual de mais ou menos uns… Não deve chegar a …

– Fala logo, desgraçado! Tá com medo de quê? Fala logo ou eu vou aí quebrar essa tua cara!

Com essas palavras pronunciadas pela Doida, a população começou a se inflamar. Ouviam-se gritos e vaias por todos os lados quando finalmente o Décimo falou meio sem graça:

– Setenta por cento.

A multidão tentou segurar o Décimo para fazê-lo mudar de ideia na porrada, mas não conseguiu. As pessoas enfurecidas saíram derrubando postes e arrancando os fios de energia até que alguém teve a ideia de ir tomar satisfação com o próprio Quarentinha em seu local de experiências. Quando a multidão chegou à frente do laboratório, alguém lembrou que seria educado, antes de entrar, bater na porta. Foi isso que fizeram, mas bateram tão violentamente com um tronco de árvore que atravessaram a resistente porta. Quarentinha, sabendo dos atos de violência do povo, não mais se encontrava no local. O quebra-quebra no laboratório foi tanto que apenas sobrou um imenso globo cuja parte superior, após uma tentativa frustrada de destruição, fazia um barulho de relógio em contagem regressiva.

Eram oito horas e cinquenta cinco minutos daquela manhã quando uma estranha contagem informava um tempo regressivo de cinco minutos.

Zeca Burrico apareceu no meio da bagunça anunciando que tinha uma importante informação:

– Não toquem no globo, é uma bomba! Uma vez acionada é impossível pará-la!

Era tarde demais. Todos ouviam, sem saber o que fazer, claramente um barulhinho: tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Neste momento, deixo sua imaginação, caro leitor, passear pela cratera formada em Navhunda, procurando viva alma.

Capítulo XXIX

Quando Severino e Santinha chegaram ao porto do Recife foram informados da partida do último navio com destino à Irlanda.

– Veja, senhorita! Veja lá, no horizonte! Aquele é o navio com destino à Irlanda!

– Quero passagens para a próxima viagem – Solicitou Severino. – À que hora parte o próximo navio?

– O senhor só pode estar brincando! Disse o atendente. – Os navios para a Europa partem a cada quarenta dias.

– O quê? Eu não posso viajar agora?

– Infelizmente, nada posso fazer por vocês.

Santinha e Severino se sentaram em um banco próximo dali e se deixaram arriar sobre ele. Eles haviam viajado a noite toda. Agora, cansados e decepcionados, eles não tinham forças nem para lamentar seus infortúnios.

Enquanto Severino olhava para o céu distante, Santinha fechava seus olhos deixando escorrerem lágrimas silenciosas.

Não havia um plano “B”. Não havia mais nada a fazer. Mesmo que partissem em quarenta dias, como fariam para encontrar Virgínia e Jonas? Por qual cidade irlandesa deveriam começar as buscas? E se não encontrassem nunca os dois, o que fariam sozinhos em terra estranha? Voltar para Bassoural seria a última hipótese. Mas, para Severino, Bassoural não estava mais nos planos. Mergulhado em pensamentos confusos interrompidos por fleches de lembranças de Virgínia, ele adormeceu e assim não pode ver que um homem se aproximava dos dois. Diante deles, estupefato, o homem colheu uma lágrima dos olhos de Santinha e se ajoelhou aos seus pés. Logo atrás dele vinha uma bela senhora se desmanchando em lágrimas de felicidade e alívio. Santinha abriu os olhos e quase desmaiou de tanta emoção.

Virgínia, ao ver seu amado, se atirou em seus braços e foi recebida com dezenas de beijos.

Por pouco não aconteceu um desencontro. Jonas e Virgínia perderam o navio porque na hora do terremoto e do barulho da explosão os cavalos deles se assustaram e Virgínia não conseguiu controlar o seu. Meia hora depois do ocorrido é que Jonas conseguiu interceptar o cavalo de Virgínia e continuar a viagem até o porto do Recife. Esse tempo foi suficiente para que eles perdessem o navio para a Irlanda.

Como resultado do encontro dos quatro, tivemos modificação drástica nos planos. Desistiram da Irlanda e resolveram morar em Recife onde suas vidas felizes seguiram a normalidade das coisas. Lamentaram e sofreram bastante quando souberam do ocorrido em Bassoural, mas como sempre o tempo tratou de curar as feridas e eles puderam seguir em frente com suas vidas.

Um ano depois, tendo aberto com Severino uma das maiores fábricas de móveis do Recife, Jonas verificou que na folha de pagamento da sua empresa havia um trabalhador ganhando o dobro do que ganhavam os demais. Ele o chamou e perguntou:

– Você é o Sr. Expedito Silva?

– Sim senhor, sou o esfria-verruma mestre.

– Sabia que seu salário está errado?

– Não. Graças ao maior líder trabalhista que já existiu na extinta Bassoural, Biu Burra Preta, que deus o tenha, hoje temos a Consolidação das Leis dos Esfria-Verrumas. Meu salário está correto.

Na mesa vizinha à de Jonas, de paletó de linho branco, sentado confortavelmente numa poltrona com braços e espaldar alto, Severino ouviu a conversa que fez seu semblante acender com um discreto sorriso, pois ouvira seu apelido ser pronunciado com orgulho por um esfria-verruma. Seus olhos marejaram pela primeira vez ao se lembrar do passado. Era o sorriso brando, calmo, sério e sincero dos justos. Sorriso que não gargalha, mas faz com que se fechem vagarosamente os olhos que miram um horizonte desenhado numa mente. Mente essa, que calmamente se deixa envolver por uma atmosfera de paz. Severino encostou a cabeça no espaldar da cadeira e levou o braço direito à cabeça, envolvendo-a. Assim, fazendo uma autêntica pose descontraída de sertanejo, pôs-se calmamente a pensar na vida.

VANRAZ

vanrazferraz@gmail.com

[1] Gala rala: esperma pouco denso. No interior de Pernambuco, diz–se de homem estéril.

[2] Navhunda também era o nome do Gabinete Presidencial de Bassouralnavhunda.

[3] Caruá: nome da fazenda situada dentro da cidade de Navhunda. Navhunda cresceu ao redor de Caruá.

[4] A idade de uma dama não pode jamais ser revelada.

[5] Aniversário da Independência do Brasil.

[6] Sentido darwiniano.

[7] Desconjuntado, desajeitado.

[8] Sem eira nem beira: pobre que não tem onde cair morto. Expressão Portuguesa que veio ao Brasil, de navio. A palavra eira significa um espaço de terra batida, lajeada ou cimentada, perto das casas, onde se limpavam e secavam cereais. Beira era o beiral da casa. Assim, quem não tem nem eira nem beira, não tem nem terra nem casa.

[9] Zoofilia é o envolvimento sexual de humanos com animais de outras especies. Um outro termo, bestialidade, se refere também ao ato sexual entre um humano e um animal não-humano. Assim como em nosso país, que podemos enquadrar esse tipo de comportamento como ofensivo e cruel contra os animais, na maioria dos países zoofilia é ilegal sob as leis de abuso animal e crueldade contra os animais. Os animais não-humanos não são capazes de consentir emocionalmente tal ato.

[10] Não era virgem.

[11] Grávida.

[12] Coiteira: quem apoia coito. Coito: cópula do macho e da fêmea.

[13] Descabaçar: perder o cabaço, perder a virgindade.

[14] Neste sentido é relação sexual. No Nordeste, “coisar” pode assumir o significado de qualquer verbo.

[15] Torar: cortar ou serrar em toras. No Nordeste também significa relação sexual.

[16] Carai é a redução linguística de caralho.

[17] Segundo estudiosos dos assuntos bíblicos, Maria Madalena nunca foi prostituta. A insensatez de religiosos machistas e inescrupulosos a caricaturou assim para diminuir sua importância no meio religioso. Penso que o sentimento e o desejo humanos de interação com algo transcendente, sobrenatural é algo que faz sentido diante da ignorância e do desconhecimento de fenômenos naturais aparentemente inexplicáveis. Entendo que a reunião de pessoas sob a liderança de uma interface homem-deus tem sido uma desgraça para a humanidade.

[18] Redução linguística de oxente, que por sua vez é a redução de “Oh, gente!”

[19] Redução linguística de: “Vou te contar”.

[20] Charles Darwin, naturalista inglês que publicou, juntamente com Wallace, a teoria da Evolução; Richard Dawkins, biólogo evolutivo e escritor britânico.

[21] Nesse contexto, significa zangar-se.

[22] CD é um disco ótico digital de armazenamento de dados. O formato foi originalmente desenvolvido com o propósito de armazenar e tocar músicas.

[23] Na cidade de Kawasaki, próxima a Tokyo, no Japão, os cidadãos inventaram o Kanamara Matsuri, ou o Festival do Pênis. É uma estranha comemoração à chegada da primavera. Um pênis gigante é carregado para um santuário de veneração.

[24] Valha-me, meu padrinho, Padre Cícero!

[25] Ferrolho não entra em buraco diferente daquele para o qual foi criado.

[26] Mitologia grega – Na tragédia de Sófocles (496-406 a.C.), Édipo matou o seu pai Laio e desposou a própria mãe, Jocasta.

[27] “Ino e vortano” é uma expressão ainda usada pelas pessoas mais velhas do interior de Pernambuco. Uma coisa “ino e vortano” = Indo e voltando: é uma coisa boa, bonita, completa de tudo. Essa expressão surgiu quando o matuto viu uma mulher passando na sua rua. Acontece que ele a viu por trás. Seus amigos afirmavam que a mulher era muito bonita. Ele apenas disse: ino, dá pra ver que a bicha é boa. Quero ver ela vortano. Quando a mulher voltou, ele comprovou que realmente ela era bonita. Então falou: a bicha é boa ino e vortano.

[28] Corpo fechado (umbanda): ter o corpo protegido da entrada de algum mal.

[29] Poeta paraibano.

[30] Poica: entenda-se, porca. Quando alguém recebe um apelido assim, alguma relação há entre o apelidado e o animal citado.

[31] Barrão, no interior do Nordeste, é um enorme porco reprodutor. Quando alguém recebe um apelido assim, alguma relação há entre o apelidado e o animal citado.

[32] Mulher que recolhe penico. No interior de Pernambuco, diz–se, pejorativamente, da empregada doméstica.

[33] Gasguita: magrela, desnutrida. Também se diz de pessoa de voz esganiçada, que tem dificuldade de falar.

[34] Mulher que procura machos.

[35] Transar com ela.

[36] O monstro do lago Ness, monstro de Loch Ness, ou também conhecido simplesmente por Nessie, é um criptídeo aquático que alegadamente foi visto no Loch Ness (Lago Ness), nas Terras Altas da Escócia. A sua existência (ou não) continua a suscitar debate entre os cépticos e os crentes, e é um dos mistérios da criptozoologia. O monstro de Loch Ness é descrito como uma espécie de serpente ou réptil marinho, semelhante ao plesiossauro, um sauropterígeo pré–histórico. Mas no dia 29 de Maio de 2003, o governo da Escócia declarou que o monstro não existe e as ideias de que ele existe não passam de fruto da imaginação.

[37] Sentido darwiniano.

[38] No melhor sentido darwiniano

[39] Multiverso: um multiverso ou multiuniverso é um conjunto de universos.

[40] Sendo prolixo, talvez isso contribua para que os poucos leitores e amigos não me acusem de prezar ou cultuar as obscenidades.

[41] Essa é a maneira mais amena que Zé Lezim, humorista paraibano, encontrou para verbalizar uma cena de cópula entre os animais humanos.

[42] Pazuzu é mais um dos muitos nomes de uma das maiores ficções criadas pelo homem, o demônio. Na mitologia suméria, Pazuzu era o rei dos demônios do vento. Se você que está lendo isso for um humano do final do século XXI, saiba que a tarefa de livrar a humanidade dessas crenças medievais tem sido duríssima. Mas se você estiver no final do século XXIII, espero que o reinado da ignorância, da intolerância, da insanidade humanas tenha acabado. Em seu lugar, desejo que a ciência reine eternamente trazendo a luz do universo a todos.

[43] Parafraseando Michel de Montaigne sobre seu amigo Étienne de la Boétie.

[44] Ferramenta de aço própria para furar madeira. Espécie de broca de marceneiro.

[45] Tigre: apelido recebido pelos negros do Rio de Janeiro do século XIX. Pela manhã começava o caminhar dos escravos levando os tonéis de merda e mijo nos ombros para despejar no mar. Parte do conteúdo desses tonéis (amônia e ureia) caía sobre a pele do escravo, manchando-a de modo que suas costas possuíam manchas semelhantes às dos tigres, daí o apelido: “os tigres.”

[46] Burra Preta, ao contrário de falsos heróis da vida real, não sabia de nada, pois era apenas um trabalhador honesto que precisava acreditar nas pessoas e na possibilidade de fazer política séria e eticamente contributiva para o país e seus cidadãos.

[47] Vivendo neste início de século dominado pela geração “mimimi” devemos ser politicamente corretos. Então a expressão “filho da puta” largamente utilizada no século passado, e que nunca causou traumas psicológicos, nem era considerada “bullyng”, agora deve ser dita assim: filho de senhora de reputação duvidosa cuja profissão ainda não é tributada. Então devemos entender que o adjetivo pejorativo “puta” pode ser dito assim: você é uma trabalhadora cujos filhos não criaram uma lei que a tribute!

[48][48] Expressão usada por Jessier Quirino em “O Matuto no Cinema”.

[49] Significado de Honesto: adj. Que se comporta ou se encontra de acordo com os preceitos éticos e socialmente aceitos: um sujeito honesto. P.ext. Que possui ou demonstra dignidade; bom caráter; honrado, digno: tem o espírito honesto. P.ext. De modo sério; com seriedade e consciência; consciencioso. P.ext. Diz-se (daquela) de quem possui comportamento moralmente sério e/ou bons costumes. Fonte: http://www.dicio.com.br/honesto/

[50]Síndrome de Tourette é um distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado por tiques múltiplos, motores ou vocais.  O tique também pode se manifestar como uma emissão involuntária de palavras ou gestos obscenos.

[51] Vassoura.

[52] São Jerônimo – eleito por deus para explicar a bíblia.

[53] Democracia – O tolo diz: acredite, não desista da política, vote e faça a diferença, pois democraticamente você mudará a realidade brasileira. Eu, ainda que idiotizado e integrante da manada, respondo: quero mudar o mundo começando por eleger você prefeito da nossa cidade. O tolo responde: não tenho essa pretensão. Eu, boi de manada que quer erguer a cabeça e enxergar o horizonte, digo: então encontre uma pessoa que queira e leve seu nome para inscrição como candidato ao cargo de prefeito. Ele diz: tem que se filiar a um partido político e depois os membros do partido vão indicar uma pessoa para ser o “cabeça de chapa”. Eu pergunto: qual a chance do nosso indicado ser esse “cabeça de chapa”? Eu mesmo respondo: zero. Essa é a nossa democracia: eu penso que escolho, quando na verdade quem escolhe é quem tem poder (financeiro) de fato para escolher. Eu apenas escolho aquele que já foi escolhido. O poder financeiro escolhe os candidatos, segundo seus interesses, e me pergunta qual deles eu escolho. Assim, numa eleição, a certeza deles (poder financeiro) é a de que cem por cento dos seus interesses serão atingidos. Quanto a mim, idiotizado e integrante da manada, terei apenas uma dúvida: que prejuízo terá a sociedade desta vez? No congresso Nacional as matérias só são votadas depois que o presidente da república tem certeza de que já comprou o número necessário de votos para que “sua” pretensão seja aprovada. Quando ele sente que vai perder uma votação, esvazia a sessão determinando que seus apaniguados se retirem para que não se atinjam o quórum mínimo. Conclusão: se os tiranos conhecessem nossa democracia, eles a aplicariam com sucesso em seus currais e governariam vitaliciamente sem nunca serem odiados, mas considerados heróis nacionais. A verdadeira democracia é o menos pior de todos os sistemas. Ocorre que no Brasil temos um falso sistema democrático.

[54] Antônio Conselheiro foi o líder espiritual do arraial de Canudos (1893–1897) ocupado por nordestinos flagelados da seca. O arraial se situava na Bahia. Conselheiro era uma espécie de messias que atraiu milhares de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém-libertos. O arraial foi destruído pelo Exército da República na chamada Guerra de Canudos em 1897.

[55] O sebastianismo teve sua origem em Portugal e surgiu da crença de que Dom Sebastião, o rei, voltaria para trazer paz e prosperidade ao povo. Ele desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, na África, enquanto comandava tropas portuguesas. Como ninguém o viu tombar ou morrer, espalhou-se a lenda de que voltaria. Explorando a fé de pessoas humildes e sofridas com a seca no Sertão, sebastianistas fanáticos religiosos com ideias socialistas levaram, só em Pernambuco, centenas de seguidores à morte por tropas legais. Foram duas tragédias que ficaram conhecidas como “A Tragédia do Rodeador” em Bonito/PE e “A Tragédia da Pedra Bonita” em Villa Bella, atualmente Serra Talhada/PE”. Uma área de Villa Bella (Serra Talhada), onde se localiza a Pedra Bonita, tornou-se Belmonte, depois Maniçoba e atualmente, São José do Belmonte.

[56] A ignorância de alguns religiosos fanáticos faz com que acreditem que um cidadão ateu só pode ser seguidor de satanás. Esquecem que o satanás (que os ateus também não creem na existência) é uma espécie de divindade maléfica inventada por eles mesmos. Ateus são pessoas que não perdem seu precioso tempo dobrando os joelhos para o vento, invocando seres imaginários.

[57] Debulhar é tirar os grãos da espiga de milho. Haja paciência para tirar fileira por fileira de grão de milho seco! Esse foi o ritmo do discurso mal feito de Burra Preta: paciente, debulhado.

[58] Pasmem! Pelo menos no interior de Pernambuco e da Paraíba, a palavra “arrombado” e a expressão “filho da puta” também podem significar elogios.

[59] Víceras, baço de boi

[60] Bronca

[61] Gerador de eletricidade inventado por Quarentinha, movido a Biu-gás.

[62] Ezequiel 23:19-20

[63] Números 31:17–18

[64] Por volta de 1922, iniciava-se em Dublin, Irlanda, um triste episódio liderado por freiras católicas. Conhecidas por “Maggies”, cerca de trinta mil mulheres adolescentes e jovens foram condenadas a escravidão com direito a abusos sexuais, violência física e psicológica. O Governo daquele país pediu desculpa pelos crimes nas lavandarias “Irmãs de Maria Madalena”. A Igreja Católica nunca fez o mesmo. Isso foi mais um epísódio vergonhoso na história da humanidade. Foram mais de 70 anos de exploração por freiras católicas. Grande número das mulheres foi mandado pelo Estado para as lavanderias onde as freiras ganhavam dinheiro com elas. Sobre esse triste episódio humano, Peter Mullen ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes (França) com o filme “As Irmãs de Maria Madalena”. Na Irlanda do Norte, houve uma lavandaria semelhante, Donegall Pass, fundada em 1839 para ajudar mulheres pobres e órfãs. Na que seria a República da Irlanda houve dez, exploradas por quatro ordens religiosas femininas. A vida nessas lavanderias católicas era um inferno. As últimas lavanderias foram fechadas em 1996.

 

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DEMAIS/DE MAIS

DE MAIS

De mais significa “a mais”. É uma locução adverbial que exprime “quantidade”. Opõe-se a “de menos”.

Com o sentido de “nada de relevante”, “nada de diferente”, o certo é “nada de mais” (separado).

Do mesmo modo, para “algo relevante” ou “algo de relevante”, usa-se “algo de mais”.

Ex.

O feijão tem sal de mais para o meu paladar.

 

DEMAIS

Demais”, em uma só palavra, significa “muito”, “exageradamente”, “em demasia”.

Demais pode ser um advérbio de intensidade com o sentido de “excessivamente”, “demasiadamente”.

Ex. Pedro come demais.

Pode também significar:

  1. além disso, de resto

Ex. Chega de papo; demais, dói-me nos nervos.

  1. os outros, os restantes

Ex. A Maria e os demais alunos não tiveram aulas.

Senão ou se não… Qual devo usar?

Veja:

Se não der para você vir, não tem problema = Caso não dê para você vir, não tem problema.

As duas orações acima têm o mesmo sentido.

Agora, observe:

O que é isso, senão uma briga?
O que é isso, caso não uma briga?
A substituição feita acima de “senão” por “caso não” foi insatisfatória, pois não ficou coerente, não tem sentido!

Logo, percebemos que “se não” e “senão” NÃO possuem o mesmo significado, uma vez que não podem ser substituídos pela mesma expressão.

Use “se não” (união da conjunção se + advérbio não) quando puder trocar por “caso não”, “quando não” ou quando a conjunção “se” for integrante e estiver introduzindo uma oração objetiva direta: Perguntei a ela se não queria dormir em minha casa.

Use “senão” quando puder substituir por “do contrário”, “de outro modo”, “caso contrário”, “porém”, “a não ser”, “mas sim”, “mas também”.

Veja alguns exemplos:

  1. a)Você tem de comer toda a comida do prato, senão é desperdício. (de outro modo)
  2. b)Se o clima estiver bom você vai, senão não vai. (do contrário)
    c)Não lhe resta outra coisa senão pedir perdão. (a não ser)
    d) Se não fosse o trânsito, não teria me atrasado. (caso não)
    e) Não fui eu se não der certo. (caso não)

 

Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

 

Traz ou trás: qual a diferença entre os dois termos?

 

Traz(com z) é uma das formas conjugadas do verbo trazer. Já a palavra trás (com “s” e acento) é um advérbio de lugar que se refere à parte posterior.

Por serem pronunciados da mesma forma, os termos trás e traz podem gerar muitas dúvidas na hora de escrever uma redação. A grande questão é: qual deles está certo? É trás ou traz? Existe alguma diferença entre os dois?

Na verdade, os dois termos estão certos e existem na língua portuguesa – cada um dentro do seu contexto específico. A diferença é que “trás” é um advérbio de lugar e “traz” é a conjugação do verbo trazer em 3ª pessoas do singular.

– Como assim?

Vamos falar de um jeito mais simples.
Trás (advérbio) 

Quando escrito com “s” e com acento se refere à parte posterior. Ele possui o significado de após e atrás. Vale lembrar que ele sempre será acompanhado por uma preposição.

Por exemplo: Agora é lei usar cinto no banco de trás.

Traz (verbo)

Quando escrito com “z” e sem acento se refere ao verbo trazer. Tem o sentido de transportar, ocasionar e conduzir.

Presente do Indicativo
Eu trago
Tu trazes
Ele traz
Nós trazemos
Vós trazeis

Por exemplo: Dinheiro não traz felicidade.

 

A MALDIÇÃO DE HAMLET

1ª edição

Copyright© 2016, by José Ivan Barbosa de Melo Ferraz

vanrazferraz@gmail.com

978-85-918622-1-4

O conteúdo desta obra é de responsabilidade do(s) Autor(es),

Proprietário(s) do(s) Direito Autoral.

Vanraz é formado em matemática, pós-graduado em direito público, técnico judiciário, artista plástico, compositor e romancista

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

_________________________

Vanraz

                        A maldição de Hamlet / Vanraz.

Recife: Vanraz, 2016.

ISBN: 978-85-918622-1-4

  1. Contadores de histórias 2. Contos 3. Sátira I. Título.

12-11703                                      CDD-869.9803

___________________________

Índices para catálogo sistemático:

  1. Contadores de histórias: sátira:

Literatura brasileira 869.9803

O segredo da felicidade está na arte de não cultivar “demônios”.

(Vanraz)

 

 Quem leu “Um Criador de Histórias” e não se sentiu horrorizado com a leitura posterior de “Um Olhar Sobre Nossas Cortinas”, mostra que possui ingredientes indispensáveis para trilhar uma vida o mais próximo possível da felicidade.

Humor, honestidade, horror ao puritanismo disfarçado e vergonha ao se deparar com outros de sua espécie que discriminam pessoas por motivos de cor, preferência sexual, crença ou descrença são os ingredientes a que me referi.

De posse de tais elementos, convido-os a ler “A Maldição de Hamlet”.

Tente imaginar, caro leitor, a quantidade de loucos que já surgiram entre nós acreditando que eram algum personagem da história mundial. Sei que foram muitos Napoleões, Joanas D’arc, Cristos, Budas e outros tantos, mas nem eu nem você sabemos determinar quantos. Se me perguntarem quantas pessoas tinham certeza de que não eram a reencarnação de ninguém, mas gostariam de viver a vida de outra pessoa, imagino que são milhões, porém, mais uma vez não consigo determinar quantos. Mas posso afirmar que pelo menos uma pessoa no mundo não apenas desejou ser, mas praticou, trilhou o caminho de Hamlet[1]. Estou falando de um sertanejo, do interior de Pernambuco[2], chamado Zeca Fulô[3].

