DICAS de português do Brasil

Trecho de diálogo de “A Maldição de Hamlet”.

(…) não somos diferentes. Somos humanos, apenas isso! Só isso deve nos interessar. É essa maldita sociedade que nos distingue um do outro, cria divergências e, assim, divide-nos! Haverá um dia em que as cercas da ignorância não mais nos separarão. Nesse dia eu não precisarei discutir a preferência sexual de ninguém, pois só haverá uma resposta: preferência sexual humana. A cor da pele será apenas um belo adereço no revestimento do corpo e minha cor será igual a sua: cor humana; ninguém precisará dizer qual é sua raça ou sua crença, pois só haverá uma resposta para cada pergunta: raça humana, crença humana. Assim, nesse dia, nenhum pensamento filosófico ou teológico que definam uma entidade sobrenatural fará sentido, pois, sendo honesto, ninguém terá coragem de definir um ser do bem ou do mal, e mesmo que alguém ousasse defini-lo não haveria ninguém interessado em ouvir tamanho disparate! Todos saberão que um ser sobrenatural definido e proferido por quem quer seja é um falso ser! Sabendo que o mal não existe, e sim a ignorância que leva à intolerância e todos os outros males, aprenderemos desde cedo a ter sede de saber e de aceitar as diferenças. Nesse dia teremos o reinado das virtudes cuja rainha será a honestidade e todos os humanos celebrarão o desprezo pela mediocridade!

Vanraz

O BELO

“O homem é o que há de mais belo para o homem” (CÍCERO. De Nat. D.,lib. I). E isto não é um sintoma de limitação, pois acha belos outros seres além de si; apraz-se também com a beleza das formas dos animais, com a beleza das formas das plantas, com a beleza da natureza em geral. Mas somente a forma absoluta, perfeita, pode admirar sem inveja as formas dos outros seres.

LÓGICA

“Desconsiderar o pensamento lógico quando se busca a verdade nas coisas é o mesmo que assinar seu próprio atestado de ignorância. No entanto, deixar de aplicar a lógica na prática da vida diária pode ser a atitude de um sábio” Vanraz

Uso do travessão

Uso do travessão

O travessão pode substituir vírgulas, parênteses, colchetes, e expressões intercaladas.

Onde é usado o travessão?

  • Para isolar palavras ou expressões no interior da fala:

«A crítica é um texto de natureza argumentativa, que tem por objetivo informar o leitor sobre um objeto cultural livro, filme, peça teatral etc. – e avaliar seus aspectos positivos e negativos.»

  • Para indicar mudança de interlocutor nos diálogos:

(..) – Não quero que lhe aconteça nada, nunca! – disse ela. – Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro – respondeu ele sorrindo. (fonte: Laços de Família. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.1983)

  • Para isolar a fala do personagem da fala do narrador:

(..) Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com seu marido diante do café derramado. – O que foi? – gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: – Não foi nada – disse –, sou um desajeitado. (..) (fonte: Laços de Família. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.1983)

  • Usa-se o travessão para marcar uma pausa forte:

(..) Dá o sopro, a aragem, – ou desgraça ou ânsia –, Com que a chama do esforço se remoça, E outra vez conquistemos a Distância – Do mar ou outra, mas que seja nossa! (fonte: Prece. Fernando Pessoa)

 

O travessão é um sinal de pontuação usado, maioritariamente, no início das falas no discurso direto. É também usado para substituir a vírgula ou os parênteses em orações intercaladas ou no destaque de alguma parte da frase.

– Nos discursos diretos, o travessão indica quando começa a fala de uma personagem, quando há mudança de interlocutores e quando há mudança para o narrador através de um verbo de elocução, ou seja, através de verbos que anunciam o discurso, como: dizer, perguntar, responder, comentar, entre outros.

