DICAS de português do Brasil

Arquivo do mês: abril 2013

Flexão do infinitivo e concordância

Por Thaís Nicoleti

A flexão do infinitivo, convenhamos, é um problema para a maioria dos redatores, geralmente às voltas com as dúvidas sobre o tema. Para piorar a situação, há casos em que é preciso considerar duas regras conflitantes e equilibrá-las de forma coerente.

Normalmente, quando está apassivado (ser feito, ser eleito, ser homenageado), havendo sujeito plural, o infinitivo vai para o plural. Por exemplo: “Eram jovens que, pela primeira vez, tinham a oportunidade de serem eleitos”. Como o particípio sofre a flexão de gênero e número, o infinitivo do verbo auxiliar (“ser”), até por eufonia, vai também para o plural, acompanhando a flexão de número do particípio (“serem eleitos”, em vez de “ser eleitos”).

O redator deparou, entretanto, com a seguinte situação:

Humoristas, como Tiririca, usam fama para tentar (ser ou serem?) eleitos.

Optou pelo seguinte:

“Humoristas, como Tiririca, usam fama para tentar serem eleitos“.

A solução não foi das melhores. O verbo apassivado foi construído com um auxiliar (“tentar”). Na prática, a locução tem dois verbos auxiliares, “tentar” e “ser” (este o auxiliar da voz passiva). Num caso como esse, somente o primeiro auxiliar (no caso, “tentar”) sofre a flexão. Para facilitar a compreensão, basta imaginar um período como “Neste ano, eles deverão ser eleitos” (dificilmente alguém optaria por “deverão serem eleitos”).

No caso em questão, todavia, contribuiu para a confusão o fato de o infinitivo (“tentar”) não estar flexionado, coisa que se explica pelo padrão da flexão do infinitivo. Não havendo mudança de sujeito (do verbo anterior, “usam”, para o infinitivo subsequente, “tentar”), não se faz a flexão. Um exemplo simples para facilitar o raciocínio: “Eles usam a fama para ganhar (não “ganharem”) dinheiro”, porque “ganhar” tem o mesmo sujeito de “usam”.

Muito bem. Fica explicado o motivo pelo qual “tentar” não sofreu a flexão de número (plural). Juntando as várias informações, chegaríamos à construção mais facilmente abonada pelos nossos ouvidos:

Humoristas, como Tiririca, usam fama para tentar ser eleitos.


Bem vindo, bem-vindo ou benvindo?

1) Uma leitora indaga qual a forma correta, quanto ao hífen, após o recente Acordo Ortográfico: Bem vindo, bem-vindo ou benvindo?

2) Nunca é demais reforçar, como introdução, que a maioria dos gramáticos estavam acordes em que o emprego do hífen era assunto que carecia de um sério e profundo trabalho de sistematização e simplificação. Longe de melhorar a situação, todavia, o que o recente Acordo Ortográfico fez, longe de atender às expectativas, foi complicar ainda mais o que já era difícil.

3) Mas tentemos solucionar a questão trazida pelo atento leitor, usando as ferramentas de que dispomos.

4) Pelo Acordo Ortográfico, usa-se o hífen com a palavra bem, quando o segundo elemento da palavra composta começar por vogal ou h. Exs.: bem-apanhado, bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado.

5) Não se apresse o leitor. Apesar da conclusão que pretenda extrair em sequência, vai-se logo observando como continua o Acordo: o advérbio “bempode ou não aglutinar-se ao segundo elemento, quando o segundo elemento da palavra composta começa por consoante: Exs.: por um lado, bem-casado, bem-comportado, bem-criado, bem-disposto, bem-dotado, bem-falante, bem-mandado, bem-nascido, bem-sucedido, bem-vestido; por outro lado, benfazejo, benfeitor, benquerença.

6) Só pelo teor do Acordo – o qual, sem estabelecer critérios seguros, afirma, de modo fluido e inconsistente, que o advérbio “bempode ou não aglutinar-se ao segundo elemento – já se vê a total impossibilidade de fixar uma regra que solucione os problemas do hífen em hipóteses como a da consulta.

7) Num caso como esse – em que se constata a ausência total de critérios mínimos para um raciocínio de convicção e certeza – a única saída é consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que é uma espécie de dicionário que lista as palavras reconhecidas oficialmente como pertencentes à língua portuguesa, bem como lhes fornece a grafia oficial.

8) Também conhecido pela sigla VOLP, é organizado e publicado pela Academia Brasileira de Letras, a qual tem a delegação e a responsabilidade legal de editá-lo, em cumprimento à Lei Eduardo Ramos, de n. 726, de 8/12/1900.