A Maldição de Hamlet pretende mostrar até onde o sonho de uma pessoa, implementado através do poder financeiro e da persuasão, é capaz de mexer com o inconsciente coletivo fazendo uma comunidade inteira viver, como se fosse uma maldição, as experiências de personagens da ficção narrada na peça “Hamlet” de Shakespeare.

Tenham todos, uma ótima leitura.

(Vanraz)

Capítulo I

– Gertrudes, sobre esta pedra construirei meu castelo e nele reinarei! – Gritou, de cima de um lajedo, Zeca Fulô.

Um galo cantou em algum lugar. E empunhando uma velha espada da Guerra do Paraguai[4], Zeca continuou:

– Eu, Hamlet, conquistarei a minha Dinamarca!

O mesmo galo cantou mais uma vez e em seguida se ouviu o ronco de um trovão.

As palavras de Zeca se dissiparam na vasta planície do Sertão pernambucano que separa a Serra da Borborema e o Riacho dos Caçotes e só não se perderam no calor causticante de novembro de dois mil e dezesseis daquele deserto porque Gertrudes falou:

– Um galo cantou duas vezes, Zeca!

– Eu ouvi. Você também ouviu, Polônio?

– Ouvi. Isso é bastante curioso, vocês não acham? Se estamos quase no meio de um deserto; se não há sinal de chuva de onde vieram o canto desse galo e o ronco do trovão? – Perguntou Polônio, o ajudante.

– Não importa, Polônio! – Disse Gertrudes – Tenho medo só de pensar, mas isso é um agouro. Dizem que o cantar do galo sela o destino daquele que quer, de coração, mudar algo em sua vida.

Zeca Fulô levantou as mãos para o céu e falou:

– Vocês não acham que é muita coincidência eu ter me casado com uma mulher chamada Gertrudes? Ter um ajudante chamado Polônio e um irmão de nome Cláudio? Assim, eu só posso pensar que sou o próprio Hamlet, rei da Dinamarca e personagem da peça Hamlet de Willian Shakespeare!

O galo cantou mais uma vez sendo seguido por outro ronco de trovão. Parecia um efeito especial de cena de filme de maldição.

 – Zeca, você endoidou de vez, foi? Isso está me dando nos nervos!

– Endoidei, minha rainha! Estou igualzinho ao meu avô!

– O velho Ramilete?

– Não é Ramilete! É Hamlet!

– Ramilete e Hamlet, para mim, são a mesma coisa. – Disse Gertrudes – Agora, vamos embora porque estou com medo da maldição desse galo!

– Que besteira, galos cantam todo dia! – Pensou alto, Polônio.

– E todo dia o destino de alguém é selado, ou isso não é verdade? – Defendeu Gertrudes.

– A senhora tem razão. Todo dia alguém sela seu destino, após o cantar de algum galo. Mas eu não acredito nessas coisas. Galos são apenas galos e dão um bom cozido.

– Algo me diz que há um ateuzinho entre nós. – Disse Zeca Fulô – Polônio, você está cansado de saber que somos descendentes dos conquistadores portugueses: santos homens católicos apostólicos romanos. Sabe também que na tradição religiosa católica apostólica romana o galo tem papel importante. Lembra que Jesus disse que, antes que o galo cantasse duas vezes, Pedro o negaria por três vezes? Pois bem, o povo acredita que o cantar dos galos sela o destino das pessoas como selou o destino de Pedro diante dos romanos.

– Católicos apostólicos… Por causa disso, também sei que gato preto dá azar; que passar por debaixo de alguma escada dá azar; que quebrar espelho dá azar… Tudo dá azar! Isso é superstição boba! Ora, onde já se viu um galo selar o destino de uma pessoa?!

– Sela sim, seu herege! – Defendeu Gertrudes –Minha avó dizia que se você estivesse fazendo uma careta para alguém e o galo cantasse, você ficava com o rosto paralisado para sempre. Se você estirar língua para uma pessoa…

– Já sei, se o galo cantar, a língua não volta para a boca. – Concluiu Polônio – E se eu estiver com o dedo no cu na hora em que o galo cantar?

– Ai, meu deus! – Exclamou Zeca e continuou – Por onde anda a “Santíssima Inquisição”[5] que não queima no fogo santo esse filhote de belzebu?! Onde já se viu, eu, Hamlet, um cristão devoto respirando o mesmo ar que esse satanás?

– Zeca, não dê ouvidos a esse ser rude! Agora me diga: que história é essa de mudar seu nome? – Perguntou Gertrudes.

– Sim. Vá se acostumando. Meu nome agora é Hamlet.

Apontando para a barriga de Gertrudes ele disse:

– Se isso aí não for lombriga nem barriga d’água, então será mais um Hamlet na família.

– De onde você tirou essa ideia?

– Foi da história de Shakespeare, contada por meu avô! É história de reis, rainhas, príncipes e princesas! É coisa de gente graúda! Foram histórias de bons tempos que não voltam mais! Fiquei agora com saudades! É até difícil dizer o que sinto neste momento. Eu… Eu estou sentindo saudades de uma vida que nunca vivi!

– Isso foi muito poético, meu senhor! – Disse Polônio.

– Quem é esse tal de Sheiquis? – Perguntou Gertrudes.

– Não é Sheiquis, oh, santa ignorância! É Shakespeare! Ai, meu Deus, num Sertão tão grande como este eu só encontrei uma Gertrudes e esta não conhece Shakespeare!

– Ainda se banha[6]! Era bom que tivesse achado uma Gertrudes que botasse um par de chifres na sua cabeça!

O mesmo galo cantou mais uma vez. Polônio, dando altas gargalhadas, comentou maldosamente:

– Quer dizer que quando o galo canta…

– Nem mais uma palavra, ateu! – Disse Zeca. Virando-se para Gertrudes, desculpou-se:

– Perdoe-me, minha rainha, eu não queria ofendê-la. É que conhecer alguém que nunca ouviu falar de Shakespeare é para mim uma ofensa muito grande.

– Sabe Zeca, digo, Hamlet, fiquei curioso com esse tal de Shakespeare. Como é que eu faço para conhecer essa história? – Perguntou Polônio.

– Não me lembro bem de como ela se passou, mas tenho o livro. Aliás, tenho duas cópias. Vou presenteá-lo com uma delas.

Zeca Fulô, predestinado, segundo ele mesmo, a se casar com uma mulher chamada Gertrudes nem que ele tivesse que ir buscar essa mulher na Dinamarca, não aceitaria nunca mais ser chamado pelo seu nome de batismo, mas Hamlet. No entanto, nem ficou conhecido por Hamlet nem Zeca Fulô, mas Ramilete, pois as pessoas mais simples, naquele distante interior pernambucano, não sabiam escrever nem pronunciar Hamlet.

Tendo trabalhado arduamente, por vinte e sete anos, construiu um castelo de pedras batizado com o nome de Castelo Elsinor.

– Como é mesmo o nome dessa casa, Zeca? – Perguntava Gertrudes sempre que o marido se referia à construção do castelo.

– Meu nome é Hamlet e isso é um castelo. Castelo Elsinor.

Todos os recursos financeiros para a construção do castelo vinham da criação de jumentos cujo destino era a China. Zeca, ou melhor, Ramilete se tornou um magnata do ramo de exportação desse animal. Todos diziam que ele era o louco rei dos jumentos e, é claro, de todos os jumentos, ele era o maior deles.

O castelo, de tão bonito que era, virou uma atração turística e isso fazia as receitas aumentarem, pois, além de cobrar ingresso aos visitantes, cobrava também pelo aluguel das roupas e perucas. Ninguém podia permanecer ou sequer entrar, por um segundo, nas terras de Ramilete sem abrir mão de roupas, utensílios e costumes modernos.

“Dispa-se de sua existência insignificante. Vista-se com o esplendor de nossas nobres vidas. Aceite nosso costume dinamarquês tradicional e seja bem-vindo. Do contrário, sua presença aqui é indesejada”. Esses dizeres, criados por Polônio, que abraçou com unhas e dentadura postiça a ideia do patrão, ficavam na entrada que dava acesso à fazenda Nova Dinamarca onde se encontrava o já famoso castelo Elsinor.

Não havia a menor possibilidade de alguém entrar nos domínios dessa fazenda sem usar as perucas e roupas de nobres da corte, conforme suas posses ou posição social. Para as classes baixas havia as roupas de servos ou camponeses. Tudo isso era cuidadosamente e rotineiramente verificado por Polônio.

Se alguém queria falar com o velho Hamlet ou Ramilete, como o povo conhecia, tinha que marcar audiência e era recebido no salão principal onde ele, o rei dos jumentos, vestido a caráter, sentado num belíssimo trono, despachava.

Toda a ideia de viver conforme os costumes dinamarqueses do século XVI foi engendrada por Polônio, após leitura minuciosa da peça Hamlet e estudos comportamentais de pessoas que viveram naquele século. Tudo isso foi permitido por Ramilete com a aceitação tácita de Cláudio, seu irmão. Gertrudes apenas se acostumou com a ideia, pois gostava do luxo e da bajulação das pessoas que visitavam ou moravam na fazenda Nova Dinamarca e que eram tratadas como súditos.

Quanto aos moradores, aqueles que não aceitassem a vida que levavam, ou que deveriam levar, comunicariam o fato a Polônio. Em seguida, não lhes restaria outra saída senão entregar as chaves das casas. Os descontentes também abririam mão do recebimento mensal e gratuito de alimentos, materiais de limpeza e higiene pessoal; retirariam suas crianças da escola, onde elas tinham não só educação gratuita, com direito ao ensino do inglês e da língua nórdica dinamarquesa antiga, mas também alimentação, respeito e dignidade.

As regras criadas por Polônio, com a aquiescência de Ramilete, eram imutáveis, mas nunca houve quem discordasse das mesmas. Se havia alguma desavença entre os súditos, eles eram levados à presença de Ramilete que decidia tudo da maneira mais justa possível.

O Poder público municipal, estadual e federal nunca se manifestaram contra aquela ideia de reinado local, pois as regras de Polônio não extrapolavam as fronteiras da fazenda Nova Dinamarca. Além disso, todos os impostos eram pagos religiosamente.

Fora do castelo, de cima de um jegue, o rei comandava a jumentada toda. Visto assim, era figura esquisita, pois tinha uns dois metros de altura e seu jegue era um bichinho pequeno, franzino. Montado no animalzinho, seus pés arrastavam no chão.

– Lá vem um burro montado no outro – Gritou Polônio, seu ajudante, para a alegria dos peões que se divertiam com as piadas dele, principalmente se elas tinham como alvo o rei Ramilete.

– Venha aqui, Polônio! Ajude-me a desmontar – Disse Ramilete. – Segure meu elmo, meu escudo, meu gibão, minha espada e minha lança.

– Oh, meu rei, segurarei seus instrumentos de labuta!

Com ar de zombaria, Ramilete falou:

– Segure, também, o meu cipó!

– Esse cipó velho e murcho, o senhor entregue a Gertrudes. Ela sabe ressuscitar defunto.

Ramilete deu uma sonora gargalhada e, apontando para as nádegas de Polônio, disse:

– Já que você vai segurar meus instrumentos, eu vou labutar!

Com expressão de riso, Polônio respondeu:

– Tô fora, cabra safado! Aí, dentro!

E ambos sorriram à vontade.

– O dia hoje foi proveitoso, negociou bem? ­ – Perguntou Polônio.

– Hoje tudo correu bem, mas o comprador disse que nas próximas remessas os chineses só vão querer os jumentos abatidos e sem o “negocinho[7]”.

– Sem o cipó, você quer dizer?

– É.

– Por que isso, agora?

– Controle de natalidade. Dizem que quando as chinesas veem um rolo de fumo de jumento elas começam a ovular e entram logo no cio. Ficam doidas por vara. Você sabe que as chinesas não podem ver uma vara em pé que querem logo derrubar, não é?

– E o que vamos fazer com os paus dos jumentos?

– Você é que vai dizer onde eu enfio os “negócios” dos jumentos que abatermos.

– O senhor se lembra de Zé Lezin da Paraíba?

– Do compadre Zé? Claro!

– Ele disse que certa vez um fazendeiro estava vendendo um jumento por dois contos de réis[8]. Chegou um camarada e disse: dois contos está caro, mas eu dou um, “no pau”[9]! O fazendeiro respondeu: só vendo o jumento inteiro.

Ambos riram bastante com a piada.

– Então vá atrás desse camarada, pois temos milhares de paus de jumentos para vender. – Disse Ramilete.

Capítulo II

Sem que ninguém desconfiasse, Cláudio, o irmão de Zeca Fulô, nosso ilustre Ramilete, nutria um desejo incontrolável de…

– Comer Gertrudes? Você enlouqueceu? Onde já se viu querer comer a cunhada? – Perguntou Polônio ao irmão de Ramilete.

– Não consigo me controlar, Polônio! Também quero botar a mão no negócio dos jumentos!

– Botar a mão onde?! Você quer pegar as “coisas” dos jumentos?

– Estou querendo dizer que quero o comércio dos jumentos, seu maldoso! Quero deixar de ser um simples vassalo, um “Zé Ninguém”!

– Mas você não é sócio de Ramilete nesse comércio?

– Sou, Polônio, mas por mais que eu me dedique ele é que vive como um rei, deixando a parte mais humilhante para mim.

– Qual parte?

– A parte que cuida das “coisas” dos jumentos!

– Ah, tá.

– Você sabe que se me ajudar, só tem a ganhar, não é mesmo?

– Bom, você deseja a mulher e os negócios do seu irmão. Isso é confusão de família. Não quero me meter, mas fique sabendo que eu fico do lado de qualquer um de vocês.

– Você apoiaria minha revolta?

– Eu e deus sempre estamos do lado de quem vai vencer. Agora, se esses maus pensamentos estão vindo nessa sua cabeça por causa do suposto trabalho humilhante, deixe que eu cuide dos pintos dos jumentos.

– E os ovos?

– Quem cuida de pinto conhece o ofício, longe de mim esse vício, mas para evitar o fratricídio, aceito de bom grado tamanho sacrifício: cuido dos cipós dos jumentos e, de quebra, dou um jeito nos colhões do bicho.

– A solução para as rolas dos jumentos você já deu. Mas a paixão que sinto pela minha cunhada…

– Quer que eu cuide disso também?

– Você quer comer Gertrudes no meu lugar?

Polônio deu alta gargalhada e falou:

– Não, não é disso que eu estou falando!

– A resposta é “não”, Polônio. Agradeço sua ajuda, mas prefiro comê-la sozinho.

– Pois vá em frente! Coma! Agora eu quero saber como você vai cagar os ossos!

Cláudio olhou para Polônio, sem nada entender, e perguntou:

– O que é que você está dizendo?

Com ar serio de velho sábio, Polônio olhou para o céu como se estivesse refletindo sobre o sentido da vida humana na Terra e falou:

– O que falei foi pura filosofia. Macaco experto, antes de engolir uma semente testa no próprio cu.

Em seguida, antes de se retirar do recinto para se dedicar às suas atividades diária, Polônio, ainda com ar de pensador grego, aproximou-se de Cláudio, tocou seu ombro e disse com voz grave:

– A moral da história é: só coma o que puder cagar.

 

Capítulo III

Diante de uma panela de mungunzá[10] envenenado, Ramilete se confessou ao vento e, espumando e babando feito um porco, disse:

– Uma vida já não é o bastante para um homem viver! Escravo deste mundo, já velho e cansado, ele sabe que apenas sobreviveu para doar sua vida e, com isso, dar sustentáculo à coletividade a qual pertence! A vida doada é o preço a ser pago para se afirmar como membro dessa sociedade perversa, desigual e corrupta! Eu vivi duas vidas! A primeira já se foi há muito tempo. Esta, que agora se vai, é exatamente a vida que eu quis ter. Vou embora desta vida com a certeza de ter mudado muitas outras vidas. Eu dei aos que me cercam a oportunidade de também viverem uma segunda vida porque tenho certeza de que não somente eu, mas qualquer homem que chegou aqui na Terra passou sua vida inteira sendo seguido pelo fantasma da vida que realmente queria ter. Se houvesse algum tipo de justiça, divina ou humana, todos deveriam ter uma segunda chance. Com isso, qualquer homem ou qualquer mulher deste mundo pensariam, de posse de uma segunda vida, em como ser realmente felizes.

Católico fiel, devoto de Padre Cícero[11] e financiador de batina, ele ergueu os olhos para o céu e disse:

– Oh, deus misericordioso, sinto que já não há tempo!

Lamenta, lamenta e lamenta. Com dificuldades ele se ergue, põe o elmo na cabeça, testa seu equilíbrio e tenta seguir em frente, mas seus joelhos o arremessam ao chão.

Olhando pela porta da cozinha que estava aberta, mostrando um imenso quintal, ele vê uma cabeça esquelética de jumento e, mirando nas cavidades onde um dia houve olhos asininos, diz:

– O mundo fica mais pobre, triste, vazio e sem rumo com a súbita partida de um grande ser!

Suplicantes, seus olhos alcançam o céu mais uma vez e ele lança suas últimas palavras ao vento:

– Já não há mais tempo… Já não há mais tempo!

– Ramilete morreu! – Gritou Polônio ao mesmo tempo em que mandou a guarda tocar o aviso. Assim, todos puderam ouvir o som do zurrar de dezenas de jumentos: ihhhhhhh! Innn onnnnnn, inn onnnn, in onnnn, onm, onm, onm!

Capítulo IV

Alguns dias após a morte de Ramilete, em frente ao castelo…

Na hora da troca da guarda, diante do terraço do castelo Elsinor, o guarda Bernardo gritou:

– Ô de casa[12]!

Francisco respondeu:

– Ô de fora!

– Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado!

– Vim na paz do senhor, irmão!

– Atrás do senhor também, irmão!

– E aí, de dentro?

– E aí dentro também!

– Vim labutar!

– Eu boto aí também!

– Deixa de frescura, filho da puta! Viva o rei!

– Ok, Bernardo, pode entrar!

Dentro do castelo Bernardo, que tinha acabado de chegar, pergunta:

– Francisco, você não acha que a senha de entrada no castelo está muito grande, não?

– Você quer encurtá-la?

– Seria bom.

– Então a gente para quando eu disser: eu boto aí, também!

– Ainda está grande. Nossa, como é grande!

– Então a gente para quando eu disser: atrás do senhor também!

– É melhor pararmos quando eu disser: vim na paz do senhor, irmão!

– Por mim, tudo bem!

Em seguida, Francisco, ao ouvir o relinchar de um cavalo, olhou para o seu relógio e disse:

– Bernardo, você chegou bem na hora marcada!

– Orgulho-me de ser pontual. Vá dormir! – Disse Bernardo – Se você encontrar Marcelo e Horácio, aqueles dois filhos da puta que vão me render, diga que parem de tomar cana com as putas e se apressem!

– Vem vindo alguém, parece que são aqueles dois frescos! – Disse Francisco e perguntou em seguida:

Quem vem lá?

– Eu! – Disse um dos forasteiros.

Bernardo reclamou de pronto:

– Eu, uma porra! Diga logo a senha, seu cara de quenga! Diga a senha ou encho seu rabo de chumbo!

Os forasteiros responderam em coro:

– Ô de casa!

Bernardo respondeu:

– Ô de fora!

– Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado! – Respondeu Bernardo.

– Vim atrás do senhor, irmão!

– Diga a senha direito, sujeito do cão! – Reclamou Bernardo.

– Tá bom, diacho, vou dizer correto: vim na paz do senhor, irmão!

– Atrás do senhor também!

– E aí de dentro?

– E aí dentro também!

– Vim labutar!

– Eu boto em você também!

– Deixa de frescura, filho da puta! Viva o rei!

– Ok, seus dois vagabundos, podem entrar!

Francisco se despediu dos três colegas e caminhou em direção aos seus aposentos para dormir. Sua participação nesta história terminou aí. Eu poderia continuar sem dizer o que realmente aconteceu com ele e, assim como fez Shakespeare ao escrever a peça Hamlet, omitir um fato muito importante: Francisco sofreu uma descarga de cinco trilhões de volts, provocada por um relâmpago, e simplesmente se desintegrou no ar. Com isso, Shakespeare pôde economizar honorários de um ator em sua peça.

Após se acomodarem no posto da guarda, Marcelo perguntou a Bernardo:

– Então, o jumento apareceu?

– Jumento?! De qual jumento você está falando?

– Ramilete, o corno velho que morreu!

– Bom, hoje eu não vi nada!

– Horácio diz que é frescura da gente, que não existe fantasma coisíssima nenhuma. Por isso eu o trouxe aqui, hoje.

Horácio entroncha a boca para um lado e diz:

 – Isso tudo é viadagem de vocês! Num tá vendo que depois que o cabra se lasca debaixo da terra, num tem condições de voltar! Ave Maria, vocês são mesmo dois bocós[13]! A esta hora, aquele corno deve tá comendo grama pela raiz!

Dizendo isto, Horácio dá altas gargalhadas. Bernardo faz um gesto de reprovação, aponta o dedo indicador para o sorridente Horácio e diz:

– Vai brincando com essas coisas, vai! Vai vivendo com essas brincadeiras de gente safada que um dia tu tomas no caneco! Espera, espera um pouco que você vai ver a coisa!

Horácio retesou a testa, esbugalhou os olhos e disse:

– Ave Maria, isso é uma praga, é? Tá bom, eu paro de brincar! Agora conte o que você viu.

– Pois bem! – Disse Bernardo – Na noite passada, bem na hora em que o jumento Xaréu corria nas cinco patas atrás da jumenta Frodite, o sino da igreja badalava uma hora da manhã.

– Silêncio! – Gritou Marcelo – Aquela que vem correndo não é a jumenta Frodite?

Bernardo e Horácio responderam que era Frodite quem vinha correndo.

– E quem vem atrás dela – Continuou Marcelo –correndo nas cinco patas não é o jumento Xaréu?

Bernardo e Horácio responderam que era Xaréu quem vinha correndo nas quatro patas. A quinta pata era seu instrumento particular e divino do esguicho da vida no reino dos jumentos.

E olhando para igreja, Marcelo continuou sua fala com os cabelos todos arrepiados:

Ave Maria, Minha Nossa Senhora, aquele que vai tocar o sino não é mesmo o padre Nezinho Pé-de-mesa?!

Quando o padre tocou o sino informando uma hora da manhã, Bernardo apontou para um vulto negro que entrava no castelo e disse:

 – Valei-me meu padrinho padre Cícero, não é que o velho, o falecido rei dos jumentos, o velho Ramilete, apareceu de novo!

– Puta que pariu! – Gritou Horácio – Estou até agora com um dedo no cu para não cagar! O fantasma é a cara do corno velho!

Marcelo leva as mãos à cabeça e diz:

– Horácio, você, que fala melhor do que nós, pergunte o que essa alma quer!

Com ar de autoridade de pastor de igreja “peque e pague”, Horácio repreendeu o demônio que naquele momento, pensou ele, estava disfarçado de fantasma do rei Ramilete:

– Tá repreendido, em nome de Jesus, coisa ruim dos infernos! Bota as mãos pra trás, filho de uma quenga! Quem és tu que nesta hora primeira interrompe o coito de Xaréu com Frodite?! Quem és tu, oh criatura das sombras, que apareces com as vestes reais do nobre rei Ramilete?! Fala, desgraçado! Eu te ordeno! Fala, pois do contrário eu te faço engolir o cajado do rei pelo cu!

– Horácio! – Interrompeu Marcelo – Isso é jeito de falar com seu soberano? Você não está vendo que ele não gostou desse palavreado de fresco?

Bernardo, concordando com Marcelo, completou:

– O fantasma do rei desdenhou de você, Horácio. Ele olhou para os seus pés, virou o rosto feito princesa egípcia, deu as costas e foi embora.

– Uma carniça dessa – Disse Horácio – fica desdenhando de mim! Vai-te embora, corno velho!

Marcelo acrescentou:

– Horácio, antes de sair, ele mostrou as costas da mão para você, encolheu o dedo mindinho, o seu vizinho, encolheu também o dedo indicador, esticou o dedo “maior de todos” e fez assim, dizendo: vai tomar no cu, fresco safado!

– Espero que ele pegue esse dedo e enfie no cu! – Esbravejou Horácio.

Bernardo perguntou:

– Acredita agora, Horácio?!

– Ave Maria, meu pai do céu me livre dessas assombrações! Vocês tinham razão! – Respondeu Horácio – Eu dei uma de São Thomé, mas agora que eu vi com estes olhos que a terra nunca haverá de comê-los, acredito! Era mesmo o velho rei. O gibão de couro surrado era o mesmo que ele usava quando tocava a jumentada. Se ele se aproximasse mais era capaz de sentirmos seu cheiro de bode pai de chiqueiro que nunca viu água no sovaco[14]! Ainda bem que ele foi embora, pois a cada cinco palavras que dizia, quando era vivo, soltava pelo menos dois peidos.