Exemplos:

  • – Que horas são, por favor? – perguntou o desconhecido.
  • – São onze horas. – respondeu a senhora.
  • – Obrigado!Exemplos:
  • – Nas orações intercaladas, o travessão pode substituir a vírgula ou os parênteses, separando-as da oração principal.
  • Há quem o faça – mas não o aconselha – por isso não o farei.
  • Eles dizem – embora ninguém acredite – que são de confiança.Exemplos:
  • – No destaque de alguma parte da frase, o travessão realça uma informação sobre um elemento da frase, principalmente quando aparece no fim da mesma. O travessão também serve para destacar o aposto.
  • Ele está fazendo o possível e o impossível para concretizar seu objetivo – ficar com minha vaga dentro da empresa.
  • Aquelas duas meninas – a Camila e a Tatiana – ficaram ajudando no fim da festa.
  • Atenção! Não confundir o travessão com o hífen. O travessão é um sinal de pontuação e é mais longo do que o hífen, que é um sinal gráfico complementar.

A PALAVRA “QUE”

A palavra “que” pode ser um pronome (interrogativo ou relativo), um advérbio, uma preposição, uma conjunção (coordenativa ou subordinativa) ou uma partícula de realce ou expletiva.

A sua utilização precedida ou seguida de vírgula depende não só da sua natureza morfológica como da construção frásica em causa, pelo que, para a esclarecer, o melhor talvez seja enviar-nos uma frase a respeito da qual tenha dúvidas.

Não sendo exaustiva, refiro, no entanto, que:

  1. Como pronome relativo, o que é precedido de vírgula, quando inicia orações explicativas.

Ex.: Ele, que tem a mania que percebe tudo, não estava, afinal, a ver bem a situação.

  1. Como conjunção explicativa ou causal, é sempre precedido de vírgula.

Ex.: Não te distraias, que podes ter um acidente.

  1. Como conjunção consecutiva, também é precedido de vírgula. Ex.: Ele falou tanto, tanto, que ficámos cansados de o ouvir. 4. Na generalidade das outras situações, não é precedido de vírgula. Chamo especialmente a atenção para o que como conjunção subordinativa integrante, que nunca deve ser precedido de vírgula, porque a oração que inicia é parte integrante da anterior.

Ex.: Queria que esclarecesses tudo.

  1. Naturalmente que, na situação anterior, o que pode ter uma vírgula a precedê-lo, se ela estiver a assinalar uma expressão circunstancial de qualquer natureza, uma oração, etc.

Ex.: Quero, diga ele o que diga, que esclareças tudo. 6. Em qualquer das situações anteriores, pode ser colocada uma vírgula depois do que, quando se lhe segue um sintagma explicativo, circunstancial, uma oração, etc. Ex.: Penso que, quaisquer que sejam as circunstâncias, o deves ouvir com atenção.

  1. Repare, no entanto, que, na situação anterior, como essa vírgula indica a introdução de algo adjacente, deverá ser utilizada uma outra vírgula a indicar o fim do sintagma introduzido e a continuação da oração iniciada pelo que.

A vírgula antes de cujo

 

Gostaria que me esclarecessem se a frase «Há automóveis na rua, cujos proprietários estão ausentes» está ou não erradamente pontuada, uma vez que, na escrita, as orações relativas restritivas não se separam por vírgula do substantivo (ou pronome) antecedente.

Em princípio, a vírgula está incorreta, porque a oração introduzida por «cujos» é uma relativa restritiva. Mas o emprego de vírgula com cujo não é dos mais claros. Expliquemos porquê.

Rodrigo de Sá Nogueira, em Guia Alfabética de Pontuação (Lisboa, Clássica Editora, 1989, pág. 31/31), define um preceito sobre o emprego de vírgula com cujo, mas admite exceções:

«Como pronome relativo, equivalente a “do que”, “do qual”, a forma “cujo” (bem como as suas flexões “cuja”, “cujos”, “cujas”, equivalentes respectivamente a “da qual”, “dos quais”, “das quais”) inicia orações de valor adjetivo. Por isso, visto que os adjetivos não devem ser separados por vírgulas dos substantivos que qualificam ou determinam, em princípio a forma “cujo” (bem como as respectivas flexões), pronome relativo, não deve ser precedida de vírgula, embora ela inicie orações. Não obstante isso, quando uma oração relativa de “cujo” constitui uma expressão intercalada, a forma “cujo” é precedida de vírgula. Ex.: “Vi o homem cujo filho é bom”; “o homem, cujo filho é bom, partiu ontem para o Porto”.»