9) Pois bem. Em sua quinta edição, de 2009, a primeira após o Acordo Ortográfico, o VOLP faz constar bem-vindo1, forma essa que já era assim trazida, em 2004, pela quarta edição.2

10) Apenas para ilustração histórica e verificação de como também pode mudar a grafia oficial dos vocábulos no idioma, anota-se que, na segunda edição do VOLP, de 1998, hoje superada, permitiam-se as duas formas, bem-vindo e benvindo.3

________________

1 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., 2009. São Paulo: Global. p. 113.

2 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta, p. 106.

3 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 2. ed., 1998. Rio de Janeiro: A Academia, p. 101.

CRÉDITOS: http://www.migalhas.com.br/Gramatigalhas/10,MI126672,41046-Bem+vindo+bemvindo+ou+benvindo


O uso do infinitivo

qua, 05/01/11

por Sérgio Nogueira |

categoria Dicas

1) Em locuções verbais, devemos usar o infinitivo impessoal (=não
se flexiona):

“Os deputados DEVEM ANALISAR o caso na próxima semana.”
“Os contribuintes PODERÃO, a partir da próxima semana, PAGAR antecipadamente o IPTU.”
Observe que, nas locuções verbais, temos uma oração. O verbo auxiliar é o que concorda com o sujeito.

2) Em orações reduzidas, usamos o infinitivo pessoal (=concorda
com o sujeito):

O professor trouxe o livro PARA EU LER (=para que eu lesse)
PARA TU LERES

PARA ELE LER

PARA NÓS LERMOS

PARA VÓS LERDES

PARA ELES LEREM

Nesse caso são duas orações. “O professor trouxe o livro” é a oração principal. A segunda oração é reduzida de infinitivo.

Observe o exemplo a seguir:

“Houve uma ordem / PARA OS PRÓPRIOS FUNCIONÁRIOS CADASTRAREM OS CONTRIBUINTES.”

Esquema de fixação:
Locução verbal = verbo auxiliar + infinitivo impessoal
(=não se flexiona);
Oração principal + oração reduzida de infinitivo
(pessoal = concorda com o sujeito)

Dúvida do leitor:

“Os técnicos estão aqui PARA RESOLVER ou RESOLVEREM o problema?”

São duas orações. “Os técnicos estão aqui” é a oração principal e “para resolver(em) o problema” é reduzida de infinitivo. Aqui são duas orações, mas o sujeito é o mesmo (eles = os técnicos). Como o sujeito do infinitivo está oculto (eles), alguns autores consideram um caso facultativo, outros afirmam que é um caso de infinitivo não flexionado. Em geral, a preferência é pelo SINGULAR:

“Os técnicos estão aqui PARA RESOLVER o problema.”

Observe mais exemplos:

“Duas novas ruas foram abertas / para FALITAR o acesso.”
“Usineiros e representantes estarão em Brasília / para PRESSIONAR o governo federal.”
É interessante observar que, na 1ª pessoa do plural, todos preferem o infinitivo não flexionado: “Nós saímos / para ALMOÇAR”. Ninguém diria: “Nós saímos para almoçarmos.”

Observe, agora, os casos abaixo:

1) Se o sujeito estiver claramente expresso, a concordância é
obrigatória:
“Trouxeram os sanduíches / para NÓS ALMOÇARMOS no escritório.”

2) Quando o infinitivo desempenha a função de complemento,
usamos a forma não flexionada (=singular):
“Os paulistanos foram obrigados A PASSAR quatro horas no saguão do aeroporto.”
“A falta de informação leva outros meninos A FAZER a mesma coisa todos os dias.”
“A lei proíbe os brasileiros DE FUMAR na ponte aérea.”
“Os músicos foram impedidos DE PARTICIPAR de qualquer tipo de trabalho em discos.”

3) Quando o verbo for de ligação (=SER, ESTAR, FICAR,
TORNAR-SE…) ou estiver na voz passiva, a concordância é facultativa, mas a preferência é o PLURAL:

“Elas tiveram que suar muito PARA SE TORNAREM as campeãs.”
“Elas têm que malhar muito PARA FICAREM magrinhas.”
“O TSE liberou duas das quatro parcelas PARA SEREM DIVIDIDAS por 26 partidos.”
“O porta-voz francês informou que as medidas A SEREM TOMADAS contra o terror são iguais às da Inglaterra.”

4) O verbo no plural enfatiza o agente em vez do fato. Em caso de
ambiguidade, preferimos o plural para evitar a dúvida:
“Presidente liberou seus ministros PARA SUBIREM em palanque.” (=quem vai subir em palanque são os ministros, e não o presidente).