– E eram tão fedorentos – Completou Marcelo – que ele certa vez me confessou dizendo: “Marcelo, eu tenho pena do meu jumento porque eu passo o dia inteiro peidando nas costas do bichinho”. E é cada peido fedorento que eu, o proprietário, não aguento!

– Mas ele era um grande patrão – Defendeu Bernardo.

– Isso foi um aviso! – Interrompeu Horácio. Com um semblante profético e um olhar perdido no horizonte, tal qual o de um charlatão religioso, ele continuou:

– Fim dos tempos! Coisas ruins estão para acontecer: pai contra filho, filho contra pai; assassinatos; infidelidades; pessoas enlouquecendo e se suicidando; gente arrependida pelas traições e falsidades; fomes, guerras, terremotos, maremoto, tsunamis e acidentes de trânsito; velhos quebrando o fêmur um mês antes de morrer; dengue, zica, chicungunha, microcefalias, disenterias brabas, febre tifoide, câncer, difteria…

– E o pulso ainda pulsa[15]. – Confirmou Marcelo.

– Podem parar com esse papo idiota de profeta de fim de mundo! Tudo isso que você falou sempre aconteceu, desde que o mundo é mundo!  – Gritou Bernardo – Ninguém cai mais nessas conversas bestas de palavreados evasivos! Podem desfazer esse tom de voz melodioso de quem quer impor falsas crendices e superstições tolas através do medo!

– Não fujamos do assunto principal. – Interrompeu Marcelo – O fato é que, por duas vezes seguidas, nesta mesma hora morta, o velho apareceu.

Horácio coçou a cabeça e disse:

– Continuo com a opinião de que isso é algum agouro. Coisas acontecerão, aguardem! O que você acha, Marcelo?

– Muitas coisas estranhas já estão acontecendo. – Respondeu Marcelo Parece que estão nos preparando para uma guerra. Vocês não percebem que ficamos em vigília neste castelo dia e noite? Por que o rei Cláudio, irmão do finado Ramilete, compra tanto chumbo para as espingardas soca-soca?  Alguém aqui sabe o que está acontecendo?

– Eu sei. – Respondeu Horácio – Vocês lembram que o falecido Ramilete foi desafiado pelo Forte Brás, dono da fazenda Noruega? Lembram que a regra na disputa era que quem perdesse, perdia suas terras? Lembram que tudo isso aconteceu por inveja do Forte Brás, porque Ramilete vendia mais jumentos para a China do que ele? Lembram que Ramilete, em legítima defesa, matou o Forte Brás com cento e vinte e oito facadas? Pois bem, Forte Brás Júnior anda querendo vingança. Ele quer suas terras de volta e prometeu que quem estivesse ocupando essas terras teria os ovos arrancados e enfiados na boca. Com a morte de Ramilete, Cláudio se amancebou com Gertrudes e agora domina todas as terras, inclusive as terras de Forte Brás. Pela lógica, os ovos a serem arrancados são os de Cláudio! É por isso que ele reforçou a segurança do castelo!

– Você tem razão, Horácio. – Disse Marcelo ­– Cláudio julga que está em guerra contra Forte Brás Júnior.

– Nestes tempos de guerra Ponderou Horácio – o fantasma do velho Ramilete está se comportando como os mortos de Roma antes da queda do grande Júlio Cesar. Coisas estranhas aconteceram antes do fim do Império: mortos abandonando suas sepulturas; estrelas com rabos de fogo; meninos nascendo com peias de jumentos; cobras se amamentando nos peitos das mocinhas; mulheres casadas engravidando de boto cor de rosa; pessoas fazendo acampamento dentro de baleias por três dias; anjos descabaçando[16] virgens; jumentas implorando o perdão dos seus fregueses; corno correndo atrás de urso com os colhões na mão, e… Ave Maria, chega me faltou ar! Tudo isso que acabei de dizer eram sinais mensageiros de fatos sinistros que estavam por vir! Esse fantasma também deve ser emissário de fatos sinistros futuros que acontecerão no Castelo Elsinor.

– Então, meus amigos – Completou Bernardo – se é assim, só tenho uma coisa a dizer: segura o cu que a coisa vai feder!

– Esperem, façam silêncio! – Gritou Horácio – O burro velho, profeta do fim do mundo, voltou! Vou barrar seu caminho nem que ele faça buchada[17] das minhas tripas!

Horácio pula na frente do fantasma e ordena:

– Pare, ilusão dos quintos dos infernos! Esbarre aí, espírito de porco fuçador de lama de fezes do capeta! Se além do som dos teus peidos, sabes proferir algum som humano, fala comigo, belzebu dos infernos! Fala, fedorento! Diz alguma coisa, suprassumo do intenso fedor da cadaverina! Berra, besta fera coberta de molambo e chumaço de algodão purulento!

– Horácio, você vai falar com o fantasma ou vai humilhar? – Interrompeu Marcelo – Pergunte logo o que tiver de perguntar antes que o galo cante! Todo mundo sabe que fantasmas não falam depois que o galo canta. Dê uma pressinha nisso aí!

– Foi mal, pessoal, vou fazer nova tentativa de contato.

E, virando-se para o fantasma, Horácio ordenou:

– Desembucha aí, velho safado! Se não falar eu pego o aspirador de pó para sugar até a última fumaça fantasmagórica dos teus molambos. Prenderei você num saco! Depois eu tiro você do saco e o arrasto pelos ovos!

O fantasma se vira para Marcelo e, sem dizer nada, abre os braços, estica o beiço, pende a cabeça para o lado direito e faz um gesto como se estivesse reclamando do palavreado de Horácio. Nesse momento o galo cantou e o fantasma sumiu.

– Ele ia falar quando o galo cantou! – Gritou Bernardo.

­- Eu disse a esse cabeçudo para perguntar logo, antes que o galo cantasse! – Reclamou Marcelo – Ouvi dizer que o galo acorda o deus do dia. O deus do dia, por sua vez, sai por aí com um tridente capturando os espíritos zombeteiros fujões. Para não levar uma tridentada no rabo, os espíritos errantes fogem para suas catacumbas e se enterram em cova funda senão vem o deus do dia pra empurrar na sua bunda!

Horácio olha para o céu, incorpora o espírito dos antigos atores de teatro romano e interpreta, com eloquência, sua fala em pose de gazela saltitante:

– Olhem, meninos! Vejam a alvorada vestida com seu manto de cor púrpura tecido com o mais puro e fino organdi! Olhem! Vejam os babados na cor lilás e franjas ao vento! Ela pisa mansinho no orvalho e vai subindo, subindo, subindo…

Bernardo olha estupefato para Marcelo e percebe que ele bate palminhas e se delicia com o jeito sutil e enigmático do colega. Ele se irrita e grita:

– Deixa de tua frescura, Horácio! Haja feito homem!

Horácio limpa a garganta disfarçadamente com um hamhm, hamhm e, com voz grossa de locutor de rádio AM, diz:

– Eu quis dizer que a alvorada sobe a colina do oriente. Assim, está terminada a guarda. Querem um conselho, devemos avisar a Juninho, digo, ao jovem Ramilete, filho do Ramilete morto, sobre o que aconteceu hoje, aqui.

– Então, vamos logo! – Disse Marcelo Sei onde encontrá-lo a esta hora da manhã.

Sob o olhar intrigado de Bernardo, os dois, Marcelo e Horácio, saltitantes feito duas gazelas felizes com a primavera nas estepes canadenses, foram procurar Ramilete Júnior.

Nem dois minutos se passaram e Bernardo ouviu o chamado de alguém:

– Ô de casa!

– Ô de fora! Respondeu Bernardo.

– Abra essa porra, filhote de puta!

– Albérius, deixa de putaria e diz a porra da senha, cabra safado!

Com a língua enrolada, Albérius falou:

– Eu sou dos Siqueiras de Paulo Afonso, seu filho de uma arrombada! Meu nome não é porra de Albérius, filhote de uma quenga! Eu sou Robério Siqueira, seu fresco! Abra essa desgraça ou eu quebro esse portão e chuto sua bunda aí dentro!

– Vou abrir porque se trata do conde Albérius. Se fosse outro baiano cachorro feito você, pudim de cana, malcriado, eu não abriria, não!

– Perdeu o medo de morrer foi, corno? Abre logo essa porra que eu quero mijar!

Quando Bernardo abriu o portão, deu de cara com o conde Albérius que, com a cara mais sínica do mundo, falou:

– Diz aí, tranquilidade!

– Antes de mijarem, – Disse Bernardo – você e esse fresco cu de cana, levantem a tampa do vaso sanitário, seus dois sebosos! Aqui não tem empregada doméstica, não!

Soprando bafo de cachaça na cara de Bernardo, o conde Albérius falou:

– Tá faltando alguma coisa? Deixe comigo, pois comigo é tudo organizado!

– Deixa de papo furado e entra logo! Da próxima vez que você não disser a senha completa, vai dormir lá fora! E esse pinguço[18] que você traz amarrado pelo pescoço?

O conde colocou o braço envolta do pescoço de Bernardo e falou:

– “Deixe de calma” [19], autoridade! Esse defunto é assunto meu! Meu rei morreu de forma estranha e esse caboclo vai morrer para fazer companhia a ele no céu! Tô só esperando o momento certo pra sangrar esse condenado!

Com a voz arrastada de tanto tomar cana com o conde Albérius, o pinguço falou:

– O Conde tem razão! Alguém tem que morrer! Só de pensar naquele homem, tenho vontade de chorar! Oh, meu deus, um homem tão bom foi morrer assim, na flor da idade! Era mesmo que um pai, para mim!

Bernardo olhou para aquela figura bêbada que chorava a morte do rei com um cabresto de jumento no pescoço e falou:

– Que coisa desumana, Conde Albérius! Quem já viu alguém sair por aí arrastando pelo pescoço, como se fosse uma cabra, um ser humano? E ainda por cima, com a promessa de matar o infeliz na primeira oportunidade!

– Homi[20], pelo amor de padre Cícero! – Defendeu o pinguço – Deixe quieto! Eu mereço! Como vai, vai bem! É melhor ser amarrado pelo pescoço do que pelos ovos, como ele costumava fazer com suas vítimas na Bahia!

– Vou meter uma bala bem no meio da testa desse diabo. – Disse Albérius.

– Homi, uma bala é muito cara! – Disse o pinguço – Para que desperdiçar o dinheiro de uma bala com quem não vale um tostão furado, meu companheiro? Deixe quieto! Guarde essa bala para um homem de vergonha!

– Vamos simbora[21], diabo! – Disse Albérius – Agora, vamos comer tira-gosto de “mão de vaca” [22] com cana de cabeça no boteco do conde Julius.

– Só se for agora! Gritou o pinguço.

Ao passar por Bernardo, o pinguço o olhou, abriu um sorriso largo, fez sinal de positivo e disse:

– Deixe de calma, autoridade! Como vai, vai bem! Ê boi! Segura, menino! Eita, vidinha de primeira sem segunda! Oh, diacho!

 Bernardo cumpriu sua jornada de trabalho sem maiores problemas. Assim, recolheu suas ferramentas e foi embora. No caminho que separa o castelo da casa de Bernardo, ele se deparou com um leão africano que devorou uma de suas pernas. Enquanto era devorado, prometeu a São Longuinho que se ele intercedesse junto a deus e salvasse sua vida ele daria três pulinhos de Saci-Pererê. O leão fugiu com a perna do nosso herói e, após Bernardo fazer um torniquete, o milagre aconteceu e sua hemorragia foi estancada milagrosamente. Andando em uma perna só, ele passou três dias perdido no deserto. No final do terceiro dia ele implorou a deus para não morrer e, após algumas orações, encontrou um caçador. Ele olhou para o céu e afirmou que aquilo só podia ser um milagre. O caçador o reconheceu e disse que sabia como deixá-lo em sua casa em apenas uma hora, mas tendo sido picado por uma cobra, pouco lhe restava de vida. Antes de morrer, o caçador apontou a direção da casa de Bernardo e disse que para chegar lá ele teria que passar por um rio cheio de crocodilos. Mesmo sabendo que sua segunda perna corria risco de virar almoço, Bernardo não desanimou e, diante do rio, passou três horas rezando e pedindo proteção a deus para atravessar ileso. Por fim, pulou no rio e, enquanto nadava, era seguido por crocodilos que disputavam a preferência de saboreá-lo. Nadando com apenas uma perna, só um milagre faria com que ele conseguisse realizar aquela proeza. Na confusão crocodiliana, ele chegou à margem e rezou agradecendo o milagre de ter perdido apenas um braço. Andou, digo, pulou por mais trinta minutos e avistou sua casa. Não se conteve ao ver seu lar e, na frente dele, sua esposa desesperada abrindo os braços para recebê-lo. Pulando com um braço aberto na direção da esposa, ele gritou:

– Meu deus é realmente grande! Meu amor, deus fez um milagre em mim! Faremos um culto para…

 Ele não conseguiu terminar a frase, pois se encontrou de frente com a chifrada de um touro bravo. Bernardo não sabia que naquele momento em que vira Marcelo e Horácio, ambos saltitando felizes em direção ao encontro com Ramilete, aquela seria sua última aparição na peça de Shakespeare.

 

Capítulo V

Havia alguns anos desde que Robério, o Conde Albérius, tinha aparecido no castelo Elsinor, montado nos quartos do jumento Xaréu, carregando uma espingarda soca-soca e uma velha garrucha[23]. Ninguém sabia de sua real intenção: matar Ramilete.

Uma vez que era matador profissional, honesto e respeitador do código de honra dos pistoleiros, até hoje ninguém soube quem havia encomendado tal serviço, mas ele deixava a certeza de que a raiva que sentia de Ramilete era por causa da matança dos jumentos para exportação da carne para a China. Era comum, antes de encher a cara de cana num boteco, ele fazer discursos acalorados em defesa do animal e prometer vingança aos assassinos do ser que levou nas costas o menino Jesus.

Disfarçado de fotógrafo, usando uma antiga máquina fotográfica lambe lambe[24] com uma espingarda escondida dentro dela, Robério preparou Ramilete para sua última fotografia. Pelo orifício fotográfico ele preparou a mira, enquadrando bem na testa de Ramilete, armou o cão, colocou a espoleta, apertou o gatilho e eles ouviram um barulhinho seco: tac! O tiro falhou.

Ramilete se assustou e perguntou:

– Está pronta a fotografia?

– Vamos tirar outra foto só por garantia. – Respondeu Robério. Em seguida ele afastou o cão, retirou o duto condutor de fogo da espingarda e encheu a câmara de combustão com pólvora. Socou bastante e colocou, ainda mais, uma quantidade exagerada de pólvora. Recolocou o duto condutor de fogo, pôs uma nova espoleta, fez a mira bem certinha e disse:

– Atenção, vou apertar o gatilho, digo, vou disparar a máquina!

Nesse momento, Polônio entrou trazendo duas garrafas de cachaça e tira-gosto de frango à passarinha.

– Desculpem interrompê-los, mas está na hora do lanche do rei. Seo[25] Robério, digo, Conde Albérius, sirva-se à vontade!

“Conde Albérius, uma porra! Você vai conhecer já, já o baiano Robério Siqueira, seu filho de uma égua”! – Pensou Robério.

– Espero que tenha gostado das roupas apropriadas que o senhor está vestindo e do nome que escolhi para você. – Disse Polônio.

Polônio não encontrou na lista de nomes dinamarqueses nenhum paralelo com o nome Robério. Assim, ele mesmo resolveu que Robério seria o Conde Albérius.

– Vamos conde, – Disse Polônio – experimente nossa cana de cabeça!

– Não bebo quando estou em serviço. Já que você está aqui, junte-se ao rei Ramilete para uma foto de lembrança.

Polônio se juntou ao rei para sair na foto.

– Muito bem, agora façam o “V” da vitória, digam “xis” e vão para o inf…

Albérius puxou o gatilho e o que eles ouviram em seguida foi uma sonora explosão. O tiro saiu literalmente pela culatra arremessando o Conde Albérius três metros para trás e deixando o rosto dele todo tostado e cheio de fuligem. Com a explosão, a espingarda partiu para cima de Ramilete e Polônio feito um míssil numa velocidade impressionante. Ela passou entre os dois quebrando uma vidraça e desaparecendo como um cometa na noite sertaneja. Há quem diga que a máquina do Conde entrou em órbita e está até hoje dando voltas em torno da Terra.

– Conde Albérius, o que aconteceu?! – Perguntou Polônio.

– Estou me tremendo todo – Disse o Conde – Bote uma meiota[26] de cana pra mim!

Quando eles tomaram o último gole de cachaça, Albérius falou chorando:

– Ô desgraça de cana boa! Isso me faz lembrar do finado Renatus, companheiro de pileque! Oh, meu deus, que triste fim ele teve! Nos braços de sua mamãe querida, momentos antes de morrer, depois de passar dois meses substituindo água e as três refeições diárias por cachaça, ele começou a ter convulsões. No seu último suspiro ele perguntou: “Mãe, no céu tem cana? ”. E morreu.

– Foi uma história muito triste. – Disse Ramilete.

– Meu rei, eu sou um imprestável! – Disse Albérius – Eu quase o matei! Mas fique sabendo que, de hoje em diante, é meu padrinho padre Cícero no céu e o senhor na terra! Ô Jesus, dai-me força, Jesus! Quase matei esse homem santo! Ô cachaça boa da porra!

Depois desse dia, nas poucas horas em que Albérius estava sóbrio ele planejava o assassinato do rei Ramilete. No restante das horas, bêbado, ele desmanchava tudo e virava o mais feroz defensor do rei.

Conta-se que o conde Albérius certa vez foi contratado para executar um serviço extra. Ele recebeu um bilhete com a seguinte informação: “Matar Chico Cancão. Pagamento adiantado. Dois contos de réis”.

Albérius respondeu: “Não mato por correspondência. Soque seus dois contos no cu”.

No outro dia apareceu um cidadão na casa de Albérius e se apresentou dizendo que era a pessoa que havia mandado o bilhete no dia anterior. Albérius olhou para o camarada e disse:

– Não mato por carta. Mato na cara. E se quiser eu arranco tripas, bofes e coração para provar! Quer a orelha dele?

– Não, Seo Albérius! Não precisa tanta judiação, não! Basta uma morte matada sem muita dor, num sabe? Dessas mortes bem morridas, mas sem crueldade. Nem precisa estragar muito a cara do desgraçado, num sabe? É pra viúva e os filhos do finado não sofrerem muito.

 – Vou logo lhe dizendo umas coisinhas: não mato idosos nem mulheres; não mato criança nem jumento! Criança eu não mato porque isso é pecado que a gente não paga nem indo pro inferno com tripa e tudo; jumento eu não mato porque foi ele que carregou Nosso Senhor Jesus Cristo fugindo da matança dos romanos. Ainda hoje o jumento traz a marca, nas costas, do mijo santo de Nosso Senhor. Também não gosto de matar padre. Se precisar eu mato, mas dizer que eu gosto, eu não gosto, não! Dá um azar tão infeliz! Sacristão e pastor eu até mato, mas não me peça para matar um jumento. Aí você vira meu inimigo! Casa que tem a imagem de Padre Cícero eu não arrombo e só entro se for para rezar. Não mato quengas nem mulheres gaieras porque toda quenga é protegida pela minha santinha, Maria Madalena, e todo par de chifres tem um corno que o merece! Para finalizar, só mato homem que me faz raiva!

– Ave Maria, tá difícil de lhe contratar! Chico Cancão já lhe fez raiva?

– Não.

– E como é que o senhor vai aceitar minha encomenda de mandá-lo pro além?

– Basta você contar o que ele fez. Aí eu vou escutando e pegando ar feito pneu de trator, num sabe?

– Pegando ar?

– Sim, meu camarada! Eu vou inchando de raiva feito sapo cururu, num sabe?

– Ah, tá!

– O que foi que ele fez?

– Peguei ele na cama com minha mulher.

– Hum… Isso não me deu raiva, não. Ele deu porrada nela?

– Deu.

– Ah, filho de uma puta! Bateu numa mulher casada! Vou arrancar os ovos dele! Diga mais, diga mais! Ela chorou?

– Não. Foi a desgraçada que pediu para apanhar. Eu estou revoltado com uma coisa dessa! Logo eu, que nunca bati nela nem com um chumaço de algodão!

– Perdi a raiva. Tô começando a ter raiva de você! Ele fez a caridade que você nunca fez a sua mulher! Ela gosta de levar pau e porrada! Tá explicado, homi de deus! Acabe com essa frouxura e aceite a gaia[27] que levou! Triste do touro que não aceita as bênçãos de uma vaca, e triste é o corno que não reconhece seu lugar! Isso é choramingo de cornice mal curada!

– Mas ele andou nu pela minha casa!

– Se sua filhinha viu aquele safado nu com as “coisas” arrastando pelo chão, aí não tem jeito! Aí eu pego ar e faço ele engolir as “coisas”! Olhe, eu já estou todo me tremendo de raiva e me coçando feito porco só de pensar na figura desse pedófilo!

– Mas eu nem tenho filho nem filha, mestre Albérius!

– Como é que um homem nessa idade não tem um filho?! Ave Maria, parece que é brocha! Desse jeito eu não pego ar nem pra dar um susto nesse urso que andou acunhando na sua mulher!

Todo triste e choroso, o contratador teve a ideia de criar um argumento infalível para convencer o Conde de que o Chico Cancão deveria morrer:

– É… – Esse “É” foi bem longo – Se tivesse ao menos consertado a imagem de padre Cícero que ele quebrou…

– O quê? Você tá me dizendo que aquele ateuzinho do diabo arrebentou meu padrinho, Pade Cíço? Satanás dos infernos! Ele me paga! Defuntarei, hoje mesmo, esse lúcifer!

Albérius passou uma semana montando acampamento perto das terras de Chico Cancão. Quando estava quase pronto o cerco para pegá-lo, o contratador apareceu e disse:

– Seo Albérius, pode parar com a tocaia. Desisti da avença. Chico Cancão devolveu minha mulher.

– Isso não é da minha conta! Gaia botada pode até ser tirada, mas o espancamento do meu padrinho, Pade Ciço, não se tira! E depois que eu pego ar com um sujeito, só volto ao normal quando eu arranco a cabeça dele e enfio no topo de uma vara!

– Não precisa mais fazer o serviço!

– Vá embora! Faltam dez minutos para Chico aparecer ali, perto da entrada da fazenda. Vou dar um tiro bem no meio dos chifres dele!

– Olhe, pode ficar com os dois contos de réis. Mas não precisa mais matar o infeliz!

– De jeito nenhum! Ninguém desmoraliza Pade Cíço[28] e fica vivo para contar a história!

– Mas foi um acidente! Ele só queria correr de mim e bateu, sem querer, na imagem de meu padrinho!

– Mesmo assim, ele feriu o padre! Vai morrer já, já!

– Mas só quebrou um dedinho do santo padre!

– Ai, meu Deus, isso doeu em mim! Pobre do meu padrinho! Como vai abençoar os pecadores, como eu, se tá faltando um dedinho! Ai, que ódio! Antes de matar esse desgraçado eu vou arrancar todos os dedos dele!

– Mas mestre Albérius! O dedinho já sarou! Eu mesmo consertei!

– Já sarou? Você consertou?

– Consertei!

– Mas ainda tô com raiva! Mato esse filho do capeta ainda hoje!

– Então faça uma coisa: dê só uma coça[29] nesse traidor e tá tudo certo!

– Uma camada de pau no lombo daquele amaldiçoado até que seria justo! Afinal, foi só um dedinho quebrado! Mas o senhor me deu dois contos! Tome um conto de volta porque se eu der uma surra de dois contos naquele miserável, ele nunca mais se levanta do chão! Vou dar uma surra de um conto tão bem dada que toda vez que ele se lembrar disso vai cagar um osso!

Capítulo VI

Na sala de jantar do castelo Elsinor estavam presentes o novo rei dos jumentos (Cláudio, irmão traíra do velho Ramilete), Hamlet Júnior e sua mãe Gertrudes (a quenga do novo rei), Laertes e seu pai Polônio, Voltimando, o corno Cornélio, alguns cavalheiros, vários cortesãos e meia dúzia de babões.

Terminado o café da manhã, onde foram servidos arroz de tatu, tatu cozido, tatu assado e tatu ao molho de tomates com farofa de tatu, o rei limpou a boca com a toalha da mesa e ergueu um brinde aos convidados em cuias de cascos de tatu.

