Em passagem pelo interior de Pernambuco me deparei com um amigo que falou a seguinte expressão:

– O Bolsa-Família cria um bando de vagabundos!

Perguntei atônito:

– Quais premissas foram utilizadas pra se chegar a uma conclusão tão drástica? Por favor, explique-me esse silogismo devastador.

– O efeito desse Bolsa-Esmola está por toda parte. Vou citar um que me deixou enfurecido: meu tio corre o risco de perder sua safra de feijão (pensei: no município de Senzalolândia) porque os trabalhadores (ele quis dizer escravos) da Região não querem trabalhar por que ganham essa bolsa aí.

– Você quer dizer que os trabalhadores preferem o Bolsa-Família a colher feijão?

– Isso mesmo.

– Mas, o Bolsa-Família é tão pouquinho! O candidato derrotado Serra, até disse que iria aumentar e ainda criar o décimo terceiro da Bolsa!

– Pois é, ninguém quer colher o feijão.

Numa fração de milésimos de segundo eu lancei aqueles dados nos gigabytes pensantes do meu cérebro e teclei enter. Meu computador orgânico travou com uma mensagem: esse silogismo é absurdo ou estão faltando dados para uma melhor conclusão. Caso os dados estejam completos as premissas e a conclusão não passam de retórica enganosa no mais torpe estilo sofista.

Foi aí que tive a idéia de fazer a última pergunta que resolveria todo o esquema argumentativo:

– Quanto pagam por um dia de colheita de feijão?

Uma pessoa que ouvia a conversa interveio dizendo:

– Pagam 4(quatro) reais a diária.

Lancei imediatamente essa última informação nas correntes de dados dos meus pensamentos e numa velocidade de milhões de terabytes passei da tristeza e indignação para a alegria e entusiasmo e falei:

– Digam ao meu ilustríssimo presidente Lula que o Bolsa-Família também traz dignidade e é capaz de suavizar um pouco os elos das correntes que escravizam os pobres deste país.

VANRAZ