Diga-se que o caso de oração intercalada em que a vírgula é aceita por Sá Nogueira é, no fundo, o de uma oração relativa apositiva e não o de uma relativa restritiva. Esta diferença é mais bem observada quando ocorre o pronome que:

(1) «Vi o homem que tem dois filhos geniais a dizer disparates.»/«Vi o homem cujos filhos são geniais a dizer disparates.»

(2) «Vi o homem, que tem dois filhos geniais, a dizer disparates.»/«Vi o homem, cujos filhos são geniais, a dizer disparates.»

Em (1), acontece que as orações «que tem um bom filho» e «cujo filho é bom» restringem a significação de «o homem», tornando-se como que características essenciais da pessoa que for referente desta expressão. Em (2), as mesmas orações relativas dão informação acessória, porque «o homem» equivale a uma entidade já bem caracterizada pelo contexto (situacional ou textual); como tais orações funcionam como um aposto, diz-se que são apositivas.

Em relação à frase do consulente, a oração relativa «cujos proprietários estão ausentes» define um dos tipos de automóvel existentes na rua. Sendo assim, a vírgula não é de aconselhar: «Há automóveis na rua cujos proprietários estão ausentes.» Contudo, esta frase acaba por gerar ambiguidade, porque «cujos proprietários estão ausentes» pode referir-se a «rua». Para evitar esta interpretação, é melhor alterar a ordem do constituinte «na rua»: «Na rua, há automóveis cujos proprietários estão ausentes.»

Fonte: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-virgula-antes-de-cujo/23873

A sintaxe do verbo sonhar

 

«Sonhar a subir»/«sonhar em subir»/«sonhar subir»…

«Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar a subir ao reino dos céus», ou «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar em subir ao reino dos céus», ou «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar subir ao reino dos céus»?

No Dicionário Houaiss encontra-se a frase exemplificativa «sonha em ser advogado». Resta saber se esta construção se usa em português de Portugal.

Como na frase em questão o verbo sonhar é seguido de outro verbo no infinitivo (sonhar + infinitivo), há duas formas possíveis para o mesmo enunciado:

«Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar subir ao reino dos céus» e «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar em subir ao reino dos céus.»

A sintaxe do verbo sonhar, significando «desejar» e/ou «entregar-se a fantasias», prevê três construções:

— sem preposição (+ sintagma nominal ou verbo no infinitivo):

«O seu primo sofre muito porque sonha o impossível.»

«Há mulheres que sonham encontrar o príncipe encantado.»

«O meu primo sonha ter poderes mágicos.»

«Sonho viajar por todo o mundo.»

— com a preposição em (somente seguida de verbo no infinitivo = + frase não finita):

«Sonho em viajar por todo o mundo.»

«O meu primo sonha em ter poderes mágicos.»

— com a preposição com (somente com sintagma nominal):

«O seu primo sofre muito porque sonha com o impossível.»

«Há muito que aquele físico sonha com o Prémio Nobel.»

«A menina ainda sonha com fadas e unicórnios que falam com ela.»

Nota: Estas formas/regências são comuns à variante europeia do português e à do Brasil. Assinala-se, ainda, uma resposta em que se coloca a hipótese da ocorrência de «sonhar com» + infinitivo, por analogia com os casos de «sonhar com» + sintagma nominal.

Fonte: Dicionário Gramatical dos Verbos Portugueses, da Texto Editores, 2007.

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-sintaxe-do-verbo-sonhar/31730