O novo rei, sedento de desejos de possuir Gertrudes com o consentimento dos súditos, pois sem o consentimento ele já havia consumido a vagabunda, apressou-se em divulgar seu casamento:

– A morte do meu irmão, Ramilete, ainda está sendo comemorada, digo, ainda está fresca. Seus ossos ainda contêm um pouco de gordura presa na carne inchada e pútrida onde os vermes se deliciam! Logo mais, seu corpo será devorado também pelas baratas, larvas de insetos, alguns roedores e toda sorte de vermes. Uma coisa que muitos que estão aqui nem imaginam é que tatus também comem defunto.

Houve um burburinho à mesa seguido de alguns argh, argh, ânsias de vômito nos convidados e expressões faciais de reprovação e nojo, mas logo que o rei reiniciou sua fala todos se calaram.

– Embora o decoro recomende luto, – Disse o rei – nossos desejos, digo, a razão se opõe ao fingimento. Esqueçam isso que eu disse. O que eu quero mesmo dizer é que a razão se opõe ao sofrimento pela perda do meu valoroso irmão. Por isso, devemos pensar em nós e nas razões para estarmos vivos. Quem morreu, morreu e nada se pode fazer! Sem mais lenga-lenga, encerro este discurso dizendo que vamos nos acasalar, digo, casar ainda hoje. Eu e Gertrudes, é claro. Tenho outra coisa a dizer: Forte Brás, aquele fedelho, reivindica as terras que seu pai perdeu para o corno velho, digo, meu velho irmão, Ramilete. Todos os dias esse putinho manda recados para mim. Polônio, leia o recado de hoje.

– Sim, valoroso rei. Farei isso com o maior prazer. Aqui diz: “Caguei na sua porta hoje de manhã. Devolva minhas terras e eu mando limpar sua porta. kkkkkkkkkkkkkkkk”.

– Está claro que esse sacana quer briga – Disse o rei – Assim, convoco Voltimando e o corno Cornélio para irem em missão de paz conversar com o tio de Forte Brás. Talvez o velho consiga frear esse filho da puta!

– Tudo faremos, meu rei – Disse Cornélio – Tudo faremos para livrar nosso rei dessa desgraça.

– Tudo, tudo, quase tudo ou nem tudo? – Perguntou Ramilete Júnior. E Voltimando respondeu:

– Tudo, meu senhor.

– E se o velho, tio de Forte Brás, pedir-lhe a esposa em troca desse favor? – Insistiu Ramilete Júnior.

Cornélio deu um passo à frente, estufou o peito e disse:

– Por Sua Majestade, cedo minha mulher, pois daremos tudo que ele quiser!

– Tudo, tudo mesmo? – Perguntou o incrédulo Ramilete Júnior e obteve como resposta um “tudo” bem sonoro.

– Farei uma última pergunta. Veremos se vocês darão tudo mesmo.

– Faça, meu príncipe! – Respondeu o corno Cornélio.

– Se o velho lhe pedir o anel…

– Basta, Ramilete! – Interrompeu o rei.

– Meu rei, uma pergunta do príncipe não pode ficar sem resposta. – Atalhou Voltimando – Cornélio falou tá falado e mesmo que eu caia em casa de marimbondo, pra salvar este reino, cedo até o meu redondo.

– Eu ia perguntar sobre seu anel de formatura – Disse Ramilete – pois sendo presente do rei, é o bem mais precioso que você tem. Quanto ao anel de couro…

– Cale-se, Ramilete! – Gritou o rei.

Quebrando o silêncio constrangedor que se fez, o rei perguntou a Laertes:

– O que o traz aqui?

– Vou à França.

– E o que é que eu tenho a ver com isso?

– Tem tudo a ver, meu senhor – Respondeu o pai de Laertes, Polônio.

– Continue, Polônio – Disse o rei.

– Aproveitaremos a viagem do meu filho para oferecer aos franceses as “coisas” dos jumentos, já que os chineses não querem.

– Bem pensado, Polônio.

Virando-se para Ramilete, o rei falou:

 – E você, meu filho…

– Meu filho, não! Sou seu sobrinho!

– Como você tem tanta certeza assim? – Perguntou o rei.

Um silêncio sepulcral se fez no recinto. Gertrudes ficou vermelha de vergonha; Polônio e todos os convidados deixaram o queixo cair, mas foi quando Ramilete pegou no cabo de sua faca gaúcha que o rei quebrou o silêncio dizendo:

– Peguei vocês, brincadeirinha!

Gertrudes não respirava há quase um minuto. Aliviada, todos ouviram seu suspiro. Ela olhou para Ramilete e disse:

– Filho, não vê que o rei só quer ser seu amiguinho? Pare de botar chifre na cabeça do jumento velho. A morte do seu pai, espumando feito cachorro raivoso, foi normal. Tudo que vive pode, de repente, botar espuma por todos os buracos e morrer de congestão.

– Tem razão, senhora, foi uma morte comum. – Respondeu Ramilete.

– Foi tanta espuma que parecia que ele tinha comido uma caixa de detergente verde. – Completou Polônio – No caminho, por onde o caixão passou rumo ao cemitério, seu pai deixou um rastro de espuma do tamanho de um trem. Era o padre rezando e a espuma saindo da boca dele. Foi tanta espuma que o coveiro olhou para mim e perguntou: “Vou enterrar um homem ou uma barra de sabão?”.

O rei deu uma gargalhada e disse:

– Ramilete, meu filho, não escute as palavras desse ser rude. Polônio é exagerado. Vamos, solte sua dor. Não reprima suas lágrimas.

– Eu não sou seu filho, já disse! Eu não tenho certeza, mas eu não sou seu filho! Não sairei por aí chorando feito uma gazela louca desvairada! Eu vou chorar minha dor como um homem crescido que sou até que se cumpra o que vou lhe dizer: tudo que é vivo morre! Mais cedo ou mais tarde, tudo que é vivo morre!

– Senti um frio na espinha.  – Disse o Rei – Até parece que você está me agourando. Nunca se esqueça de que a morte natural do seu pai foi muito natural. Você não é o primeiro filho neste mundo que perde seu pai. Todos tivemos um pai que morreu. Você teve um pai que morreu. Seu pai teve um pai, que também era meu pai, que morreu. E o pai do seu pai teve um pai que morreu. E o pai do pai do seu pai teve um pai que morreu. E o pai do pai do pai do seu pai teve um pai que morreu. E o pai…

– Já entendi! – Interrompeu Ramilete.

– Se entendeu, então por que tanta mágoa, tanta dor, tanto luto? Além do mais, foi só uma espumazinha besta.

– Não foi, não! – Interrompeu Polônio – Não foi uma espumazinha besta, não! Ainda ontem os meninos estavam brincando de fazer bolinha de sabão com ela!

O rei deu um sorrisinho de menino amarelo e dispersou os convidados encerrando a reunião:

– Agora vamos todos para os nossos aposentos. Quero dizer que cada um vá para o seu aposento. Dormirei um pouco. Gertrudes, venha comigo. Estão subindo umas coisas. É melhor se apressar antes que as coisas caiam e desapareçam.

Ficando sozinho, Ramilete falou aos quatro ventos desabafando sua dor:

– Oh, deus meu, como tenho vontade de tirar minha vida e libertar deste corpo a alma que sofre! Oh, sentimento de pecado que me consome a alma! O que mais tenho que passar nesta vida? Responde, meu deus! Por que não responde? Por que não responde pelo menos uma entre milhares de perguntas que tenho feito? Quem nasceu primeiro, o ovo, a galinha ou a canja? De onde vem a luz anal do vagalume? Responde, oh impostor! Por que só escutas os loucos? Por que as mente sãs não te ouvem, não te veem?

Depois de levar as mãos à cabeça ele se ergue e diz:

– Chega, não mais perderei meu tempo falando com as paredes! Saiba, quem quiser saber, que ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, nada temerei! Nem a ti temerei, oh imaginário ser do bem ou do mal! Escutem os que tiverem ouvidos para escutar: não temo nem o céu nem o inferno nem deuses nem diabos! Meu pai, o único ser capaz de me guiar na escuridão deste mundo, foi-se para sempre nas sombras de uma noite que não tem fim! E a minha mãe, aquela que me deu a luz que me ilumina, agora me cega de vergonha! Aquela que era minha doce mãe, cujos seios me amamentaram, hoje permite, tal qual uma vagabunda, que um vira-lata do rabo fino transforme esses mesmos seios em almofadas de puteiro! O marido nem esfriou no túmulo e ela já se entrega nos braços da luxúria, putaria e safadeza com esse bastardo que se intitula meu pai! A ter um pai como esse, prefiro o fogo ardente do inferno! Digo isso sem sentir o menor medo de ser perfurado, na mansão do Pé de Bode, por cinco milhões de tridentes em brasa! Oh, sensualidade pecaminosa, teu nome é mulher! Nem gastou o primeiro solado do sapato com que acompanhou o enterro do meu pai e já participa de orgia com esse boi tatá dos infernos! Uma cachorra, a quem falta o sentido da razão, teria chorado um pouco mais! Oh, vadia sem escrúpulos! Que pressa infame de dar ao primeiro macho que aparece! Ahrg, cachorra da moléstia, cadela no cio, vaca despudorada e amancebada com um jumento! Por que simplesmente não usou um cinto de castidade e jogou a chave no mar? Um brinquedo de borracha faria o mesmo efeito, oh infame tara! Mas, de todos os métodos existentes para curar o cio que faz arder as entranhas da minha mãe, tenho certeza de que um simples banho gelado para esfriar a…

– Encontrei você, nobre amigo! – Disse Horácio.

– Horácio e Marcelo, que bom vê-los neste momento tão infeliz para mim! O que fazem aqui?

– A inclinação à viadagem nos atrai, digo, a inclinação à vadiagem nos traz aqui.

– Ah, isso não é verdade! Todos sabem que vocês são viados, e não, vadios! Enganei-me, peço perdão! Eu queria dizer que todos sabem que vocês não são vadios. O que traz vocês aqui, afinal?

De repente eles se assustam com os gritos de Gertrudes que vêm de um dos cômodos: “Oh, my god! Oh, my god! Ohhhhhhhh! Ohhhhhhh! Fuck me! Fuck me! Ohhhhhh! Uiiiiiiiiiiiiiiiii! Oh, meu deus”!

– Valei-me, padre Cícero! Isso sim é que é sofrer a dor de perder um marido! – Exclamou Horácio – Vamos, Marcelo, precisamos ajudar a enxugar as lágrimas da mãe do ilustre amigo!

Ramilete murchou os lábios e disse:

– Se vão enxugar alguma coisa, levem uma toalha, uma bacia com água e meia barra de sabão.

– Que mal lhe pergunte, caro príncipe, para que servem tais materiais numa hora desta?

– Qualquer prostituta do interior de Pernambuco saberia lhe responder com precisão. Mas deixemos de lado os prolegômenos, as putarias e vamos direto ao assunto. O que vieram fazer aqui, adoráveis amigos?

– Assistir aos funerais do velho. – Disse Marcelo.

– Lamento dizer que chegaram tarde para isso. Mas se quiserem ficar por mais dois minutos, lavarão a cueca suja do meu tio, as calçolas e os lençóis manchados da minha mãe.

– Não se preocupe com isso, meu príncipe, a camareira do motel fará isso por nós.

– Oh, amigos queridos, isso dói na alma! O fantasma do meu pai ainda deve estar cavalgando pelas pradarias eternas! Enquanto isso, minha mãe cavalga em cima de uma…

– Ramilete, eu vi seu pai! – Interrompeu Horácio.

– Viu quem?

– Vi o corno velho, digo, o velho rei Ramilete.

– Viu quem?

– Vi o jumento velho com estes olhos que a terra nunca haverá de comê-los! Agora, escute bem!

– Sou todo ouvidos! Como ele era?

– Era um belo rei!

– Belo? Não, não era meu pai.

– Um jumento estava montado nele, digo, ele estava montado num jumento!

– Ainda assim, não era meu pai.

– Tinha a cabeça achatada e grande.

– Parece com meu pai, mas ainda acho que não era meu pai.

– Usava o mesmo gibão sujo, surrado e soltava peidos que fediam mais que carniça recusada por urubus!

– Ainda acho que não era ele.

– Disse que passou a vida feito corno cebola: levando gaia e chorando.

– Não, isso quase me convenceu, mas não era ele.

– Mandou lhe entregar a identidade, o CPF, o título de eleitor, duas contas de água e luz para pagar e a fotografia. Veja aqui. É ou não é o corno velho?

– Ser ou não ser, eis a questão! Fico com a primeira opção: “ser”! Neste caso, aceito a ideia de que era meu pai. Pai falou alguma coisa?

– Ele disse: cave minha sepultura e veja se está nascendo um par de chifres. Ele ia dizer outra coisa, mas o galo cantou e…

– Todo mundo sabe – Interrompeu Ramilete – que o galo acorda o deus do dia. O deus do dia, por sua vez, sai por aí com um tridente capturando os espíritos zombeteiros fujões. Para não levar uma tridentada no rabo, os espíritos errantes fogem para suas catacumbas e se enterram em cova funda se não vem o deus do dia para empurrar na sua…

– Foi isso mesmo que aconteceu! – Confirmou Horácio.

– Preciso ver isso! – Exclamou Ramilete – Ficarei de guarda com vocês hoje à noite.

– Será uma honra para nós, meu senhor.

– Se ele aparecer e for mesmo meu velho pai, mesmo que eu seja condenado ao inferno, falarei com ele! Falarei nem que deus, com seu ciúme, sua vaidade, frieza, arrogância, estupidez e fraqueza, lance também minha alma às profundezas do inferno! À meia-noite estarei com vocês! Mantenham segredo sobre isso e aguardem-me.

Sob o olhar intrigado de Ramilete, os dois, Marcelo e Horácio, saltitantes feito duas gazelas felizes com o verão nas estepes canadenses, voltaram para o posto de guarda do castelo.

Capítulo VII

Na casa de polônio, Laertes se prepara para viajar levando uma carga de “coisas” de jumentos para a França. Enquanto isso, em um dos cômodos da casa, nua, Ofélia veste vagarosamente sua meia calça. De corpo moreno escultural, a virgem se veste para se despedir do irmão. O vestido desliza suavemente pelo seu corpo enquanto uma brisa gelada que entra pela janela faz os pelos do bumbum bem desenhado arrepiarem. Os bicos dos seios perfeitos intumesceram com o frio e ela envolveu seu corpo com os braços, atritando as mãos aos ombros, buscando aquecer-se. Arruma os cabelos longos, castanhos e levemente cacheados, descobrindo os ombros delicados. Pinta os lábios com um batom suave, cor de pele, enquanto o espelho estremece de prazer ao ver o mais puro, lindo e honesto rosto de mulher. Um rosto nunca tocado por mãos sujas de machos cujos comportamentos lascivos os tornam indignos de estarem no mesmo ambiente que ela. Após a pintura, suspira e se imagina nos braços do amado Ramilete. Qualquer homem de verdade se sentiria o mais sortudo e mais poderoso que qualquer deus já criado pelos homens se apenas merecesse, por um segundo, o olhar de Ofélia. No entanto, Ramilete, jovem inexperiente e donzelo, apaixonado por ela, agia da mesma forma como agem os potros jovens no cio que necessitam de ajuda do vaqueiro para a introdução da “coisa” na “coisa” da égua. Sem a ajuda do vaqueiro, é capaz de o potro enfiar aquela “coisa” no ouvido da coitada da égua. Mas, fazer o que? Quis a natureza que uma fêmea daquela magnitude, como é o caso de Ofélia, se apaixonasse por um imaturo.

– Ofélia, querida, não posso esperar para sempre! Minha carruagem vai partir!

– Estou indo, irmão!

Ofélia chega à sala e encontra o irmão. Ele a observa de cima a baixo e diz:

– Farei sarapatel do fígado do primeiro porco que tocar esse corpo. Você está linda, como sempre, irmã!

Ele a abraça e na despedida diz:

– Não se esqueça de me mandar notícias. Quanto a Ramilete, aquele mané[30], e os encantamentos de suas atenções, aceite isso apenas como algo passageiro.

– Não mais que isso?

– Não mais. Ele é apenas um mamão, um pau mandado, mas ainda é rico e nobre. Você é apenas uma linda filha de um servo. Ramilete, certamente, vai fazer a vontade do tio, para o bem dos negócios da família. Ele jamais terá vontade própria. Cuide-se. Quando aquele mané diz que te ama está apenas desejando que você facilite e ele a derrube numa cama.

– Não sei se ele é capaz, irmão.

– Não duvide, irmã, até um cego consegue. Vai tateando, tateando… Assim, pense bem e defenda sua honra. Se abrir as pernas ele pega você com dificuldade, mas pega. Cuidado, irmã! A donzela mais casta não é bastante casta se retira a casca e seu corpo gasta, oferecendo sua…

– Sua rima não parece muita boa, dileto irmão. –Interrompeu Ofélia.

– Foi mal. Eu quis dizer que não desnude seu corpo para um cachorro se satisfazer à luz da lua. Nunca esqueça que batatinha quando nasce esparrama pelo chão e as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.

– Não entendi essa última frase, amado irmão.

– Eu quis dizer que colchão e travesseiros de pena de ganso, esparramados pelo chão, costumam presenciar o voo dos cabaços das donzelas atraídas pelo canto da sereia, entendeu?

Com a cabecinha um pouco zonza, ela indicou que entendeu, por achar que não valia a pena discutir tamanha idiotice, e disse:

– Ah, tá. Agora, vê se não faz como os falsos defensores da castidade alheia que dizem uma coisa e fazem outra e se acham a própria luz do cu do vagalume. Não caia no canto das sereias e se beber não dirija. Se dirigir não beba. Se beber, durma virado para a parede.

– Não entendi, cara irmã, essa última frase.

– Eu quis dizer que caneco de bêbado não tem dono, amado irmão.

– Ah, tá. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, estica lá, encolhe cá, vai pelando o sabiá.

– Não entendi, doce e adorável irmão, essa última frase.

– Eu quis dizer que você fique longe da pomba de Ramilete. Deixe ele se acabar na mão feito colher de pedreiro.

– Ah, tá! Bem aventurados os padeiros que não queimam a rosca, pois eles…

– Tchau, papai está vindo aí. – Interrompeu Laertes.

– Aí, também! – Respondeu Ofélia apontando para os glúteos do irmão.

– Ainda aqui, Laertes? A carruagem está num pé e noutro te esperando, homem de deus! Apresse-se!

Ele põe a mão na cabeça do filho e diz:

– Vai com a minha benção, vai! E trata de guardar minhas últimas palavras: não fale tudo que pensa, nem haja conforme tudo que pensou, pois tolo que pensa merda, faz muita merda; seja amistoso e bom, mas não se abra muito, pois quem se abre demais acaba mostrando o fundo das calças; os amigos de verdade, agarre-os com unhas e dentes, mas nunca deixe que os franguinhos recém saídos do ovo o agarrem por trás; dê um boi pra não entrar numa briga, mas se entrar, dê uma boiada para não sair dela; ouça todas as fofocas de manicure quando for ao salão de beleza, mas não se torne uma delas; escute a opinião tola dos criacionistas, se isto te trouxer vantagens econômicas, como o prêmio Templeton, mas se a doença te levar pra cama, confie somente nos doutores evolucionistas; se usar roupas velhas não confie naquelas que tenham um rasgo na bunda, pois esse descuido com os fundos revela o homem. A bunda é o maior patrimônio que um homem pode ter, não empreste nem peça emprestado, pois quem empresta perde a bunda e o amigo e quem pede emprestado já perdeu o controle de sua própria bunda. Seja fiel a você mesmo, nunca ache que emprestar o caneco uma vez não causa vício, pois se enganar a si mesmo será capaz de enganar os outros; nunca deixe alguém farejar seu cangote e conduzir seus atos como se conduzem as marionetes, pois, por experiência própria com o rei, eu…

– Pai, eu já entendi. Agora preciso ir.

– Vai, meu filho, vai com as “coisas” dos jumentos. Espero que não dê aos burros na água, digo, não dê com os burros na água. Digo melhor, não dê de jeito nenhum!

– Pai, eu já entendi!

– Outra coisa, espero que os franceses aceitem as pombas e as bolas dos jumentos.

– Obrigado, pai.

Virando-se para a irmã, ele assim falou:

– Adeus, Ofélia, e não se esqueça do que eu disse.

– Não esquecerei, querido irmão.

Laertes apenas pôs os pés na escadinha da carruagem e Polônio, curioso feito camareira de motel quando percebe uma mancha estranha nos lençóis, se dirigiu a Ofélia:

– O que ele disse?

– Ele disse tanta coisa que eu fiquei confusa.

– Vamos, tente lembrar, tolinha!

– Falou de um mamão na cama… Se eu abrisse a boca um cachorro ia se satisfazer com a lua… Disse que batatinha quando nasce esparrama pelo chão e os cabaços, que com as pombas voam, não gorjeiam como lá.

– Bobagens! O que mais ele disse?

– Falou de uma sereia que cantava loas enquanto uma colher se acabava na mão do padeiro. Falou que Ramilete gostava de pelar o sabiá…

– Ah, eu sabia! Sabia, como se soubesse hoje, que o sabiá sóbrio sabia assobiar! Ele tinha que falar de Ramilete, o canela de sabiá! Por aí, falam que você e o príncipe andam bastante entusiasmados um com o outro! Conte-me! O que há entre vocês?

– Apenas ternura de irmãos.

– Ternura uma ova! Você, por ser pura e casta, não sabe do perigo que passa nas mãos daquele sonso! Aquilo é um tarado, minha filha! Aquele donzelo seria capaz de estuprar uma porca recém-parida!

– Senhor, não sei o que pensar!

– Ele já meteu a mão em suas “coisas”?

– Senhor, por favor, isso me ofende! Se ele me importuna com palavras de amor, isso ele faz da forma mais honrosa!

– Alçapão para apanhar rolas, digo, pererecas! Não acredite nas promessas dele! São chispas! Dão mais luz que calor! Quando o sangue ferve, a língua coça e as coisas inflam! O que ele diz a você são apenas mensagens de ânsias pecaminosas: coisas que essa cabecinha de anjo celestial ainda não entende. Você não percebe porque ainda é uma virgem pura e inocente. De hoje em diante não quero você trocando juras de amor com ele. Você está proibida, entendeu?

– Apenas obedeço, meu pai.

Ofélia abaixou a cabeça, cumprimentou o pai e disse que ia chorar no quarto como fazem as donzelas dos filmes quando são proibidas de ver seus amados.

Capítulo VIII

Após a conversa com seu pai, Ofélia, em vez de ir lamentar sua sorte no quarto, foi praticar tiro ao alvo usando arco e flecha. No meio do seu treino diário, apareceu Ramilete montado em um cavalo. Ela mirou em sua direção e disparou. O tiro acertou o chapéu dele. Assustado, o cavalo empinou as patas dianteiras e o derrubou. Ela não se conteve, deu uma sonora gargalhada e disse:

– Você “caiu do cavalo”, meu amado!

– É melhor do que “cair do banco[31]” como seu irmão afeminado! Ofélia, você ficou louca?!

– Louca eu vou ficar se você me enganar! Sabia que eu consigo acertar dois ovos com uma flechada mesmo estando a cem metros?

No chão, Ramilete Júnior encolheu as pernas e disse:

– Que horror!

– Se for no seu caso, eu não uso o arco e a flecha. Eu calço uma bota bico fino e estouro seus ovos!

– Ofélia, nunca faça nem uma coisa nem outra, tá, meu bem? Deixemos de lado os ovos e vamos falar de nós. Como vou ficar de guarda hoje à noite, com Horácio e Marcelo, resolvi passar esta tarde com você.

– Estou proibida de vê-lo, meu amor. Preciso ir antes que meu pai nos veja.

Ramilete montou em seu cavalo e antes de seguir seu destino Ofélia se aproximou, beijou-lhe as mãos e deu uma leve mordida no dedo indicador do príncipe. Ele sorriu e disse:

– Voltou a ser criança, foi? Está dando para morder agora, é?

Ela pegou outra vez o dedo dele e o introduziu por inteiro em sua boca para em seguida retirá-lo lentamente como se estivesse chupando um pirulito. Todos os músculos do pudico príncipe ficaram rijos e seus olhos estiveram perto de sair de suas órbitas. Tal qual uma donzela pura e casta, com um sorrisinho desconsertado, ela ainda prendeu a linguinha entre os seus dentinhos alvíssimos como as nuvens de algodão e, balançando levemente a cabecinha, corou. Ramilete sentiu o calor donzelíssimo tomar seu corpo inteiro, tremeu nervosamente feito rola de porco, ruboresceu o rosto pálido, enxugou o suor da testa e falou com voz sofrida de quem estava sentindo muita dor:

– Tá me dando um calor estranho no corpo! Acho que vou pegar um resfriado e vou ter muita febre.

