Na casa de polônio, Laertes se prepara para viajar levando uma carga de “coisas” de jumentos para a França. Enquanto isso, em um dos cômodos da casa, nua, Ofélia veste vagarosamente sua meia calça. De corpo moreno escultural, a virgem se veste para se despedir do irmão. O vestido desliza suavemente pelo seu corpo enquanto uma brisa gelada que entrou pela janela faz os pelos do bumbum bem desenhado arrepiarem. Os bicos dos seios perfeitos intumesceram com o frio e ela envolveu seu corpo com os braços, atritando as mãos aos ombros, buscando aquecer-se. Arruma os cabelos longos, castanhos e levemente cacheados, descobrindo os ombros delicados. Pinta os lábios com um batom suave, cor de pele, enquanto o espelho estremece de prazer ao ver o mais puro, lindo e honesto rosto de mulher. Um rosto nunca tocado por mãos sujas de machos cujos comportamentos lascivos os tornam indignos de estarem no mesmo ambiente que ela. Após a pintura, suspira e se imagina nos braços do amado Ramilete. Qualquer homem de verdade se sentiria mais sortudo e mais poderoso que qualquer deus já criado pelos homens se apenas merecesse, por um segundo, o olhar de Ofélia. No entanto, Ramilete, jovem inexperiente e donzelo, apaixonado por ela, agia da mesma forma como agem os potros jovem no cio que necessitam de ajuda do vaqueiro para a introdução da “coisa” na “coisa” da égua. Sem a ajuda do vaqueiro, é capaz de o potro enfiar aquela “coisa” no ouvido da coitada da égua. Mas, fazer o que? Quis a natureza que uma fêmea daquela magnitude, como é o caso de Ofélia, se apaixonasse por um imaturo.

– Ofélia, querida, não posso esperar para sempre! Minha carruagem vai partir!

– Estou indo, irmão!

Ofélia chega à sala e encontra o irmão. Ele a observa de cima a baixo e diz:

– Farei sarapatel do fígado do primeiro porco que tocar esse corpo. Você está linda, como sempre, irmã.

Ele a abraça e na despedida diz:

– Não se esqueça de me mandar notícias. Quanto a Ramilete, aquele Mané, e os encantamentos de suas atenções, aceite isso apenas como algo passageiro.

– Não mais que isso?

– Não mais. Ele é apenas um mamão, um pau mandado, mas ainda é rico e nobre. Você é apenas uma linda filha de um servo. Ramilete, certamente, vai fazer a vontade do tio, para o bem dos negócios da família. Ele jamais terá vontade própria. Cuide-se. Quando aquele mané diz que te ama está apenas desejando que você facilite e ele a derrube numa cama.

– Não sei se ele é capaz, irmão.

– Não duvide, irmã, até um cego consegue. Vai tateando, tateando… Assim, pense bem e defenda sua honra. Se abrir as pernas ele pega você com dificuldade, mas pega. Cuidado, irmã! A donzela mais casta não é bastante casta se retira a casca e seu corpo gasta, oferecendo sua…

– Sua rima não parece muita boa, dileto irmão.

– Foi mal. Eu quis dizer que não desnude seu corpo para um cachorro se satisfazer à luz da lua. Nunca esqueça que batatinha quando nasce esparrama pelo chão e as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.

– Não entendi essa última frase, amado irmão.

– Eu quis dizer que colchão e travesseiros de pena de ganso, esparramados pelo chão, costumam presenciar o voo dos cabaços das donzelas atraídas pelo canto da sereia, entendeu?

Com a cabeçinha um pouco zonza, ela indicou que entendeu e disse:

– Ah, tá. Agora, vê se não faz como os falsos defensores da castidade alheia que dizem uma coisa e fazem outra. Não caia no canto das sereias e se beber não dirija. Se dirigir não beba. Se beber, durma virado para a parede.

– Não entendi, cara irmã, essa última frase.

– Eu quis dizer que caneco de bêbado não tem dono, amado irmão.

– Ah, tá. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, estica lá, encolhe cá, vai pelando o sabiá.

– Não entendi, doce e adorável irmão, essa última frase.

– Eu quis dizer que você fique longe da pomba de Ramilete. Deixe ele se acabar na mão feito colher de pedreiro.

– Ah, tá. Bem aventurados os padeiros que não queimam a rosca, pois eles…

– Tchau, papai está vindo aí. – Interrompeu Laertes.

– Aí, também! – Respondeu Ofélia.