– Febre? Queria eu que você fosse tão quente quanto uma noite de febre. É mais fácil você congelar, meu amor.

– Não entendi, Ofélia.

– Eu quis dizer que você é um sorvetinho. Mas eu vou preparar uma bela calda de chocolate quente para você.

– Eu quero o meu com baunilha.

Dizendo isto, ele partiu para o posto da guarda. Mas foi cavalgando de um modo estranho: esticando as pernas e colocando uma das mãos por dentro da cueca. Antes que você pense alguma coisa feia, devo dizer que os homens precisam aparar seus pelos pubianos de vez em quando, pois se esses pelos ficarem muito longos eles se enroscam na genitália murcha. Agora, imagine: o que acontecerá se algo fizer essa genitália crescer e se expandir? Isso mesmo, ela arranca os pelos pela raiz. Nosso herói experimentou essa sensação.

Depois de arrumar as “coisas” no emaranhado de pentelhos, ele se sentiu aliviado da dor e deixou escapar a estúpida frase que serpenteava em sua mente: “Ave Maria! Ofélia daquele tamanho ainda chupa dedo”! Que coisa feia!

Capítulo IX

Na esplanada do castelo estavam Ramilete, Horácio e Marcelo conversando, como todas as pessoas que vivem de bem com a vida, sacanagens. Somente quando eu, o narrador, passei a observá-los é que as conversas adquiriram um nível bem melhor.

– Aqui faz um frio do carai! – Disse Ramilete.

– Ele penetra na gente, não é? Vai entrando por todos os buracos. – Disse Horácio.

– Estou fora desse papo sombrio! Esse negócio de sentir coisa penetrando não é comigo. – Defendeu-se Ramilete.

– Escutem – Alertou Marcelo – Já soou meia noite. Está perto da hora em que o velho costuma aparecer.

Eles escutam o som de fogos de artifício.

– O que é isso? – Perguntou Marcelo. Ramilete respondeu:

– Começou a orgia no castelo. Isso é um deboche brutal, uma infâmia!

– É um costume?

– Não. É uma imposição daquele porco. Todos devem obedecer. Lá dentro, todo mundo pega todo mundo. No outro dia, eles agem como se nada tivesse acontecido. Não há puteiro no mundo onde se pratique mais devassidão do que na cama daquele cachorro!

– E Ofélia? – Perguntou Marcelo.

– Ela nunca participou disso nem vai participar nunca! – Respondeu Ramilete. – Um dia acabarei com esse randevu[32] e só respeitarei as mulheres honradas, as mulheres desonradas por algum filho da puta, as putas profissionais e as putas confessionais. Aquelas que posam de damas de honra, mas não passam de vadias serão expulsas. Esses novos hábitos adquiridos pelas pessoas decentes que foram transformadas em vadios e vadias, com a chegada desse cachorro no comando, fizeram com que suas virtudes fossem atiradas na lama. Isso é lamentável e intolerável! Uma gota do mal, meus amigos, uma simples gotinha suspeita transforma o leite da bondade no lodo da infâmia!

– Veja, meu senhor, lá está o fantasma! – Disse Horácio.

– Anjos e mensageiros de deus! – Gritou Ramilete – Defendam-nos agora ou vão para o inferno com seus deuses e todas as putas de Jerusalém! Santo que não me ajuda, faça o favor de não me atrapalhar!

E olhando para o fantasma, Ramilete ordenou:

– E você, sobrecu de peru preto, o que faz aqui?! Fala logo, resto de carniça do diabo! Diz o que deseja ou sou capaz de segui-lo até o inferno! Chegando lá, arranco o par de chifres do Belzebu e um deles deixo para as vagabundas, o outro, no satanás afundo! Volte para sua catacumba se não as pombas vão girar e se enterrar na sua…

– Meu senhor, tenha misericórdia! Tenha pena da alma desse infeliz! Modere o tom de voz! – Interrompeu Marcelo se dirigindo a Ramilete.

O fantasma se vira para Marcelo e, sem dizer nada, abre os braços, estica o beiço, pende a cabeça para o lado direito e faz um gesto como se estivesse reclamando do palavreado de Ramilete.

– Está vendo, meu senhor – Continuou Marcelo – Ele não aprovou seu vocabulário. Eu conheço bem esse fantasma. Ele está reclamando do seu palavreado. Pegue leve, por favor, pois acreditamos que se trata de seu genitor!

– Eu me excedi. Peço desculpas. Diga a ele que vou aliviar.

Marcelo vai até o fantasma e diz:

– Desculpe os maus modos do rapaz. É que ele está meio nervoso. Coitado, descobriu que sua mãe é uma quenga, sabe como são essas coisas, né? Todos os vaqueiros andaram tirando leite da velha e agora o tio é quem está amaciando o lombo dela. Ele suspeita que é filho do urso, sabe como é, né? Agora eu vou voltar e a gente continua.

O fantasma faz sinal de positivo. Marcelo volta e diz:

– Tudo bem, pode continuar, meu senhor.

– O que você falou para ele? – Perguntou Ramilete.

– Eu disse que você estava nervoso porque teve medo de o Congresso Nacional enterrar o impeachment da presidente Dilma.

– Por falar nisso, como está a República?

– O Partido dos Trabalhadores afundou o país em dívidas e corrupção. Luís Inácio perdeu todo o respeito dos eleitores. O presidente do Senado e o presidente da Câmara estão envolvidos em corrupção até o pescoço. Resumindo: a lama cobre o Brasil.

O fantasma, impaciente com a demora para o reinício do diálogo com Ramilete, gesticulou apontando para o braço esquerdo, mais ou menos onde fica o relógio, indicando o avançar das horas. Marcelo fez sinal de positivo para o fantasma e disse que ia reiniciar a conversa.

– Meu senhor, – Disse Marcelo – o fantasma está preocupado com o galo! Daqui a pouco o filho da puta vai cantar. Faça logo suas perguntas, por favor.

– Tudo bem, amigo, vou perguntar.

Ramilete dirige a voz para o fantasma e pergunta:

– Você é meu rei, meu pai? Vai, responde! Não me deixa nervoso, desgraçado! Por que resolveu sair da tumba?

– Ele está fazendo sinal para que o senhor o acompanhe. – Disse Marcelo.

– Não vá, meu senhor – Disse Horácio. – Ele pode levá-lo com tripa e tudo para o inferno! Sabe lá o que os demônios podem fazer com o senhor? E depois? Direi aos nossos amigos que na casa do Cramunhão[33], Ramilete enamorou-se dos seus amantes, cujos membros eram como o de jumentos, e cujos fluxos eram como o dos cavalos[34]?

– Se não vou, ele não fala! Vou atrás dele! – Disse Ramilete.

– Não vá senhor! Depois não diga que eu não avisei! – Insistiu Horácio.

– Ora, não diga bobagens! Minha vida não vale um vintém! Minha alma é tão sebosa quanto à dele e, depois, umas pregas a mais ou a menos não fazem diferença alguma! Vou atrás dele! Não tentem me impedir!

– Mas, senhor, e se ele o arrastar para um harém cheio de loiras, negras, brancas e morenas gostosas lançando sua alma à perdição dos espíritos chifrudos e corroídos pelos prazeres da carne? E se depois de estuprado elas o atirarem de um penhasco cujo fundo está cheio de cavalos no cio?

– Mesmo com todo esse sofrimento, vou com ele! Não tentem me impedir senão rasgo o rabo de vocês com um toco sulista[35].

Ramilete segue o fantasma. Marcelo tenta segurá-lo, mas seu esforço é em vão.

– Tentarei segurá-lo, pois quero conhecer esse toco sulista! – Disse Marcelo.

– Vou com você, Marcelo, mas o que significa esse tal de toco sulista? – Perguntou Horácio.

– Não sei ao certo, mas desconfio que há algo de podre na república brasileira.

Capítulo X

 

– Para onde você me leva, ave de mau agouro? – Perguntou Ramilete – Fala ou não passo daqui!

– Você consegue me escutar? – Perguntou o fantasma.

– Tão claro como o dia.

– Está quase na hora em que devo voltar para as chamas do inferno. Siga-me.

– Por que anda com dificuldade?

– Quando você enterrou seu pai, digo, quando você me enterrou, certificou-se de que a cova era funda?

– Não era funda.

– Foi por isso que o deus do dia enterrou uma espada na minha… Deixe isso para lá. Quero que você me vingue.

– O quê?

– Sou o espírito do seu pai. Fui condenado a vagar pela noite com uma espada enterrada no traseiro até que eu pague por todos os crimes que cometi contra os jumentos. À noite, sinto certo alívio, mas durante o dia a espada esquenta muito com o fogo do inferno e me incomoda bastante e… Não posso dizer mais nada sobre os segredos do inferno. Digo apenas isso para aguçar a curiosidade e meter medo nos trouxas que acreditam que os demônios existem. Voltando ao assunto… Se você algum dia amou seu pai…

– Ó, deus, como eu o amei!

– Então, vingue-o, digo, vingue-me! Fui assassinado!

– Conte-me o que aconteceu e eu voarei para a vingança!

– Fui envenenado pelo meu irmão!

– Meu pai envenenou você?

– Você é estúpido? Seu pai sou eu!

– Ah, tá! Então meu pai foi envenenado? Ele está bem?

– Seu cabeça de pipoca! Se seu pai sou eu e eu sou o fantasma dele com uma espada enfiada no rabo, claro que não estou bem!

– Ah, tá! Entendi. É que Cláudio também diz que é meu pai. Todo mundo diz que é meu pai! Até Xaréu já insinuou isso. 

– Basta! Eu sou seu pai e não ele! Não tenho certeza disso por que não fiz o DNA, mas afirmo que sou seu pai! Na dúvida, depois de toda essa confusão, peça o exame.

– Não importa, eu vingarei meu pai!

– Tudo bem. Agora, ouça-me: foi assim, alimentado pela mão de um irmão, que perdi ao mesmo tempo a coroa, a rainha e a vida. A rainha, nem tanto, ela já estava velha, gorda, rabugenta e tão cheia de pregas quanto o cu de um gato. Mas, com o assassinato, Cláudio me roubou uma vida inteira de prazeres carnais! Não posso mais fumar, beber nem raparigar à vontade! Sem essas coisas, um homem nem precisa mais viver.

– Mas pai, eu não faço nada disso e quero viver!

– Você é um subproduto defeituoso da cachorrice do homem, não conta!

– Você também nunca fez nada disso do que está falando. Sempre o conheci tomando remédio controlado de tarja preta, logo, não podia beber; você nunca fumou quando jovem nem podia fumar agora por causa da doença dos pulmões; e, pelo que sei, há mais de dez anos o senhor não sabe o que é uma racha, pois o moinho já não mói mais, está de fogo murcho.

– Ora, não me lembre dessas coisas! Bom, isso agora não importa. O fato é que eu ainda queria viver e o filho da puta me matou. Isso basta. Vá lá e prepare a vingança. Mas não contamine sua alma engendrando coisa alguma contra sua mãe, entendeu? Entregue-a ao satanás, só isso. Agora preciso ir. As baterias dos vagalumes já estão fracas deixando pálidas suas luzes. A porra do galo vai cantar e acordar o filho da puta que enterrou a espada em minha… Você sabe o quê! Adeus de uma vez. Lembre-se de mim.

Quando o fantasma ia se perdendo de vista na escuridão daquele fim de madrugada, nosso herói viu um fraco clarão de raio e o baixo ronco de um trovão. Também ouviu o fantasma reclamar: “ai, filho de uma arrombada! Vai enfiar essa espada no cu da tua mãe”!

Desesperado, Ramilete grita:

– Oh, legião dos seiscentos mil demônios que ainda vivem no céu, ajudem-me a preparar a vingança! Se não puderem me ajudar, ao menos digam o endereço do inferno que irei, eu mesmo, em pele, osso, ódio e coração consultar o Ferrabrás. Ó, angústia, ó dor! Como posso viver em paz sabendo que meu pai vive atormentado no inferno? Oh, como deve ser dura a vida naquele horrendo lugar! E aquela espada enfiada no…

– Meu senhor! – Interrompeu Horácio, quase sem fôlego.

– O senhor está bem? – Perguntou Marcelo também esbaforido. 

– Estou bem. Prepararei minha luta contra a cobra de dois cus! Voltem para os seus afazeres!

– O que aconteceu, onde está a surucucu? – Perguntou Marcelo.

– Querem saber o que aconteceu, não é? Depois vão sair por aí fofocando feito duas peniqueiras, não é?

– Não, senhor, nossas bocas são dois túmulos!

– Juram guardar segredo?

– Juramos, senhor.

– Ok! Direi então assim: não há em todo o Brasil um só canalha que não seja… um patife consumado. Pronto, falei!

– Senhor, não é necessário um fantasma sair do inferno para nos dizer isso. Até quem mora no Curdistão ou Cu Distante, mais conhecido como o cu do mundo, sabe disso!

– Tem razão – Confirmou Ramilete – E se o fantasma tivesse me dito que:

“Lá em cima daquela serra

Tem um pé de umbu botando

Umbu verde, umbu maduro

Umbu seco e umbu secando”?

 

– Não entendi, meu príncipe! – Disse Marcelo.

– Então, fica o dito pelo não dito e tudo no cu de Expedito. Vamos apertar as mãos e depois voltem para os seus trabalhos. Agora, deixem-me só. Vou rezar para São… São… São qualquer coisa!

– O senhor não está dizendo coisa com coisa. Bebeu xixi de mariposa?

– Não, Horácio. Mas que rima pobre e infantil você acabou de usar! Querem saber? Vão amolegar um rolo de fumo de jumento e me deixem em paz!

– Marcelo, acho que nosso príncipe está variando! Está ficando louco! É possível que rasgue dinheiro e coma merda antes de amanhecer o dia!

– Perdão, amigos! – Disse Ramilete – Horácio tem razão: estou ficando despombalizado, perturbado, demente, alienado, desmiolado, ou seja, estou doido. Quanto ao fantasma, esqueçam. Agora, preciso de um favor.

– Peça e faremos.

– Ninguém pode saber de nada do que aconteceu aqui.

– Ninguém saberá.

– Jure, Horácio.

– Dou minha palavra, senhor. – Disse Marcelo.

– Eu dou o que o senhor quiser. – Disse Horácio.

– Concluam o juramento beijando o cabo. Aí não! Beijem o cabo da minha espada!

– Que coisa estranha, senhor, beijar um cabo? Ó dia, Ó noite cruel! – Disse Horácio.

– Sim, beijar esse cabo é estranho, mas é a única coisa em formato de cruz que temos aqui. – Disse Ramilete – Portanto, como estranho deve ser recebido. Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que imagina sua filosofia de mesa de botequim.

Ramilete segurou as mãos dos dois e disse:

– Talvez eu tenha que adotar, de agora em diante, atitudes estranhas, absurdas. Parecerei mais louco do que de costume. Jurem que jamais revelarão este meu segredo. Peguem no cabo e jurem. Aí não, seus pervertidos! Peguem no cabo da espada!

– Juramos. – Responderam eles.

– Continuem fazendo o resto da guarda. Agora, vou dormir um pouco.

Capítulo XI

 

Em vez de ir dormir em seu quarto, Ramilete foi até o quarto de Ofélia. Sua intenção era manter sua amada informada sobre sua aflição por saber que o pai fora assassinado pelo próprio irmão. Também informaria a ela sobre as atitudes esquisitas que ele tomaria como parte de um plano para surpreender o assassino.

Chegando ao castelo, ele escalou uma parede até chegar à sacada que dava para o quarto de Ofélia. Abriu a porta devagar e viu um belo corpo nu de fêmea humana coberto apenas por um finíssimo véu. Indiferente, ele se aproximou da cama para acordá-la. Sentindo a presença de estranho, Ofélia abriu os olhos. Antes que ela gritasse, ele tapou sua boca até que finalmente ela o reconheceu. Confiante que a ninfeta não iria gritar, ele a soltou devagar. Fingindo estar assustada, ela, que sempre havia dormido de roupa e que justamente naquela noite havia esquecido de usar ao menos uma calcinha, cobriu os belos seios em vão, pois o príncipe nem tinha notado o quanto eram bonitos. Mesmo sendo virgem, pura e santa, ela percebeu que cobriu demais o corpo. Então, descobriu um pouco os seios deixando apenas um grande decote para atrair a atenção do macho friorento.

– O que faz aqui?  – Perguntou a virgem – Meu pai pode nos ver e achar que algo mais aconteceu! Ele pode pensar que você rasgou minha roupa, jogou-me na cama, beijou meus seios e…

– Não é nada disso, escute! Querida Ofélia, eu estou perdido! Minha alma está atônita!

– Vou vestir minha camisolinha transparente de bolinha. Enquanto isso, conte-me o que aconteceu.

Ofélia se levantou da cama deixando o lençol deslizar sobre seu corpo até revelar suas curvas. As costas foram sendo descobertas e aos poucos a cintura fina, juntamente com os contornos dos quadris, revelava a forma de um magnífico violão. O Bumbum perfeito acabava quando começavam a se desenhar as coxas grossas e perfeitamente torneadas. O artesão que fez os moldes daquele corpo certamente foi sacrificado pelos deuses para que nunca mais repetisse em outra fêmea tamanha precisão e beleza.

Acredito que enquanto Ofélia vestia sua minúscula camisolinha, pensou em colocar sobre a cabeça um daqueles chapéus de Carmem Miranda ou até mesmo uma imensa melancia para ver se chamava a atenção do amado. Tudo em vão. A donzelice encruada e incrustada no cérebro o impedia de ver o portal para o paraíso bem diante do seu focinho.

Como se a cena de nudez que acabei de descrever não estivesse acontecendo, Ramilete, sentado na beirada da cama, falou:

– Agora que estou aqui, pensei melhor e acho que não devo revelar o que se passa comigo neste momento. Só quero que você me prometa que jamais terá dúvidas sobre o amor que sinto. Amo você como jamais amei alguém em toda minha vida.

Ela subiu na cama e, engatinhando até ele com seu olhar fixo e hipnotizador, falou:

– Tem certeza do que sente? Isso é amor ou é apenas desejo de tirar a roupa que me cobre e possuir meu corpo na cama agora? Se fizer isso, tentarei gritar, viu? Não se atreva! Mas sei que será inútil gritar, pois você me impedirá tampando minha boca. Isso vai me machucar, então, prometo que não gritarei. Eu podia me debater e resistir até a morte, mas você pularia em cima de mim como um garanhão africano e…

– Que coisa mais brutal, Ofélia! Como pode me comparar a um cavalo? Outra coisa, eu sei distinguir todo tipo de sentimento. Eu sei, minha flor, mais do que ninguém o que é o amor.  Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, se eu não tivesse seu amor, eu não seria nada! Ainda que eu conhecesse todos os mistérios e toda a ciência… Ainda que eu tivesse toda a fé, toda esperança nos homens… Ainda que eu pudesse extinguir o mal e aliviar a dor dos que sofrem, se eu não tivesse o seu amor, nem sentisse amor por você, nada eu seria! Nosso amor é sóbrio, é benigno; não se envaidece, não mata nem se mata! Tudo suporta! Só em parte o conhecemos e em parte sabemos o que representa em nossas vidas. Mas é quando meu corpo se une ao seu que ele se faz compreender por inteiro. E é assim que percebemos o quanto ele é perfeito entre nós! É quando estou com você face a face, como estamos agora, que percebo que tudo que outrora era uma parte floresce como um todo. Só o amor, o nosso amor… Só ele, meu amor, apenas ele conhece o que verdade[36].

– Essa foi a maior declaração de amor que já ouvi. Mas… E aí? O que acontece depois?

– Prometa que também guardará segredo sobre o comportamento estranho que adotarei de agora em diante.

– Prometo qualquer coisa.

Ela o abraçou e o empurrou sobre a cama. Em cima dele, como se fosse cavalgar, tirou lentamente sua camisola. Quando a camisola apertada liberou seus seios, a imagem que Ramilete pôde ver, em câmera lenta, foi de hipnotizar: dois seios grandes e redondos balançando lentamente. Um calor indescritível tomou conta do seu corpo e os instintos naturais, tais quais os de um cachorro, dominaram seu corpo e corromperam o cérebro virgem. Ele se lembrou que seus pentelhos podiam estar novamente enroscados no seu pinto e se apressou em abrir o zíper e libertar a mimosa para evitar, assim, uma depilação forçada. Foi nesse momento que a donzelice abandonou nosso amigo Ramilete, tirando a vez do menino e deixando aflorar os sentimentos do homem. O próximo passo dele foi observar com outros olhos os seios e examinar detidamente a imagem da camisola liberando lentamente os longos cabelos. E foi tirando a camisola e a ceroula do príncipe que Ofélia pôde cavalgar e ser cavalgada até o amanhecer.

Depois de transarem até a exaustão, Ramilete confessou sua felicidade por estar ali, na mesma cama, com a mais linda das mortais. Olhando nos olhos dela, Ramilete falou:

– Veja meu amor, não somos diferentes. Somos humanos, apenas isso! Só isso deve nos interessar. É essa maldita sociedade que nos distingue um do outro, cria divergências e, assim, divide-nos! Haverá um dia em que as cercas da ignorância não mais nos separarão. Nesse dia eu não precisarei discutir a preferência sexual de ninguém, pois só haverá uma resposta: preferência sexual humana. A cor da pele será apenas um belo adereço no revestimento do corpo e minha cor será igual a sua: cor humana; ninguém precisará dizer qual é sua raça ou sua crença, pois só haverá uma resposta para cada pergunta: raça humana, crença humana. Assim, nesse dia, nenhum pensamento filosófico ou teológico que definam uma entidade sobrenatural fará sentido, pois, sendo honesto, ninguém terá coragem de definir um ser do bem ou do mal, e mesmo que alguém ousasse defini-lo não haveria ninguém interessado em ouvir tamanho disparate! Todos saberão que um ser sobrenatural definido e proferido por quem quer seja é um falso ser! Sabendo que o mal não existe, e sim a ignorância que leva à intolerância e todos os outros males, aprenderemos desde cedo a ter sede de saber e de aceitar as diferenças. Nesse dia teremos o reinado das virtudes cuja rainha será a honestidade e todos os humanos celebrarão o desprezo pela mediocridade!

Extasiada com o que acabou de ouvir, Ofélia olhou para ele e ficou admirando seu belo rosto. Para quê palavras se lágrimas podem substituir um dicionário inteiro? Ela sentiu sua alma se libertar de toda a baixa autoestima que a fazia se sentir inferior, por ser apenas a filha de um criado do rei. Seus olhos cheios d’água sentiram os lábios dele, e   abraços apertados aqueceram entre os lençóis aquele delicado corpo de mulher.

Capítulo XII

 Ofélia compareceu à mesa para o café da manhã com seu pai, Polônio. Ele perguntou o que tinha acontecido, mas ela só fazia rir de felicidade. Quando conseguiu conter o acesso de riso ela falou:

– Ramilete enlouqueceu! Kkkkkkkkkkkkkkkkkk!

Ela olhava para Polônio e, quando pensava no esforço que seu pai e seu irmão fizeram para conservar sua virgindade, não se aguentava e dava altas gargalhadas.

– Venha cá! – Disse Polônio – Vamos falar com o rei. Vocês dois estão loucos! Os dois estão sofrendo de delírios de amor.

Em um dos aposentos do castelo estão conversando com o rei dos jumentos, a quenga rainha, Rosencrantz e Guildenstern.

– Bem-vindos, caros Rosencrantz e Guildenstern! – Disse o rei – O motivo de chamá-los com urgência foi o fato de necessitarmos de seus préstimos e termos a certeza de que apenas vocês podem nos ajudar. Afinal, vocês dois foram criados com o nosso príncipe Ramilete. Devem ter ouvido alguma coisa sobre a metamorfose dele. Metamorfose é a palavra certa, pois ele não é mais aquilo que foi. Não sabemos que coisa pode tê-lo afastado tanto da razão. Eu diria que ele perdeu completamente o juízo. A morte natural do pai pode ter influenciado. Além disso nada sabemos. Peço aos dois que fiquem aqui por algum tempo, para que ele se divirta um pouco com vocês e para que descubram algo esclarecedor sobre o que o aflige.

– Será um prazer poder ajudar nosso amigo. – Disse Guildenstern – Os céus permitam que nossa presença e nossos atos possam ser úteis a ele. Peço que nos deem licença. Vamos procurá-lo.

– Têm toda licença – Disse o rei.

Polônio entrou no recinto com Voltimando e o Corno Cornélio. Disse ele:

– Sei o que perturba nosso querido Ramilete!

– Então diga, homem de deus! – Pediu Gertrudes.

– Primeiro, vamos ouvir o que conseguiram Voltimando e o Corno Cornélio com o tio do Forte Brás. Depois eu conto sobre o príncipe.

– Então, que falem logo nossos amigos Voltimando e o Corno! – Ordenou o rei.

– Deu tudo certo, meu senhor – Informou Voltimando – O tio do moleque já o reprendeu e disse que os bilhetinhos desaforados não mais serão enviados. Fiquem tranquilos.

– Que preço vocês pagaram por isso? – Perguntou o rei – Digam e pagarei na mesma moeda!

Cornélio e Voltimando olharam um para o outro com uma tristeza claramente decifrável. O rei, compreendendo aquele silêncio de mosteiro, antecipou-se em agradecer com apenas um aperto de mão. Gertrudes, como toda mulher que não deixa passar despercebido qualquer detalhe, entregou aos dois um pouco de pomada Hipoglós e pediu que eles fossem descansar da viagem. O rei se virou para Polônio e perguntou:

– Diga-nos agora, Polônio, o que descobriu?

– A loucura do jovem Ramilete só tem uma explicação: o amor mal correspondido de Ofélia!

– Como você tem tanta certeza disso? – Perguntou Gertrudes.

– Ora, minha senhora, tenho tanta certeza disso quanto tenho certeza de que é perda de tempo especular sobre o que é a majestade, o que é o dever, o que é o dia, o que é a noite! Majestade só pode ser ma-jes-ta-de. Dia é dia, noite é noite, e tempo é tempo! Pensar nisso é apenas perturbar a majestade, esquivar-se do dever, desperdiçar o dia, a noite e o tempo! Porque o tempo perguntou para o tempo: quanto tempo o tempo tem! O tempo respondeu para o tempo: o tempo tem tanto tempo quanto o tempo o tempo tem!

Com esse palavreado, os dois neurônios de Gertrudes entraram em colapso. Ela sentiu vertigem e quase desmaiou. Por fim, o rei ordenou:

– Menos arte da embromação e mais sustância, Polônio! Que desgraça de filosofia é essa que você acabou de pronunciar?

– Meu senhor, trata-se de filosofia forte. O senhor jamais conseguiria acompanhar. Veja bem, se eu estivesse embromando, então tudo embromado estaria. Longe de mim! Não sou baluarte de tamanha parte. Sendo digno de belas-artes, diga de mim qualquer coisa menos atribuir esta arte. Mesmo sobre a mira de Bonaparte, com seu velho bacamarte, continuo negando, pois sendo do signo de marte e, a ter minha honra descrita no vergonhoso estandarte, prefiro morrer de enfarte.

– Polônio, menos! – Gritou o rei – Com esse palavreado, sinto que você está machucando meus testículos! Fala logo, desgraçado!

– Serei direto e breve, meu senhor! – Disse Polônio – Ouçam o que o atrevido príncipe escreveu para minha filha: “Duvide que o sol seja a claridade, duvide que as estrelas sejam chamas, suspeite da mentira na verdade, mas não duvide deste que te ama! Oh, cara Ofélia, sou tão ruim com os versos”!

– Ramilete enviou isso a Ofélia? – Perguntou Gertrudes.

– O próprio. – Respondeu prontamente, Polônio.

– Ao menos ele reconhece que seus versos são horríveis! Como Ofélia recebeu isso? – Perguntou a mãe decepcionada.

– Bom, tratei de jogar um balde de água fria nessa paixão impossível. Disse a ela que Ramilete era um nobre e ela, uma pobre filha de um simples criado. Portanto, fora da sua órbita. Ordenei imediatamente que ela se afastasse dele. Ela me obedeceu e ele caiu em desgraça: agora é um louco varrido.

– Acha que é isso? – Perguntou Gertrudes ao rei.

– É bem possível. – Respondeu ele – Com essa incapacidade de escrever um bom poema, só pode mesmo estar à beira da loucura!

– Arranquem minha cabeça, se eu estiver errado! Provarei o que digo! Soltarei minha filha para ele e, nós três, escondidos atrás de uma tapeçaria, ouviremos tudo! Se ele não a ama, perco meu emprego de servo de Vossas Majestades.

– Se você estiver errado, prefiro a primeira opção: arrancar sua cabeça. Tudo bem, tentaremos a prova. – Disse o rei.

– Vejam, ele está vindo em nossa direção com um livro na mão! – Interrompeu Gertrudes.

– Imploro, meu rei – Disse Polônio – Deixem-me a sós com ele!

O rei e a rainha concordam e saem de fininho. Polônio, a sós com Ramilete, pergunta:

– Como você está?

Pondo em prática seu plano de fingir que ficou louco, Ramilete Júnior responde:

– Bem, Zeus seja louvado e os traíras enforcados!

– Está me reconhecendo?

– Como não? Você é o babão real. Talvez um verme menor do que um carrapato. Uma mosca na carniça, um vaso ruim. Não, apenas um babão. Isso basta para defini-lo. Você tem uma filha?

– Tenho.

– Cuidado com os carrapatos na orelha dela.

– Carrapatos, meu senhor?

– Sim, ela é mansa e adestrada?

– O senhor não diz coisa com coisa. O que está lendo?

– Palavras humanas.

– Como assim?

– Palavras, palavras, apenas palavras humanas.

– De que se tratam?

– São palavras que falam de outras palavras.

– De quais outras palavras, meu príncipe?

– De palavras escritas, às vezes sem sal e sem açúcar, mas de apenas palavras que tratam de palavras. Também leio palavras sem brilhos, carregadas de opressão, mas, ainda assim, leio palavras que falam apenas de palavras. Palavras de desespero proferidas com razão… Palavras de pobres almas ditas num momento de aflição. Tristes são essas palavras, mas ainda assim as leio! Leio palavras escritas com ternura, amor e emoção, mas no final das contas leio apenas palavras. Palavras de carinho, de consolo e de gratidão: nobres palavras tiradas do coração. Às vezes leio belas palavras humanas, meu amigo! Leio ainda palavras escritas com sarcasmos, preconceitos e desolação. Tristes são, mas ainda assim, são apenas palavras. Palavras amargas carregadas de humilhação… Palavras cuspidas, vomitadas, escarradas… Leio palavras atiradas com ódio, com desprezo e maldições: palavras de negras almas. Indignas são; impuras são, mas não deixam, por mais que eu relute, de serem apenas e tão-somente palavras humanas. Tais palavras quando ditas podem até causar estrondo, eco e dor. Mas, de tão grotescas, não resistirão ao tempo. Assim, leio palavras, meu amigo. Apenas palavras.

– O senhor tem estilo, meu príncipe. Agora, permita que eu o alerte: dê ouvidos aos mortos. Acredite nas aparições de fantasmas. Elas revelam a verdade.

– Devo entrar numa tumba?

– Seria o melhor a se fazer neste momento, mas não é necessário. Apenas dê ouvidos aos mortos. Agora, se me permite, caro príncipe, devo deixá-lo em paz.

– Sua presença aqui é indiferente.

– Não quero roubar seu tempo.

– Tempo que para mim não significa nada. Se minha vida não vale nada, imagine quanto vale meu tempo.

– Passe bem, senhor.

Polônio nem havia deixado o recinto quando entraram Rosencrantz e Guildenstern. Depois dos cumprimentos, Ramilete perguntou?

– Que novidades vocês trazem?

– Trazemos apenas a alegria de saber que o Brasil tem o melhor governo do mundo.

– O resto do mundo já acabou? Se temos o melhor governo, o que tem o resto do mundo? O que dizem não passa de lorota. Vocês são bajuladores que vivem apenas de poeira de bunda. O suprassumo do cu do cavalo do rei tem mais valor do que vocês. Como não tenho mais palavras para descrevê-los, vou levá-los ao cagador do rei onde comerão com fartura, após me traírem contando tudo sobre mim àquele verme.

– Ora, não diga gracejos, meu senhor. Podemos nos divertir antes disso? – Perguntou Rosencrantz.

– Quer brincar de Tarimba? – Perguntou Ramilete.

– Obrigado, mas não estou disposto. – Respondeu Guildenstern.

– Querem ganhar um gano?

– Meu senhor, a propósito, o que é um gano? – Perguntou Rosencrantz.

– Gano é um cara…

– Meu senhor, não responda, por favor! – Interrompeu Guildenstern.

– Então, só me resta levá-los ao rei. Lá, vocês saberão o que fazer.

– Mesmo não aprovando sua fala, faremos o que o senhor ordena. – Disse Rosencrantz.

– Não ordeno nada.

– Então, ficaremos de pé ao seu lado.

– Vieram me observar para contar àquele patife?

– Não, meu senhor!

– Eu sei que foram chamados. Confessem ou terei que forçá-los a isso.

– Fomos chamados, meu príncipe. – Disse Rosencrantz.

– Vou dizer porque estão aqui. Assim, vocês não quebrarão a promessa de sigilo feita ao rei. Todo mundo sabe que as estrelas não são chispas de fogo e só idiotas acreditam nisso. O mundo tem muito mais do que seis mil anos. A fé não remove coisíssima nenhuma. As parábolas, conforme o próprio crucificado falou, só servem para confundir e evitar a salvação de alguns[37]. Homens gigantes nunca existiram, mas macacos gigantes sim. Isso deve ter confundido os tolos. O homem, que os bocós afirmam que veio do barro, é mal feito, louco em suas ações, paradigma do satanás, feio, limitado, impreciso, quintessência do extremo fedor e só pode ter como parente os tijolos de construção ou o barro produzido, como dejeto, pelo próprio Mastema[38]. Referi-me apenas ao homem, ser que desprezo. A mulher é outra coisa.

– Meu bom Deus! – Disse Rosencrantz ao pé do ouvido de Guildenstern – Ele está realmente louco! E ainda diz heresias!

– A mulher é o verso profano reverso. – Continuou Ramilete – É o avesso do avesso do avesso do homem. Se deus existe, não pode ser deus, e sim, deusa! Se não existe, é apenas homem! Homem imperfeito, mau, vaidoso, orgulhoso, melindroso e cheio de frescura, falso, traidor, avarento, miserável, desgraçado e assassino!

Aos gritos, Ramilete continuou sua fala desesperada se aproveitando da suposta condição de louco para desabafar:

Assassino, assassino, assassino, fratricida, Caim desgraçado!

Rosencrantz e Guildenstern ficaram apavorados e gritaram:

– Senhor, o que está acontecendo?

– Entre nós há um Caim que matou Abel.

Dizendo isso, Ramilete deu alta gargalhada e continuou:

– Não sei! Não sei o que está acontecendo comigo! Minha mente está confusa! Não sei se falo verdades ou asneiras! Estou perdendo a razão! A loucura é minha irmã e prima de todos os demônios do inferno! Vamos sair daqui antes que eu perca o pescoço, a língua e a alma arrancados sem esforço, pelas mãos ou pela foice da santíssima inquisição!

– Ó rima podre, pobre e desgraçada! – Repreendeu Rosencrantz – Vamos, precisamos receber os atores comediantes que estão chegando. Mas por favor, meu senhor, tente se controlar!

– Os atores que representam o rei e a rainha serão bem recebidos. – Disse Ramilete.

– Esses têm algo de especial, meu senhor? – Perguntou Rosencrantz.

– Não. Basta que encenem como eu quero. Assim, na hora de piar, piem! Na hora de relinchar, relinchem! Na hora de cacarejar…

– Bom, aí estão eles. – Disse Guildenstern.

– Cavalheiros, sejam bem-vindos a Elsinor. – Acenou Ramilete.

Polônio se aproximou e falou:

– Saúde, senhores!

– Ora, vejam só quem também acaba de chegar: Polônio, o bebê babão. – Disse Ramilete – Se eu chutar o ovo do rei, quebro todos os dentes dele! kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Aposto que veio me dizer que os atores estão chegando!

– Ainda assim, devo lhe informar que uns atores estão chegando, meu senhor. – Disse Polônio – E trazem, montado, excelente repertório!

– Temos muitos jumentos para eles montarem e outros tantos que montarão neles. – Disse Ramilete.

– Perdoe-me, não entendi, meu senhor. – Desculpou-se Polônio.

– Então repetirei: mais vale um pássaro na mão do que dois voando em vão! E se uma andorinha não faz verão, quantos pardais fazem um avião? Se o dia é da caça, não haverá dia para o caçador!

Polônio arregalou os olhos e pensou: “Meu deus, esse homem está doidinho da silva!”.

Preocupado, Polônio perguntou:

– Em que posso ajudá-lo, meu príncipe? Há algo que eu possa fazer para desanuviar seus pensamentos?

– Pode, sim. Responda-me: numa ponte de madeira, que suporta apenas um homem atravessando de cada vez, desde que eu seja cauteloso, consigo atravessá-la?

– Se a ponte suporta um homem, então o senhor conseguirá atravessá-la.

– Oh, homem de pouca inteligência! Como pode me ajudar se você não resolve um problema simples como esse? É obvio que não conseguirei atravessá-la!

– Por quê?

– Porque um homem cauteloso é o mesmo que um homem prevenido. E um homem prevenido vale por dois!

Diante da surpresa de Polônio, Ramilete disse:

– Esqueça o que eu disse. Filosofia é algo que você não alcança, pois, meu amigo, quem espera sempre cansa e quem procura sempre acha, se não um prego, uma tacha. Quem sua filha beija, açúcar da minha boca brota, pois seus lábios só pousam em outros que os adoçam.

Polônio deixou o queixo cair e pensou mais uma vez: “Pedirei ao rei a internação desse lunático. Ele sempre fala da minha filha. Só pode ser isso: enlouqueceu por causa de Ofélia”.

– Vou cumprimentar os atores – Disse Ramilete – Com licença, velho Cancão sem fogo!

E, virando-se para seus amigos disse:

– Peço licença a vocês também, pequenas codornas.

Quando Ramilete se distanciou, Polônio perguntou aos dois, Rosencrantz e Guildenstern:

– O que me dizem do seu amigo?

Ambos responderam:

– Perdeu totalmente a razão. Está realmente louco!

Após cumprimentar os atores, Ramilete chamou Polônio e pediu que ele providenciasse boas instalações para os artistas dizendo:

– Escolha as melhores instalações ou experimente cair na desgraça das difamações proferidas por eles. Prefira que escrevam em sua lápide: aqui jaz um canalha. Mas não queira jamais, enquanto vivo, que eles componham uma estrofe sequer de literatura de cordel, a seu respeito, com minúscula difamação. Ela correrá o mundo, feito rastilho de pólvora, num segundo! O pior cego é aquele que não quer ver a ponta do seu nariz! Você consegue ver uma rola voando, Polônio?

– O senhor me deixou confuso. Mas providenciarei o que os atores merecem.

– Não. Trate melhor do que isso. Se tratarmos os humanos como eles realmente merecem, nenhum escaparia de uma surra bem dada de chicote de cipó de boi. O primeiro da fila seria você, o Judas que traiu Jesus!

– Eu nunca traí Jesus, meu senhor!

– Então, aceite ser Dalila, a puta que traiu Sansão!

Ramilete, disfarçado de louco, pretendia ofender Polônio o máximo possível, pois sabia que o mesmo havia traído seu pai quando apoiou todos os atos de Cláudio. Polônio, intrigado, tratou de atribuir os maus tratos à loucura que consumia o juízo do pobre príncipe.

– Venham, senhores! – Disse Polônio.

Ramilete se dirigiu aos atores e disse:

– Sigam-no, fiquem à vontade e se preparem para uma apresentação em dois dias. Que fique aqui comigo apenas o diretor da companhia de teatro.

– Em que posso servi-lo, senhor? – Perguntou o diretor.

Ramilete leva o diretor a um canto, fora dos olhos e ouvidos de Rosencrantz e Guildenstern, e diz:

– Pagarei bem se vocês encenarem “O Assassinato de Gonzaga” com algumas modificações minhas.

– Claro, podemos encenar, senhor.

– Então vá se juntar aos outros. Levarei os textos alterados para vocês ensaiarem.

Ramilete se aproveita da visita dos artistas para montar uma versão de uma peça conhecida, O Assassinato de Gonzaga, só que com algumas alterações no enredo da peça principal. Ele inclui nessa apresentação as circunstâncias em que seu pai teria sido assassinado pelo próprio irmão, Cláudio, o atual rei. O objetivo de Ramilete era provocar o tio a ponto de ele revelar sua culpa.

Ramilete se dirige aos dois amigos, Rosencrantz e Guildenstern e se despede:

– Acomodem-se no castelo e me deixem a sós com meus fantasmas.

– O senhor consegue ver fantasmas? – Perguntou Guildenstern.

– Neste momento, só vocês dois.

– Até logo, meu senhor. – Disse Rosencrantz.

Ficando sozinho, Ramilete desabafou: “Prepararei minha vingança com textos repletos de verdades onde só deveria haver o repouso das ilusões ou desilusões dos poetas! Esses atores cuspirão, na cara do rei, tudo que tenho a dizer”! E depois… O que farei depois? Repousarei no leito dos covardes? Rirão de mim por eu não ter coragem de enfiar uma faca no peito do traidor? E Ofélia? Ela também dirá que sou um covarde? Ó vingança maldita!

Ele caminha de um lado para o outro do salão e decide:

– Devo arrancar o coração do rei com as próprias mãos! Isso, sim, é vingança! Mas, espere um momento. E se o fantasma me engana? E se a morte do meu pai foi realmente natural? Devo primeiro ter a certeza do assassinato. Os atores farão seus papéis e eu observarei. Ouvi dizer que certos criminosos, assistindo a uma peça, foram tão tocados pelas sugestões das cenas que imediatamente confessaram seus crimes. Isso parece tolice, mas não há, no momento, melhor maneira de descobrir a verdade. Vamos ver o que vai acontecer.

 

 

 

 

 

Capítulo XIII

Num salão do castelo estão presentes o rei Cláudio, Gertrudes, Rosencrantz, Guildenstern, Polônio e a belíssima Ofélia.

– Vocês, os melhores amigos desse louco, não conseguem, com algum subterfúgio, arrancar dele o motivo desse agir estranho? – Perguntou o rei aos amigos Rosencrantz e Guildenstern.

– Ele se recusa a revelar a causa. – Disse Rosencrantz – As blasfêmias que profere são tão terríveis que nem o papa pode livrá-lo do fogo do inferno! Ele está completamente louco, meu senhor!

– Ele não vai nos dizer, pois os loucos não sabem os motivos que os transformaram. Eles nem mesmo admitem que são loucos! – Disse Guildenstern.

– Ele trata vocês bem? – Perguntou Gertrudes.

– Embora nos tenha chamado de codornas – Disse Guildenstern – de bajuladores que vivem apenas de poeira de bunda… E ainda que tenha dito que valemos menos do que o suprassumo do cu do cavalo… Bom, de resto, ele nos trata como cavalheiros, exceto por dizer que comeríamos merda nos aposentos do rei.

Essa última frase fez Gertrudes ficar enojada. Para mudar de assunto, ela perguntou:

– Por que vocês não foram…

– Comer bosta? ­– Interrompeu Rosencrantz.

– Argh! Não! Por que vocês não o convidaram para alguma diversão? – Perguntou Gertrudes.

– Nós o convidamos, mas ele só queria brincar de Tarimba.

– Ah, tá. – Disse Gertrudes – Mas como se brinca de tarimba?

– Quem responder será enforcado! – Antecipou-se o rei.

– Meu senhor, ele também nos ofereceu um gano. – Disse Rosencrantz.

O rei, demonstrando irritação, esbravejou:

– Como ele teve coragem de oferecer isso a vocês!

Gertrudes arregalou os olhos de curiosidade e perguntou:

– Mas o que é um gano?

E Guildenstern respondeu:

– É um cara…

– Cale-se Guildenstern! – Interrompeu Polônio.

Fez-se um silêncio no recinto e Polônio continuou:

Ainda assim, haverá diversão para ele, majestade. Um grupo de teatro chegou no castelo e Ramilete tratou de contratá-lo. Ele também me pediu que convidasse o senhor e sua senhora para assistirem a um espetáculo.

– Pois, lá estaremos. Farei isso com um imenso prazer. Animem-no para que assim ele possa tirar prazer desse espetáculo e esquecer o assunto da morte natural do meu falecido irmão.

– Nós o faremos, senhor. Agora, com sua licença, retirar-nos-emos. – Disseram Rosencrantz e Guildenstern.

O rei chamou Gertrudes a um canto da sala e falou:

– Gertrudes, minha querida, deixe-nos agora. Aplicaremos uma das artimanhas de Polônio. Você sabe, ele tem essas manias de gente safada que fica atrás das cortinas ouvindo conversa alheia. Eu não gosto disso, mas, para o bem do seu filho, ouviremos a conversa de Ramilete com Ofélia sem que ele saiba disso. Ofélia está sabendo de tudo e já aceitou participar da farsa. Não é mesmo minha criança?

– Sim, majestade. – Respondeu Ofélia.

Marcaremos o encontro dos dois. Saberemos o que causou tanta perturbação naquela cabeça oca. – Disse o rei.

Ofélia se despediu de todos e foi até os aposentos de Ramilete para lhe contar sobre o ocorrido e confirmar o encontro. Estava tão apressada que entrou no quarto dele sem bater.

– O que você tem na mão, meu querido? – Perguntou Ofélia.

– Meu amor, você me assustou! Estou apenas alisando o sabiá.

– Ah, tá.

Ele larga o sabiá e vai até ela. Os dois se abraçam e se beijam. Ele a leva para a cama, olha bem no fundo dos seus olhos, faz um longo carinho em seu rosto, beija suavemente sua boca, desabotoa seu vestido e…

O sabiá entrou na gaiola.

Depois do amor, vem o cansaço. Agora, deitado ele observa um ponto qualquer no teto do quarto. Percebeu que o sabiá tinha saído da gaiola, mas nem se importou com isso. Quanto a Ofélia, num movimento rápido ela monta em cima dele. Mudando seu foco, ele observa agora aquela belíssima imagem de mulher nua sem o menor pudor e diz:

– Troco o reino inteiro por você.

E ela respondeu:

– Nada tenho de precioso além da vida. Dou-a em troca da certeza do seu amor.

– Tenha a certeza, meu amor, mas se conserve viva para mim.

O sabiá entrou e saiu da gaiola diversas vezes como se estivesse marcando o tempo. Era tempo de amar.

A noite se aproximava quando o último botão do vestido dela era abotoado. Na calmaria daquela ocasião, ela contou com detalhes todo o plano do pai e do rei. Com um longo beijo eles se despediram e ele disse:

– Não se preocupe com nada. Deixe que eles planejem nosso encontro. Falaremos tudo que nenhum deles deseja ouvir.  Quero que prometa uma coisa: nunca duvide do meu amor por você.

– Eu prometo.

– Farei por merecer sua promessa.

Você, cara leitora, que conhece a verdadeira história contada por Willian Shakespeare, deve estar bastante aliviada, pois presume que o destino de Ofélia será diferente. Afinal, no próximo encontro dos dois, sob os olhares furtivos do rei e de Polônio, as falas deles serão falseadas, fingidas. Mas, amiga leitora, a menos que seja ateia, você sabe que maldições acontecem. Sim, elas acontecem. Qualquer que seja sua religião ou seita, amada leitora, nelas o mal existe. E as maldições são o que de pior existe no submundo habitado por espíritos malditos e condenados para sempre a viverem espalhando maldades pelo mundo. Por mais que se tentem alterar o rumo dos acontecimentos, uma vez que são derivados de uma maldição, eles terão que se cumprir. Sinto muito, mas apenas tento narrar os fatos exatamente como eles aconteceram. Serei fiel à história pernambucana.

Saindo dos aposentos de Ramilete, Ofélia não percebeu, mas era seguida pelos olhares de um corvo, falso, rabugento e traidor: Guildenstern. Morrendo de amores por Ofélia, sem nunca ter sido correspondido, ele arquitetou um plano traiçoeiro para separá-la de Ramilete.

Ao passar pelo salão principal ele se aproximou de Ofélia e perguntou:

– Como pode trocar um amor decente, honesto e promissor, como o meu, pelo amor falso, lascivo e vulgar do louco Ramilete?

– O que me diz, senhor?

– Espera aqui e verás se o que digo não é verdade.

Naquele mesmo instante Ramilete passou apressado pelo salão. Devido à baixa iluminação e a distância que Ofélia e Guildenstern estavam, ele nem percebeu a presença dos dois.

– Siga-me e verá. – Disse Guildenstern.

De longe Ofélia e Guildenstern viram Ramilete entregar umas folhas de papel a uma das artistas da companhia de teatro. Em seguida presenciou, aos prantos e sem nada entender, a terrível cena de beijo entre a desconhecida e seu amado Ramilete. Guildenstern fingindo poupá-la daquela triste visão, tratou de tirar Ofélia dali. Assim agindo, ele a impediu de ver que Ramilete empurrou a atriz manifestando sua total discordância dos meios empregados pela mulher para lhe roubar um beijo.

Nos seus aposentos, Ofélia sofria. Aquela foi a noite mais longa de toda a sua vida.  Guildenstern também se recolheu aos seus aposentos e se preparou mentalmente para colher os frutos, nos próximos dias, do seu desprezível feito.

Capítulo XIV

 

Na tarde do dia seguinte acontecia o encontro entre Ofélia e Ramilete. A um canto do salão ela estava triste e desolada, pois flagrara, no dia anterior, seu amado príncipe aos beijos com uma das atrizes da companhia de teatro. Seu coração estava partido em mil pedaços.

Escondidos atrás de grossas cortinas, parecendo dois ratos, estavam o rei e o autor dessa estúpida, infame, pueril e ridícula estratégia: Polônio. Noutro canto estava Ramilete inocentemente pronto para o falso diálogo com a amada.

– Ser ou não ser, eis a questão! – Disse Ramilete em pose de ator de teatro grego.

– Fingido, isso é o que você é! Finge amor por mim enquanto se agarra com qualquer cachorra! E ainda me vem com essa frase ridícula: ser ou não ser.

Com o dedo em riste, ela ainda disse:

Ser ou não ser, um cacete! Está indeciso, seu filho da puta?

Ramilete, assustado com a excelente atuação da amada, e tentando caprichar na sua péssima atuação de ator romântico, falou:

– Nunca estive tão consciente e tão decidido sobre aquilo que não sinto por você: amor. “Ser ou não ser” é apenas a repetição das palavras que ouvi de Marcelo em conversa com Horácio. “Ser ou não ser – eis a questão”, disse um deles. O outro respondeu: “Ou você decide ou vai viver a vida fugindo das pessoas como se estivesse o tempo todo trancado num armário. Saia do armário, Horácio”.

– Não estou interessada em ouvir questões envolvendo seus amigos afeminados!

– Mas Ofélia, esse momento que vivo me deixa indeciso também!

– Você também é gay?

Ela abriu um sorriso e pensou: “se ele é gay, então a cena do beijo que presenciei ontem não era real! Era tudo uma brincadeira de mau gosto! Ele continua sendo só meu”!

O sorriso da ninfeta se desfez quando ele disse:

– Vocês podem até achar que eu sou louco, mas eu nunca fui viado! Espere um momento… Preciso pensar melhor antes de afirmar tal coisa.

Ramilete coçou o queixo fazendo uma cara de pensador e perguntou:

– Brincar de troca-troca na infância tá valendo na definição de gay?

Uma voz que ninguém sabe de onde veio trouxe a resposta:

­– Não. Não vale.

– Filho da puta, então você não é uma bichinha?! – Gritou Ofélia, com lágrimas nos olhos, dando um grande susto no amado.

– Nada contra os que gostam de sofrer carregando peso nas costas, mas eu não sou gay! Você queria que eu fosse um gay, Ofélia?

– Antes fosse!

Aos poucos Ramilete foi se refazendo do susto e voltando a sua interpretação.

– Devo atirar de vez minha alma ao inferno pegando em armas para extirpar o mal que me aflige? Ou devo cometer suicídio e assim dormir profundamente feito uma donzela que brigou com a mãe? Não tenho coragem de me matar! Não há tanto motivo para isso! As pedras rolam, rolam, rolam e rolam.

– Quando está indeciso você costuma se atirar nos braços da primeira vadia que aparece?

– Águas paradas não movem o dedinho. Se eu assim procedesse, seria para o bem da cura dessa sandice que me aflige e me envergonha! Doido que é doido não diz que é doido! Assim, apenas digo que estou confuso. Você não tem que se importar com as vacas que eu como. Você é uma vaca?

– Vaca é a sua mãe que botou chifres no touro velho! Achei que você falava verdades quando dizia que me amava, seu desgraçado mentiroso!

– À noite, minha amiga, todos os camelos são amarelos, os ratos são cogumelos, os gatos não usam botas e a tragédia se faz do amor entre um jumento e uma cadela! Eu falei a palavra amor? Não me lembro de ter dito tal coisa. Eu nunca amei você, Ofélia.

– E o anel, seu fresco?

– O que tem meu anel? Todos sabem que um menino de ouro, quando derretido, dá um anel. Mas o que isso tem a ver com o fato de eu achar você um ser desprezível?

– Você deu o anel…

– Cale-se mulher! Não ouse falar de coisas tão baixas! Nunca entre na intimidade de um homem dessa forma! Mais vale viver com o cu na mão do que chorar a rosquinha queimada!

– Do que você está falando, seu louco?

Ela tirou da bolsa uma pequena caixa e disse:

– Eu estava me referindo a este anel aqui, seu estúpido!

– Ah, tá. Isso me deixa um pouco aliviado.

– Estou devolvendo essa merda para que você dê as suas putas?

– Nunca imaginei que você fosse honesta a tal ponto! Aliás, você não me parece nada honesta quando invade os aposentos de um homem! Você desata um nó que é uma beleza!

– Você é apenas um patife, desgraçado! Se eu fosse um homem, cravaria um punhal no teu…

– Cale-se, vadia! Eu te amei um dia! Vejo que só perdi meu tempo! Hoje, nada sinto.

– Quase acreditei em você, canalha!

– Quase? Não devia acreditar. Eu, na verdade, nunca te amei. No dia em que eu pensei que te amava, conheci uma cabritinha e…

– Cale-se, estúpido! Antes você deveria se apaixonar por um jumento, se é que isso nunca aconteceu!

– Ei, pode parar! Não me faça lembrar de momentos difíceis da minha vida. Façamos o seguinte: vá para um convento e se agarre a uma freira na fábrica de sabão!

– Vá tomar no …

– Cale-se! O momento agora é o da revelação. Vou dizer o motivo da minha loucura! Este é o momento que todos estão esperando.

Ramilete piscou o olho para Ofélia, mas, tremendo de raiva, ela não entendeu e isso a irritou ainda mais.

Atrás das cortinas, os ouvidos do rei e de Polônio se posicionaram feito orelha de jumento para ouvir a revelação. Ofélia se aproximou de Ramilete e lhe deu uma bofetada. Ele coçou o rosto e disse baixinho:

– Caralho! Você bateu valendo! Estou apenas fingindo que sou louco!

Ela se aproximou do ouvido dele e falou:

– Eu vi você beijando aquela puta! A próxima porrada que eu lhe der vai ser nos ovos! E não se esqueça de que eu sou boa em manejar arco e flecha!

Ele a segurou e falou baixinho:

– Meu amor, eu posso explicar depois! Não estrague nossa cena, por favor! Agora precisamos voltar à encenação. Vou voltar para o meu personagem!

Ela o empurrou e disse:

– Chutarei seus ovos e a bunda da vagabunda!

– O melhor que você tem a fazer é tomar um banho gelado e ir para um convento. Vá refrescar a periquita! Onde está seu pai, aquele baba-ovo do rei?

– Tá na casa da puta que te pariu!

– Ah, tá. Mas…

Ramilete deu uma pausa na voz e observou melhor sua amada. Ele estava em dúvida sobre a atuação de Ofélia. “Será que ela está mesmo com raiva”? Pensou ele. Na dúvida, ele optou por continuar a encenação:

– Como eu ia dizendo, antes minha mãe tivesse dado à luz um porco!

– Só se ela botasse luz pelo cu!

– Não me interrompa, mulher! Nunca ouse cortar a fala de um homem amado por deus. Oh, ser bíblico desprezível e imoral! Como continuação da minha fala, devo dizer que um cretino como eu não merece viver! Sou arrogante, vingativo e filho da puta! Tenho mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los! Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Sou um desvairado, canalha e pecador! Não acredite em mim! Mas, sem mais ninguém para acreditar, acredite em mim! É melhor acreditar em mim do que no idiota do seu pai! Agora vai! Casa com um imbecil da laia dele! Não, digo melhor, vai para um cabaré ganhar a vida honestamente! Uma puta vale mais do que…

Ofélia se aproximou dele e, como havia prometido, chutou seus ovos. Tremendo de dor ele ainda falou:

– Eu ainda precisava finalizar dizendo que o motivo da minha loucura foi a maquiagem malfeita que você fez! O batom deixou sua boca troncha!

Ramilete sai da sala quase rastejando de dor. Ofélia fica nervosa e diz:

– Desgraçado! Ainda diz que não sei me pintar! Da próxima vez eu vou pintar tua cara com uma lâmina! Oh, deus, como sou infeliz! Sou a mulher mais desgraçada deste mundo. Entreguei-me na cama a um porco desgraçado! Um cachorro que me troca pela primeira quenga dos infernos! Oh, desgraçada de mim, que vi na cama o que vi, vendo o que jamais verei; que fiz na cama o que fiz, fazendo o que jamais farei!

Ela se deixa cair aos prantos em um dos sofás enquanto os dois ratos saem de detrás das cortinas.

– Ele não a ama – Disse o rei – O motivo dele é outro! Talvez seja um motivo muito perigoso para mim. Devo me livrar desse louco! Vou mandá-lo para Serra Talhada. Lá, ele ficará hospedado no Hotel Inglaterra.

– Boa ideia. Mande esse filho de corno para puta que o pariu! – Disse Polônio.

– Polônio, você sabia que ele pode ser meu filho?

– Oh, poderoso rei, peço perdão! Eu quis dizer que o mande falar com a sua mãe. Talvez ela consiga arrancar dele a verdade sobre a loucura. Mais uma vez estarei lá no mesmo recinto de forma oculta, atrás das cortinas.

– Polônio, você não tem vergonha nessa cara de rapariga, não? Um velho da sua idade, com a cara cheia de pregas, comportando-se como uma quenga alcoviteira, peniqueira, fofoqueira escondida e respirando poeira de bunda! Essa sua mania feia de ficar atrás das cortinas ainda vai lhe custar a vida!

– Olha só quem fala! – Exclamou Polônio.

– Falarei com Gertrudes. –Disse o rei – Mas essa será a última vez que você se comportará como uma fuleira!

– Faço isso porque a loucura dos pequenos deve ser reprimida com camisa de força e choque elétrico nos colhões; mas a dos grandes, como é o caso do príncipe, deve ser observada apenas.

– Babão! – Disse um coro de vozes de pessoas que até hoje nunca foram identificadas.

Capítulo XV

Recuperado das dores provocadas por Ofélia, no dia anterior, e vendo o adiantar das horas, Ramilete procura o diretor da companhia de teatro e dá as últimas instruções sobre como deve ser a atuação dos artistas. Em seguida, encontra Horácio e pede que ele o ajude a observar o rei na hora da apresentação:

– Horácio, fique de olhos bem abertos em cima do rei. Não deixe escapar nenhum detalhe das expressões desse canalha. Depois julgaremos suas atitudes e decidiremos sobre o que falou o fantasma do meu pai. Saberemos se o que ele disse é verdade ou é apenas uma brincadeira satânica vinda do imundo anjo do inferno!

– Ficarei de olho, meu senhor!

– Horácio, estão chegando os convidados. Devo voltar ao meu papel de louco. Vai, procura um bom lugar para sentar e observa tudo, vai!

O rei se aproxima de Ramilete.

– Ora, ora como vai meu sobrinho querido!

– Como uma onda no mar carregando bosta, alimento da alma. Se peço sopa, trazem poupa. Se peço pouco, trazem porco ou não trazem “nada”. Mas “nada” ainda é muita coisa para quem tem tudo. Vivo na esperança de viver. Vivo um dia por dia, morrendo todo dia!

– Não entendi porra nenhuma! Você entendeu alguma coisa, Polônio?

– Tudo, tudo, tudo e nada, nada e nada. – Respondeu Polônio.

Serenamente como quem observa o tempo, Ramilete falou:

– Quem nada, nada e nada, acaba morrendo na praia. Peço que não me confundam com um boi porque chifre que nasce torto morre torto e não serve para assar castanha.

– O senhor tem estilo, caro príncipe. – Disse Polônio. – O senhor só precisa de um ajuste no quesito concatenação das ideias.

– Os atores estão prontos. Procuremos nossos poleiros. – Disse Ramilete – Cuidado para não fazerem merdas, uns nas cabeças dos outros!

– Querido, sente-se do meu lado! – Disse Gertrudes se dirigindo ao filho Ramilete.

– Madame, – Respondeu o príncipe – prefiro sentar ao lado de uma puta conhecida do que ao lado de uma santa de má fama! As quenguinhas novas são mais bonitas do que a senhora! Faça uma plástica porque seu rosto está mais engelhado do que pele de cu de sapo!

Gertrudes ficou tão paralisada e horrorizada com as palavras do filho que só voltou a si dois minutos depois quando Ramilete, a pretexto de arrumar as almofadas de sua cadeira, levantou-se, posicionou seu traseiro a dez centímetros da cara dela e soltou um peido pólvora barulhento. Depois disso, Ramilete olhou para Ofélia e disse:

– Posso me entranhar nas suas tetas?

– Vá se escorar no pau de um jumento, seu maldito mentiroso e fingido! – Respondeu Ofélia.

Ele se aproximou da amada e disse baixinho:

– Meu amor, o louco aqui sou eu! Eu estou representando! Acho que você está levando tudo muito a sério!

– Você ainda não viu nada, seu traidor miserável! Se eu pegar você outra vez com aquela atriz eu corto seu pinto e dou aos cachorros!

– Mas querida…

– Cale-se e sente aqui ao meu lado onde eu possa observá-lo! A peça vai começar, sente-se, cretino!

A peça começou. Entram um rei e uma rainha. Eles se comportam como amantes sinceros e honestos. Ambos se abraçam e ela se ajoelha aos pés dele e o venera. Entre beijos e abraços, os dois se sentam próximos a um canteiro de flor. Ela se deita e ele faz o mesmo. Enfim, ele adormece. Percebendo isso, ela se levanta e sai. Agora entra um homem que tira a coroa do rei e derrama veneno em seu ouvido. Em seguida se retira beijando a coroa enquanto que o moribundo rei bota espuma pelas ventas e pela boca. A rainha entra em cena e vê seu marido morto. Ela faz apaixonadas demonstrações de dor. O envenenador volta e finge também sentir a mesma dor. Um comparsa dele retira o cadáver em meio à espuma, enquanto o assassino corteja a rainha viúva com dedicação e presentes. Ela recusa os presentes dele, mas de tanto insistir ela acaba cedendo. Por fim, saem de cena os dois amantes trocando juras de amor.

Ofélia estava sentada entre Gertrudes e Ramilete. Confusa e ainda chateada com o amado, ela se vira para Gertrudes e pergunta:

– A senhora entendeu alguma coisa?

Ramilete interveio dizendo:

– Querida irmã, isso é um mistério maligno, ou melhor, maldito.

– Primeiro, eu não sou sua irmã! Segundo, não se meta na conversa entre mim e sua mãe!

– Calma, minha criança, a loucura o confunde o tempo todo! Dê um desconto. O coitado está assim desde a morte do seu pai. – Defendeu Gertrudes.

Ofélia observa o amado e cospe em cima dele alguns desaforos:

– Falso, traidor, mentiroso e fingido, isso é o que ele é!

Atrás de Ofélia e Ramilete está Guildenstern prestando atenção e se deliciando com o mau humor dela.

Entra em cena outro ator. Ramilete, atento aos acontecimentos do palco, nem se incomodou com a fala de Ofélia e comentou:

– Esse daí vai dizer que os atores não guardam segredo algum. Depois entrarão o rei e a rainha novamente. Só que desta vez a cena será toda falada, e não muda como a primeira. Teremos agora elementos esclarecedores da primeira cena.

Chateada, Ofélia fingiu que não ouviu. Conforme Ramilete falou, entraram em cena os atores rei e rainha.

– Já o sol, inúmeras voltas deu desde que o amor uniu você e eu. – Disse o rei ator. Esse ator, conforme Ramilete pediu ao diretor da peça, representa seu pai.

– Que ele dê milhões de voltas antes que esse amor chegue ao fim. – Disse a rainha atriz. Essa atriz representa Gertrudes.

– Tenho mais passado do que futuro! – Disse o rei ator. – Meu fim certamente está próximo. Mas alegra meu coração saber que depois de mim outro dormirá no meu colchão.

– Não, eu não aceito! – Disse a rainha atriz – Eu não aceito toalha molhada em cima da cama nem cueca surrada no meu travesseiro, pois laranja de maribondo se encontra em qualquer janeiro e só tem outro parceiro aquela que mata o primeiro!

E o rei ator responde:

– A carne é fraca, minha pequena. Que mulher não enfrentaria uma bomba, subindo ladeira para dançar um samba, descendo ladeira numa caçamba, correndo e pulando atrás de uma pomba?

E a rainha atriz responde:

– Da mulher que você fala, vi uma que se chama Raimunda. Comigo não se parece, pois tem lá enorme bunda. Desse mal sempre padece aquela que é vagabunda.

E o rei ator responde:

– Pelo que diz, você é mulher que esfria o facho, mas aquela que nega o ato é a primeira a buscar um macho. Quero ver você manter essa crença sem ruído, pois quando eu tiver morrido, quero ver se você aguenta três dias nesse moído.

E a rainha responde:

– Que o inferno me queime viva e do diabo eu seja amiga; que o céu me ceife a vida, que o mar me faça ferida, que um touro eu tenha parido se depois de você morrido eu arranjar outro marido.

Ouvindo isso, Ramilete falou para Ofélia:

– Eis um belo perjúrio! Cadelas no cio juram melhor!

– Juras solenemente. Agora me deixe, querida – Disse o rei ator – Enfadonho é este momento, pois sei que no fundo mente. Deixe que sozinho eu durma vendo estrelas no firmamento.

– Durma, meu amor. Que o sono embale a sua alma.

Ramilete dirige a palavra a sua mãe e pergunta:

– Que achou?

– Acho que a rainha da peça promete demais.

– Ao menos a rainha da peça promete! – Disse Ramilete – Promete não procurar uma rola quando a rola que ela tem desaparecer da gaiola!

O rei Cláudio interveio:

– Nisso há alguma ofensa?

– Não. – Respondeu Ramilete – É apenas brincadeira. Tudo é brincadeira. Até o veneno é de brincadeira. Não há a menor intenção de ofender ninguém.

– Como se chama esse drama? – Perguntou o rei Cláudio.

– “A Ratoeira”. Armadilha para pegar gabiru. Mas trata de fato real: o assassinato de Gonzaga. O senhor não imagina, mas o irmão mata Gonzaga e ainda fica com a mulher dele. Mas isso não tem a menor importância para nós que temos a consciência tranquila e a alma livre. Veja como vai ser fácil matar Gonzaga num jardim, com veneno derramado em seu mungunzá. Tudo isso para usurpar o trono. Agora vem a cena em que o assassino arrebata o amor da mulher de Gonzaga.

Ofélia interrompeu a narração de Ramilete porque percebeu que o rei Cláudio não estava se sentindo bem.

– O rei se levantou. – Disse Ofélia.

– Sente alguma coisa, meu senhor – Perguntou Gertrudes.

– Parem essa peça! – Gritou Polônio.

– Não me sinto bem. Preciso de luz – Disse o rei.

O rei se recolheu aos seus aposentos e o salão foi, aos poucos, esvaziado.

Ao olhar para a porta dos fundos, que dá acesso ao camarim dos atores, Ofélia vê a atriz que beijou seu amado. Como uma fêmea de leão disposta a não dividir seu macho com outra leoa, ela a segue e, tenham certeza, caros leitores, do encontro dela com a suposta rival, só saíram verdades e nada mais. Nem um arranhão. Apenas palavras carregadas com verdades desmanchando toda a trama de Guildenstern.

No recinto, onde a peça estava sendo encenada, ficaram apenas Ramilete e Horácio.

– Horácio, não tenho a menor dúvida sobre a veracidade das palavras do fantasma. Você concorda?

– Não tenho dúvidas. Concordo com o senhor: o fantasma estava certo.

– Quando se falou no veneno…

– Observei tudo. O rei Cláudio se denunciou.

Rosencrantz e Guildenstern entram no recinto, apressadamente, interrompendo a conversa dos dois amigos:

– Senhor, o rei está destemperado!

– Falta-lhe tempero? Procure na cozinha, pois a lavagem para porcos que eu tenho para administrar só aumentará a sua bílis.

– É destempero de cólera, meu senhor!

– Nesse caso, seria mais inteligente procurar um médico.

– Sua mãe nos pediu para procurá-lo. Ela quer vê-lo, no seu quarto de dormir, antes de se deitar.

Polônio entrou no recinto e Guildenstern falou:

– Polônio, a rainha quer vê-lo também.

– Obrigado pelo aviso. Irei agora mesmo.

– Aproveite e diga a ela que irei logo em seguida. – Disse Ramilete.

– Sim, meu senhor. Direi.

Ramilete se despede de seu amigo dizendo:

– Devo falar com minha mãe, mas antes gostaria que me deixassem sozinho. Até logo meus amigos.

Sozinho, Ramilete trava uma luta inglória. Ele fica entre o desejo de cuspir fogo em cima da sua mãe, com palavras amargas, despejando nela toda a sua angústia e dor, e o dever de respeito ao ser que lhe trouxe ao mundo.

Fraqueza”, pensou ele. “Ela é apenas fraca e, além disso, mais uma vítima desse monstro assassino. Serei duro, frio, mas moderado. Quanto ao rei, esse experimentará da minha vingança! Este é o momento. Devo ir”.

Ele respirou fundo e foi ao encontro da sua mãe. Mas antes deu uma passadinha furtiva nos aposentos do rei para ver sua reação depois da peça.

Capítulo XVI

Nos aposentos do rei encontram-se Rosencrantz e Guildenstern envolvidos em demasiados cuidados para proteger a saúde real. Eles fazem de tudo para distrair o tirano e acalmar-lhe o ânimo.

– Não gosto do jeito desse maluco! – Disse o rei andando em círculo. – Esse lunático tem que ficar longe do castelo! Vocês terão essa incumbência! Levem-no para Serra Talhada e o mantenham lá até que volte ao normal! Esse doido é um perigo entre nós!

– Terei o maior prazer em mantê-lo longe do palácio. – Disse Guildenstern.

Enquanto o rei andava em círculos, gesticulando e balbuciando pragas, Rosencrantz levou Guildenstern a um canto dos aposentos e, sem perceber que Ramilete havia entrado pela janela e estava escondido bem próximo deles, perguntou:

– Você tem alguma razão especial para essa sua atitude, além de separar o príncipe Ramilete de Ofélia? Eu sei que você contratou a atriz para provocar ciúme!

– Esqueça esse assunto. Digamos que minha razão especial seja apenas a de proteger o rei, meu amigo.

– Apressem-se! – Ordenou o rei – Tirem esse louco daqui!

– Faremos isso agora mesmo, meu senhor. – Disse Guildenstern.

Nisso, Polônio entrou esbaforido. Antes que ele falasse alguma coisa, o rei fez sinal para que Guildenstern e Rosencrantz os deixassem sozinhos. Em seguida Polônio falou:

– Senhor, acabo de saber que ele se dirigiu aos aposentos da rainha! Espionarei atrás das cortinas e tudo que eu ouvir, trarei como notícia para Vossa Majestade! Estou crente que a rainha vai censurá-lo com veemência e adequadamente pelas loucuras que tem aprontado! Dê-me licença, meu senhor, devo agir com pressa!

– Vá o quanto antes.

O rei se atirou de joelhos aos pés da cama, entrelaçou os dedos das mãos e se confessou: “não tenho nem vontade de rezar, pois sei que os anjos de luz não me escutarão. Sou tão infame que minhas palavras só serão ouvidas pelos demônios. Só esses seres se regozijarão com os meus feitos: o assassinato de um irmão, a posse de todos os seus bens e o pecado da luxúria com sua mulher”.

Nesse momento aparece uma sombra por trás da cortina de uma das janelas. É Ramilete com um punhal na mão se aproximando furtivamente por trás do rei. Ele hesita, para e volta. Em seguida sai por onde havia entrado alguns minutos antes, sem ser notado por ninguém.

Capítulo XVII

Consciente de toda armação forjada pelo rei, e acreditando que nessa história o crime mais grave de sua mãe foi o de procurar uma rola, Ramilete se aproximou da porta do quarto dela e bateu.

– Entre. – Disse Gertrudes.

Ao entrar, Ramilete disse:

– Seria eu uma louca cotovia que via, que via, que via? Ao entrar em leito tão nobre, impregnado de vapores de orgia, que cotovia não sentiria? Que cotovia tal coisa não imaginaria, estando diante da cúmplice que na cama ardia?

– Meu filho, pare com esse delírio! Que mãe suportaria a dor de ver seu único filho desmoronar em loucura? Estou a ponto de enlouquecer também! Eu imploro, conte-me sobre o que o atormenta!

– Aqui estou, minha mãe, na armadilha para passarinhos. Não sou mais uma cotovia. Agora venho como pardal onde pombas e rolas voam.

– Não suporto mais essa maldição na nossa vida!

– Maldição? Entre as mulheres é você a maldita Eva que trocou o paraíso por uma trepada!

– Meu filho, Eva trocou o paraíso pelo conhecimento! Ela comeu o fruto…

– Não importa a ordem dos acontecimentos! O que importa é que ela comeu a fruta e Adão a comeu! Logo, ele comeu a fruta! Daí nasceu Caim que matou o irmão!

– Como queira! Mas onde você entra nessa história?

– Eu sou o bendito fruto de uma pura relação de amor entre você e meu pai, morto pelo irmão, Caim! Estou disposto a lançar mão de todas as armas de vingança!

– Meu filho, seu pai lançou uma maldição sobre nós! Não comandamos mais nossas atitudes, nossas vidas…

– Que bobagem está me dizendo, mulher?

– Pegue o livro que está sobre a cabeceira da minha cama! Eu o encontrei hoje pela manhã entre os objetos do seu pai. Folheei apenas por alguns minutos, mas pude concluir que algo nos direciona o tempo todo para que reproduzamos os mesmos fatos descritos na peça “Hamlet” de Shakespeare.

– O que está me dizendo?

– Pegue-o e leia!

– Faça isso, Hamlet! – Disse o fantasma do rei assassinado que acabava de aparecer.

– Quem disse isso? – Perguntou Ramilete – Só meu pai pronunciava meu nome corretamente. Apenas os ignorantes me chamam de Ramilete. Meu pai, sim, chamava-me corretamente: “Hamlet”.

– Leia o livro! Faça isso agora! – Disse o fantasma.

– Meu filho, com quem você está conversando? – Perguntou Gertrudes.

– Não está vendo? É o fantasma do meu pai!

– Ave Maria! – Gritou Gertrudes – É ele mesmo! Estou envergonhada! Não consigo, nem quero olhar para seu pai! Sinto como se tivesse traído sua confiança ao deitar com outro na cama que foi dele!

Gertrudes pegou o velho livro de capa de couro e colocou nas mãos de Ramilete digo, Hamlet. Afinal, um narrador da minha estirpe não deve integrar o rol dos ignorantes. De agora em diante só vou chamar nosso príncipe de Hamlet.

– Leia isto! Vamos, leia! Sairei deste quarto agora mesmo! Não tenho coragem de encarar seu pai!

– Não se atreva a deixar este lugar, mulher! – Gritou Hamlet.

– Ela tem razão, meu filho. – Disse o fantasma – Eu atraí uma maldição para nossa família. Empolguei-me tanto com histórias de reis e rainhas, contadas por meu avô, que desejei ardentemente viver uma delas. Comprei vastas quantidades de terras, construí um castelo e orientei, segundo o roteiro de um sonho, a vida dos camponeses que vieram para cá. Eu dei um sentido glorioso à vida deles. Fiz com que vivessem como num conto de fadas. Eles até esqueceram como é a vida fora das nossas muralhas. Nem mesmo você, meu filho, sabe como é viver lá fora, pois nunca permiti que as influências de lá contaminassem aquilo que sempre considerei como meu reino. Eu escolhi a vida que todos deveriam viver. Quando percebi que tudo havia se transformado em maldição e que o comando não era mais meu, já era tarde demais. Depois que morri, nada mais me interessava, senão, a vingança. Ninguém melhor do que meu próprio filho para fazer isso por mim. E agora, vingue-me.

– Vivemos sua fantasia? – Perguntou Hamlet.

– Não mais que isso, meu filho. – Respondeu Gertrudes – Essa maldição nos persegue desde o dia em que seu pai afirmou que criaria seu reino. O cantar do galo, naquela ocasião, selou nosso destino.

– Um galo?! Você está me dizendo que um galo selou para sempre o destino de homens livres?!

– Se você abrir esse livro, a verdade será revelada. – Disse o fantasma.

Hamlet sentou-se na cama da mãe e leu a primeira página. O fantasma, sentindo-se aliviado, falou:

– Conheça a verdade e ela o libertará. Sinto que agora posso descansar em paz. Adeus, meu filho.

– Pai! Pai, onde você está? O que faço agora? Pai!

Depois que passou a euforia de Hamlet, causada pela surpresa da revelação, Gertrudes falou:

– Apenas leia o livro.

Após a leitura das duas primeiras cenas da peça, Hamlet percebeu a semelhança dos fatos ali contidos com sua história real. Gertrudes, vendo a inquietação e espanto do filho, disse:

– Polônio, saia daí. Creio que não há mais motivos para isso. Agora, deixe-me a sós com meu filho.

– Deixarei vocês. – Disse Polônio – Isso poupa momentaneamente minha vida, mas a maldição continua. Parece impossível detê-la.

– Faça o que ela pediu e não fale mais bobagens!  – Repreendeu Hamlet.

Polônio abaixou a cabeça e saiu.

– Ofélia aparece aqui na terceira cena. – Disse Hamlet, meia hora após a saída de Polônio. – A quarta e a quinta cenas estão escritas aqui exatamente como se passaram comigo e com os meus amigos, Marcelo e Horácio! Como isso é possível?

Hamlet pulou a primeira cena do segundo ato, pois não lhe dizia respeito, leu a segunda cena e ficou impressionado com a semelhança com sua vida. Fazendo leitura dinâmica, logo chegou ao terceiro ato. Ele leu a quarta cena e disse:

– Eu ia matar Polônio! Eu ia matar esse desgraçado!  Como se sentiria Ofélia depois disso?

– Vá até a quinta cena desse quarto ato. Depois verá que ela morre no final da sétima cena. – Disse Gertrudes.

– Não deixarei que esse maldito livro conduza minhas ações! Não matei o maluco Polônio! Isso é sinal de que podemos mudar tudo! Maldições não existem! O que existem são loucos dirigindo a vida de pessoas, manipulando seus sentimentos e, quem sabe, até seus pensamentos! Não lutarei com Laertes, conforme está escrito aqui, pois tanto o pai como o irmão, são preciosos para a manutenção da saúde mental de Ofélia. Não deixarei essa maldita peça me guiar, mas o crime cometido por Cláudio não pode ficar impune! O assassino do meu pai vai ter que pagar pelo seu crime! Agora preciso ver Ofélia! Tenho que afastá-la dessa desgraça!

– Nunca ouvi dizer que alguém escapou de uma maldição, meu filho.

– Maldições não existem! O que existe são pessoas condicionadas a viver uma fantasia! Alguém está nos guiando nessa loucura! No início foi meu pai! Depois dele, quem continuou manipulando os fatos? Vou descobrir, ou melhor, vou confirmar aquilo de que já tenho certeza!

Ele sai à procura de Ofélia, encontra Polônio e diz:

– Está satisfeito com tudo que fez?

– Eu só quis realizar o sonho do seu pai.

– Você e Cláudio manipularam os fatos desde o início! Moldaram nossas vidas de acordo com uma fantasia, não foi? Vamos, responda! Que espécies de loucos fariam isso? Você ia sacrificar sua vida e a vida da sua filha, seu cretino! E tudo por nada! E a morte do meu pai? Vocês o envenenaram!

– Não, eu não participei disso! Eu confesso que perdi o controle da situação, mas nunca mataria seu pai! Não consegui parar seu tio. Ele sempre me dizia que não se podia controlar uma maldição. Estava tudo escrito, meu senhor! Segundo ele, tinha que se cumprir! Quando eu descobri que ele tinha envenenado seu pai, percebi que tudo isso estava indo longe demais! O fantasma… O fantasma que você e seus amigos viram foi criação minha! Eu criei a situação do fantasma para alertá-lo do crime! Acredite em mim! O fantasma era só uma encenação coordenada por mim. Eu queria que o senhor soubesse da verdade.

– Você estava atrás das cortinas exatamente como na peça! Você ia deixar que eu o matasse?

– O senhor não ia conseguir me matar. Eu estava preparado para evitar isso. Havia no quarto de sua mãe três seguranças escondidos comigo, além do suposto fantasma do seu pai.

– Engendrou tudo isso? Você é um monstro, um louco!

– Eu tive que fazer isso para tentar deter seu tio!

– Por que não fez isso antes da morte do meu pai? Podia ter sumido daqui, talvez! Qualquer coisa, menos apoiar a loucura desse canalha assassino! Não estrangulo você agora porque sua filha não merece isso! Você não passa de cúmplice, bajulador, infame! Vive se humilhando diante dele! Meu pai deu amizade…  Você esqueceu isso em troca da migalha de pão que o assassino oferecia! Saia da minha frente! Tenho nojo de você!

– Perdoe-me! Eu quis fugir, mas era tarde. Nada do que eu fazia mudava os acontecimentos. O senhor pode me matar agora! Faça isso e alivie sua dor!

– Basta, seu louco! Saia da minha frente, pois preciso ver Ofélia!

Ele vai até o quarto de Ofélia e a encontra fazendo uma trança nos longos cabelos. Aproxima-se da penteadeira e ela o vê pelo espelho. Vira-se, levanta-se e se atira em seus braços.

– Eu precisava ter a certeza de que você estava bem, meu amor. Sei que lhe devo explicações… Na verdade, as explicações sobre o beijo que você viu acontecer comigo e a atriz, quem saberá explicar melhor é o próprio mentor da cena.

– Já descobri tudo. Foi Guildenstern. Ele armou tudo para nos separar.

– Nesse momento eu só peço que confie em mim. Acabarei com toda essa farsa e esclarecerei tudo.

Ela suspirou e disse:

– Perdoe-me por ter desconfiado de você.

– Não há o que perdoar. Só prometa que não vai deixar de me amar nunca.

– Eu prometo.

Ele a beijou e se retirou do quarto com o intuito de acertar as contas com Cláudio. Na entrada dos aposentos do tio ele encontra Guildenstern e Rosencrantz que tentam dissuadi-lo da ideia.

– Guildenstern, saia da minha frente antes que eu esqueça que um dia fomos amigos! E você, Rosencrantz, mesmo sabendo da conspiração do Guildenstern contra mim e Ofélia, não fez nada para minimizar o sofrimento dela! Quero que os dois sumam do castelo para sempre!

Virando-se para Guildenstern ele ainda diz:

– Invente outra coisa, Ofélia não caiu na sua armadilha ridícula!

Enquanto isso, em um dos salões, Laertes, após seu regresso da França, é recebido pelo rei.

– Laertes, meu bom Laertes percebo que desde que aqui chegou você tem andado de um jeito estranho! Conte-me o que aconteceu!

– Prefiro que Vossa Majestade me poupe de tamanha vergonha.

– Como seu rei e soberano, exijo que me conte tudo.

– Não posso desobedecer ao rei. Mas tudo isso é bastante constrangedor.

– Conte tudo.

– Logo que cheguei à França, fui oferecer ao presidente de lá as coisas dos jumentos. Ele me falou que tudo que eles adquirem é usado para o conforto do povo. Se ele comprasse aquele monte de rolas de jumento, então teria que doá-las para o povo. Aí ele me fez uma pergunta: “você sabe o que é liberté, égalité e fraternité?” Eu disse que não sabia, então ele me fez outra pergunta: “você sabe o que aconteceu com o último soberano que infringiu os deveres com essas três palavras? ” Eu disse mais uma vez que não sabia, então ele fez a terceira e última pergunta: “você sabe qual é o povo que leva, do seu governo, fumo no rabo e nem sequer grita”? Eu disse a ele que também não sabia e ele disse: “Você vai saber”. Eles me levaram para uma cela e pegaram uma das rolas de jumento e enfiaram no meu rabo. Tentei gritar, mas cada vez que eu ameaçava abrir o bocão eles apertavam uma peixeira no meu pescoço. Fiquei preso esse tempo todinho com direito à companhia dos cipós dos jumentos que eu levei. Era tanta rola de jumento que tive a ideia de fazer alguma coisa com elas. Comecei a fazer bengala, cabo de faca, cabo de colher, de garfo e de enxada. Aprendi a fazer até cabo de espada. Eu trouxe um presente para o senhor. Veja que maravilha: uma bengala de jumento!

Hamlet chuta a porta e entra de assalto interrompendo a conversa dos dois. Com uma espada em punho ele diz ao rei:

– Desembainhe sua espada! Eu lhe darei a chance que você não deu ao meu pai.

Laertes pega sua espada cabo de rola e se coloca na frente do rei, pronto para defendê-lo. Polônio entra e se dirige ao filho:

– Recolha sua espada cabo de rola, Laertes! Esse assassino precisa ser detido! Vamos, recolha sua espada e saia da frente desse maldito!

O filho obedece e Polônio diz:

– Contribuí para a criação de um monstro. Eu mesmo ponho um fim nisso!

 Polônio avança para cima do rei com espada em punho. O rei se esquiva da investida dele e, com a bengala do jumento que acabou de receber de presente, bate em sua cabeça. Em seguida, crava um florete no peito do adversário. Laertes vai ajudar o pai que está ferido no chão, pega a espada da mão de Polônio e antes que ele se arme para desafiar o rei, este lhe aplica um golpe com a bengala de rola de jumento. Ofélia entra e vê toda a cena. Aos prantos ela vai até o irmão e tenta fazê-lo levantar. Sem sucesso, ela corre até o pai e tenta reanimá-lo, mas tudo é em vão: o pai está morto e o irmão, ferido.

Enquanto isso, Hamlet trava luta com o rei e o fere. Caído, ele recebe os cuidados de Gertrudes que acabava de adentrar no local. É nesse momento que o rei tem a infeliz ideia de tomá-la como refém.

Vendo seu pai morto, Ofélia para de chorar de repente, enxuga as lágrimas e deixa uma ira surda e incontrolável tomar seu corpo. Um rubor colérico toma sua face. Com os olhos apertados ela vira o rosto lentamente na direção de Cláudio. Um olhar de um bilhão de chispas de fogo encontra os olhos de cachorro acuado do rei. Ela respira fundo, ergue-se e lentamente sai da cena do crime, enquanto Hamlet, Guildenstern e Rosencrantz iniciam negociação com Cláudio para libertar Gertrudes. Nem dois minutos se passaram e Ofélia volta com seu arco e flecha. O meigo e frágil semblante de princesa que ela sempre carregou em sua vida deu lugar a uma face madura com um olhar sério e duro na direção do assassino de seu pai. Com uma voz que saia forçando passagem entre os alvíssimos dentes ela falou:

– Seu reinado de crimes terminou!

– Quero que vocês deixem o castelo para sempre! Saiam agora ou eu corto a garganta de Gertrudes! – Gritou o rei.

– Há tempo para tudo, meu rei – Disse Ofélia enquanto colocava a flecha no arco – “Existe um tempo certo para cada coisa, momento oportuno para cada propósito debaixo do sol: tempo de nascer, tempo de morrer; tempo de plantar, tempo de colher[39]”.

 Com uma frieza nunca antes percebida numa bela, doce, meiga e frágil princesa, Ofélia mira na cabeça de Cláudio e, para a surpresa de todos, sem dizer mais nenhuma palavra, atira.

Uma flechada certeira, que teve como destino um ponto situado entre os olhos do assassino de seu pai, acabou com toda a confusão.

Vendo que tudo havia terminado com seu último ato, a bela dobrou os joelhos e foi amparada por seu amado.

Daí por diante, nunca mais se soube da matança de jumentos para exportação, fato que trouxe tranquilidade para o Conde Albérius que acabou livrando seu companheiro pinguço de uma morte mil vezes anunciada e nunca concretizada.

Em vez do uso obrigatório das roupas quente europeias, adotou-se, na fazenda Nova Dinamarca, a liberdade de escolha e, consequentemente, o uso de roupas mais adequadas àquele lugar cuja temperatura chegava facilmente, no verão, aos quarenta graus centígrados.

Horácio, Marcelo e Laertes destruíram os armários de seus antigos lares; dividiram o aluguel de uma nova casa com sauna gay e fachada cor de rosa; juntaram suas roupas em um único closet[40] e foram curtir a liberdade de uma vida com um pouco de frescura. Eles brincavam tanto com suas espadas que ficaram conhecidos como “Os Três Mosqueteiros”. De vez em quando recebiam as visitas do corno Cornélio e de Voltimando. Esses dois, perguntados sobre os motivos de seus andares estranhos, juravam de pés juntos, beijando o sinal da cruz, que haviam escorregado num toco.

Rosencrantz e Guildenstern, perdoados por Hamlet, passaram a ser guias turísticos de Elsinor onde contavam toda a história narrada por Shakespeare, na peça Hamlet, e a história da suposta maldição de Hamlet que tomou conta daquele castelo.

Gertrudes nunca mais foi a mesma. Enclausurou-se, a contragosto do filho que sempre a perdoou, em uma das torres do castelo e lá permaneceu até o fim dos seus dias.

Por fim, resta dizer, amigo ou amiga leitora, que para a felicidade de Hamlet, Ofélia nunca mais usou seu arco e flecha. Assim, nunca pudemos saber se ela seria capaz de acertar, com apenas uma flecha, dois alvos ao mesmo tempo. Também, para a garantia de uma nova geração de pequenos Hamlets e Ofélias, ela nunca mais quis demonstrar que, com apenas uma bota de bico fino, seria capaz de acertar dois ovos.

E assim, como acontece com qualquer casal que verdadeiramente se ama, retirando um do outro pequenas farpas do dia a dia, na presença de imensos e duradores buquês de flores, entre incontáveis beijos e abraços sob os lençóis eles foram felizes um dia após outro, cada dia de suas vidas.

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– Um Criador de Histórias;

– O Último Anjo;

– Em Nome de Deus;

– Um Olhar Sobre Nossas Cortinas.

VANRAZ

vanrazferraz@gmail.com

[1] Personagem da peça “Hamlet” de Shakespeare.

[2] Pernambuco é um Estado do Brasil. Localizado no Nordeste, sua capital é Recife.

[3] Flor.

[4]A Guerra do Paraguai foi um conflito militar que ocorreu na América do Sul no período de 1864 a 1870. Nessa guerra o Paraguai lutou sozinho (e perdeu) contra a Tríplice Aliança, apoiada pela Inglaterra, formada por Brasil, Argentina e Uruguai.

[5] A Santa Inquisição foi uma espécie de tribunal católico criado na Idade Média para condenar todos aqueles que eram contra os dogmas pregados pela Igreja. Esse surto de insanidade humana, em nome de um suposto deus, serviu também de desculpa para a prática de inúmeros outros crimes contra a humanidade. Estabelecido pelo Papa Gregório IX, esse maldito Tribunal do Santo Ofício perseguiu, torturou e mandou para a fogueira milhares de pessoas consideradas bruxas, heréticas ou simplesmente por serem praticantes de outra religião que não o catolicismo. Essa maldição católica afundou a Europa, por vários séculos, numa terrível era de trevas. Acreditem, naquela época, uma religião teve o poder de trazer o inferno para a Terra com todos os seus demônios encarnados e vestidos com batinas!

[6] Expressão usada, pelo menos no interior de Pernambuco, que quer dizer: “Dê-se por satisfeito”, “pelo menos isso”, “isso é bom. Podia ter sido pior”, “Dê graças a Deus”.

[7] Faz referência aos órgãos genitais do jumento.

[8] Conto de réis era uma expressão adotada, antigamente, no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis. Réis é o plural de Real. Um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de mil-réis. Em Portugal a moeda Real foi substituída pelo escudo. No Brasil essa moeda foi substituída pelo Cruzeiro. Atualmente o Brasil adota o Real como moeda.

[9] “No pau” é uma expressão usada no Nordeste do Brasil que significa “comprar à vista”, “pagamento em dinheiro no ato da compra”.

[10] Mungunzá ou Munguzá é um doce feito de grãos de milho levemente triturado, cozidos em um caldo contendo leite de coco ou de vaca, açúcar, canela em pó ou em casca e cravo-da-índia. O prato faz parte da culinária nordestina.

[11] Cícero Romão Batista foi um sacerdote católico brasileiro. Na devoção popular é conhecido como Padre Cícero ou Padim Ciço. Carismático, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará, bem como, do Nordeste. Foi excomungado pela igreja. No ano de dois mil e dezesseis, os devotos do  Padre Cícero comemoram a reconciliação com o Vaticano. Isso pôs fim a uma punição de mais de cem anos. Quando morreu, há 81 anos, Padre Cícero não podia sequer celebrar missa.

[12] Expressão usada, no Sertão pernambucano, por visitante que está diante da casa do seu anfitrião. Ele chama a atenção de quem está dentro da casa. Significa: Você que está dentro da casa!

[13] Palavra que no Nordeste brasileiro é usada para designar uma pessoa boba.

[14] Axila.

[15] Trecho da letra da música dos Titãs, O Pulso.

[16] Descabaçar: desvirginar.

[17] Buchada de bode, ou simplesmente buchada, é um prato típico da região Nordeste do Brasil.

[18] Bêbado.

[19] Deixe as coisas como elas estão: calmas; deixe sossegados;

[20] Homi: homem.

[21] Vamos simbora: Vamos embora; Vamos em boa hora.

[22] Prato típico nordestino feito à base de pata de boi.

[23] Pequena arma antiga semelhante ao revólver. Possui dois pequenos canos e pode disparar duas balas.

[24] Máquina lambe lambe: conhecida como máquina-caixote, revestida em couro cru e coberta na parte posterior com uma espécie de saco negro, com três aberturas: dois orifícios para os braços e um para enfiar a cabeça na hora de bater e revelar as fotografias.

[25] Derivação regressiva de “senhor”. Expressão muito usada no Nordeste brasileiro.

[26] Meiota: 300ml, que corresponde a metade de uma garrafa tradicional de cachaça de 600ml.

[27] Traição.

[28] Padre Cícero.

[29] Surra.

[30] Tolo.

[31] Expressão utilizada para denominar pessoas que não gostam do sexo oposto.

[32] Local destinado à prostituição: rendez-vous.

[33] Cramunhão: capeta da garrafa. É mais uma palavra usada por gente tonta para designar o diabo, figura fictícia que povoa as mentes fracas de seres supersticiosos. Dizem os tolos que, depois de um pacto, um ovo de galinha é fecundado pelo próprio diabo. A pessoa que fez o pacto terá que pegar o ovo e levar para casa. Dele nascerá um diabinho que o servirá a vida toda e no fim dela levará sua alma. Quanta bobagem!

[34] Ezequiel 23 – 20, Bíblia: E enamorou-se dos seus amantes, cujo membro é como o de jumentos, e cujo fluxo é como o dos cavalos.

[35] Dizem que um habitante do Sul foi atendido num hospital com um sangramento bastante suspeito no traseiro. O paciente insistiu que se acidentou quando escorregou e caiu em cima de um toco de árvore. O médico diz que não parece acidente com toco. Então, oferece dois remédios e afirma que só pode ministrar o remédio correto. Um remédio seria para arrombamento anal provocado por um toco e o outro remédio seria para arrombamento anal normal, causado por objeto orgânico e pulsante semelhante ao quinto membro do jumento. Disse o médico: se eu aplicar o remédio errado, você morre. Qual escolhe? Devo aplicar mesmo o remédio para toco? O paciente do Sul respondeu: – Não. Aplique esse outro remédio. Mas que foi toco, foi!

[36] Adaptação. 1 Coríntios 13. Bíblia.

[37] “E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas, para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.”- Marcos 4:11-12.

[38] Líder dos espíritos malignos.

[39] Eclesiastes, Cap. 3.

[40] Local sem portas apropriado para guardar roupas.

Trecho de diálogo de “A Maldição de Hamlet”.

(…) não somos diferentes. Somos humanos, apenas isso! Só isso deve nos interessar. É essa maldita sociedade que nos distingue um do outro, cria divergências e, assim, divide-nos! Haverá um dia em que as cercas da ignorância não mais nos separarão. Nesse dia eu não precisarei discutir a preferência sexual de ninguém, pois só haverá uma resposta: preferência sexual humana. A cor da pele será apenas um belo adereço no revestimento do corpo e minha cor será igual a sua: cor humana; ninguém precisará dizer qual é sua raça ou sua crença, pois só haverá uma resposta para cada pergunta: raça humana, crença humana. Assim, nesse dia, nenhum pensamento filosófico ou teológico que definam uma entidade sobrenatural fará sentido, pois, sendo honesto, ninguém terá coragem de definir um ser do bem ou do mal, e mesmo que alguém ousasse defini-lo não haveria ninguém interessado em ouvir tamanho disparate! Todos saberão que um ser sobrenatural definido e proferido por quem quer seja é um falso ser! Sabendo que o mal não existe, e sim a ignorância que leva à intolerância e todos os outros males, aprenderemos desde cedo a ter sede de saber e de aceitar as diferenças. Nesse dia teremos o reinado das virtudes cuja rainha será a honestidade e todos os humanos celebrarão o desprezo pela mediocridade!

Vanraz